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18/11/11

A Década de Todas as Suspeições - Parte 19


Susana começava decididamente a ficar inquieta e perturbada, nem sequer a leveza instantânea daquele beijo passageiro a conseguia já demover das tremuras interiores que a abalavam. Fez questão de desistir de todos os pensamentos díspares de romantismo, concentrando a sua atenção inflexível em António, que soluçava descontrolado a seus pés.
Reteve a respiração, e, em seguida apontou-lhe duas cadeiras no interior do quarto.
- Claro! – Responde-lhe ele decidido, tentando esboçar um sorriso. – Temos muito que conversar.
Sentaram-se ambos, Susana ainda não abrira a boca, observava aquele homem com uma atenção desmedida, parecendo contudo diminuída agora, a confiança cega que inicialmente lhe depositara no seu olhar doce. Algo nele se transfigurara, ou talvez se tenha dado em si o ponto de ruptura mental, o exacto instante em que já não lhe era mais possível prosseguir sem uma explicação. Desconcertada, já nem conseguia sequer formular novas perguntas, e o descalabro estava iminente. A partir daqui, foi um dilúvio verbal! Gesticulando, Susana passa do horror ao sorriso, da inquietude ao pânico.
António via nela um concentrado de sofrimento. Agarrando-se à borda da cadeira, ela chega mesmo a berrar em puro desespero. A sua explosão ressoa longa pela pousada do Anjo. Aqui e ali, António apanhava-lhe o sentido. Palavras, momentos, expressões. Mudo, limita-se a acenar-lhe com a cabeça, incentivando-a a continuar.
Por fim, esgotada, ela detém a purga. A sua boca entreaberta faz um barulho de carne flácida, suspira num arfar imparável.
- Então? – Pergunta-lhe finalmente.
António engole em seco e tenta dar um bom sentido à história, exorcizando os seus próprios demónios.
- Era preciso apagar tudo, compreendes? Afastar todos aqueles que podiam estar informados, de perto ou de longe, sobre o assunto. Destruí-los a todos, mesmo os mais inocentes.
Nova recordação dolorosa. Susana pega no seu telemóvel e acaricia-o com nervosismo.
- A Isabel! – Exclama num grito apagado.
António limita-se a acenar.
- Desde então tudo se passa na sombra... – Continua - Porque as coisas não acabaram...bem pelo contrário!
- A Isabel também?
- Todos! O Dr. Azevedo sabe muito bem onde eu estou. Até deve saber que estamos juntos neste preciso momento. Para ele, nós não somos nada. Meros pormenores...o que lhe importa é o projecto, somente o projecto.
Susana forçou-se a afastar esse pensamento terrível da cabeça e abanou o telemóvel tentando desesperadamente alcançar a amiga.
- É tarde demais. – Diz-lhe António. – A esta hora a polícia já a terá apanhado.
Com o aparelho colado ao ouvido, Susana mostrava-lhe um olhar de incredulidade.
- O inspector. – Anuiu António, em resposta. – Sim. O inspector Renato também faz parte desta trama hedionda. Foi companheiro de Aníbal Costa no ultramar, foram colegas de companhia. Aliás, foi ele quem o apresentou ao Dr. Azevedo quando ambos retornaram. O Aníbal era o sujeito perfeito para a experiência inicial. Um fanático, capaz das maiores atrocidades durante a guerra em África, mas ainda assim, nada comparado com o que se tornou a seguir. Eu...eu próprio efectuei a cirurgia que o tornou naquilo que ele é hoje. Mas isso nem foi o pior. Foi só o início de toda esta trama.
- Mas isso é ridículo. Com que objectivo? Torna-lo no novo Salazar? – Inquiria a rapariga.
- A queda de uma civilização é o mais surpreendente, e, ao mesmo tempo, o mais obscuro de todos os fenómenos da História. Depois da morte de Salazar, depois das colónias quase perdidas, até mesmo já depois de o próprio regime cair, em Abril de 74, um grupo muito restrito de pessoas, todos eles fascistas fervorosos, nacionalistas, saudosos dos tempos em que Portugal dominava metade do mundo, reuniram-se em segredo numa casa perto de Sevilha. Viviam-se tempos perigosos e instáveis, e essas pessoas estavam determinadas... determinadas percebes, a restaurarem aquilo que para eles representava a glória do nosso país. E não eram somente portugueses, os que ali se reuniam naquela noite fatídica, mas também espanhóis, italianos, alemães.. de todas as frentes de um nacionalismo ousado e puro, os derrotados da Europa, os escorraçados... os malditos! Entre eles encontrava-se o Dr. Azevedo, e..eu também.
- Tu? Mas como pode isso ser? Tu não pareces nada mais velho do que eu, como é possível que possas ter estado nessa reunião secreta, que ocorreu há mais de trinta anos atrás?
António sucumbiu ao seu próprio relato, recolhendo o rosto em constrangimento.
- Não fui inteiramente sincero contigo.
- Isso vejo eu. – Declara Susana. – Serás tu também um clone? Então? Desembucha. – Remete-lhe a rapariga, em fúria.
- Eugenia! Sabes o que significa?
- Eugenia? Não, não faço ideia.
- É o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar... ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações. O Dr. Hugo Von Venkell do departamento de purificação racial do III reich, trabalhou extensivamente nessa área no campo de Dachau, durante a guerra...fez experiências terríveis...eu mal sei como te...
- Continua. – Expressou Susana com frieza.
António admirou-se com a quietude impenetrável do seu rosto, julgou senti-la mais chocada com o que lhe acabara de contar, e não pode deixar de se surpreender com a sua postura estóica e calma. Prosseguiu depois com o seu relato, já ele também mais recomposto da própria natureza aterradora do que lhe dizia.
- Von Venkell veio refugiar-se aqui, em Portugal. Tomou residência em Sintra, e durante imensos anos, levou uma vida aparentemente pacata como um médico de província. Mais tarde, foi incumbido de implementar esse mesmo conceito de pureza racial, de domínio da raça, na nossa população. A intenção era clara, diluir completamente as ideologias reaccionárias, comunistas, anarquistas e substituí-las pela geração seguinte, os eugénicos arianos. Afastar os “incapazes” os “mais fracos”, pois esses constituíam uma ameaça, um perigo. De certa forma, o objectivo era, e continua a ser, o de vencer a guerra por assimilação. Mais tarde ou mais cedo, a maioria da população acabaria por ficar toda submetida ao processo de purificação, e o país tornar-se-ia inteiramente homogéneo a esta ideologia, puro e grato por seguir os líderes de outrora. Os membros daquele primeiro encontro em Sevilha, e respectivas famílias, foram a génese do projecto, submetendo-se a ele de bom grado, e em plena consciência e dedicação. Foi o meu pai, quem assistiu a esse momento, mas, de acordo com o que te expliquei ainda agora, foi como se eu próprio lá tivesse estado, percebes? Eu sou uma versão melhorada, purificada, do meu pai, e tu também, Susana.
A cabeça de Susana parecia prestes a implodir sobre si mesma com que ouvia. Os seus olhos piscavam intermitentes, absolutamente incrédulos.
- Eu? Isso é um disparate pegado. Eu conheço bem os meus pais, sei muito bem quem eles eram. O meu pai foi militante do P.O.U.S., pelo amor de Deus! Ariano? Tu estás louco.
- Não, não estou..Infelizmente é tudo verdade. Porque também tu estiveste presente naquela reunião. Tu, a Glória, o Paulo, eu..todos nós estivemos lá, porque somos todos frutos deste mesmo projecto, que já envolve meio Portugal. O que te lembras exactamente sobre os teus pais?
- Eu?
- Sim Susana, tu. Talvez já te tenhas questionado do porquê de não existirem fotografias da tua infância em lado algum. Como é possível existir um casal que não guarda uma única foto da sua filha quando esta foi criança, ou bebé. Achas isso normal?
- Sei lá eu porquê..mas isso não invalida que..
- Porra Susana! – Interrompe-a António. – Tu viste os corpos ali naquele laboratório, eu sei que os vistes. Tu e o Paulo, uma outra Susana e um outro Paulo, e quantos mais não haverão por aí, já lhes perdi a conta. Moldes! Somos moldes todos nós..eu, tu, a Glória..eu.. eu já nem bem sei quem sou verdadeiramente! – António apoia os cotovelos sobre os seus joelhos e encobre o rosto com as mãos. – Mas, o pior de tudo ainda não te contei..
- Sobre o Dr. Azevedo?
- O Dr. Azevedo é Von Venkell. Hugo Von Venkell assumiu a identidade do Dr. Azevedo, são uma e a mesma pessoa.
- A Isabel? Ela está a ligar-me. – Responde-lhe Susana.
- Não atendas, não é a Isabel, garanto-te. A Isabel está morta, assim como o Paulo que tu conhecias, e a Glória, o Aníbal Costa, e todas as pontas soltas que nasceram nessa década de todas as suspeições. Tu tens estado a ouvir-me com atenção? A experiência ainda não terminou, a prova disso, são as tuas dúvidas e os teus receios, é o próprio relato que te acabei de fazer. Ainda não somos puros, puros como eles o desejariam que fôssemos. É por isso que não nos resta muito mais tempo. Pousa o telemóvel e escuta-me com atenção, só tenho mais uma coisa para te dizer, mas é a mais importante de todas, tu não és..
O estrondo avassalador da porta do quarto sendo dobrada sobre as próprias dobradiças pela força certeira de um pontapé, interrompeu-lhe de imediato o discurso, e antes mesmo que qualquer um deles pudesse esboçar reacção que fosse, acabaram tolhidos por dois tiros certeiros e silenciosos, alvejando-os mortalmente no centro da cabeça.
António parecia ainda ter feito tenção de protegê-la no instante derradeiro, pois tombou sobre si mesmo, para a frente, de rosto virado ao chão. Susana, por seu turno, completamente tomada de surpresa, permaneceu sentada na cadeira, de olhar vazado, aberto num espanto eterno, para sempre desconhecedora do seu verdadeiro destino.
No dia seguinte, estranhamente cedo para o que era o seu costume, entrava descontraidamente pela porta da redacção da ReporterMagazine, trazia o capacete debaixo de um braço, uma mão cheia de rolos fotográficos e um sorriso zombeteiro a iluminar-lhe o rosto.

Casimiro Teixeira



   FIM?

14/11/11

A Década de Todas as Suspeições - Parte 18

Susana não sabia muito bem para onde se dirigir com António, pois sabia que Isabel ia procurá-la até à exaustão. Susana conhecia bem demais a sua amiga, assim como Isabel a conhecia a ela. Logo, fugir para os lugares mais prováveis, não seria certamente uma boa ideia.

Lembrou-se que não muito longe dali, um amigo de longa data do seu pai tinha uma pousada, uma casa pequena, apenas para 5 ou 6 hóspedes mas muito acolhedora.

Carregando no acelerador, aquelas duas almas viajaram em silêncio os poucos quilómetros que separavam a pousada daquela casa. O olhar dos dois cruzou-se algumas vezes durante o trajecto e Susana sentia uma sensação de protecção que não sabia bem explicar porquê.

Assim que chegaram à pousada do Anjo, Susana não pode deixar de esboçar um pequeno sorriso. Nunca tinha ligado ao nome da pousada, sempre tinha conhecido aquele local como a casa do Sr. Sousa. Mas naquele momento e estando acompanhada pelo António, o seu Quasimodo, pareceu-lhe que de facto a pousada não podia ter outro nome.

O Sr. Sousa fez uma festa muito grande a Susana, já há uns anos que não a via. Não estranhou o facto de ela ter aparecido assim de repente com um amigo, pois sabia que Susana sempre fora aventureira e um pouco rebelde. Arranjou-lhes logo, tal como Susana pediu, um canto sossegado onde poderiam conversar.

-Continua por favor a história, eu não aguento mais não perceber toda esta loucura que se abateu de repente na minha vida! – Pediu Susana a António, quase num suspiro cansado.

-Sim, eu próprio já não aguento mais não partilhar com ninguém o que têm sido estes anos…e principalmente ver-te envolvida assim nesta história, apenas por capricho de uma pessoa – respondeu António, olhando Susana com um ar carinhoso.

Susana baixou os olhos, aquele olhar de António mexia com ela de uma maneira diferente. Nem Paulo tinha mexido com ela desse modo.

- Mas por capricho de quem, afinal? – Perguntou ansiosa Susana e também um pouco para retomar a conversa e desviar aquele olhar que não estava a conseguir evitar.

-Ok, onde é que eu ia? Sim, no médico que me “obrigou” a trabalhar com ele – recomeçou António, sendo logo interrompido por Susana com outra pergunta.

- Espera, não me digas que esse médico é um tal de Dr. Azevedo – interrogou Susana

- Sim, é! Mas como sabes? Ah, já sei, o Costa, o padrinho da Glória! É isso? – Questionou agora António.

- Tu conheces o padrinho da Glória? – Respondeu Susana com outra pergunta, no que parecia estar a ser mais uma troca de perguntas do que efectivamente um desvendar de respostas.

- Se conheço? Claro que sim! Ele é uma peça super importante neste drama todo – continuou António. Ele foi um dos fantoches do Dr. Azevedo na altura do Ultramar e quando quis saltar fora desta história toda, o Dr. Azevedo tratou-lhe bem da saúde! – Contou António com ar indignado.

- Como assim? Questionou Susana sentindo um arrepio. Por um lado queria muito desvendar toda aquela história surreal mas por outro temia cada palavra que António ainda iria proferir.

António, sentindo o nervosismo de Susana, agarrou-lhe uma das mãos e enquanto acariciava a mão macia daquela por quem se tinha apaixonado, recomeçou novamente.

- Como assim? Então, o padrinho da Glória não tem Alzheimer? E achas que o Alzheimer dele é devido a quê? Pois, pensas como toda a gente, que foi a guerra que o deixou assim. E de certo modo foi, mas apenas porque ele quis saltar fora desta história e quem salta fora, acaba assim, ou pior…morto! Mas não, o Dr. Azevedo é que lhe provocou esse estado de demência, não me perguntes como, isso ainda não consegui descobrir mas o certo é que ele não podia deixar o padrinho da Glória assim livre para contar todo o plano maquiavélico que estava a ser traçado durante o final da ditadura, durante a guerra e nestes últimos anos.

- Espera só um momento, responde-me a uma coisa. E Glória, qual é o papel dela no meio desta história? – Perguntou Susana, sem saber muito bem qual era a resposta que desejava ouvir.

- Glória foi mais uma peça útil no meio de tudo isto. Afinal ela era sobrinha de uma das peças mais importantes do puzzle. Vigiá-la era uma maneira de manter a ligação ao seu padrinho e ir sabendo o que ele ia contando ou não.

- Mas quem a vigiava? Paulo? – Perguntou a medo Susana. Cada pergunta que fazia parecia que ia descobrir algo mais que iria atormentá-la.

- Sim, esse mesmo. Porque achas que ele se juntou a ela? Achas que foi por Glória gostar dele? Claro que não, Paulo gostava era de ti. Aliás por isso é que foste a escolhida! – Abanou a cabeça António, pensando no que ainda faltava contar.

- Espera mas qual é o papel de Paulo no meio disto tudo? E fui eu escolhida? Não estou a perceber! – Suspirou de novo Susana.

- Estás preparada para o resto do novelo que falta desenrolar? O que aí vem é muito pior, é quase um filme de ficção científica. Após, dizer isto, António agarrou com mais força a mão e o braço de Susana. António adorava aquela rapariga, como nunca tinha adorado ninguém e não estava disposto a perdê-la jamais!

- Sim, por favor! Eu quero mesmo saber tudo! – Assentiu Susana, e surpreendeu-se de novo por estar a gostar de sentir aquela proximidade com aquele seu anjo/demónio.

- Paulo é filho do Dr. Azevedo, um filho bastardo que ele nunca reconheceu oficialmente como seu, porque lhe dava jeito ter uma ligação assim forte com alguém que não fosse do conhecimento de ninguém.

- Hum, de facto eu nunca conheci o pai de Paulo, só uma avó. Ele sempre me disse que os pais tinham morrido há muito tempo mas como não parecia ser um assunto que lhe agradasse falar, nunca tentei que ele o desenvolvesse muito- afirmou Susana.

-Pois, a mãe dele morreu de parto. Isso é verdade e deve ser a única morte da qual o Dr. Azevedo não tem culpa, aquele nazista! – Resmungou António, revoltado.

- Nazista? – Perguntou Susana, esbugalhando os olhos de espanto.

- Sim, ele era um nazista da pior espécie. Eu achava que toda aquela espécie já estava extinta, mas não. Pelo menos o Dr. Azevedo está vivo e bem vivo! Acreditas que ele esteve na Alemanha a aprender algumas daquelas técnicas terríveis de medicina que os nazis praticavam? Aprendeu com os que ainda restam e parece que ainda conseguiu aperfeiçoar algumas delas e especialmente conseguiu a tão desejada clonagem. Aquele homem é um demónio que saiu das profundezas do Inferno. – Dito isto,
António começou a chorar. Não aguentava mais, tantos anos perdidos ao serviço daquele monstro.

Susana não se conteve ao ver o seu Quasimodo a chorar e levantou-se, abraçando-o com carinho. António olhou-a com ar apaixonado e de novo um beijo surgiu, no meio daquela sala da Pousada do Anjo.

Não muito longe dali, andava Isabel mais a polícia atrás deles. Isabel estava em pânico, onde andaria Susana? Quando acabaria esta história maluca?

Carolina Lemos

26/10/11

A Década De Todas As Suspeições - Parte 17


Sobressaltada, Susana recua daquele beijo que inicialmente tinha tudo para ser perfeito. Precisava de respostas. Sentia-se perdida. Quem era afinal aquele Quasimodo que acabara por se transformar num príncipe? Levantou-se e recuou alguns passos, mantendo alguma distância daquele homem de olhar doce.

— Quem és tu? Quem são estas pessoas? Porque estão aqui prisioneiras? Porque têm o meu rosto e do Paulo? Porque colocaste uma câmara no meu quarto? — Pergunta Susana de rompante sem respirar um segundo.

— O meu nome é António! Senta-te aqui por favor, tenho muito para te contar — Disse António com a voz mais doce e suave que Susana ouvira nos últimos tempos.

Susana acedeu ao pedido de António e sentou-se a seu lado, sem receios. Afinal se ele lhe quisesse fazer mal não a tinha ajudado duas vezes, pensou Susana.

— Há alguns anos atrás, estava eu a trabalhar na UCI do Hospital Santa Maria, quando fui chamado para uma reunião de urgência com o director do Hospital. Sem grandes rodeios disse-me que me tinha recomendado para um trabalho numa clínica privada. Falou-me pouco da clínica e do trabalho a realizar. Em poucas palavras disse-me que iria receber cinco vezes mais do que estava a receber na altura e não precisava acumular serviços em outros hospitais nem em consultórios. Eu respondi-lhe que precisava pensar e seria agradável ter uma entrevista com o dono da tal clínica. Sempre gostei de trabalhar na UCI e a ideia de passar os meus dias numa clínica privada atrás de uma secretária não me agradava muito. 

— Então disseste que não?! — Perguntou Susana ansiosa por saber mais sobre aquele homem que a fascinava de todas as maneiras. 

— Não tive essa hipótese! Assim que o director percebeu a minha hesitação em aceitar aquela oferta, que aos olhos de muitos seria perfeita, encostou-me à parede dizendo que ao ter feito a minha recomendação saberia que eu não o ia deixar ficar mal visto e se por algum patético motivo eu tivesse essa presunção, encarregar-se-ia de que nunca mais tivesse um emprego em nenhum outro lugar. 

— Foste coagido a aceitar o trabalho! — Completou Susana cada vez mais curiosa.

— Achei que não tinha alternativa. Ele era um homem muito influente, daqueles a quem todos fazem para agradar e ninguém se atreve a contrariar. Eu era ainda um médico recém-formado, sem currículo e sem nome. Acabei por dizer-lhe que teria todo o gosto em aceitar a oferta. Pensei naquele emprego como algo provisório e que possivelmente me abriria outras portas no futuro. Estava tão enganado... — Lamentou António de lágrimas nos olhos.

Susana comoveu-se com ar sofrido de António e chegou-se um pouco mais a ele agarrando-lhe uma das mãos. Como era quente e delicada aquela mão. De repente perdeu-se nos seus pensamentos e desejou que aquela mão ficasse colada à sua para sempre. Ainda sem saber quem era ao certo aquele homem, sentia-se protegida junto dele ao mesmo tempo que sentia um arrepio a percorrer-lhe todo o corpo.

— Estás a acompanhar-me? — Pergunta António com um sorriso doce ao perceber que Susana estava tão perto mas ao mesmo tempo tão longe.

— Desculpa! Continua por favor! — Respondeu Susana num misto de surpresa e embaraço. 

— Como te estava a dizer, no dia a seguir, às 9h00 em ponto, estava na morada que ele me tinha dado, escrita à mão num pedaço de guardanapo. Por momentos pensei que estava enganado porque naquele lugar não havia nenhuma referência a qualquer clínica ou consultório médico. Era um prédio antigo, na baixa de Lisboa. Estranhei tudo aquilo mas resolvi tocar para o 1.º frente. A porta abriu-se sem que ninguém perguntasse absolutamente nada. Lembro-me que na rua não passava ninguém e o silêncio que imperava era de certa forma constrangedor. Entrei com algum receio e comecei a subir aquelas escadas velhas e íngremes. Parece que ainda consigo ouvir o ranger daqueles degraus de madeira marcada pelo passar dos anos. 

— Estás a deixar-me nervosa com tanta descrição! — Disse Susana impaciente largando-lhe a mão!

Após um breve sorriso António continuou a sua história que parecia saída de um filme de suspense.

— Quando cheguei ao primeiro andar uma das portas estava entre-aberta. Entrei e à minha frente vislumbrei uma sala que parecia saída de uma daquelas revistas de decoração. Atrás de uma secretária de tampo de vidro impecavelmente arrumada, estava uma jovem que me pareceu demasiadamente arranjada e bem vestida para recepcionista de um consultório médico. 

António foi interrompido pelo toque do telemóvel de Susana que esta trazia no bolso das calças. Ainda assustada com aquela interrupção inesperada, Susana levanta-se para ver quem lhe estava a ligar àquelas horas. Era a sua amiga Isabel. Certamente acabara de chegar a sua casa e viu o bilhete que Susana lhe deixara na porta. Decidiu não atender. Se contasse a Isabel que estava ali, naquela casa, ao lado do homem a quem horas antes tinha arremessado um frasco de vidro Isabel pensaria que ela estava definitivamente louca.

Enquanto António prossegue com a sua descrição um tanto ao quanto aborrecida Susana perde-se nos seus pensamentos e começa a dissertar em voz alta.

— Se eu não falar com a Isabel ela vai ficar apavorada e vai ligar para a polícia. Vou ligar-lhe já!

Isabel atende o telefone de imediato e sem dar tempo a Susana de dizer o que quer que seja diz-lhe que já ligou para a polícia e que a qualquer minuto devem estar a chegar a sua casa. Susana desliga o telefone sem responder à amiga e agarra as mãos de António com ar preocupado.

— Ainda não sei quem és, ainda não percebi o que fazes aqui mas gosto de ti e confio que não me queres mal! — Disse com ar aflito.

— O que te disse a Isabel? — Perguntou António.

— Ela chamou a polícia! Não tarda estarão em minha casa! Não teremos muito tempo até que cheguem aqui porque a Isabel esteve aqui comigo esta tarde... Não quero que nada de mal de aconteça! Para onde Vamos? — Pergunta Susana com desejo de nunca mais se separar de António.

Susana Fonseca

15/10/11

A Década De Todas As Suspeições - Parte 16


Isabel, numa tentativa vã de acalmar a amiga, conduz Susana para o lado de fora do cortinado. Está na hora de saírem dali e, num qualquer lugar tranquilo e seguro, tentarem digerir e processar a catadupa de informação que nas últimas horas lhes caiu em cima sob a forma de descobertas fantasmagóricas absolutamente desprovidas de sentido para as suas pobres cabecinhas. Mas, antes de articular qualquer gesto ou palavra no sentido da saída, outro sobressalto de Susana aflora-lhe num esgar seguido da expressão raivosa:

- O que é que aquela cabra está a fazer no meu quarto?

Nem precisou perguntar nada, bastou a Isabel dirigir o olhar na mesma direcção em que Susana fixava o seu para descobrir o porquê de tal sobressalto e grito horrorizado. No monitor 1, o tal que reproduzia, em tempo real, imagens do quarto de Susana, via-se uma figura feminina explorando cada recanto do espaço. Glória!

Após o abraço e um olhar cúmplice, mais uma vez não foi preciso combinar estratégias.

- Vamos! - Disseram as duas amigas em silêncio.

Dirigiram-se para a porta, tendo o cuidado de não deixar qualquer marca que pudesse testemunhar a sua passagem por ali. Luzes apagadas e preparam-se para subir as escadas que as fariam emergir, novamente, para o mundo dos comuns mortais. Nem chegam a subir o primeiro degrau, passos mesmo em cima do alçapão detiveram-nas no seu intento de escapulirem daquela aventura sem deixar rasto. O que já era de esperar pois, quem quer que fosse que estivesse por detrás daquele aparato todo, certamente, que não o deixaria por muito tempo à mercê de alguma possível alma mais atrevida e curiosa. Não podiam sair dali sem dar de caras com quem se preparava já, naquele momento, para descer o primeiro degrau do alto da escada. Só lhes restaria ficar, ficar e enfrentar o que desse e viesse.

Susana, no seu instinto de sobrevivência e aproveitando o fio de luz que saía da escada rasgando a escuridão à qual os olhos já se habituaram, passa o olhar pela bancada repleta com toda aquela parafernália de medicamentos e material do mais sofisticado que se utiliza no internamento hospitalar e fixa-se num frasco de vidro cujo rótulo dizia alimentação parentérica. Não fazia a mínima ideia para que serviria mas, naquele momento, serve perfeitamente o seu intento. Acaba de entrar quem, sem sequer imaginar aquela invasão, vinha descendo as escadas… e zás! Com uma pancada certeira na nuca, cai estatelado no chão um corpo de homem. Magro, alto, na casa dos quarenta. Assim, ali prostrado naquele chão irrepreensivelmente limpo, até parecia boa pessoa. Mas não era, com certeza. Alguém que compactuava com o que as duas amigas haviam descoberto ali não podia ser boa pessoa.

E, mais uma vez, é Isabel que arranca Susana aos seus pensamentos, têm de sair dali antes que o homem acorde. Apressam-se a refazer o caminho no sentido inverso ao que tinham tomado para ali chegar. Desta vez nem precisaram consultar as fotografias no telemóvel da Isabel, era uma experiência tão intensa a que viviam desde há umas horas que nem que vivessem para sempre esqueceriam um pormenor que fosse.

Entram no jipe e Isabel olha para Susana como que perguntando:

- E agora, que fazemos?

Ao que Susana responde:

- Vamos para minha casa, quero livrar-me o mais rapidamente possível do objecto que, camuflado algures no meu quarto, devassa a minha intimidade! Porquê? Porque estará alguém interessado em mim desta forma? E qual o papel de Glória no meio de tudo isto?

Perguntas e mais perguntas assaltavam a cabeça de Susana enquanto, indiferentes, as árvores da berma da estrada desfilavam em sentido contrário.

Passara apenas uma semana desde aquela manhã em que Susana, afogueada, fora ao encontro da amiga para lhe contar o sonho quase surreal que tinha tido na noite anterior mas até parecia ter passado uma vida inteira, tantos eram os acontecimentos. Tantas as emoções, e tão fortes! Meu deus, como pode a vida de uma pessoa mudar tanto em tão curto espaço de tempo?

Susana entrou em casa de um salto, na expectativa de ainda encontrar Glória e obrigá-la a contar o que significava tudo aquilo a que a estavam sujeitando sem que ela tivesse a mais leve suspeita. Mas, Glória já não estava ali. Claro, já passara uma boa hora desde que a visionara naquele monitor que lhe escrutinava a intimidade até às entranhas do seu ser. Num impulso, virou todo o quarto do avesso e, sem grande dificuldade, encontrou a câmara oculta no abat-jour do tecto. Arrancou-a com toda a força da raiva que crescia dentro de si e, atirando-a contra a parede, abraçou-se à Isabel, desmoronando num choro convulsivo.

- Quem sou eu, amiga? Em que história maquiavélica estou enredada?

Isabel apenas a abraçou com mais força ainda, estava tão atordoada quanto Susana. Na ausência de respostas e, consequentemente, de soluções cabia-lhe o papel de serenar os ânimos para que ambas pudessem planear o próximo passo.

- Devíamos ir à policia…

- Não, policia não! Quero perceber qual o sentido de tudo isto e não pretendo correr o risco de ver a minha vida devassada em páginas de jornais sem antes perceber o que se passa.

Naquele momento, não havia nada a fazer e Isabel decidiu ir a sua casa prometendo voltar mais tarde para passar a noite com a amiga. Um alívio para Susana pois estava ansiosa por colocar em prática o plano secreto que vinha maquinando desde que vira o homem a quem agredira estatelado naquele chão quase imaculado. Era mesmo esse o motivo porque tinha recusado ir à polícia. Qualquer coisa dentro de si lhe ditava uma necessidade urgente de voltar a ver aquele corpo em cujo rosto adivinhava os olhos doces do seu Quasimodo. Escreveu um bilhete à amiga que deixou pregado na porta (não enviou SMS porque, de certeza, a amiga a impediria de cometer tal loucura) e dirigiu-se para o carro que jazia, há vários dias, estacionado debaixo do alpendre lateral da casa. Quem lhe dera ter ali à mão a sua companheira das viagens ao sabor do vento, a BMW herdada do pai e que estava, naquele momento, prisioneira na garagem interdita daquela maldita casa algarvia. Mas não tinha e o tempo urgia.

Meteu rodas à estrada e aí vai ela, rumo à aventura que mudaria para sempre a sua vida. Já não precisava de mapas, era como se tivesse rodado por aquele caminho desde sempre. As únicas coisas que lhe ocupavam o pensamento eram o olhar doce do seu Quasimodo e o corpo do homem estatelado no chão, tendo a certeza de pertencerem à mesma pessoa. Deixou o carro a alguma distância da cabana fazendo o resto do caminho a pé. De manhã não tinha apreciado a beleza do lugar, não parecia um lugar para experiências demoníacas, não. Parecia mais um lugar daqueles que nos fazem pensar que estamos num recanto do paraíso. O sol já se punha e a silhueta da lua começava a desenhar-se no céu, anunciando uma daquelas noites de lua cheia onde a magia acontece. Contemplando toda esta beleza, Susana sente-se desfalecer e em segundos desliza para uma escuridão total.

Acordou já sem vestígios do sol, em compensação a linda noite de luar que antes previra já se manifestava em todo o seu esplendor. Estava estendida num chão macio, tão macio… não era areia nem capim. Pois não, alguém tinha estendido uma manta sob o seu corpo inanimado e, curiosamente ou não, não se surpreendeu quando, ao olhar para o lado, encontrou os olhos doces do seu Quasimodo.

- Administrei-te uma injecção de glicose, estavas com hipo-glicemia. Foi por isso que desmaiaste. – Apressou-se a explicar o Quasimodo, antecipando-se assim a qualquer tentativa de acusação. Mas Susana não parecia minimamente interessada no que lhe tinha acontecido, a sua mente estava desperta para outras sensações.

- Não comi, o dia todo… - Balbuciou sem sequer pensar no sentido das palavras. Aquela criatura à sua frente encantava-a, eram os mesmos olhos doces que a tinham salvado na noite anterior mas, por outro lado, esta tinha uma voz melódica de tenor enquanto a outra apenas emitia sons grotescos. E a boca que se aproximava da sua tinha dentes perfeitos emoldurados pelos lábios mais sensuais que alguma vez sentira… Foi o beijo com que sempre sonhara.

Seguido pelas estranhas palavras:

- Há quanto tempo ansiava por este beijo, minha querida Susana!

Palavras estranhas mesmo. Como é que aquela criatura sabia o seu nome? E, pior ainda, porque dizia ansiar pelo seu beijo há muito tempo?

Luisa Vaz Tavares

30/09/11

A Década De Todas As Suspeições - Parte 15

A eternidade daquele abraço em que Susana tremendo emudecida num será que estou a endoidecer? foi interrompida pelo sussurro de Isabel junto do ouvido da amiga num vamos sair daqui que este lugar não é para nós, vamos... conto-te tudo pelo caminho.

Sorrateiramente esgueirando-se pelo jardim enquanto, de soslaio, repara no tal carro policial à porta, Isabel segue-lhe os passos. Susana deve uma explicação à velhota que lhe alugara a casa e vai pedir-lhe autorização no sentido de poder deixar a sua BMW guardada na sua garagem uma vez que, de momento, a casa parece estar interdita e a última coisa que lhe apetece é responder a um inquérito policial sobre indícios de um qualquer possível crime. Apenas por uns dias, virá buscá-la mais tarde. Entrou no pequeno todo-o-terreno de Isabel e lá partiram rumo a norte.

O faro jornalístico e a inabalável vontade em descobrir toda a verdade desta incrível trama em que estava metida da cabeça aos pés, atormentando-a até essência da sua alma, foram imperativos para meter os pés ao caminho, como quem diz, as rodas no asfalto. E percorrer uma hora e tal numa boa estrada que lhe é familiar, em que o fundo se afunilando e as árvores das bermas lhes passando tão rápidas e demasiado próximas em sentido contrário que até se sente algo zonza. Um ímpeto visceral em descobrir quem é o tal monstro, seu anjo salvador, de feições demoníacas e de olhar tão doce. Susana desfia comovida os últimos acontecimentos. Isabel sente-se agora com coragem para lhe contar o que fazia a polícia, e ela mesma, na casa que ficara para trás há uma porrada de quilómetros. Intrigada com a sua aparente indiferença ostentada por um silêncio perturbador, como se nada tivesse, afinal, acontecido, naquela casa algarvia, dispara-lhe um e agora, qual é a tua ideia? Susana tão estranha e sem perder tempo responde um quero descobrir quem é o monstro! Secamente, peremptória, que Isabel abrandando o ritmo em que ambas se cruzam com as árvores das bermas da estrada, aliviando o pé direito, solta um longo suspiro...

Susana havia sido resgatada pela polícia. Melhor, pela GNR de Vila Nova de Milfontes, através da localização do número de telefone daquela estranha casa perdida num estranho e desconhecido lugar, número esse que ela, advertidamente, anotara no seu bloco-notas. Pelo que, através do telemóvel da Isabel, havia de ligar para o serviço informativo nacional e colher a morada daquela casa que não havia de ficar longe daquela vila alentejana. Conseguiu a vaga informação de Pousadas Velhas. Muito pouco, convenhamos. À entrada de Milfontes, estacionaram junto de um ciber-cafe ali existente e, a pretexto de um café com natas, meteram conversa com o empregado no sentido de localizarem o lugar de Pousadas Velhas. O complicado lá chegar para quem não conhece a zona não a demoveu pelo que resolveu-se por um rápido acesso à internet e, através do GoogleMaps, a sorte haveria de lhe sorrir. Digo a sorte mas, em boa verdade, era a perspicácia, a inteligência e a persistência na persecução dos seus intentos que lhe trariam sucesso na pesquisa. Lá estava o lugar no mapa, rodeado por dunas, pinhal, caminhos, provavelmente de areia ou terra batida e o mar. Isabel puxa do seu telemóvel e, como quem não quer a coisa, fotografa o ecrã por várias vezes, enquanto Susana vai alterando progressivamente a escala do mapa. Uma visita ao GoogleEarth permitiu consolidar a informação acabada de colher pelo que se apressaram a pagar e a sair.

Isabel conduzindo, Susana olhando as fotografias e cruzando mentalmente a parca informação do empregado do café, chegaram a uma rua, no lado mais a norte da Vila. Acabado o asfalto o jipe de Isabel não teve qualquer dificuldade em transpor os buracos do caminho – ora mole de areia, ora lamacento de terra – que se seguia à estrada. Susana retinha obsessivamente na sua mente o rosto daquele monstro, cativada pela sua ternura no olhar, esquecida do grotesco das suas feições. Passaram talvez vinte e tal minutos até que o Pára! de Susana desperta Isabel, concentrada num sucessivo e hipnotizante salta-pocinhas. Numa bifurcação, apostando no caminho mais estreito, um correr de sebes composto de pinheiros-silvestres prende-lhe a atenção e, aproximando-se, conta três degraus que antecedem um portão de entrada e entrevê o azul turquês de uma qualquer piscina. Mas, agora tem a certeza, aquela não é uma qualquer piscina, aquela não é uma qualquer casa caiada de branco com remates de amarelo, aqueles não são uns três vulgares degraus, caro leitor. Nem aqueles uns quaisquer pinheiros-silvestres. Esta é a casa do sequestro, absolutamente! Aparentemente vazia, sem movimento de pessoas ou veículos nas redondezas. Um nó no estômago não a desvia do seu objectivo: esta é a zona onde teve o encontro de primeiro grau com o seu Quasimodo, não havia dúvidas e, para confirmar, haviam de apear-se e reconhecer dunas e praia por onde tinha deambulado e fugido, anteriormente. Estacionaram debaixo de umas austrálias enormes, a cerca de um quilómetro daquela casa, e aventuraram-se por uma vereda que, subindo ligeiramente, as havia de levar a uma ampla planície de areia e vegetação rasteira, cheia de incontáveis caminhos paralelos e perpendiculares entre si, numa teia ou quadrícula imensa a perder de vista para norte e para sul. Um cordão de magníficas e majestosas dunas lembrando o deserto – até pela sua cor apimentada – separariam esta vasta planície ondulada da planura do mar. A praia seria por ali. Neste lugar isolado de invulgar beleza nada faria supor que, à noite, pudessem aparecer monstros e homens maus armados de pistolas. Inverosímil que tal pudesse acontecer aqui. Mas, a verdade de Susana era que tal tinha mesmo acontecido com ela, horas antes. Nem sinais de mostrengos ou casas, apenas gaivotas gritando – não sei se de aviso ou tentando indicar caminho –, sardões que tropeçavam nos pés daquelas duas criaturas meio perdidas naquele deserto e as cegonhas de pescoço esticado, completamente alheadas da presença humana.

Não se sabe ao certo quanto tempo passou, mas Isabel e Susana tinham-se embrenhado num pequeno bosque de pinheiros junto a uma duna muito alta, por um caminho não de areia mas de terra batida, quando se confrontam com pegadas frescas, talvez de botas montanheiras, avaliando os sulcos do piso do calçado deixados no enlameado. Susana imediatamente pressente o que ali adiante haveria de confirmar. Olhando as fotografias do mapa no telemóvel acreditam estar já bastante a norte de Milfontes e de Pousadas Velhas, bem próximo do Porto das Barcas. Ela conhece bem este portinho marítimo com algumas poucas casas de pescadores e uma ou outra casa de veraneio e um restaurante com vistas espectaculares sobre a pequena enseada de inúmeros barcos ancorados, aguardando a faina. Este não é um lugar para monstros, não senhor; este é um lugar de refúgio, de paz e de serenidade. Enquanto Susana se entorpecia nestes devaneios eis que algo lhe chama a atenção: um imenso aglomerado de figueiras da índia – cactos gigantescos ao correr da base de uma altíssima duna – formando um estranho rectângulo. Tinham para cima de dois metros e formavam uma cercadura, lugar perfeito para se ter uma casa de campo com vistas para os picos. Mas aquela não era uma casa de campo, era uma simples cabana construída em madeira de onde saía para leste um caminho de terra, perdendo-se num fantasmagórico emaranhado de pinheiros marítimos, perfeitamente alinhados e inclinados na direcção de sudoeste pelos ventos dominantes.

Aqui e neste momento, caro leitor, uma desconfortável constatação assenta no cérebro de Susana. Perturbador o facto de a sua casa se situar no monte da Fonte de Mouro, na cercania de Porto Côvo; a poucos quilómetros para sul, Porto das Barcas e esta cabana, quiçá, pertença de Quasimodo; continuando mais para sul, nestas redondezas, Pousadas Velhas e a casa do sequestro; e, ainda mais a sul, a casa de férias naquele maldito Algarve… Coincidência e, se o era, bem estranha e suspeita, não?! Tudo tão perto…

Susana sentia o coração nas veias, a respiração algo ofegante. Isabel, apertando-lhe a mão, puxou-a para si e apressaram a passada, redobrando cuidados até chegarem junto dos enormes cactos. Descobriram uma entrada por entre os picos medonhos e ameaçadores e estacaram de imediato no sentido de, apurando a visão e a audição, certificarem-se que não havia ninguém por perto. Dois passos mais e passaram a entrada, ficando a descoberto entre aquela inóspita cercadura e a pequena e velha cabana.

Será que é aqui que vive o meu Quasimodo?, questiona-se Susana.

Rodearam-na, tentando vislumbrar o seu interior através das quatro janelas e, quedando-se hesitantes junto à única porta de entrada, empurraram-na por estar entreaberta. Uns segundos mais e, não sentindo qualquer movimento, aventuram-se no interior naquela que era uma cozinha e sala numa única divisão. Olhando à volta demoradamente, completamente imóveis, reparam que atrás da porta existe um armário alto e estreito, com duas portas de alto a baixo em que uma delas se encontra aberta e uma luva preta no chão. Isabel, enchendo-se de coragem nesta devassa de propriedade alheia, abre totalmente as portas, de par em par. Ficam ambas estarrecidas com o que descobrem: além de um par de luvas – o que em si mesmo nada tem de especial – encontram pendurados num cabide um fato inteiriço preto, uma cabeleira postiça quase completamente calva e uma caixa, também preta, o que também não tem nada do outro mundo. O que tem quase do outro mundo é o que guarda a caixa: uma máscara de silicone da cor de pele que provoca em Susana um grito e um arredar incontidos. A sua perplexidade assenta como uma luva naquela máscara. Só lhe faltam, no sítio dos buracos, uns olhos doces para que aquele seja o rosto do seu anjo protector. Isabel percebe tudo o que vai na cabeça de Susana, abraça-a sem trocar uma palavra e pega cuidadosamente naquela máscara grotesca tão perfeita, tão verdadeiro este invólucro simulacro, tão humano…!

Olhando novamente ao redor, os olhos de Isabel detêm-se por baixo da mesa corroída da sala. Na saliência redonda e proeminente do velho soalho desbotado, por baixo de um velho tapete árabe, ainda com migalhas de pão. Susana, ajoelhando-se e levantando a ponta do tapete, descobre uma argola como sendo o puxador de um alçapão. Olhando-se cúmplices nem foi necessário combinarem estratégias. Havia que descobrir o que havia escondido debaixo daquele chão e, para isso, com todo o cuidado, arrastaram um pouco a mesa e, enquanto Isabel enrolava uma ponta do tapete, Susana pega na argola e puxa. Puxa e nada. Isabel ajuda até que, muito lentamente e evitando ruídos, conseguem levantar e pousar aberto aquele pesado alçapão. Percebem uma escada estreita, íngreme e a escuridão total lá em baixo. Ficam alguns segundos como que recuperando forças para a descida que se impunha. Susana foi a primeira a escorregar para aquele abismo, procurando, debalde, um interruptor de luz. Não teve outro remédio que usar o isqueiro da Isabel. Descem cuidadosamente, pé ante pé, degrau a degrau que eram sete e chegam a uma porta fechada apenas com o trinco. Cuidadosamente empurram-na, rangendo, completamente para trás. A chama impotente para alumiar o que quer que fosse apenas serviu para que descobrissem, finalmente, um interruptor na parede. Isabel, tomando a dianteira, aventura-se naquele gesto trivial mas agora ousado de acender a luz da cave sombria.

Várias luzes brancas, muito brancas, se acendem no tecto e ambas ficam paralisadas com o que aquela claridade lhes revela. Perante um novo mistério, tomam consciência do lugar onde se encontram: sala ampla constituída por uma única divisão e um grande biombo a dividir o espaço que deveria ser maior do que a própria cabana, prolongando-se muito para além da área da casa, portanto. As paredes, o chão e o tecto pintados de um branco irrepreensível e, apesar de não existir qualquer janela, aquele espaço era luminoso e agradável, contrastando com o piso superior. À direita, a toda a largura da cave, existem três monitores, sendo que um deles ligado. Aproximaram-se e reparam que aquela que parecia ser uma imagem de um quarto de dormir era – nada mais, nada menos – a imagem do quarto de dormir… de Susana! Sem perceber o que estava a passar naquele canal de TV não lhe subsistia qualquer dúvida que aquele era o seu próprio quarto, a sua própria cama, a sua própria colcha e, em tempo real, avaliando as 13:33h do seu despertador. Estarrecida, olhando Isabel nos olhos e neles vendo a sua própria indignação reflectida, permaneceu imóvel sem perceber patavina de tudo aquilo. A cabeça rodava por dentro a velocidade vertiginosa tentando alinhar pensamentos mas, qual quê, nada conseguia fazer sentido naquela pobre cabecinha.

Nas paredes lisas apenas havia umas prateleiras cheias de livros de medicina e anatomia. Uma banca comprida repleta de ampolas cheias e vazias, frascos e tubos, instrumentação cirúrgica, etc. E um armário enorme cheio de mais frascos e caixas de medicamentos, ladeado por um pequeno frigorífico e uma arca congeladora. Pensaram mas não lhes sobrou tempo de se atreveram a abrir a arca… Um barulho de batimentos secos e ritmados vindo do outro lado do biombo suscitou-lhes maior interesse e curiosidade. E medo! Enquanto se dirigiam ao lado oculto da sala, Isabel aproveitou para fechar a porta e redobrar a acuidade auditiva enquanto Susana, avançando um pouco mais e, deitando mão à cortina branca plastificada, intenta fazê-la correr ao longo do varão preso no tecto. À medida que vagarosamente a vai fazendo deslizar, depara-se com vários aparelhos de que não sabe os nomes, utilizados nas enfermarias dos hospitais. Mais, a pouco e pouco, todo aquele cenário lhe vai dando a sensação de que se encontra numa qualquer UCI de um qualquer hospital de uma qualquer cidade. Até pelo odor que paira naquele lugar subterrâneo envolto em éter e mistério. Luzinhas da instrumentação que piscam; abrindo mais o biombo, monitores que diante dos seus olhos incrédulos lhes mostram gráficos e curvas sinusoidais esverdeadas; números que acrescentam e diminuem noutro monitor, abrindo ainda mais o biombo.

Esta é a parte em que as intrusas teriam preferido, talvez, nunca terem entrado naquela casa, vasculhando e devassando o que lhes não pertence e correndo riscos, sabe-se lá, de morte!

Lado a lado, duas marquesas. À cabeceira de cada uma delas, tripés com frascos de soro ou outra qualquer droga pingando. Duas máquinas de respiração assistida e vários tubos e fios percorrem pendentes o espaço que medeia entre os aparelhos e o debaixo de ambos os lençóis de um branco irrepreensível que cobrem dos pés – se é que são pés – à cabeça – se é que é cabeça – dois corpos – se é que são corpos.

Afigura-se-lhes – pelo tamanho, volume e contorno – que ali alguém jaz. Até porque, reparando com atenção, há um ritmado oscilar para cima e para baixo daquilo que parece ser um corpo, um peito.

Toda aquela panóplia de tubos e fios se esconde por baixo dos lençóis. Debaixo dos lençóis há uma panóplia de mistérios que se escondem dos nossos olhos e entendimento.

Susana olha Isabel ao seu lado, não se sabe se pedindo ou incutindo coragem para o que, agora e com urgência, se impõe. Está-se mesmo a ver, Susana não descarta, e aproximando-se receosas de cada uma das marquesas até ao lugar das cabeças – se é que são cabeças – e, agarrando sincronizadas nas pontas de cada um dos lençóis… zás, para trás! Os lençóis… e elas.

Ambas recuam, um grito abafado se solta da garganta de Isabel enquanto a atónita Susana não quer acreditar no que vê. Começa a chorar convulsivamente, abraçando-se com força a Isabel, sem desviar o olhar daquilo. Dois corpos que jazem lado a lado, nus, apenas encobertos por um lençol de um branco irrepreensível, cheios de tubos no nariz, na boca, eléctrodos no tronco, pés e cabeça e máscaras de respiração artificial para além do líquido que lhes entra pelas veias.

Como é medonha esta cave às 13:40 da tarde…

As duas amigas estão em estado de choque e leva algum tempo até que recuperem. Petrificadas, permanecem abraçadas e Isabel não sabe o que dizer, apenas não consegue dizer…

Olhando aqueles dois corpos vivos, um homem e uma mulher. Que fazem ali? A que experiências sujeitos?

Porque vêem naqueles rostos os rostos de Paulo e Susana?

Porque são aqueles corpos os corpos de Paulo e Susana?

Dois rostos de olhos abertos – autênticas máscaras chinesas – inertes, sem expressão ou emoção, invocam e suscitam misteriosos desígnios, sabe-se lá de quem e para quê.

Soluçando, com o ranho deslizando pelos lábios, Susana – como se vendo ao espelho e não se reconhecendo – sente-se uma estranha dentro do seu próprio corpo, sente a alma no cérebro…

Quem sou eu, meu deus?




José Manuel Barbosa

20/09/11

A Década De Todas As Suspeições - Parte 14

Entrar naquela casa parecia ainda mais difícil do que sair. Tocou à campainha mas ninguém respondeu. Com a ajuda do seu amigo Quasimodo saltou pelo mesmo sítio por onde tinha descido e caiu redonda no meio do pátio. Reinava o silêncio e a serenidade. Voltou a olhar para piscina de água azul turquês e pensou que numa outra circunstância aquela casa, aquele pátio e aquela piscina poderiam ter-lhe proporcionado momentos muito agradáveis.

Pé ante pé, com o mínimo ruído possível, entrou na casa, fazendo o caminho inverso ao que tinha percorrido poucas horas antes. O silêncio era ensurdecedor e deixava-a ainda mais angustiada. Percorreu toda a casa, entrou em cada uma das divisões e concluiu que tudo estava vazio. Nenhum sinal de Glória. Nenhum sinal de Caetano. Para onde teriam eles ido? Estariam juntos? Afinal o que se estava a passar ali?

Susana sentou-se na cama onde tinha acordado naquela noite e tentou reflectir sobre tudo o que se tinha passado nas últimas horas. Tentou achar um fio à meada. Mas estava cada vez mais confusa quando se lembrou que o seu amigo a esperava do lado de fora do muro. Voltou a sair em direcção ao pátio e desceu os três degraus que antecediam o portão de entrada. Lá fora não estava ninguém. A rua estava vazia. Confusa, voltou para dentro de casa e foi então que reparou em duas hortênsias colocadas ao lado do portão. Pegou nelas num gesto banal e descobriu que escondiam uma arma. Seria a arma que horas antes esteve colada ao seu corpo? Para onde teria ido aquele ser assustador de olhar doce?

Dentro de casa, cada vez mais confusa e perturbada, decidiu que o melhor era pedir ajuda. Desta vez não estava para meias medidas. Se não percebesse depressa o que se passava quem enlouqueceria era ela. Olhou à sua volta e viu um telefone. Decidiu que o melhor era ligar para o 112. Afinal ela nem sabia onde estava. Não reconhecia a casa, não reconhecia a rua, não reconhecia a praia. Pegou no telefone e ligou, eles saberiam como a encontrar e como a ajudar.

- Mas a senhora não sabe mesmo como veio aqui parar? Não se lembra de nada? – Perguntava o inspector Renato estupefacto com toda a história que ouvira da boca de Susana.

A conversa durou o que a Susana pareceu uma eternidade. Enquanto ela contava todos os pormenores que se lembrava ao inspector, a restante equipa fazia uma perícia pela casa em busca de algumas respostas.

O dia já tinha nascido quando Susana chegou finalmente à casa que tinha alugado no Algarve com o objectivo de passar uns dias tranquilos. Isabel estava à sua espera no jardim. Nesse momento Susana sentiu uma vontade imensa de abraçar a amiga e chorar sem parar. De tão perturbada que estava nem reparou que à porta estava um carro da polícia e que havia muito movimento dentro da casa.

- Tenho uma coisa muito difícil para te contar minha querida… - Disse Isabel ao abraçar a amiga.

- Não me digas nada Isabel! Só quero um abraço! – Respondeu Susana sem a mínima desconfiança que dentro da casa estava Paulo, deitado na cama onde ambos tinham tido momentos fantásticos na noite anterior, morto!

Susana Fonseca

10/09/11

A Década De Todas As Suspeições - Parte 13

Pensou terem sido breves os instantes caídos na noite, mais escura que a noite real. Mas, quando abriu os olhos, desejou não ter acordado. À sua frente, com o rosto quase colado ao seu, um inimaginável e fantasmagórico vulto a que a prateada luz de lua cheia apenas realçava a monstruosidade, debruçava-se sobre si. Teve medo. Arrastou as costas, ligeira como sardanisca sobre a areia a que, em vão, se tentou agarrar. O coração batia desenfreadamente, as pernas e os braços ordenavam que se levantasse, que fugisse, que a tirassem daquela situação irreal que não podia estar a acontecer fora de um sonho. De um pesadelo. Mas o cérebro não lhe obedecia. E o único gesto permitido era o de continuar a arrastar-se na busca de uma salvação que sabia não existir. Estava nas mãos do destino que, a acreditar no que via, só podia ser a morte.

O rosto dele acompanhava o seu rastejar. O bafo de uma respiração ofegante chegava-lhe às narinas ofendidas pelo hálito emanado de uma boca que tentava sorrir. E onde, mesmo à luz do luar, Susana apenas vislumbrava raros dentes numa caverna repulsiva. O rosto do homem tinha o formato de um balão rugoso e escuro de onde umas farripas incertas se desprendiam de uma quase calvície. Não falava. A par da acelerada respiração e da baba que mesmo no escuro parecia brilhar, saíam apenas urros que Susana apenas interpretou como animalesco desejo. E num esforço surreal, conseguiu gritar. Sem saber a quê, a quem. Se às gaivotas adormecidas, se à face zombeteira da lua, se ao ribombar das ondas, libertou um grito feroz com todo o ar contido nos pulmões. Mas uma mão vigorosa, sapuda, logo lhe tapou os lábios, emudecendo-a. Tentou soltar-se, contorcer-se energicamente para que ele a libertasse enquanto calculou, pensou, soube, que aquele homem a iria violar. Mas foi então que lhe viu os olhos. Uns olhos doces, acriançados, erroneamente metidos num rosto de demónio, pareciam pedir-lhe que não gritasse, que não se mexesse. Ao mesmo tempo que o seu pesado corpo a prendia às areias moles da praia. Mas ela não podia ter sentimentos eventualmente perigosos naquele momento. Os seus mais recônditos instintos maternais não eram para ali chamados. Apenas uma palavra urgia: libertar-se.

E mudou a estratégia. Mostrou-se vencida e, agora inerte, deixou que ele acreditasse que não iria resistir mais. E ele acreditou. Ela sentiu-o nos olhos ternos que agora sorriam, no relaxar do corpo que abusivamente oprimia o seu, no espaço e na liberdade que, subitamente, lhe dava. E quis falar. Mas da sua boca defeituosa apenas saíam sons ininteligíveis. Tentativas de palavras sopradas e ansiosas em comunicar-lhe algo que ela não queria sequer interpretar. Porque na sua mente, imperava apenas uma: libertar-se.

Subitamente, imprevisivelmente para ele, o seu corpo rodou, as mãos fixaram-se, o corpo elevou-se e as pernas, finalmente, como que rodaram sobre a areia traiçoeira. E correu. Correu. Como que absorvendo todo o ar, o fresco da noite e até as gotas do mar salgado que pareciam queimá-la por dentro, correu. Até não poder mais. Até que o coração continuasse a bombear na procura do oxigénio perdido. Quando recuperou, olhou para trás. Mas no horizonte apenas se vislumbravam dunas que podiam esconder segredos, e pessoas. Só elas e a vegetação rasteira como pêlos se via. Porque, o sentir, esse era diferente. Como que um aguçado pau, frio e assustador, encostava-se aos seus rins.

Virou-se e, à distância de um braço esticado com uma pistola na mão, estava o Caetano. Que começou por sorrir, rir, até que da sua garganta soou uma gargalhada estridente e ofensiva que, de novo, a petrificou.

- Onde pensavas que ias, querida?

- Que queres de mim? – conseguiu balbuciar Susana.

- Não te passa pela cabeça – disse, dando continuidade ao riso – mas não tardarás em sabê-lo.

E, nesse instante, sem pestanejar, sem mover um músculo, Susana vê que nas costas de Caetano surge o seu Quasimodo – assim o apelidou - subitamente transformado em seu anjo privativo. Ainda viu que tinha um andar estranho, um ligeiro coxear. Antes de ver que as suas mãos se encaixavam e se elevavam caindo depois sobre o pescoço do seu novo sequestrador que, de imediato e largando a pistola, tombou inanimado sobre as areias da praia.

Quasimodo apanhou a pistola, deu-lhe a mão, e com o seu leve coxear mostrou-se decidido a tirá-la dali. E Susana deixou-se levar até que de repente parou. E Glória? Culpada ou inocente? E quem era este Quasimodo? Teria andado a espiá-la e saberia tudo dela? Que se estaria a passar na casa de onde fugira? E se Glória fosse apenas refém? Não. Teria de lá voltar. Sem largar a mão do seu novo amigo, apontou com os olhos na direcção de onde estaria a casa. E ele pareceu compreender, sorrindo.

Sob o olhar cúmplice da Lua, seguiram cautelosos para onde ela nunca pensara em voltar. Mas, agora, sentia ter consigo a cobertura de um anjo protector.

João J. A. Madeira

07/09/11

A Década de Todas as Suspeições - Parte 12

(Susana) - O novo Salazar? Isso é uma loucura sem nexo.


Susana tinha a sua mente em tumulto, já não sabia em quem acreditar... Sôfrego se tornara o seu «Estar» nos últimos dias!

O suposto delírio, que coabitava nas palavras de Glória, queria-a forçosamente desposar. Glória pretendia espremer até à exaustão a sanidade de Susana, era este o seu maquiavélico objectivo.

Fugira do hospital psiquiátrico com a ajuda do seu admirador Caetano, o seu inocente aliado nos acontecimentos que adviriam.

Este fora, sob disfarce, o empregado de mesa que serviu a Susana e Paulo, no jantar da noite anterior, um vinho alentejano de trago singular, subtilmente desvirtuado por um suplemento-extra de sedativos.
Sequestrara Susana durante o sono, sem Paulo despertar do seu estado de torpor, e enclausurou-a naquela frígida casa... O esquema perfeito!


(Glória) - Susana acredita em mim, sei que abandonei a nossa amizade em prol de um amor obsessivo. Perdoa-me. Por favor, perdoa-me!


Suplicou, desfeita em lágrimas, e abraçou-a com vigor, ao mesmo tempo que disfarçadamente a apunhalava pelas costas com um sorriso desleal.
Mas, Susana tinha um sexto sentido apurado, que se revelaria o seu anjo-salvador, e sentiu que havia algo de errado no comportamento de Glória.

Duvidando de Glória e na incerteza do lado para o qual pendia a verdade, estrategicamente optou por ultimar a sua fuga daquele local incógnito. Jamais voltou a falar na saída das duas dali, e durante horas a fio compactuou com os falsetes de Glória.

Com o recolher do sol a penumbra chegou, os olhos de Susana viraram farolim, o seu sangue estagnou com o hibernar da pulsação, os seus passos tornaram-se inaudíveis na socapa da noite... Aproximava-se o momento da arquitectada fuga!

Havia na parede do quarto um relógio de pêndulo que tiquetaqueou as três da manhã.

Susana, que simulava que dormia, levantou-se cuidadosamente e, na ponta dos pés, dirigiu-se à porta de acesso ao pátio. Foi nesse preciso momento que ouviu atrás de si algo a ranger, olhou de relance e viu o vulto de Caetano no hall de entrada.

De imediato ocultou-se no negrume da sala, enfiou-se por detrás do encorpado cortinado em Linho, um milagroso manto de invisibilidade com origens em Mértola, e mortificou-se por minutos... Cúmplice, a Lua observava-a através daquela janela a poente!

Mal deixou de vislumbrar aquele semblante, irredutívelmente mais austero à meia-luz, vestiu a emblemática coragem e saiu sorrateira para o pátio. Suspirou de alivio por Caetano não a detectar.

Num impulso de sobrevivência saltou com agilidade o muro adornado pelas sebes de pinheiros-silvestres.

Inesperadamente na confusão de movimentos escaqueirou-se no chão um vaso de hortenses azuis, rasgando o silêncio da noite.
Caetano fisgou o olhar na direcção daquele som e acelerou o passo ao seu encalço.

Susana atarantada e assustada começou a correr pelo areal com o desconhecido horizonte como meta. O seu coração pulsava desenfreadamente, estava ofegante e desnorteada, a areia parecia-lhe movediça e os  músculos atrofiados.

Apesar de tantos enleios a Lua, que continuava a observá-la atentamente, pareceu-lhe de relance familiar... Lá estava novamente o seu sexto sentido em acção!


(Caetano) - Onde pensas que vais? Não tens escapatória possível neste fim do mundo.


Ecoou com um tom ameaçador e uma voz estridente, ensurdecendo o próprio quebrar das ondas.

Susana sem olhar para trás conseguia sentir Caetano, a sua respiração ofensiva e o galope da investida.
Não aguentaria muito mais, as forças estavam-na a abandonar.

Para que ele a perdesse de mira insinuou-se pelos labirínticos bancos de areia das dunas. Nessa ocasião uma mão agarra-lhe o braço esquerdo e imobiliza-a... Um forte arrepio invade-lhe o corpo e em micro-segundos "perde os sentidos"!

Marlene Quintinha

24/08/11

A Década De Todas As Suspeições - Parte 11


Tudo levava a crer que o único propósito daquele temporal infernal era endoidecer a pobre diabo da Susana. Lá amainou antes da madrugada, o céu desanuviou no dia seguinte e, assim que a maré vazou, também seria de supor que o passado mais recente assim o fizesse da sua mente.
A memória mais imediata foi a de Paulo deitado ao seu lado, arrojou largo o braço nessa direção para lhe sentir o calor do peito a pulsar, em vez disso, sentiu o vazio frio de um lugar amplo de nada. Foi o baque dessa surpresa o que a despertou em definitivo. Esperava tê-lo ali, junto dela, protegendo-a dos últimos resquícios da tormenta da noite anterior, e o primeiro embate da sua ausência crispou-lhe os sentidos em atenção.
- Um sonho! Terei sonhado tudo? – Desenhou-se-lhe a ideia nos interstícios do pensamento.
Levantou-se bruscamente e notou uma estranheza de novidade em tudo quanto observava. Aquele quarto não era o seu, não eram os seus objetos e roupas que o decoravam, e tudo em redor era novo, diferente do que ela lembrava ser. Saiu do quarto instigada pela curiosidade e a tensão do espanto acompanhava-a em cada passo que dava, aquela casa não lhe era familiar. Encontrou uma porta de vidro anodizada a alumínio lacado, abriu-a, e deparou-se-lhe um pátio luminoso, caiado a branco com remates de amarelo, um pequeno coberto ao fundo, de vigas fortes em madeira clara, que encimavam uma mesa e quatro cadeiras, e um pequeno nicho ao canto, em tijolo de burro, chamuscado num negrume de braseiro, ainda com a grelha do churrasco lá enfiada. No centro deste espaço rodeado a altas sebes de pinheiros-silvestres, jazia plácido, o fosso refulgente, azul turquês de uma piscina. Aproximou-se da água e observou a superfície ondulante salpicada de pequenos insetos e caruma. Imaginou terem sido arrastados pelos ventos fortes da noite anterior. Porém, tinha agora a certeza absoluta, de que aquela não era definitivamente a casa onde se deitara nessa noite.
Susana não foi nunca pessoa para ceder a medos, todavia, uma onda tímida de pânico começava a levantar-se no seu interior, apoderando-se do seu sentido analítico de senso comum. Retornou ao interior da casa e explorou cada recanto, chamando pelo seu nome enquanto o remexia. Nem se tomara conta de que o fazia num estado de nudez absoluta, mas não era o seu corpo exposto a maior das suas preocupações, mais a apoquentava o desconhecido daquela casa, e sobretudo, como havia lá chegado sem ter qualquer recordação disso.
Por fim encontrara um foco de interesse. Uma porta que ainda não devassara na sua demanda implacável pela descoberta da verdade. Entrou pela porta sentindo que penetrava nas fauces de um ser de pedra e sombras. Uma prensa apertava-lhe as têmporas ao rodar aquela maçaneta, e um perfume familiar revirava-lhe as tripas num medo primitivo que se sentia incapaz de explicar.
- Glória! – Exclamou ao vislumbrar o corpo descambado da mulher atirado ao abandono daquele quarto. – O que fazes tu aqui?
- Fala baixo. – Sussurrou-lhe a amiga em resposta. – Ele anda perto.
Susana tapou-se com as mãos, perplexa, refugiando-se no interior do quarto. Os seus olhos demoraram alguns segundos a adaptarem-se ao que viam. A conveniência de simplificar aquele organismo humano ali desterrado, parecia-lhe antiquado, com muitas funções inúteis ou repetidas, que nada pareciam ter a ver com a realidade.
As ideias más vem sempre aos pares, e não conseguiu suste-las na penumbra do quarto. Glória mirava-a como se lhe dissesse: Eu avisei-te!
- Quer dizer que era verdade? – Intuiu Susana, ainda que nenhuma pergunta se lhe tivesse sido colocada.
- Bem que te disse que não podíamos ser capturadas as duas. – Afirmava Glória confirmando-lhe os receios. – Agora já está. Não deverias ter confiado no Paulo.
- Oh, mas foi tão bom, não posso acreditar que não tivesse sido real. Não me vou entregar prematuramente a uma ideia disparatada... – A sua expressão alterou-se no passar de uma brisa momentânea. – Só queria divertir-me com ele, como nos velhos tempos. – Disse ela, expiando as emoções desgovernadas.
- Como?
- Tu sabes. – Replicou Susana. – Sentir-me feliz.
- Feliz como? – Questionou-a a amiga.
- Assim, assim como foi esta noite. Feliz.
- Devias ter cuidado. – Advertiu-a Glória.
- Por favor..logo tu.
- Muito bem, eu entendo a tua renitência, mas se assim o queres só te posso advertir para o perigo que corres.
- Quem, tu? – Interrogou Susana. – Tu alvejaste-me movida pelo ciúme. Podias ter-me matado! Vou lá agora fazer fé no que tu me dizes.
- Por favor.. – Insistia Glória. – Ouve-me com atenção, e devagar..
- Devagar?
- Sim, devagar. – Assentava a palavra. – Devagar! Porque o caso não é para menos. Lembras-te do que aconteceu em Lisboa?
- Sim.
- Eu disparei, é certo. Mas não eras tu o meu alvo. Queria por um fim neste pesadelo. Queria matar o Paulo.
- Querias matar o Paulo? Tu estás mesmo louca...
- Susy...tu continuas a não querer abrir os olhos. A não quereres acreditar.
O calor lá fora era uma tentação tão grande. Mas Susana foi obrigada a interromper-se na resposta que lhe dirigiria, a fingir-se de forte, por ambas.
- Vamos sair daqui as duas. Isto é uma loucura, recuso-me a acreditar que seja verdade.
O semblante de desalento de Glória revelava-lhe a futilidade da sua bravata.
- Acredita! – Dizia-lhe esta. – Estamos as duas aqui presas. Também eu confiei em quem não devia, e o resultado está à vista.
- Quem? – Inquiriu Susana.
- O Caetano. Lembras-te dele. Sempre teve um fraquinho por mim. Pensei jogar isso a meu favor, e quando dei por mim, estava aqui.
- Deus! – Exclamou Susana, já liberta da negação que alvitrava. – Toda aquela história dos clones, do Salazar, afinal era..
- Verdade! – Afirmava Glória, interrompendo-a. – Porquê que não acreditaste em mim?
- Impossível.
- Não, não é. De algum modo eles conseguiram-no. O meu padrinho..Meu Deus! O meu querido padrinho é o objeto das suas maquinações. Não sei como não me apercebi disso antes, mas é verdade. Aníbal Costa, para o bem ou para o mal, é o novo Salazar.
Casimiro Teixeira

11/08/11

A Década De Todas As Suspeições - Parte 10

Susana saiu do lar sem ter conseguido falar com o padrinho Costa e sem ter desvendado o mistério do clone de Salazar e da sua ligação com eles os três, o Paulo, a Glória e ela.

Depois de muito pensar, decidiu voltar para o Algarve. Afinal ainda tinha mais uns dias de férias e tinha alugado a casa por uma semana. Queria aproveitar esses dias na praia e além disso o Paulo disse-lhe que ia a Lisboa, mas que voltava dentro de dois ou três dias.
O melhor era esperar por ele lá!

No regresso, passou pelo Alentejo e deixou lá a amiga Isabel.

No dia seguinte, o Paulo voltou! Encontrou a Susana sentada no terraço a ler um livro e provavelmente com o pensamento longe, que nem deu pela sua chegada.
Ele ficou a observá-la a uma certa distância.

Susana levantou-se, dirigiu-se à praia e sentou-se na areia mesmo à beira-mar. Ficou ali sentada, com os olhos perdidos nas ondas e no infinito daquele azul. Algo a fez olhar para trás. Como num sonho, Paulo estava a descer as escadas de acesso à praia e foi sentar-se ao seu lado. Ela olhou para ele e sorriu. Os dois ficaram em silêncio por alguns momentos a observar o pôr-do-sol.

Deram um longo passeio pela praia. Falaram das saudades que tiveram um do outro, de como o Paulo lamentava tê-la trocado pela Glória, de como ela sentia a falta dele… Recordaram como eram felizes, antes da Glória se ter metido entre os dois….

A lua apareceu lá no alto e os dois não resistiram mais e deram um longo beijo.
Finalmente o tão esperado encontro romântico!

- Há tanto tempo que eu ansiava por este encontro – diz Susana.

- Nem imaginas as saudades que eu tinha dos teus beijos! – Responde o Paulo.

Jantaram numa esplanada, ao som de música jazz e das ondas que vinham de mansinho bater na areia.
Estava uma noite tão linda!...

Depois do jantar foram para casa e sentaram-se no terraço. A Susana não podia adiar mais o assunto sobre o encontro dos três, ele, ela e a Glória, dois dias antes.

- O que foste fazer a Lisboa? Tinhas logo de ir a correr atrás da Glória! - Começa ela por dizer.

- Fui por causa dela, mas não é o que imaginas… - responde ele prontamente. - Depois de me teres telefonado, a Glória começou a fazer uma cena de ciúmes…
Tivemos uma discussão e eu descobri tudo o que se tinha passado na noite anterior no Poço do Bispo. Ela disse-me que tu me tinhas seguido naquela noite, mas eu descobri que ela nos seguiu, também. Ela acabou por confessar que te deu um tiro, mas que tu tinhas conseguido escapar sem teres sido atingida. Ela deu-te um tiro por ciúmes, com medo que eu a deixasse e voltasse para ti!

- Meu Deus, ela queria mesmo matar-me ou só assustar-me? Nem sei como consegui fugir! - Exclama Susana com surpresa e horrorizada. – Eu não sabia que o tiro era para mim, nem quem o tinha dado, nem vi a Glória…

- Além de tudo isto, depois de ter saído do Algarve, a Glória foi ao lar, onde estava a viver o padrinho dela e levou-o para casa – continua o Paulo.

- Levou-o para casa porquê? – Pergunta a Susana.

- Não sei porque o levou, nem sei o que teria acontecido se eu não tenho chegado entretanto. Ela está completamente louca, inventa histórias e não tem noção do que faz. Ela teve uma depressão há algum tempo e agora andava em tratamento – responde o Paulo.

Pela cabeça da Susana, passa toda a conversa da Glória sobre o Paulo e o clone de Salazar e constata, que realmente a Glória só podia mesmo estar louca!

- Depois destas loucuras todas da Glória, o que querias que eu fizesse? Exclama Paulo – Hoje, de manhã, fui internar a Glória ao Hospital Júlio de Matos e fui levar o padrinho dela, o Aníbal Costa, ao lar, local de onde nunca deveria ter saído.
Não a denunciei à polícia, prefiro que sejas tu a decidir o que fazer com ela.

- Ai Paulo, nem sei o que dizer…

- Agora acabou tudo de vez entre mim e a Glória! Diz o Paulo.

Susana não contou que tinha ido ao lar com a Isabel. Ela estava completamente incrédula com o relato. Sentia um misto de ódio e pena da ex. amiga, mas um alívio por ela ter desaparecido, de vez, da vida deles.

- Não sei se vou apresentar queixa da Glória à polícia, hoje não quero pensar nisso, tenho algo muito melhor para pensar… em ti! Amanhã decido o que fazer com ela. – Diz Susana.

Susana e Paulo foram para a cama, tinham aquela noite só para eles…

- Tanta emoção em tão poucos dias – pensa Susana.

Finalmente, adormeceram nos braços um do outro.

Dina Rodrigues