05/01/26

Compatíveis Incompatibilidades - Introdução



João nasceu numa pequena vila, situada na margem de um rio que corria para o mar. Certos dias, ao final da tarde, descia junto à margem até alcançar a foz. Ali chegado, caminhava pelo areal até chegar a um rochedo para onde subia e se sentava voltado para o mar, deixando que o seu olhar se estendesse languidamente sobre aquele grande oceano, até ao horizonte; aquela linha distante e enigmática atraía a sua atenção e comandava a sua imaginação. Ficava ali sentado durante várias horas. Por vezes, reclinava-se e adormecia. E quando dormia, embalado pelo som suave das ondas que se espraiavam na areia aos seus pés, sonhava; sonhava com lugares e gentes que não sabia sequer se existiam. Mas sonhava à mesma e prometia a si mesmo que um dia partiria por aquele mar adentro e iria conhecer tudo o que existia no mundo.

Num desses finais de tarde viu aparecer, caminhando pelo areal, os pés descalços pisando a linha d’agua, a figura esguia de uma rapariga. Cabelos castanhos soltos ao vento e o olhar, como o seu, perdido no horizonte. Sentiu- se invadido por uma forte vontade de saltar do rochedo e ir ao seu encontro. Esperou que ela olhasse na sua direção, mas o horizonte exercia nela uma forte atração e a sua atenção não se desviou.

Seguiu-a com o olhar.

Quando ela chegou ao final do areal, percebeu que parou por alguns minutos, depois, viu que retornava. Ao chegar mais perto, pareceu-lhe ainda mais bonita, o seu rosto mais luminoso, os seus cabelos refletiam com intensidade os raios de sol. Então, a vontade de se lhe dirigir aumentou. Quando ela passou à sua frente, João sentiu um forte impulso que o fez saltar do rochedo e caminhar na sua direção. Ao aproximar-se dela, disse de forma quase autómata:

– Olá, sou o João. E tu, como te chamas?

– Maria. – Respondeu-lhe sem parar de caminhar, e sem desviar o olhar daquele mar imenso.

Depois de uns momentos de hesitação, João decidiu caminhar ao seu lado. Perguntou-lhe se era dali. Respondeu-lhe que não, que estava a passar férias em casa da avó materna, numa aldeia ali perto. Após alguns momentos de caminhada, João foi contando a Maria como gostava daquela praia, de olhar o mar e de como o horizonte o fascinava e atraía. Falou-lhe da sua vontade imensa de conhecer o resto do mundo. Maria, aos poucos foi-se interessando por tudo o que João lhe falava e passou também a confidenciar-lhe os seus hábitos e sobretudo o seu enorme desejo de, também ela, desejar atravessar o mar e conhecer o mundo. Riram-se da enorme coincidência de gostos e, pouco depois, sem quase darem por isso, já caminhavam de mão dada enquanto contavam acontecimentos hilariantes das suas vidas. Chegados a umas escadinhas em madeira, perto do extremo da praia, onde o rio encontrava o mar, João perguntou se podia acompanhá-la a casa. Respondeu que não era necessário, que ainda tinha de passar pela mercearia, na vila, para comprar umas coisas que a avó lhe tinha pedido. Depois, sem que João esperasse, perguntou-lhe:

– Amanhã podemos voltar a encontrar-nos aqui, na praia? Gostei tanto de te conhecer e conversar contigo.

João, radiante, respondeu imediatamente que sim.

Combinaram a que horas se encontrariam e, para espanto do João, Maria despediu-se dele com um beijo na face, subindo imediatamente a escada, deixando-o meio aturdido, mas imensamente feliz. Aqueles encontros repetiram-se durante quinze dias, durante os quais, a amizade cresceu, acabando por se transformar em algo mais profundo, um sentimento mais forte que ia além da amizade e fazia crescer neles o desejo de se conhecerem mais intimamente. No penúltimo dia das férias de Maria, o tempo mudou, ameaçando chuva. Porém, não deixaram de se encontrar, como de costume. A meio da caminhada pela praia, começou a cair uma chuva miudinha, que em segundos se transformou num verdadeiro dilúvio. Sem pensar, ambos correram de mão dada para o mar, entraram dentro de água, mergulharam e quando voltaram à superfície os seus rostos encontraram-se e os seus lábios tocaram-se, primeiro, como que a provarem-se, mas logo em seguida, como se ambos sofressem de uma fome que era urgente mitigar. Amaram-se dentro daquela água tépida que parecia envolvê-los numa carícia instigadora. O vai e vem das ondas parecia dizer-lhes, amem-se… amem-se… amem-se. No dia seguinte, encontraram-se novamente. Desta vez, somente para se despedirem e prometer voltar a encontrar-se no próximo ano. 

Depois de quatro décadas juntos, João e Maria, ambos com sessenta anos, enfrentam uma encruzilhada silenciosa. O que começou com promessas de amor eterno e aventuras partilhadas agora parece um caminho desgastado pelo tempo e pela rotina. Os sonhos de juventude, as viagens, os filhos que cresceram e se foram – tudo isso deu lugar a um conforto mudo, um ao lado do outro, mas cada vez mais distantes. A desilusão instalou-se sorrateiramente, fruto de expectativas não ditas, de projetos adiados, de carências não preenchidas. Já não há o riso fácil, as conversas profundas, o toque espontâneo. O amor, agora, parece uma lembrança adormecida. Eles decidem separar-se, não com raiva ou ressentimento, mas com a triste constatação de que a vida de casados não foi o que imaginaram. Com respeito mútuo, escolhem seguir em frente, cada um em busca de um novo capítulo, de um reencontro consigo mesmos, com a esperança de reacender algo perdido pelo caminho.


                                                                               Bartolomeu Frederico


08/12/25

Caminhos e Encruzilhadas - Capítulo 11 - Final

Por prilfish from Vienna, Austria - Mafra, CC BY 2.0, h
ttps://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=71716377

        Adriano foi o primeiro a chegar ao Convento de Mafra. Chegou ao fim da tarde, cansado. Naquele enorme recinto da entrada, com turistas a vaguear e a tirar fotografias, ergueu, num impulso, as mãos ao céu e agradeceu a Deus por o ter guiado até ali, são e salvo.

E deu-se conta do insólito: já não se lembrava da última vez que tinha rezado. Nem durante a doença, nem, depois, na morte de Paula, o tinha feito, tão revoltado estava com um Deus que interrompia a vida de uma mulher ainda nova, uma mulher dedicada à família, que nunca tinha feito mal a ninguém. E agora, sem quase dar conta, erguera as mãos, numa oração.

Teria aquilo algum significado?

De ossos e músculos moídos, sentou-se num dos degraus da entrada e tirou a garrafa de água da mochila. Depois de alguns goles, perguntou-se se teria sido a Paula, lá no céu, a erguer-lhe as mãos. Bem possível…

Vieram-lhe as lágrimas aos olhos. Mas, pela primeira vez, em muitos meses, não se sentiu sozinho. Deixou-se embrenhar naquela sensação, de haver alguém que olhava por ele e lhe desejava felicidade.

Passado uns minutos, respirou fundo e olhou em volta. Viu algumas pessoas de mochila e havia mesmo uma mulher sozinha. Mas não era a Estrela, aquela devia andar pelos trinta anos.

Esperou mais um pouco, até a fome apertar. Jantou num restaurante ali perto e regressou à entrada do Convento.

Nada.

Resistiu à tentação de lhe ligar. Tinham combinado só o fazer depois de, pelo menos, um dia inteiro à espera, para não estragar a expectativa, a surpresa.

Quando ficou tarde, Adriano só queria deitar-se e dormir. Dirigiu-se ao hotel que lhe tinham recomendado, tomou banho e adormeceu mal a cabeça lhe caiu na almofada.

Acordou revigorado. Tomou o pequeno-almoço e encaminhou-se para o local do encontro. Deu algumas voltas pelas imediações, observando as pessoas que iam chegando de mochila, espantado com a quantidade de caminhantes. A maior parte vinha em grupos. Também havia homens sozinhos, mas só viu duas mulheres nessa situação. Uma delas pareceu-lhe a Estrela. Porém, ao passar perto dela, duvidou. E ela não mostrou qualquer reação.

Depois do almoço, regressou. À medida que a tarde avançava e se aproximava a hora de jantar, começou a ficar preocupado. Deveria ligar-lhe? Talvez quando regressasse ao hotel…

Começou a escurecer. Adriano perguntava-se se devia jantar no mesmo restaurante, ou experimentar outro, quando se apercebeu de uma mulher sozinha, com mochila. Parecia muito cansada. E, de repente, a mulher ajoelhou-se, erguendo as mãos ao céu.

O mesmo gesto…

Num impulso, foi direito a ela.

E ela escancarou os olhos, exclamou:

– Adriano!

Ajudou-a a levantar-se, mas sentiu uma ponta de desilusão. O olhar não era o mesmo. Ou seria do cansaço? Estrela parecia esgotada. O cabelo, apanhado num rabo de cavalo, apresentava algumas brancas.

De repente, Adriano envergonhou-se da sua desilusão. De que estava ele à espera? Ele, que já tinha dormido, descansado, comido bem… enquanto ela acabara de chegar de uma jornada cansativa. Estrela dizia-lhe agora ter andado quase 60 km, naquele dia.

Estavam ali os dois, tinham chegado ao seu destino. E tinham-se um ao outro. Era uma ocasião para festejar, não para remoer desilusões.

O jantar foi divertido, os dois conversando sobre as peripécias do caminho. Depois, Estrela estava tão cansada, que quis ir logo dormir. No hotel, pediu um quarto para ela.

Despediram-se.

Adriano não adormeceu tão rapidamente como na noite anterior. Recordou o serão, passo a passo. Os dois continuavam a entender-se bem, gostavam da companhia um do outro. Para quem se sentia sozinho, há já quase um ano, tinham sido ótimos momentos.

 

Na manhã seguinte, Estrela surgiu à mesa do pequeno-almoço mais luminosa e sorridente. Disse-lhe que pretendia passar ali em Mafra os seus restantes quatro dias de férias. E logo a seguir:

– Sabes o que me apetece fazer hoje?

– Não. Diz!

– Vamos visitar o Convento? Nunca mais lá estive, desde aquele dia, há mais de quarenta anos.

– Curioso. Eu também não.

Ela piscou-lhe o olho:

– Desta vez, vamos ficar mais atentos às palavras do guia.

Riram-se os dois.

 

Começaram a visita, num grupo, atentos às explicações do funcionário. Nisto, porém, Estrela viu à sua frente um quadro que lhe trouxe uma recordação. Cochichou ao Adriano:

– Não era este que era parecido com o padre da tua freguesia?

Desataram os dois aos risos abafados. Quando conseguiu falar, ele admirou-se:

– Ainda te lembras?

– Claro.

Olharam-se divertidos, mais alguns risos abafados. Alguns turistas mostraram-se incomodados.

Estrela sugeriu.

– Portemo-nos bem! Já não temos onze anos.

À medida que a visita avançava, porém, iam-se recordando das histórias que tinham inventado para as figuras de certos quadros, como tinham troçado de certas estátuas e até de alguns móveis.

Viam-se aflitos para controlar o riso. Pareciam dois adolescentes patetas, sem sensibilidade para obras de arte. Depois de mais alguns olhares indignados, afastaram-se um pouco do grupo, embora ainda o seguindo.

Sentiam-se a viajar no tempo. Lá estava a cumplicidade que os tinha ligado, aos onze anos. Regressara o olhar recordado pelo Adriano, assim como o sorriso guardado na memória de Estrela.

Ao saírem do edifício, sentiam-se pessoas diferentes das que haviam lá entrado. Eram dois adultos que haviam recuperado o encanto infantil um pelo outro. Beijaram-se espontaneamente. Contaram sobre as suas vidas. Riram e choraram juntos.

Passaram a ocupar apenas um quarto, no hotel.

 

No dia seguinte, durante um passeio num parque, Estrela perguntou:

– Achas que vale a pena tentarmos uma relação?

Depois de uma hesitação, Adriano respondeu:

– Tenho um certo receio de que a distância acabe por a minar. Penso estar fora de questão uma mudança de casa, seja para que lado for. Nenhum de nós se pode dar ao luxo de deixar o emprego.

Estrela sugeriu que se sentassem num banco e disse, depois:

– Sabes, esta caminhada modificou mesmo a minha vida. Pelo menos, a maneira como quero viver, daqui para a frente. Sempre pensei mais nos outros do que em mim, principalmente, depois de formar família. Mas os filhos estão adultos. É certo que ainda dependem bastante de mim, apesar de receberem dinheiro do pai até acabarem os seus cursos. E eu, por vezes, queixo-me de que me visitam poucas vezes, acuso-os de me terem esquecido... Mas, sabes, no fundo, é natural, não adianta fazer um drama à volta disso. Por mais que me custe, tenho de aprender a desprender. E a pensar em mim. – Encarou-o, de olhos cintilantes:

– A pensar, por exemplo, que nunca na vida fui tão livre como sou agora.

– E não é que tens razão? É assim mesmo que devemos pensar.

– Pela primeira vez, não tenho ninguém a quem dar satisfações. – Sorriu: – Acho que ia gostar de não passar o fim-de-semana sempre em casa. Porque não uma viagem ao Algarve, uma vez por mês? E tu também podias fazer o mesmo, indo a Viana. Ou não?

– Claro. E talvez pudéssemos ir, de vez em quando, a Lisboa, onde mora o meu filho.

Sorriram-se. Beijaram-se. Depois Adriano disse, pensativo:

– E talvez pudéssemos passar fins-de-semana ainda noutro sítio…

– Onde?

– Vamos almoçar primeiro. Depois, quero mostrar-te uma coisa.

 

A seguir ao almoço, foram para o hotel. Chegados ao quarto, Adriano foi buscar a caixa de Afonso. Contou a história dele e concluiu:

– Ele disse-me que eu iria encontrar a hora certa para abrir a caixa. E tinha razão.

Lá dentro, havia algumas fotografias da filha, por vezes, sozinha, outras, com ele próprio. Também havia um documento antigo. Adriano analisou-o: era a certidão de nascimento de Afonso, com o nome dos pais e dos avós.

Havia também um envelope. Adriano abriu-o e leu alto o bilhete que lá se encontrava:

 

Caro amigo:

Pode achar-me maluco por lhe ter dado estas fotografias. Para lhe dizer a verdade, nem eu sei bem porque o fiz. Apesar de o nosso primeiro contacto não ter sido amigável, acabámos a conversar amenamente e acabei por partilhar consigo coisas da minha vida que, normalmente, não revelo a ninguém.

Sabe, talvez me tenha tornado “bicho-do-mato”, depois do que me aconteceu. E talvez tenha sido isso que levou a minha filha para longe de mim, desejosa de uma vida mais social. Talvez eu a tenha isolado demais, nesse meu medo de que ela também me deixasse. Enquanto foi criança, tudo correu bem.

Mas eu devia calcular que, chegando a uma certa idade, ela desejasse outros voos.

Acabou por acontecer o que eu mais temia. Porém, depois da sua visita, vá-se lá saber porquê, recuperei a esperança de que, um dia, ela me venha visitar e converse em bom termo comigo.

Desejo-lhe uma boa caminhada e que chegue ao seu destino de boa saúde. Também lhe desejo que reencontre essa sua amiga de quem me falou e tudo corra bem.

A sua amiga Estrela é aliás o motivo por que pus a cópia da minha certidão de nascimento na caixa. Como lhe disse, nasci em Viana, os meus pais eram de lá. Será que a Estrela me saberá contar coisas da minha família?

Resta-me dizer-lhe que em minha casa será sempre bem-vindo, sozinho ou acompanhado.

Um abraço

Afonso

 

Depois da leitura, houve um momento de silêncio, quebrado enfim por Estrela:

– Calha bem.

– O quê?

– Acho que vou gostar do lugar onde mora o Afonso. Durante a caminhada, senti esse desejo de arranjar momentos para fugir à minha vida citadina. E quanto à família dele… – pegou na antiga certidão e acrescentou: – Conheço gente com estes apelidos, em Viana. Não sei se estão relacionados com ele, mas posso perguntar a amigos e conhecidos se os nomes próprios lhes dizem alguma coisa.

– Darias uma grande alegria ao Afonso.

– Sim. Sabes, acho que vou gostar muito desta nossa nova vida.

– A vida começa aos 53 – retorquiu Adriano, emocionado.

– A avaliar por Afonso, eu diria que a vida começa sempre que quisermos.

 

                                                                                         Cristina Torrão

12/01/24

Caminhos e Encruzilhadas - Capítulo 10



Estrela

As cores do sol dissolviam-se sobre o mar deixando as ondas alaranjadas. Caminhei por mais de 2 horas até conseguir sentir as areias da praia de Figueira da Foz coçarem a pele dos meus pés. Contemplo o horizonte marítimo enquanto o vento fresco atravessa meu corpo, carregando com ele uma estranha sensação de nostalgia, que já esperava fosse me atingir. Por um instante, sentia que não era a Estrela de agora, mas a de há anos atrás. Fecho os olhos e deixo a aragem percorrer minha pele e bagunçar meus cabelos negros. Quantos anos faz afinal? Em algum lugar do passado estive aqui com Marcelino, em uma época em que a felicidade parecia ao alcance de nossas mãos. Eu era apenas uma jovem que não entendia quase nada da vida. Diferente de agora, que sou uma mulher adulta e pareço entender dela ainda menos. Como disse antes, há muitos jeitos de amar e de uma certa maneira, eu e Marcelino nos amamos intensamente. Porém, às vezes a estrada fica difícil e o caminho estreito e no final nem sabemos quem está deixando quem ir embora.

Agora aqui de novo, olho para tudo isso. A areia debaixo dos dedos, as ondas do oceano lambendo a praia, os pássaros marinhos mergulhando atrás dos peixes, o vento cortando o rosto, o sol clareando tudo. Tudo parece tão igual. Tão simetricamente igual. Porém, tudo me soa tão estranho agora, como se eu não pertencesse a nada disso. Será que Marcelino sentiria a mesma sensação?

Caminho pela areia rememorando quando estivemos aqui a primeira vez. Lembro de quando já entardecia, Marcelino estava no mar, então começou a chover. Gotas grossas caiam sobre as ondas. Marcelino veio correndo até a areia onde eu estava em pé. Eu ia dizer para irmos embora por causa da chuva, quando ele me surpreendeu com um beijo. Foi um beijo forte, espontâneo, e pude sentir a areia de seus lábios salgando minha boca enquanto a chuva encharcava nossos corpos. Fomos correndo de mãos dadas até a casa em que estávamos. Tomamos banho e quando anoiteceu fizemos amor na varanda, ouvindo Patti Smith e o assoalho de madeira ranger debaixo de nós.

Sorrio lembrando disso tudo. Porém, preciso voltar para o presente, único lugar que me pertence. Respiro fundo e me recordo que estou indo ver Adriano. Então uma ponta de insegurança machuca meu peito e sinto borboletas no estômago. Não sou mais aquela jovem. Será que ele vai gostar do que o tempo me tornou? E será que minha alma cansada ainda pode sentir a paixão ardendo por dentro?

Então, como por um sinal divino, olho para o lado e um rapaz moreno de ombros largos e camisa florida me encara fixamente. Meu olhar esbarra nele por um instante e ele deixa escapar um leve sorriso malicioso para mim. Não sei quantos anos ele tem, mas deve ser metade dos meus. Devolvo a gentileza do sorriso com outro. Me viro e vou caminhando lentamente para longe da praia. Preciso seguir meu caminho e ele leva a Adriano e tudo que pode acontecer depois de todos esses anos.

A essa altura, antes de continuar, cabe agora indagar a pergunta que me trouxe aqui. Estou mesmo livre do passado e dos sentimentos que um dia tive por Marcelino, a ponto de seguir em frente? Minha resposta diante disso só pode ser: com certeza!

Meu coração estranhamente palpita e meu corpo parece entrar em ebulição interna. Percebo que minhas memórias daqui são recortes bonitos de um tempo bom. Porém, meu desejo e meus anseios não estão no passado e sim no porvir. Não iniciei essa longa jornada e cheguei até aqui para me reencontrar com o passado e sim para me encontrar com o futuro e de braços abertos lhe abraçar e acolher.

Com isso em mente, continuo rumo a meu encontro com Adriano, pois a nós dois pertence esse futuro. Futuro incerto, é verdade, mas quem tem certeza de alguma coisa nessa vida?

 

                                                         Grégor Carlos Marcondes

01/12/23

Caminhos e Encruzilhadas - Capítulo 9

 


Adriano

Abraçou as mãos ao ferrolho e rodou a medo. Não tinha idade para aquelas graças e se fosse apanhado era um embaraço.

O portão chiou os gonzos acusatórios.

Aguardou vigiando…

A noite estava de limpeza absoluta. Aquele manto negro pintalgado merecia um olhar atento.

Lançou com cautelas para que não fosse ouvido ao longe.

- Está aí alguém?...

«Ninguém…»

Entrou para o céu aberto como quem invade um palácio de rei ausente.

«Tudo meu…»

Chegou-se à muralha e deixou-se circunvagar numa volta inteira contemplando o horizonte franco e sem restrições, muito lentamente…

«Imensidão infinita…»

Ergueu-se uma brisa cálida de Leste oferecendo-lhe um arrepio de prazer. Um abandono…

«Olha Paula… na ponta do meu indicador esquerdo, a Lisboa buliçosa, cidade sem sono, no direito a Troia magnífica, costa sem fim, areal dourado, uma curva tentadora até lá ao fundo como um abraço… vês Paula? E olha ali, ali mesmo, Alcácer, daqui tão perto…, uma lanterna do Sado, vês ali iluminando, quase uma estrela? Tudo ao alcance dos meus braços abertos, menos tu. Que solidão contemplar a beleza sem partilha, sem ti principalmente, mas sem alguém. Olha Paula, olha-me bem este céu estrelado vês? Vê comigo, deita-te comigo a meditar o céu. Que grandeza sem fim… olha! Riscou, viste? Uma estrela cadente: pede um desejo Paula, pede. O meu está aqui contigo, em mim, imenso. Ouves-me daí, Paula?»

Um restolho disparou em cima da muralha mais à frente arrancando-o de si. Que seria na noite calma? Semicerrou os olhos e: ali mesmo, esbracejando, uma cegonha acomodava-se. Martelou duas vezes e acalmou. Voltou o silêncio e a inércia da noite imaculada.

Esfriava agora um pouco. Abraçou-se energicamente batendo com as palmas das mãos nas costas tensas.

«Abraça-te rapaz, na falta de companhia, abraça-te a ti mesmo. O momento merece, Adriano.»

O cansaço dos últimos dias ia-se manifestando, por vezes com frio, outras numa melancolia paralisante, uma falta imensa de companhia, sim, era companhia que faltava. Detestava a solidão do caminho, falava sozinho, parava em solilóquios descritivos; raramente se cruzava com alguém, mas quando acontecia, falava da sua viagem sem parar, do que o trazia ali, qual o destino. E por aí afora. E as pessoas que sim, que sim, julgando-o um pouco louco, se precisava de alguma coisa, desejando bom caminho e felicidades futuras.

«Diário, querido diário, que procuro afinal quarenta e dois anos depois? Uma tábua de salvação, ou uma desilusão?»

Guardou o caderno na mochila e aninhou-se no canto da muralha onde a encostara. Esgravatou umas amêndoas no fundo do saco para entretém do estômago. Não tinha sossego. Com o telefone tentou umas fotos panorâmicas do céu, um filme rodopiado dos 360º que lhe davam o horizonte. Não tinha sono. Que inquietação.

«Talvez… seria ousadia?»

 

- Parente?… boas noites…

- Hep! É você, Adriano?... Atão a estas desoras não está a descansar, homem?

- Eu mesmo… amigo Afonso… estou com uma espertina malvada…

- Ê môce marafado… não aguenta com a espera, agora que está mais perto?

- Talvez…. talvez... estava aqui tão sozinho, sem ninguém. Tinha de falar com alguém…

- Fez bem, homem… fez bem… tenho pensado muito em si, sabe? Caminho fora, cabeça entre as orelhas, destino marcado, mas incerto…

- É isso mesmo, amigo Afonso, é isso mesmo.

- De manêras que, aqui sentado a olhar o magano do gato, alembrê-me, alembrê-me sim senhor, aqui dum filme que vi na televisão há muito, faço-me compreender?...

- Sim, amigo Afonso, diga

- E era uma história assim parecida com a sua, não quer lá ver?… Também se escreviam, ele era fotógrafo e ela dona de casa; não era nenhuma gaitona, mas também não era monga… nã sei se estáver; não era não senhor… marido porreirinho, filhos parece que dois… lembro-me de umas pontes com uns telhêros… assim, umas coberturas… faço-me compreender?...

- Sim, sim…

- Esta cabeça… ela não tinha o que queria e a ele faltava-lhe tudo - assim é que é - e depois, e depois nunca tiveram coragem para se reencontrarem, juntarem-se, não quer lá ver?... Os filhos, o compromisso, a incerteza…. Olhe! Uma vida adiada. Quem andou, não tem para andar, e quem não andou, andasse. Já disse, prontes! Vá! Tenha a coragem de pegar numa mulher daquela idade. Guardado estava o belisco, homem! Desculpe lá a apertelência. (e riu-se) Patochadas. Vá, mê amigo veja se descansa que… Mas então que é isto, ainda não me disse onde estava?…

- Em Palmela, caro amigo; no castelo. Joguei as mãos ao ferrolho e agora é tudo meu.

- Estou? Amigo Afonso? Está a ouvir-me? Estou?...

- Que diacho… estou?

- Estou aqui, Adriano, estou aqui…

- Se disse alguma coisa que não devia, desculpe-me…, mas… o que foi?...

- Disse Palmela, Adriano… disse Palmela… agora vá dormir. Deixe-me recuperar e amanhã falamos. Eu serei o despertador da sua alvorada… vá, até amanhã… fique bem…

 

A noite foi de atalaia sem nada que vigiar, a não ser a vida alheia vista em luzes tremeluzentes à distância. O Mundo bulia, apesar da hora. Por vezes cabeceava, mas logo a mola do reflexo lhe levantava o queixo num espasmo. Estava exausto. Só um banho morno e uma cama firme lhe restituiria alguma paz e força para o que faltava.

O céu estrelado foi-se desvanecendo com a entrada da aurora, mais um dia a suceder à noite, a luz vencendo as trevas mais uma vez.

Estremeceu.

O telefone revelou-se numa estridência alarmando o ermo. Que inconveniência…

- Estou?!

- Adriano?...

- Oh!…, desculpe, amigo Afonso; estou para aqui meio estremunhado e o toque do telefone pareceu-me o sino da igreja. Dormiu bem?...

- E quem é que pega no sono com um inquietamento destes, homem?...

- Eu também passei o resto da noite a pesar figos, dormir, nada…

- Pois então vamos lá à razão do incómodo logo pela madrugada…

- Não incomoda nada, amigo!...

- De Palmela… falava meceia ontem… de Palmela…

- Já lhe contei que espero há muito o regresso da minha filha, mas não lhe contei nada da mãe…

- Pois, de facto não…

- Pois a minha Ana Rosa, minha?, esta mania de chamarmos nossos aos outros…, a mãe da Ana Luísa deixou-me com ela nos braços, pequenina, quando fugiu com uma trupe de ciganos de Palmela que veio cá à aldeia fazer um espectáculo. Saltimbancos, está bom de ver…. Sim, senhor. Mesmo assim. Foi ver a festa, e foi com a festa; sem dizer água vai, nem água vem. Eu aflito, com a criança nos braços, terá acontecido alguma coisa?, pergunta a este, pergunta àquela, todos comprometidos, sem que dizer, e como dizer? Só na GNR é que o cabo me informou, assim meio a mangar… «então meceia não sabia? Com o belisco que ela é o que queria?...» Aquilo ofendeu-me tanto tanto, que foi preciso agarrarem-me para que não me desgraçasse ainda mais.

- E nunca mais soube nada dela?...

-  Nunca mais soube nada dela… Aqui no lugar sabiam... há sempre alguém que passeia a curiosidade, mas todos me respeitaram e mantiveram na ignorância. As mulheres de cá ajudaram-me no início, eu sabia lá tratar duma criança, homem! Depois, uma vizinha comprometeu-se a tomar conta dela quando eu ia trabalhar de jorna, e os anos foram passando…

- Está-me ouvindo, Adriano?...

- Estou, amigo Afonso, não quero interromper e também… que dizer?...

- É. Estas dores que não se contam a ninguém. Dizem-se melhor ao telefone porque não é pessoa. É a primeira vez que falo nisto, sabe? Assunto que nem com os amigos comentei e veja-me agora, a desabafar com um telefone que tem na outra ponta um desconhecido… meceia desculpe-me.

- Nada a desculpar, meu amigo…

- É. Eu que nunca a vi como uma zorra… era a minha mulher, prontes. A mãe da minha filha. Ontre-dias a minha Ana Luísa - a minha filha…

- Sim…

- Vem com uma conversa que a mãe. Quem Ana Luísa?! Quem?! Olhe que sempre a tratei por Luisinha e ela a mim por paíto, mas naquela maré, desceu-me um fel ao estômago tão azedo quando ela alvitrou a mãe! Quem, Ana Luísa?! “Ó paíto, eu tenho andado com medo de lhe falar, mas… a mãe escreveu-me.” Escreveu-te?... “Sim. E na terceira carta pediu-me muito para que eu fosse ter com ela, para nos conhecermos…” Terceira carta, Ana Luísa?... “Eu tinha medo de lhe contar, paíto. Mas respondi-lhe…” E, que lhe respondeste Ana Luísa?... A miúda estava branca como a cal da parede, Adriano. Eu, um cadáver. Que tenho andado mais ou menos assim…

- Não é para menos, amigo Afonso… não é para menos…

- Enfim, ela lá me disse que ia, e que até já tinha comprado bilhete na carreira. Mas que não me preocupasse, que voltaria, claro que sim, eu é que era o paíto dela… mas que estava com muita curiosidade de conhecer a mãe…

- E depois, amigo Afonso?...

- Depois, dei comigo rodeado das vizinhas, que tinham vindo acudir ao choro da catraia, porque eu estava desfalecido naquele descabeço. Quando elas chegaram, ela saiu a correr com a mochila atulhada.

- Como assim, ela saiu…

- Assim foi. Quando me informou, ao que parece já tinha tudo combinado com a mãe… Andei aqui uns dias baldeado, fui-me informar, mas não havia nada a fazer. Ela era maior, embora o meu amparo, a vida era dela, nada a fazer.

- Tem de ter paciência amigo… importante é que ela esteja bem…

- Não merecia, Adriano… não merecia… morri ali.

- Ninguém sabe a morada?...

- Para quê, seu cabeça de azinho?... Para quê?...

- Desculpe. Não me devia estar a meter…

- Nada… desculpe eu. Cabeça de azinho é o telefone…

- Se eu puder fazer alguma coisa…

- O que você pode fazer, é acabar essa viagem, encontrar a magana, fazer muita meia azul e não a largar mais, ouviu?

- O amigo está cá com umas certezas… (e riu-se…)

- Está-se lembrando daquele filme? Ganhe coragem homem. Não faça como o outro que morreu toda a vida arrepeso… e desculpe… desculpe muito, mas até parece que respiro melhor depois deste limpa saco. Obrigado, Adriano. Espero sempre o seu telefonema ao fim do dia.

- Vou ter de desligar. Alguém está a abrir o portão. Mais logo falamos…

- NÃO SE ESQUEÇA DE MASSAJAR BEM ESSAS CANOEIRAS!...

 

José Bessa

 

15/11/23

Caminhos e Encruzilhadas - Capítulo 8



Estrela

Confesso que depois de Aveiro, muito me passou pela cabeça. O que sentia não era bem cansaço, nem assomo de desistência, mas de repente deu-me para pensar demasiado naquilo que estava a fazer. Não sei se os belos doces tinham semeado em mim dúvidas ou uma certa lassidão. A lembrança da carta de Adriano ainda me fazia bater o coração e estimular os sentidos. Contudo, senti que tinha levado uma vida a pensar nos outros e pouco em mim, ao ponto de ter desistido de avançar e ser eu mesma. As palavras do meu “primo”, trouxeram-me a coragem para continuar.

Resolvi seguir mais para litoral. Precisava nitidamente de ver o mar, de sentir o cheiro da maresia e de alongar o olhar no horizonte e nas marés.

Saí bem cedo mal o sol tinha raiado, munida de muita água e alguma fruta. Depois dos doces de Aveiro, nada melhor que espevitar o organismo com as coisas mais básicas, mas cheias de vitaminas. Para além do mais, aquela pureza de sabores frescos, era mesmo o que o meu corpo precisava para mais umas horas de caminho.

A minha ideia era seguir até à praia de Mira, até ao extenso areal, onde se o tempo ajudasse, conseguiria pernoitar. As horas seriam ainda bastantes e por percursos variados, tentando um pouco fugir das estradas mais movimentadas. No entanto, perdi bastante tempo, porque cada pormenor da paisagem me levava, num encanto quase pueril, a parar inúmeras vezes para colher ou meramente observar, o arvoredo, ou cada pequena flor selvagem com que me deparava.

Em parte, estou a tentar fugir um pouco àquela que tenho sido durante muitos anos. A vida cosmopolita tinha certas vantagens, mas era um espartilho que usei demasiado tempo e me pôs à margem do que realmente gostava e amava: o campo, o mar, a natureza. Por muitas flores que tivesse cultivado na minha varanda, eram apenas uma amostra, que acalmavam o meu desejo por outros horizontes.

Todas as paragens um pouco inconscientes, resultaram no avançar rápido das horas. Tinha feito mesmo assim 5 horas de caminho, o que só conseguira graças à boa forma adquirida com muitos anos de natação, ginástica e dança, que tinham conseguido moldar-me o corpo e a mente.

Resolvi parar na Praia do Areão. O extenso areal era extremamente apelativo, pelo que decidi caminhar ao longo dele e nas zonas que me pareciam seguras, molhar os pés numa espécie de catarse que me pareceu tão necessária. A maresia e o marulhar das ondas traziam-me aquela paz de que necessitava não propriamente para pensar, mas para me fazer relembrar os tempos ingénuos em que conhecera Adriano. Ao lembrar-me disso o pensamento voava para longe para situações e memórias prenhes de uma melancolia de outros tempos e da ternura da infância.

Aos poucos as gaivotas acordaram-me do sonho e verificando o sol no horizonte, pus-me de novo ao caminho. Pensei que mais ou menos em 3 horas conseguiria chegar à praia de Mira, mas o vento frio que, entretanto, se fez sentir, fez-me desistir de dormir ao relento. A minha filha tinha-me dado uma morada a 200 metros da praia, onde poderia passar a noite. Fui seguindo a linha costeira e cheguei finalmente ao local pretendido. Todo o percurso tinha sido feito de magníficas paisagens, as quais sempre me retiravam tempo à caminhada, mas me davam também um tempo de descanso. Por vezes, sentava-me um pouco para beber água ou comer alguma da fruta que me restava.

Finalmente a encantadora praia, apareceu-me no horizonte. No entanto dirigi-me ao tal local que a filha me recomendara. A casa da Clotilde, sua amiga de longos anos, era extremamente aprazível. Grata pela amabilidade, tomei um banho quente e assisti a um luxuriante pôr do sol, na pequena varanda do quarto que Clotilde me tinha destinado. A amiga da minha filha era uma pessoa extremamente discreta, ou possivelmente achou-me cansada, pelo que não prolongámos a conversa, embora ela soubesse de toda a história.

Dormi como uma pedra, mas consegui acordar para ver um nascer do sol mágico a estimular-me para continuar o caminho.

Abastecida com alguns víveres e muita água, meti-me a caminho da Figueira da Foz. Seriam muitas horas de caminho, mas sentia-me recuperada e com um desejo intenso de lá chegar. O porquê, escondia-se na minha história de vida e seria impossível continuar ao encontro de Adriano, sem antes resolver dentro de mim certos assuntos.

Há muitos anos tinha sido ali muito feliz. Nessa altura o meu casamento passava por momentos agradáveis e apaixonados e precisava de saber o peso daquelas memórias.

Apesar de tudo o que passara, o saudosismo embora inútil, é ainda uma âncora a prender-me. Por enquanto releio a carta de Adriano e penso em como estará e se terá pensado, entretanto que tudo era uma loucura. Mas seguindo tudo o que tínhamos combinado, não deveríamos ainda contactar-nos, enquanto não chegássemos, se chegássemos, ao destino marcado.

Com tudo isto no pensamento, subi à Serra da Boa Viagem, para olhar lá do alto a Figueira.

Afinal precisava de tomar decisões e só desejava que elas não me atraiçoassem.

 

Margarida Piloto Garcia

 

06/11/23

Caminhos e Encruzilhadas - Capítulo 7

 


Adriano

Não encontrando sítio para pernoitar, pensava albergar-me num pequeno canto que me servisse de refúgio... o tempo está óptimo, morno, agradável, portanto... ou dormirei sob as estrelas do céu. Mas tentarei ainda mais uma vez encontrar algo mais protector. Seria, sem dúvida, um outro conforto.

 Caminharei então um pouco mais, pois apercebi-me vagamente, quando me despedi do simpático casal, que poderia haver casas por perto. O sol já se escondia, rápido, mas pareceu-me ver alguns pequenos telhados vermelho alaranjados, (ou seria efeito do sol a pôr-se?) para além da minha caminhada... virados para norte. Cheguei! Havia, sim, duas pequenas casas rurais. Para lá me dirigi. Por sorte numa delas estava uma robusta mulher fazendo algumas arrumações de lavoura. Fui ter com ela explicando ao que vinha. De imediato me cedeu um pequeno espaço limpo para pernoitar.  A Sra. Maria, de seu nome, deixou-me um pequeno jarro de água, à porta, para as lavagens do dia. Despediu-se dizendo que nada tinha a pagar, e sem mais conversas foi entrando na sua própria área de residência. Já devia estar habituada a estas situações. Acordei bem, excepto a sensação, ainda que leve, de um cansaço, sentido nas pernas... terei de as ginasticar um pouco para conseguir algum equilíbrio de movimentos. Há já algum tempo que não as exercito como recomendou o médico quando caí nas escadas, em casa. Em casa!!!

O espaço em que passei a minha noite, exíguo, mas suficiente para uma noite bem dormida - contíguo a uma pequena área de cozinha onde, simpaticamente a dona da casa me deixou algo preparado. Assim depois de me levantar só teria de colocar a chaleira ao lume para fazer meu chá de melissa (de que eu mostrei gostar, o que levou a senhora a buscar um pequeno ramo ao campo próximo) e um pedaço de pão alentejano, penso que acabado de fazer.... Simpatias que agradam a qualquer um. Ao sair do alojamento ainda a procurei, mas percebi que já havia saído para a sua labuta diária, aproveitando o fresco do início da manhã. Conferi os pertences na mochila, colocando a garrafa d´água numa das bolsas exteriores e a bussola, no bolso dos calções.  Conferi, também se a caixa entregue com tanta confiança, pelo Afonso "Adamastor" continuava no lugar em que a havia colocado. Um mistério esta caixa... já por duas vezes estive tentado a abri-la, mas não! Não seria justo, pois a promessa reservava-a para o final da viagem E de preferência com a companhia da Estrela.

Com tudo ordenado, reiniciei a caminhada neste novo dia que já ia com algum calor.

Agora mais frequentemente pensava na "minha Estrela" e nos seus sedosos cabelos negros. E os olhos?.... Nunca esqueci a sua figura harmoniosa... curioso por revê-la, mas também receoso de pensar sequer, que uma pequena chama não reacenda quando do nosso encontro… como estaria ela, Estrela, neste momento? Que coragem deve ter assumido, para se "meter" nesta pequena aventura... Estará talvez em algum pequeno café, tomando o pequeno almoço, deliciando-se com um doce conventual - caso seja ainda gulosa dessas especialidades...

Como haveria de retomar uma outra estrada, resolvi que antes disso iria a São Teotónio tentar mastigar algo consistente. Tenho por lá passado de automóvel, mas a pé será uma estreia. Eram sete da manhã, um pequeno almoço frugal levar-me-á a algo mais elaborado. Depois vou até Alcácer do Sal, o que equivale a percorrer uns bons Kms a pé. Nem andando bem veloz resolveria as várias horas de percurso até chegar lá! Uma etapa difícil, que obviamente não concluirei num só dia.

Queria, nesta caminhada, observar com o meu pequeno binóculo trazido para o efeito, numa área ainda sossegada, as aves migratórias existentes nesta zona, nesta época, no Vale do Sado. Que sei serem de várias espécies.  E fazer na minha agenda, trazida para o efeito, o registo das mesmas, em seu habitat privilegiado. Complementando os registos com algumas fotografias tiradas com o telemóvel. Gosto que iniciei com a Paula, que logo depois de casarmos me convenceu a enveredar por esta bonita actividade lúdica, que me toma algum tempo e de que fiquei viciado.

Talvez Estrela já se tenha feito de novo, à estrada... Tenho de ir andando, também. Não me posso distrair, não vá a noite surpreender-me. Para estes lados há várias tasquinhas que servem para almoço a deliciosa e típica caldeirada desta zona. Prato único substancial, que sacia qualquer fome... tentarei dirigir-me a uma - a primeira que encontre.

Tenho-me surpreendido bastante, neste meu trajecto, com os pequenos rios, ribeiros e outros pequenos caudais de água que encontro. Sempre circundados de forte vegetação. O descanso que me permito ter nesta viagem faço-o sempre sentado à beira destes frescos lugares, de frescas águas, aproveitando para refrescar os pés e descansar as pernas... A idade começa a fazer-se sentir!

Já fiz algumas fotos de pássaros enquanto refresco os pés e também os registos em caderno que acho importantes. Consegui identificar dois tipos de andorinhas das chaminés e dos beirais. Encontrei gaios, gaivotas e também uma gaivota parda. Galinhas d'água, papa amoras, um chasco cinza e dois papa moscas pretos (talvez um casal). Enfim uma infinidade de belezas, que a natureza nos concede... e por vezes nem reparamos bem tão distraídos andamos.

Quanto mais caminho mais reflito no nosso almejado encontro. Imagino Estrela uma mulher bonita. Ela era uma adolescente bonita. Dificilmente o seu rosto sairá desse registo. Penso eu... Mas o que mais nela me fascinou, foi a empatia que torna qualquer contacto pessoal com um indivíduo, muito mais fácil. Bem, quanto mais o tempo corre, mais situações vividas há já tanto tempo entre nós, me ocorrem. Parece que o destino se propõe ajudar-me. E eu agradeço, pois começo a sentir-me um pouco ansioso.

Vou calçar de novo as botas, guardar os apetrechos de ornitologia, e pôr-me a caminho. Estou num troço da caminhada um pouco íngreme. Uma ladeira que terá, talvez, cerca de quinhentos metros.... Então vamos lá! Quando a vencer encontrarei sítio para comer, tenho essa sensação.

Depois, já saciado, e em descanso, tentarei por as ideias em ordem. Quero que o encontro com Estrela se torne inesquecível para mim, desejando que também ela, Estrela, sinta alguma alegria em rever-me. Só então irei perceber se valeu a pena termos ambos acreditado nesta aventura, tão desejada e tão bem planeada por nós dois...

 

                                                                              Fernanda Simões

 

15/10/23

Caminhos e Encruzilhadas - Capítulo 6

 


Estrela

De Esposende, depois de só molhar os pés no mar fresquinho, decidi que iria andar o quanto aguentasse. Até Ovar, são 19 horas de caminhada, portanto, resolvi neste primeiro estirão ir só até ao Porto, a ver se conseguia tomar um cafezito no Cais da Ribeira ao cair da tarde, e não mais.

Dormi na casa da amiga Sandra, que mora em Campanhã. Tomamos um vinho enquanto eu lhe contava toda a história. Depois do vinho, um banho demorado, cama quentinha e pé na estrada outra vez, porque queria chegar a Ovar antes do fim do dia.

Passei por Espinho a deter o olhar por todas as casinhas antigas, pois lembrei-me de uma viagem que fiz com a mamã e o meu mano, à altura com meus idos 15 anos. A mamã tinha lá uma comadre muito querida. A filha chamava-se Sónia, de quem minha mãe era a madrinha, mas já não me consigo lembrar do nome da mãe... Foi uma viagem muito agradável, passeamos por muitos belos sítios históricos que trago na lembrança com carinho. E lembro-me que a comadre da mamã tinha lá uma lojinha de roupas numa casinha com varanda azul. Ah, por acaso, lembrei-me, chamava-se Maria João! É claro que não consegui lembrar-me do nome da rua e não encontrei a casa, mas como queria chegar cedo a Ovar, não me demorei muito a procurar.

Ao chegar a Ovar, comi o famoso pão de ló na Flor de Liz. Encontrei um cantinho para pousar e adormeci, depois de ler mais uma vez o conteúdo do envelope do “primo” António.

O que estará o Adriano a fazer hoje? A que altura deverá estar? Prefiro não estar a pensar muito nisso, mas espero que tenha em seu coração a mesma alegria medrosa que tenho, e anseio por vê-lo e ler em seus olhos o que meu coração guardou por tantos anos tão bem Escondido.

Acordei muito cedo no dia seguinte e como tinha ido ao mercado municipal comprar frutas para comer durante a caminhada de mais um dia rumo a Mafra, pus-me logo a andar. Tinha comprado também umas roscas de canela na Flor de Liz, porque não é só de frutas que se satisfaz o paladar...

Antes de sair da cidade, passsei detidamente os olhos pelo museu vivo do Azulejo, para recarregar os olhos d’alma com a beleza e a querida história dos meus patrícios.

A minha ideia era sempre acompanhar o mar até Mafra, mas não pude furtar-me a andar até Aveiro.  Aveiro sabe à infância, um sabor não proibido pelas tolas exigências da forma física. Além disso, a forma física agora pouco me importa, com esta média de 9 horas de caminhada a cada dia. É mesmo preciso ingerir alimentos que me dêem força para chegar e recomeçar a cada dia.

Mas não é só sobre comer, o meu relato. Depois de Aveiro, voltei à Gafanha da Encarnação para seguir viagem rumo ao sul, tal qual pássaros, a fugir do frio no inverno. E voltei mais uma vez a falar para dentro de mim, e a recitar o que lera no envelope do “primo” António… ”porque me deu um beijinho”

 

“Se algum dia um beijinho eu m’recer

Hei-de lhe dar o que na vida aprendi

Qu’a vida é hoje, quando se deve viver

Pois o hoje nunca se vai, foi o que vi.

 

Todas as vezes que me deito a dormir,

Penso: “Acabou-se o hoje!”, mas não é

Pois a noite se vai, novo dia nasce a sorrir

De pé, firme e forte, novo hoje a luzir

 

Então vive, linda menina!

O que bom não foi, retira da mente

E toca a viver nova Estrela matutina

Qu’o hoje é o teu melhor presente.”

 

(Fiquei a pensar na sabedoria que forja as almas mais humildes, quanto passou na vida o Sr. António, o quanto sofreu, e como passou por tudo a guardar em seu rosto aquele sorriso puro.)

Venho pelo caminho a pensar no que me levou a tomar esta decisão. Sim, ainda continuo a perguntar-me sobre a validade deste passo, mas mais pelo medo do desconhecido do que por achar que poderiam julgar-me.

Não me importa muito o que pensem a meu respeito. Importa-me é o risco da falha, de acreditar em um sonho e vê-lo ruir. Enfim, é um preço que se deve pagar para irmos em busca dos nossos sonhos. Mais fácil, de certeza, seria ficarmos acomodados onde sabemos que o amanhã não nos trará surpresas.

Por muitos anos fiquei presa ao que julgava ser o correcto. O que não quer, de maneira alguma, dizer que esteja a fazer algo errado, mas decidi não pensar mais nisso. Penso antes no risco. Um grande passo rumo ao desconhecido, isto é o que estou a dar.

Mas, conforme disse o “primo” António, “Vive, linda menina! Toca a viver nova Estrela matutina!”

E toca a comer Ovos Moles d’Aveiro para sorrir!

 

Tixa Falchetto