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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A Década de Todas as Suspeições - Parte 12

(Susana) - O novo Salazar? Isso é uma loucura sem nexo.


Susana tinha a sua mente em tumulto, já não sabia em quem acreditar... Sôfrego se tornara o seu «Estar» nos últimos dias!

O suposto delírio, que coabitava nas palavras de Glória, queria-a forçosamente desposar. Glória pretendia espremer até à exaustão a sanidade de Susana, era este o seu maquiavélico objectivo.

Fugira do hospital psiquiátrico com a ajuda do seu admirador Caetano, o seu inocente aliado nos acontecimentos que adviriam.

Este fora, sob disfarce, o empregado de mesa que serviu a Susana e Paulo, no jantar da noite anterior, um vinho alentejano de trago singular, subtilmente desvirtuado por um suplemento-extra de sedativos.
Sequestrara Susana durante o sono, sem Paulo despertar do seu estado de torpor, e enclausurou-a naquela frígida casa... O esquema perfeito!


(Glória) - Susana acredita em mim, sei que abandonei a nossa amizade em prol de um amor obsessivo. Perdoa-me. Por favor, perdoa-me!


Suplicou, desfeita em lágrimas, e abraçou-a com vigor, ao mesmo tempo que disfarçadamente a apunhalava pelas costas com um sorriso desleal.
Mas, Susana tinha um sexto sentido apurado, que se revelaria o seu anjo-salvador, e sentiu que havia algo de errado no comportamento de Glória.

Duvidando de Glória e na incerteza do lado para o qual pendia a verdade, estrategicamente optou por ultimar a sua fuga daquele local incógnito. Jamais voltou a falar na saída das duas dali, e durante horas a fio compactuou com os falsetes de Glória.

Com o recolher do sol a penumbra chegou, os olhos de Susana viraram farolim, o seu sangue estagnou com o hibernar da pulsação, os seus passos tornaram-se inaudíveis na socapa da noite... Aproximava-se o momento da arquitectada fuga!

Havia na parede do quarto um relógio de pêndulo que tiquetaqueou as três da manhã.

Susana, que simulava que dormia, levantou-se cuidadosamente e, na ponta dos pés, dirigiu-se à porta de acesso ao pátio. Foi nesse preciso momento que ouviu atrás de si algo a ranger, olhou de relance e viu o vulto de Caetano no hall de entrada.

De imediato ocultou-se no negrume da sala, enfiou-se por detrás do encorpado cortinado em Linho, um milagroso manto de invisibilidade com origens em Mértola, e mortificou-se por minutos... Cúmplice, a Lua observava-a através daquela janela a poente!

Mal deixou de vislumbrar aquele semblante, irredutívelmente mais austero à meia-luz, vestiu a emblemática coragem e saiu sorrateira para o pátio. Suspirou de alivio por Caetano não a detectar.

Num impulso de sobrevivência saltou com agilidade o muro adornado pelas sebes de pinheiros-silvestres.

Inesperadamente na confusão de movimentos escaqueirou-se no chão um vaso de hortenses azuis, rasgando o silêncio da noite.
Caetano fisgou o olhar na direcção daquele som e acelerou o passo ao seu encalço.

Susana atarantada e assustada começou a correr pelo areal com o desconhecido horizonte como meta. O seu coração pulsava desenfreadamente, estava ofegante e desnorteada, a areia parecia-lhe movediça e os  músculos atrofiados.

Apesar de tantos enleios a Lua, que continuava a observá-la atentamente, pareceu-lhe de relance familiar... Lá estava novamente o seu sexto sentido em acção!


(Caetano) - Onde pensas que vais? Não tens escapatória possível neste fim do mundo.


Ecoou com um tom ameaçador e uma voz estridente, ensurdecendo o próprio quebrar das ondas.

Susana sem olhar para trás conseguia sentir Caetano, a sua respiração ofensiva e o galope da investida.
Não aguentaria muito mais, as forças estavam-na a abandonar.

Para que ele a perdesse de mira insinuou-se pelos labirínticos bancos de areia das dunas. Nessa ocasião uma mão agarra-lhe o braço esquerdo e imobiliza-a... Um forte arrepio invade-lhe o corpo e em micro-segundos "perde os sentidos"!

Marlene Quintinha

1 comentário:

Dina Rodrigues disse...

Muito bem Marlene, gostei imenso da continuação... Que grande mulher que é a Susana! Espero que se consiga safar das garras da Glória e do Caetano. De quem será a mão que a agarrou?...

Dina