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23/05/23

Estendais - Capítulo 16 - Final

 


         João - 7º Esq.

 

“Espelho meu, espelho meu. Há alguém mais belo que eu?”

Oh, como esta frase me invade sempre que do espelho me acerco. Mas a perfeição, a requintada mão da Natureza quando está nos seus dias, faz obras assim, como esta que vejo à minha frente. Eu sou qualquer coisa de sublime. E não me canso por isso de me ver ao espelho. Tão repetidamente que tenho já a certeza que ao afastar-me o meu reflexo permanece nele por tão vincado estar (facto confirmado quando um dia, pé ante pé, me aproximei sorrateiramente e vi que sim, que estava lá). Por acasos do destino, nunca me terei cruzado com um pintor. Estaria certamente, se tal tivesse acontecido, já eternizado numa tela semelhante ao mais belo quadro de sempre, a obra-prima por excelência: O Menino da Lágrima. Claro que as pessoas, tacanhas como são, dizem que não e eu faço-lhes a vontade dizendo que sim, que a obra-prima são aqueles riscos a preto e branco com um cavalo à rasca, um boi mal-encarado e bonecos mal feitos pelo chão; ou então aquele relógio derretido ou a gaja do riso sonso. Como todos saberão, eu próprio me poderia auto-retratar – já vários me elogiaram o traço – mas não o faço. Eu, que dou brilho a tudo aquilo a que me dedico, se há coisa que detesto é falta de modéstia. Razão, afinal – esta minha simplicidade – de estar aqui e, só aparentemente, ninguém dar por mim.

Mas eu conheço o motivo para que isso aconteça. Desdém. E quem desdenha… Quer comprar. Isso mesmo! E todas por aqui forçam esse desdém, sem que se apercebam de quanto se denunciam no desejo encapotado. A única com algum atrevimento foi a Guida, ainda que a Estela tenha deitado a escada também. Mas estão bem iludidas. Um homem como eu, não é escolhido, escolhe. Se bem que até as compreenda, às descaradas e às desdenhosas. Uma figura assim, elegante, nuvem de másculos perfumes a inebriar até o oscilar do elevador que por pouco não desfalece, pose altiva e intelectual, nunca é coisa que se deite fora. Admiram tudo o que vêem em mim: roupa fina, pele delicada, gestos elegantes sem perda de masculinidade. E ainda elas não viram a minha colecção de livros imaculados, sem sublinhados ridículos, capas ou folhas dobradas. Ou a música que ouço. Não, minto, dessa já se deram conta. Os solos de piano Estradivários que voam pela janela aberta em notas de Sol e Dó. Mal sabem as canseiras que isso me dá. Como não tenho aparelhagem – penhorada por razões que não interessam, mas me fazem viver aqui – o que toca é um roufenho rádio na Antena 2. Mas quando prevejo que o tema está a acabar, tenho de correr para baixar o som antes que chegue a voz do locutor que denunciaria o gira-discos que não tenho. Claro que nem sempre consigo chegar a tempo, mas quando isso acontece todos ficam a pensar que é um tal Pedro do 4º Dto. a roncar que nem um Chaikovski. Sim, porque também aqui moram homens. Uns paneleirotes. Nem sequer me estorvam na estratégia. Elas é que são estranhas, carregadas de segredos. Creio bem que algumas nem o seu nome verdadeiro usam; e quem se serve de pseudo-anónimos ou lá como é que isso se chama, é porque alguma marosca esconde. Já diz o outro, “quem cabritos vende e cabras não tem…”, bom, não sei bem onde é que isto se aplica, mas vocês percebem o que quero dizer. Adiante…

Hoje é o grande dia. Sempre fui um grande estratega e quando meto uma coisa na pinha, nada há que me demova. E perguntarão vocês: “Porquê, hoje?”. Porque as estratégias são mesmo assim. Coisas que podiam ser feitas nos dias anteriores ou deixar-se para um dos dias seguintes, não senhor, são feitas naquele dia. Só pessoas com a minha capacidade conseguem ter largueza de espírito para decidir pelo exacto momento de actuar. Já imaginaram o 25 de Abril ter sido levado a cabo no dia 24? Ou o 1º de Dezembro ter sido em Agosto quando está tudo de férias? Não, as coisas devem fazer-se segundo uma ordem que só os grandes cérebros conseguem vislumbrar. E hoje é o dia. É o dia de ser eu a visitar o 8, que é como quem diz o 3113 que somado dá 8. Dois buracos encavalitados, dos quais algum se há-de tapar até que só reste o outro. Um buraco como um zero, que é onde tudo começa. Hoje, quando surpreendentemente me virem entrar lá nesse 8, com a minha beleza de macho que todos invejam, a perspicácia no olhar que todos apreciam, a minha pose que todos admiram, em suma, a minha personalidade, quais Pedros, quais Euclides, Davides ou Josés, essas aberrações de género que só pensam em petiscadas e picnics. Elas, nomes falsos ou verdadeiros, pudicas ou descaradas, virgens como as florestas ou visitadas como a Torre de Belém, pulularão como abelhas à volta do doce mel que sou eu. E eu escolherei uma, uma só, que mais que isso é bacanal. Amanhã vos contarei. Não saiam daí.

*

Eu vou dar cabo desta merda toda. Ai, vou! Uma das mais ignóbeis traições a que já me sujeitei. Elas viram-me entrar e viraram-me a cara. Não apreciaram os sapatos Gucci, o meu fato Zegna, o meu perfume Chanel, nada! E eu vou rebentar com isto à bomba, oh, se vou! Gente ingrata, mal-agradecida que não dá valor ao que a rodeia. Ainda pensei inicialmente que o mal estivesse no nevoeiro nicotinado que alagava a sala, no barulho ensurdecedor que toldava os ouvidos e as distraíam da minha presença e, descarado, impus a minha presença pedindo lume à Sara. Qual quê! Que me desviasse depressa, que lhe estragava as vistas, disse ela. Para onde?, perguntei-me eu olhando em volta. E foi então que vi: no palco, em jeitos amaricados, em rotações corporais mais sinuosas que uma cobra, estavam os machos do meu prédio. Dançavam – pfff! Se aquilo alguma vez é dançar… – e faziam gestos eróticos com o corpo coberto de óleo que mais pareciam panadinhos saídos da frigideira; e, pasme-se!, tinham a cobri-los somente uma tanga branca tão elevada que só me lembrava travessas de oscilantes farófias sem canela. E isto é um ultraje à minha pessoa, ao meu modo de vestir aristocrata, à minha decência capilar que toda se arrepiou. Repito: traição! Qual o homem bem vestido que não se sente derrotado perante a força maior de uma tanga? Só me apeteceu chorar, auto-retratar-me com o rosto angélico do Menino da Lágrima. Mas eis que a minha personalidade vem ao de cima e o meu silencioso sentido vingativo acorda numa intempestiva decisão. Vou rebentar com esta cambada de depravados sexuais. Ai vou! Vou construir uma bomba e rebentar com isto tudo, uma bomba de tal tamanho que… oh, merda! Mas como raio se constrói uma bomba, se a esmerada educação nunca me permitiu tal ideia? (penso), (esperem, ainda estou a pensar), (aguentem, é só mais um bocadinho)… Oh! Bendita inteligência. Como não me lembrei disso mais cedo? Um fósforo arde. Uma caixa de fósforos provoca uma pequena explosão. Logo, cinquenta caixas de fósforos…Bum! Ah, ah, eles não sabem que quando se metem comigo o Mundo pula e avança. Não sabem com quem se meteram. Eu no exterior, uma guita inflamável até à caixa do elevador e era uma vez um prédio de tangas y sus muchachas. Ahahahah (riso de Drácula depois de ferrar o dente).

*

Benevides – Euclides, descuidaste-te?

Euclides – Eu? Não. Porquê? Cheira mal?

Benevides – Não. É que ouvi um “Pssschhh” e pensei que fosses tu.

Euclides – Só se estou incontinente. Também não admira, com a porcaria de comeres que me fazes…

*

“Notícias do Bairro” – Conforme anunciado, vai ser demolido na próxima semana o mais antigo edifício deste bairro. Abandonado desde que há anos o elevador pegou fogo, tinha como único residente um indivíduo que, em trajes menores mas de elevada qualidade, dançava para os ratos. Consta ainda, na vizinhança, que o edifício estaria assombrado por fantasmas de tanga que, ao som de gritos doidos, perseguiriam outros seres do Além, mas esses sim, de lençol. Como mandam as regras do pudor.

 

FIM

 

                                                                                       João J. A. Madeira

17/05/23

Estendais - Capítulo 15

 


Luísa - 3º Dto


Não sei se estes meus vizinhos são misteriosos, intrigantes ou mesmo malucos de todo! Todos os dias surgem novas peripécias, cada uma mais inusitada que a outra. Há dias, o Pedro, que mora no piso por cima do meu, convidou-nos, a mim e à Cristina, para tomar um copo no 3113. Convite um pouco estranho, já que sempre me pareceu ser um solitário sem qualquer intenção de querer reverter esse estado; embora eu nutra uma certa simpatia por ele, que de alguma forma sinto recíproca, muito devido aos gostos musicais que com certeza temos em comum. Já o vi algumas vezes à janela a apreciar as bandas sonoras que ponho a tocar assim que chego a casa.

Creio que nenhum dos meus vizinhos sabe que a minha vida é a música; isto na verdadeira acepção da palavra: alimento a minha alma e o meu espírito com ela, enquanto também é dela que tiro o sustento para a existência material. Já tive uma carreira internacional como cantora lírica, já vivi em Londres e em Milão, mas o que planeamos nem sempre acontece e assim estou agora aqui. Aluguei, conjuntamente com uma amiga, um pequeno espaço onde ela dá aulas de dança e eu de piano e de canto, e por uma dessas coincidêncis do destino, encontrei este apartamento para arrendar, num prédio que conheci nos tempos de conservatório, através de uma colega que aqui morava. Na verdade, na altura, não era muito bem vinda a este território; era uma simples bolseira, enquanto que a minha colega era filha de um dos snobs pseudo ricos que habitavam estas casas. Tão diferente da realidade que encontrei, passados estes anos…

Mas voltando à minha vizinhança sui generis e ao convite do Pedro, que por si só nada teria de transcendente, não fosse toda a sequência de acontecimentos que veio a seguir. Deu-se o caso que o lugar era tudo menos o que eu pensava ser. Não que eu tenha alguma objecção a frequentar aquele género de espaço, apenas pensei que era outra coisa, só isso. Logo que entrámos, percebemos, tanto eu como a Cristina, que iríamos assistir a um show de striptease. Claro que achei um pouco ousado o nosso vizinho, um quase desconhecido (pelo menos para mim, não sei qual relação dele com a Cristina) ter-nos convidado para um programa daquela natureza, mas até fiquei agradada. Gosto da arte do nu, da exibição do corpo desnudado de preconceitos, das emoções e das reacções sem filtro. Porém a noite estava só a começar… quando as luzes do palco se acenderam, a surpresa ainda foi maior. Era o David, o vizinho que mora ao lado do Pedro, que lá estava, numa apresentação digna de um profissional com grande experiência. Lembro-me de em algumas fugazes conversas de escada, ele ter referido que alimentava o sonho de ser escritor e de viver desse sonho, mas enfim, esse é um mundo onde é difícil singrar de forma a conseguir ganhar o suficiente para ter uma vida, e possivelmente foi aquele o meio de sustento que se lhe apresentou; fazendo uso dos atributos com que a natureza o dotou.

Foi assim um embate e tanto. Não nego que fiquei embasbacada, mas ao contrário do que alguém possa ter pensado não me toldou a perspicácia que me é intrínseca; bem vi o ar enigmático do Pedro, conjugado com um sorriso trocista. Francamente, não percebi o porquê daquela espécie de júbilo que de forma mal disfarçada lhe transparecia do rosto, mas passou para segundo plano quando à saída, vislumbro mais três caras conhecidas cá do prédio. Até parecia que a vizinhança se tinha mudado para aquele lugar, naquela noite. A Estela e a Benevides espreitavam através de uma porta lá ao fundo e cochichavam com alguém que estava mais atrás: o companheiro da Clô. Da Estela, já tinha ouvido falar que é gerente ou sócia ou algo do género do estabelecimento, mas e os outros? Aquela atitude dos três era muito suspeita… havia ali marosca! Melhor dizendo: há ali marosca, ai isso há…

Se dúvidas tivesse das suspeitas que me atingiram lá dentro, desfizeram-se logo que saímos. O Pedro tinha deixado o carro um pouco afastado e resolvemos ir os três a pé até lá. Conversávamos enquanto caminhávamos, mas eu não conseguia deixar de pensar no que tinha visto poucos minutos antes e talvez por isso, trazia os sentidos mais vigilantes e vi o que os meus companheiros não viram. A uma distância de segurança, semiencoberto por uma árvore, estava um carro que não me era estranho. Com um olhar mais prolongado, decifrei lá dentro outra das moradoras do meu prédio: a Margarida. Não sei se os outros já perceberam o mesmo que eu, mas ela anda aqui a investigar. O quê, não sei e para quem também não, mas há muito tempo que eu percebi que com aquele ar altivo e aparentemente distante, está sempre a registar tudo o que vê e ouve. Somado a um telefonema que por acaso a ouvi ter com alguém, enquanto apanhava sol perto do bar da Moreia (falava de provas que ainda não tinha conseguido obter), confirmou a minha desconfiança. Eu não sei, mas se estivesse no lugar dela, arranjava maneira de ler o caderninho da Tixa e da Clô. Eu nunca o vi, mas parece que existe mesmo. Ao que consta, anotam no tal caderninho todas as cusquices, confirmadas ou apenas supostas, que se desenrolam no meio da vizinhança. Não costumo dar muita importância a esse tipo de conversa, são apenas maneiras de alimentar as mentes ociosas, mas nunca se sabe se por entre o inútil se encontra algo a que se possa dar utilidade.

Perdida nas minhas cogitações, quase me esquecia dos meus companheiros de noitada; foi a Cristina que me despertou, indicando-me que entrasse no carro. O percurso de regresso foi feito ao som de alguma qualquer playlist que o Pedro pôs em curso (música agradável, como eu já esperava) e por entre um ou outro comentário casual, sem que ninguém se referisse ao que se tinha passado lá no 3113. Quando chegámos, despedimo-nos cordialmente, sugerindo repetir o programa, e cada um foi para a sua casa.

Que noite aquela! Quantas emoções e revelações, em só algumas horas. Confesso que me sentia cansada e decidi ir logo para a cama, mas enquanto me despia, vejo que me falta um brinco. Ainda procurei na sala, no caminho que fiz até ao quarto e na roupa que despi, mas não encontrei nada. Era uma peça que gostava especialmente e então ainda fui procurar nas escadas, que tínhamos subido, em detrimento do rangido do velho elevador. Antes não o tivesse feito. Ou talvez não, talvez tivesse mesmo de o ter feito.

Assim que saio à porta, ouço barulho no andar de cima. Não dentro de nenhum dos apartamentos, mas no corredor mesmo. Dado que quem ali mora são o David e o Pedro, possivelmente são os dois nalguma conversa de circunstância – pensei, no primeiro momento. Mas logo de seguida, percebi que não era isso. As palavras que ecoavam de forma sussurrante no vão da escada saíam entrecortadas por gemidos e apelos urgentes. Um dos meus vizinhos de cima estava com certeza numa daquelas situações de emergência escaldante. Sucumbi à curiosidade e em vez de seguir a possível rota do brinco perdido, pus-me a subir degraus devagar e tentando não fazer barulho. Não foi preciso aproximar-me muito para ver que a cena acontecia à porta do meu vizinho de cima. Subi mais dois degraus, de modo a visualizar todo o patamar e o que me foi dado a observar superava o que todas as imaginações mais férteis pudessem rebuscar. Numa espécie de filme erótico-dramático, uma mulher tentava seduzir o Pedro, enquanto ele resistia a duras penas. Porém a resistência dele não ia durar muito e eu ia recuar escada abaixo antes que me vissem. O que menos me interessava naquele momento era a excitante vida íntima do meu vizinho. Ainda assim, numa última olhadela de soslaio, algum pormenor me reteve. Talvez o cabelo, não sei. Eu conhecia aquela mulher… sim, era a Filipa Arouca, da televisão. Já tinha ouvido falar cá pelo prédio de um caso entre os dois que encheu as páginas de toda a imprensa, mas também me lembrava de ter ouvido dizer que o desfecho não tinha sido bom para ele. Será que havia ali algum conluio secreto entre ambos? Ou era ela a tentar recuperar o que tinha deitado fora? Bem, aquela descoberta não tinha graça sem alguém para comentar e eu ainda tinha de ir procurar o meu brinco.

Desci, pensando que toda a minha atenção se podia concentrar na busca pela minha jóia de pechisbeque. Qual quê! Mal pus o pé no patamar do piso por baixo do meu, esbarro com o esquisito que mora no 8º Dto. Estive para lhe dizer que subisse pelo elevador se não queria deparar-se com cenas inesperadas, mas nem sei se ele me viu; ia numa absorvente conversa com o amigo imaginário, que sempre o acompanha. E eu ainda não tinha encontrado o brinco…

Cheguei à porta da rua e nada de encontrar aquilo que procurava, mas o que não procurava… isso não parava de aparecer à minha frente. A carrinha Mercedes preta de que toda a gente cá no prédio fala já estava parada no sítio do costume; e imaginem quem de lá saiu! Vestida de uma forma que só a tinha visto na festa da passagem de ano, a Fernanda das Águas Furtadas saiu do veículo e muito ligeira, batendo saltos, passou pelo hall e entrou no elevador. Mal tive tempo de me deslocar para a sombra nocturna que envolve a entrada do prédio; o que me permitiu não só fugir à vista da minha vizinha do sótão como também ver quem conduzia a carrinha. Era a Benevides, claro! Já tinha ouvido rumores, mas depois do que tinha visto no 3113 nada me surpreendia. Aliás, agora quando penso nessa noite de há dias (ou melhor, de há noites) acho mesmo que o mistério, seja ele qual for, tem como lugar comum o estabelecimento gerido pela Estela e como protagonistas, ela própria, a Benevides, o companheiro da Clô e com alguma participação a qualquer nível da Fernanda e quiçá do vizinho esquisito do 8º Dto. José Bessa, parece-me que é esse o seu nome. O David e o Pedro, não sei se estão envolvidos na tramóia ou se por algum capricho do destino foram apanhados nas curvas do caminho, mas isso é assunto para quem anda a investigar. Que por sinal também não ficou incógnito nessa noite.

Uma vez que a minha busca se estava a revelar infrutífera e a noite já ia longa em acontecimentos, não em tempo, já era hora de recolher aos meus aposentos. Convicta de que assim aconteceria, entrei… mas não, ainda não era naquele momento que o meu descanso nocturno se ia concretizar.

Assim que comecei a subir a escada, ouvi o som de uma porta a abrir. Quase que por instinto, virei-me para trás e vi que era a porta da Margarida; mas não era ela quem entrava ou saía de casa. Quem saía da casa da Margarida era o João que mora no 7º Esq.! Estão espantados, não é? Eu também fiquei. Mas mais… ele despediu-se com um “até amanhã, GUI-DA”.

A minha mente estava exausta! Este prédio tem mais vida nocturna que enxame em jardim florido!

Vim para casa sem olhar para mais lado nenhum e meti-me na cama com todo o cuidado, não fosse o diabo tecê-las.

 

                                                                             Luísa Vaz Tavares

 

 

13/03/23

Estendais - Capítulo 14

 


Fernanda - 6ºesqº


Finalmente alojei os móveis por tanto tempo guardados numa arrecadação em casa da prima Helena, no espaço agora escolhido para viver. De alguns nem me lembrava já, tanto durou o meu afastamento. Móveis sóbrios de alguma qualidade, alguns herdados dos pais de Eurico, que também andaram emigrados pelas Índias. Acolhi-me neste vasto apartamento, bem dividido com boas vistas para o mar e com um espaço lindo, luminoso para poder realizar as pinturas de que tanto gosto - para mim uma actividade calmante e recreativa, em simultâneo -  no meu dia a dia. Eurico, meu marido foi, desde que terminou medicina (1970) um trabalhador empenhado na Organização Humanitária dos "médicos sem fronteiras". Curiosamente o ano em que esta recebeu o Prémio Nobel da Paz! Foi para ele um bom augúrio.... Acompanhei-o sempre que possível juntamente com o nosso filho Luís, que passou a frequentar as escolas dos sítios que escolhíamos para morar.

Aconteceu em África, quase sempre no Uganda - território tão instável, e tão massacrado pelas guerras constantes de cariz religioso sobretudo. Implantámo-nos na capital, Kampala, num bairro simples e aconchegante, relativamente perto da Associação, para que Eurico pudesse mais facilmente estar connosco nas suas folgas. Foi uma época linda, de muitos momentos felizes, em que nos foi dado a conhecer pessoas várias, com gostos e costumes diversos, possuidores de uma enorme riqueza humana. Entretanto terminou: Eurico faleceu sem qualquer previsão, (Quando se prevê tal?) num acidente de JEEP, quando se deslocava em trabalho. Foi uma consternação para todos que o conheceram e com ele trabalharam, e para nós família, um grande desgosto. Só acalmado um pouco pelo bem que sabíamos Eurico ter espalhado pela comunidade local e vizinhança, também. Estava Luís a terminar, nessa altura, a especialidade de medicina pediátrica e depressa tomou o lugar do pai (como costumo dizer). Optou por estabelecer residência fixa naquele rincão africano com sua companheira Enfermeira Pediátrica, Emma, Ugandesa.

Foi nesta altura que decidi regressar a casa, mas fazendo viagens esporádicas para visitar a família agora aumentada com os gémeos Paul e Patrick. Por cá visitei vários apartamentos nesta zona linda, e curiosamente encantei-me com este que agora habito no 6ºesqº. Parcela de um edifício antigo e lindo, de uma traça original, ainda com raízes na Arte Nova... O que mais me atraiu e convenceu foram as divisões amplas, para o habitualmente visto e a incidência dos raios solares durante grande parte do dia. Ah, não falando das bonitas vistas de que disfruto da sala maior. Mesmo por cima da minha habitação, tenho um vizinho, João, do 7º esqº, amante de música, que por vezes passa discos que ouço tão bem através da janela que mantenho sempre aberta (hábito adquirido das vivências tropicais) e que me trazem á memória, imagens da felicidade vivida com Eurico. São para mim um bálsamo. Cruzo-me, regularmente com Cristina e sua pequena filha Sara, quando, sem elevador temos de usar as escadas... Porém, para mim entendo esta falha do elevador positivamente, como um exercício físico, que só me acrescenta saúde...trocamos sorrisos e breves conversas e vemo-nos algumas vezes no Café da praia. A Tixa, mulher afável e sociável, que já ofereceu, a quem quis aparecer na altura do Fim de Ano, delicioso manjar da sua terra natal. Sónia e Estela, esta minha vizinha do mesmo andar 6º dto, que gostam, pelo que me foi dado perceber, da atractiva vida da noite. É saudável, e são ainda jovens e cheias de entusiasmo. Bom que aproveitem. A Vida é um instante! Vale a pena! Percebo que somos gente diversificada o que é bom, para não nos entediarmos... Assim, as novidades de cada um de nós nunca coincidem, quando se proporciona estarmos juntos....

Estou a recordar os vizinhos que tenho e não me lembrei ainda de oferecer os meus pitéus angolanos, e dos países circundantes também, numa reunião, que poderá decorrer na cave, como já nos proporcionou a Tixa. Aos que gostarem e aceitarem. Obviamente! Gosto muito de cozinhar. Especialmente pratos um pouco complicados, que saindo perfeitos me dão imensa alegria. Curiosamente só me dediquei verdadeiramente à cozinha quando partimos, em família, para África. Tornou-se um hábito gostoso, contrariamente ao que acontecia na minha vida anterior. Também pela oportunidade de utilização de alimentos vários, que até aí desconhecia, embora tenha nascido e crescido num outro país africano. Ao misantropo do 8ºDto dei, logo após uma conversa tida no elevador, uma das receitas que mais gosto de confeccionar. A determinada altura o Bessa, de seu nome, mostrou um sólido interesse, pela criatividade culinária, parecendo-me que a ela dedicava algum do seu tempo livre... ofereci-lhe então num pequeno escrito, que, entretanto, coloquei na sua caixa de correio, uma das minhas receitas tropicais favoritas. Convidá-lo-ei, talvez uma tarde destas, enquanto o sol nos bafeja, para tomarmos um café no barzinho da praia, e saber como resultou a receita de muamba que lhe cedi. Soube pela Estela, de uma cadela, Tróia, pertencente a um cavalheiro também do prédio que misteriosamente havia desaparecido. Não cheguei a conhecê-la. Tive pena, mesmo assim. Mas soube há pouco, que já apareceu, sim, tal qual como havia desaparecido. Misteriosamente! Fico contente, pelos dois: dono e Tróia. Também penso adoptar um cão. Talvez resgatado. Que normalmente sãs animais que sofreram maus tratos ou abandono... Assim terei hipótese de lhe proporcionar uma vida com alguma felicidade. O último que tive, no Uganda, havia sido oferecido ao Luís, meu filho. Despedi-me do "Bonzo", com pena minha, mas não era meu e além do mais as crianças, meus netos nutrem um grande afecto por ele. É sempre bom trazer animais para casa. Proporcionar, principalmente aos mais pequenos um relacionamento saudável com outras espécies viventes, será benéfico para eles e para nós, porque este mundo é de todos nós!!

 

                                                                            Fernanda Simões

06/03/23

Estendais - Capítulo 13

 


Bessa, 8º dto.

 

- … E o que é o prédio onde vim cair? Um cofre anacrónico que guarda uma dúzia de preciosas pessoas irrepetíveis em iminente risco de vida gentrificada? Uma estante, sendo aceite que cada pessoa é um livro e estes estão para aqui empilhados em completo desgoverno e ordenação? Um depósito?! Onde vamos por esta malta toda - perguntaram “eles” -, sem eira nem beira e futuro incerto?

- Onde está o sal?

- Quando venho de fora e olho o molosso teutónico que me guarda. Ó da guarda... Paro. Contemplo. E como a coisa não tem nada de belo além da imponência granítica e umas quantas janelas iluminadas que lhe dão alguma graça e colorido, penso num velho corpo moribundo, com órgãos caducos, veias endurecidas, pulsar irregular. Não é bem contemplar. É mais, considerar a coisa distópica na cidade. Só se contempla o belo, o restante constata-se.

- E para beber?... O que há para beber?...

- Quando escurece tudo está calmo e ninguém a circular, meto a chave na porta, o trinco eléctrico dá-me as boas-vindas com um estampido alarmante, a mola amortecedora estala em dilacerantes espasmos de pavor, e sigo às escuras de dedo em riste até ao botão do elevador, que passa a piscar. Será de alegria? Este elevador é para submarinistas que sabem que a superfície pode ser uma miragem quando se fecha a escotilha. Carrego no oitavo. Fecha a porta e somos vários todos eu. Viajo deglutido no esófago e se morrer vou na companhia habitual.

- Onde deixaste a fuba e o óleo de palma? Procuro, procuro, e.

- Chato! E chego ao patamar. Nunca me cruzo com ninguém. Nem aqui, onde os vizinhos da frente são tão circulantes e omnipresentes. Nada… galinha gorda, recomendou a Fernanda…

- Fecha a porta que sai o quente…

- Quiabos, folha de mandioca, gindungo… não é fácil… a vida está pela hora da morte. Os tomates que são dos nossos, e a cebola que é espanhola, são mais em conta, mas o resto…, e a salsa, a salsa também é nossa, diz no pacote, assim como o alho. A cozinha! Ah! Pois-é. Se o elevador é o esófago, a cozinha é a mandíbula e a porta da rua lá em baixo a outra ponta do tubo digestivo.

- Onde estará aquela panela alta com testo de vidro?...

- As linhas eléctricas, cabos nervosos chamados neurónios; os canos fluentes, afluentes, e deferentes, do processo biliar e outros vitais líquidos; as pessoas como órgãos necessários ao funcionamento geral, mas mal; a estrutura secular como o todo muscular... é um ser vivo e o que está para lá da porta da rua não interessa a ninguém.

– E a cadela?

- Passou a ladrar sempre quando que me sente no elevador…

– E a panela

- Não sei o que se passa hoje, não se ouve ninguém. Nem os tresloucados da frente dão sinal de vida. Tresloucados… tresloucado sou eu que estou agonizado, eles são vida! E de mim, saudades. Cá está!

- E que tal se saíssemos logo à noite?

- Era. Pois era. O depósito está vazio e só recebo para a semana. Está ali arrumadinha e muito escondidinha à espera da noitezinha.

- Mexer um pouquinho… vamos lá provar… bom, sal q.b.

- Habituamo-nos a tudo. Até a sermos invisíveis. Ver quem passa sem mexer a cortina; ficar a saber os movimentos ondulatórios dos vizinhos, os pendulares também; com quem andam e com quem vão; quem vive sozinho ou acompanhado. Famílias não há. Para estes prédios só vêm os fim-de-carreira, embora passem a vida a disfarçar. Podia-me tornar num criminoso em série que ninguém dava por isso. Mas era uma sangreira… é melhor não…

- Ficou-te de quando eras polícia. Menos a sangreira, claro está. Agora, deixar refugar…

- Estava a brincar. Talvez façam o mesmo comigo quando saio. Quem sabe? Talvez não ande assim tão incógnito como penso e pode até trazer-me problemas. Há para aí vizinhos que são capazes de espiar por passatempo e até, farão isso?!, anotar a matrícula, hora de saída e de chegada. Os condóminos têm tendência a fazer coisas estranhas e às escondidas… nunca fiando… nunca deixo contactos.

- Hora de meter a galinha! Mexer um pouquinho envolvendo… lume médio… aguardar…

- Vou abrir uma garrafa daquelas. Esta noite em particular não são noites em geral e se tenho de ficar aqui preso, tenho direito a pomada melhorada.

- Onde está ela?… onde está ela?… e a fuba, faz-se, ou é melhor não?

- Não. Fuba não, que vai sobrar muita. Tenho ali um arrozinho branco que acompanha bem.

- A cadela! Olha!, Olha!... Lá vai ela a descer a rua. Não tomam conta e depois é o diz que disse. E logo num domingo à noite que não tem ninguém na rua…

- Já vou… já vou… não se pode abrir uma reserva que chega logo gente à porta.

- Boa noite…

- Boa noite?...

- Nós somos os vizinhos da frente, Benevides e Euclides, muito prazer. Nós aqui no prédio, quase todos, a bem dizer, uma vez que já vivemos aqui à doze capítulos, estamos a entrar no décimo terceiro, não sei se está a ver, “O 13”, pensamos em fazer uma festa num clube restrito de uma vizinha nossa, ali na outra rua, festa alegre, demorada pela noite fora, coisa de adultos, não sei se me faço compreender, muita luz, animação, estamos vivos e activos, não é assim? E por isso, bem escolheram-me a mim, a nós!, para falar consigo uma vez que, bem, somos os vizinhos da frente e, não leve a mal, mas, parece que o senhor ainda não conviveu com ninguém, vive sozinho, isto não é espiar o senhor entenda-me mas, passa nos seus solilóquios e nem dá por nós, não lhe conhecemos visitas nem familiares, o senhor não leve a mal mas não precisa de viver assim tão… tendo-nos por perto, não é assim? Por isso, enfim, todos nós precisamos de companhia, bem, feitios são feitios entendamo-nos, mas; era isto. Deixe-me então, eu e aminha mulher!, convidá-lo, bem, os outros vizinhos também, que o convite é de todos, convidá-lo para a “Festa do Capítulo 13”, foi assim que pensamos chamar-lhe, no próximo sábado; não é o dia mas há vizinhos que trabalham, sabe como é, e. O senhor aceita o convite? Desculpe, nem o cumprimentei. Ó Benevides, dá aqui um beijinho ao senhor vizinho? Senhor vizinho?...

- Ah!... Bessa-José Bessa… um prazer…

- Ah! Está bem-apanhado. Como o James, não é? Ah-ah-ah…

- Pois. Pode ser.

***+***

- Quem era?...

- Os da frente. Vieram convidar para uma festa. Alegre, luminosa, demorada, coisa de adultos. Parece que foi o que ele disse.

- E vamos?

- Disse-lhe que sim. Mas primeiro a moamba. A garrafa já respirou?

- Vai buscar os copos enquanto mexo um pouquinho…

- Mesmo assim não sei se vá. Sempre posso dar uma desculpa e…

- Vamos sim! Eu aqui não só narratário, também tenho os meus quereres, a vida acontece lá fora!, ouviste, lá fora! Estou farto de estar sozinho e de cozinhar sempre para o mesmo. Aceitaste e foi a tua obrigação. Obrigação? Salvação! Para mais, «passa nos seus solilóquios e nem dá por nós» ou pensas que não ouvi? Há quanto tempo não consegues um bom diálogo, hein? Uma conversa. Há quanto tempo não conversas com alguém de carne e osso, hein? Passas a conviver, deixas de andar para aí a fazer diabruras para passar o tempo. Pareces um catraio. Não! Vais, e vais mesmo!

- Pronto! Pronto! Também não precisas de falar assim… vamos então…

- Olha! E sabes que mais? Sempre vou fazer a fuba. Vais convidar o casal para jantar cá em casa, e assim a comida já não sobra para quinze dias. Vai, vai, quando chegares eu meto a mandioca, vou abrir mais uma garrafa.

- Boa noite, outra vez. Desculpe-me estar a incomodar, e talvez até já seja fora de horas mas, vocês foram tão simpáticos e, bem, eu estou ali a acabar uma moamba à moda da fazenda, e, vai ser muito para mim, e ainda tenho pirão para fazer e duas garrafas de uma reserva especial… se quisessem dar-me o gosto de aceitar o convite para jantar, e, a minha companhia…

- Eles Vêm?

- Vêm. E vão trazer a Fernanda que como dona da receita vai dar os retoques finais.

- A Fernanda?! Como assim, a Fernanda?! Disseste-lhes que a conhecias?!

- Não. Mas disse-lhes ela. Vai buscar aqueles copos para Porto, os de cristal, ouviste?!, que o vizinho vai trazer um velhíssimo de particular e a ocasião merece. Quem sabe tudo mude, e para melhor…

- Estás a pensar no futuro? Estás com ideias…

- Mas qual futuro! Homessa! Que é isso de futuro? O futuro é o que está para vir e está sempre a diminuir. Venham os copos que vou buscar as cadeiras, o importante é o momento e este, quero-o demorado. Quatro cadeiras numa noite de domingo.

 

José Bessa

27/02/23

Estendais - Capítulo 12

 


Tina – 2º dto

 

Por mais que me tentem convencer não volto a entrar naquele elevador. Não é só o receio de lá ficar presa, o que já aconteceu com muitos dos atuais moradores deste prédio.  É também aqueles espelhos que me fazem ver a quatro dimensões: olho para o lado esquerdo e lá estou eu; olho para a direita e lá estou eu outra vez; olho para trás e, quem lá está? Eu de novo. Olho para a frente e vejo-me a medir quatro vezes o que sou.  Esta ideia não foi brilhante, não senhora. Ainda por cima, saio do elevador e entro em casa e só me dizem:

- Mas o que andas tu a fazer? Estás cada vez mais magra!!! – era a Micas que veio saber como é que eu me estava a entender com o mar! Amiga como ela, há poucas. Até tem a chave de minha casa.

Decididamente não gosto de me ver dentro daquele elevador e, desculpem as saudades duma velha, mas, do sítio onde eu venho não havia elevadores. Havia escadas, de madeira, velhinhas, com alguns buracos pelo meio, por onde víamos o andar de baixo – ou o vizinho de baixo. Havia janelas em todos os andares e telhados das casas dos vizinhos e o sol a nascer inundando o rio e abraçando a cidade. E havia risos e gargalhadas e todos nos conhecíamos:

- Ó vizinha, está tudo bem? Hoje não foi à varanda. Precisa de alguma coisa?

- Ai menina hoje estou para aqui, com umas dores nas cruzes, que nem me consigo levantar.

- Deixe-se estar deitadinha que já aí vou levar-lhe uma sopinha e, se for preciso, chamamos o senhor doutor que ele vem cá e não lhe quer dinheiro nenhum.

Outros tempos, claro. Eu entendo que é o trabalho deles e que têm de ganhar com ele, mas dantes havia alguns que se contentavam com umas couves acabadinhas de colher, uma galinha para fazer arroz de cabidela, um saquinho de batatas para a sopa… até lhes chamavam João Semana. Mas vocês não se lembram disso. Desculpem isto são coisas de velhos.

As portas não tinham chaves e entravamos nas casas uns dos outros e falávamos de nós e dos outros e riamos do que fazíamos e do que deixávamos por fazer. Nesses tempos não havia televisões nem telemóveis, mas havia o Chico e o Manel e o Cesário a cantar-nos à janela e a chamar-nos: Moçooooilas liiiindas.

E havia o rio, tão sereno e tão verde, engalanado, pelas montanhas das suas vinhas, de tons e tonalidades tão diversas que variavam ao longo do dia desde o nascer ao pôr do sol.

O sítio donde eu vim era a casa onde nasci, onde vivi com a minha mãe, os meus irmãos e o meu pai. Um a um fui perdendo cada um e um a um fui-me sentindo mais pobre, mais triste, mais só. Até o Manel se foi! E eu sei bem a falta que ele me fez, mas a fome era muita e as crianças tinham sempre de comer. Um dia aquela maldita doença obrigou-o a ficar em casa e algum tempo depois abraçámo-nos, beijámo-nos e ele disse-me adeus. Nunca mais fui a mesma mulher.

Os meus filhos partiram à procura de melhor vida, do “sonho americano”.  Era um país tão longe e tão distante que foi sempre difícil voltar a vê-los. De vez em quando lá mandam uma carta e vão dizendo que tenho que ir ter com eles, que estão bem, que têm filhos e muitas saudades minhas. E mandam fotografias das crianças que são meus netos, mas não conhecem a avó, nem nunca me abraçaram, nem nunca brincaram comigo.

Os que ficaram por cá começaram a pouco e pouco a esquecer-se que ainda cá estou e já nem me lembro quando os vi pela última vez.

Sinto-me velha, cansada, sem memória e quase, quase com vontade de que isto acabe. Costumo dizer que devíamos nascer com prazo de validade e dou por mim, muitas vezes a pensar que já ultrapassei o meu.

Depois apareceu lá em casa um franganote a dizer-me que precisava de fazer obras na casa para a poder arrendar e que eu tinha de sair. Agora? Com a idade que tenho querem tirar-me da terra onde sempre vivi, das coisas que sempre vi, dos velhos que, como eu, se arrastam da casa ao mercado e do banco frente ao rio até onde o olhar alcança?

Que não, não era nada disso, que havia ali perto um prédio muito bonito e muito bem conservado, que a renda era muito acessível e que poderia continuar a olhar o mar e as ondas revolteando-se pela terra adentro.

Por cá apenas tenho um sobrinho que está a viver e a trabalhar no Algarve. Ele até queria que eu fosse viver com ele. Mas eu posso lá deixar de sentir os cheiros, os sabores, as cores desta terra que me viu nascer e crescer.

Não, isso não quero. Talvez ele possa vir cá a cima, de vez em quando.

E foi assim que, num dia de nevoeiro, deixei a minha terra envolta em neblina, num nascer do sol que mais parecia um cálice de vinho do Porto a derramar-se por entre o céu e o rio. Levei comigo uma lágrima a cair-me lentamente pelo rosto e a canção sofrida que sempre ouvi a minha mãe cantar.

Felizmente deram-me um 2º andar, ou melhor, de início até queriam que eu fosse lá para o 6º mas, com alguma sorte, a minha atual vizinha do lado, que é um encanto de rapariga, já não me recordo como, pôs-me a viver ao lado dela. E não é que nos damos muito bem?! Às vezes faz-me o favor de lhe ficar com a gata que, queiram ou não, é uma companhia excelente. Claro que eu lhe dou de comer e mimo-a muito. Mas em troca ela roça-se pelas minhas pernas, pede-me festas, deita-se ao meu lado e, às vezes, salta para o meu colo e com a patita vai-me fazendo festinhas na cara.

Que bom, Sara, foi termo-nos conhecido.

Bom eu já tenho 75 anos, mas dou conta de tudo o que se passa por aqui. Eles falam numa carrinha preta, mas eu até acho que são duas e até apostava que uma é para transportar os vizinhos que trabalham aí numa casa que abriram e a que deram o nome de 3113. Ouvi dizer. Que eu, a estas casas, não vou. Acho que trabalham lá pelo menos três dos meus vizinhos, mas o trabalho que eles fazem não é, nem de longe nem de perto, o que eu fazia, lá na minha terra. Por aqui não há galinhas nem cabras para cuidar, não há couves nem terra onde as plantar. Temos de comprar tudo no mercado. E aí é que está o problema: comprar é fácil, é preciso é ter com quê.

Bem, outro dia, houve um fogo aqui no prédio e vejam bem que foi o Euclides que pôs as cuecas no micro ondas a secar. Onde já se viu uma coisa destas? E depois acho que a Benevides apareceu, toda nua, e correu o pessoal que os tinha ido avisar de que saia fumo pela janela lá de casa. Doidos é que eles são. Ou não serão. Eu é que não sou do tempo deles.

Há para aí uma coisa que me anda a intrigar muito: veio uma Margarida para o 1º andar direito, mesmo por baixo da minha casa, que tem ar de andar a espiar qualquer coisa. Mas, sinceramente, se for alguma coisa para fazer mal à malta nova como é isso das drogas, ela que descubra depressa para meter esta gente na ordem. Bem nos bastam os dos bancos que me roubaram as minhas economias que lá tinha e que nunca mais cheguei a ver nada. E depois ainda me vêm dizer que têm Alzheimer. E eu, o que tenho? Uma reforma que mal dá para a renda da casa e pouco mais.

Outro dia esteve cá o meu sobrinho, o Lourenço e a Sara veio cá a casa pedir-me para ficar com a chave dela porque iam lá arranjar os canos da água. Foi o meu menino que foi à porta e conheceram-se logo. Acho que até engraçaram um com o outro.

Depois, o meu sobrinho, que sabe que ela trabalha nessa coisa dos computadores… bem eu não sei como é, mas ela trabalha só a falar para o computador. Se eu fosse mais nova havia de aprender também. Mesmo assim ainda gostava de escrever uma carta e mandar para os meus filhos a dizer-lhes que já sei escrever num computador.

Veem como estou velha? O que eu queria dizer era que o meu menino ofereceu à Sara alojamento no Algarve para ela passar umas férias. E desatei a falar em computadores.  E não é que ela aceitou?!

Oxalá se entendam bem. Gosto tanto dos dois. E fazem um par tão bonito. Vocês haviam de gostar de os ver.

No fim do ano houve uma festa na garagem para nos conhecermos todos, mas eu não pude ir porque estava com covid. Vá lá, vá lá que tinha apanhado as vacinas todas senão ainda ia parar ao hospital, mas não estive muito mal. Só não fui porque tive receio de lhes pegar.  a minha vizinha d0 6º andar, a Estelinha, foi-me lá levar um pratinho de cozido e um arroz doce que me soube que nem ginjas.

O que mais me preocupa são os vizinhos que ainda não conheço bem e aquele da cadela que anda sempre a passeá-la a desoras e que desconfio que está feito com o David no negócio da mercedes e das drogas. Enfim, isto são só suspeitas. Mas lá que é estranho é. Quem não tem muito que fazer tem que pôr a cabeça a pensar senão fica tolinho num instante e isso era o que eu não queria que me acontecesse.

Olhem meus amigos e sabem que mais? Estou a ficar com sono e tenho que ir descansar porque o Lourenço telefonou-me e diz que vem aí amanhã e traz a Sara. Vamos lá ver que novidades me trazem. Ficava tão contente se eles se entendessem…

 

Albertina Vaz

21/02/23

Estendais - Capítulo 11

 


Margarida - 1º Dtº

 

Ainda mal tinha acabado de chegar da Alemanha, já a Direção me chamava de novo. Em parte, isso demonstrava a importância que tinha dentro de toda a organização, graças a duro trabalho, mas também ao meu caráter de investigadora e à extraordinária capacidade para aprender inúmeras línguas.

Pensando bem, não me passou pela cabeça que o caso fosse no meu país, se calhar aquele onde menos tempo passava.

E aqui estou eu num 1º andar que nunca pensei habitar. Na verdade, raramente tenho residência fixa, devido ao trabalho. Também por isso abdiquei da vida familiar. Não tenho família próxima, pois já todos faleceram. Por sinal, às vezes indago-me como é que correndo os riscos que corro, ainda por cá ando, enquanto quem seguiu vidas mais monótonas acabou por bater as botas bem rápido.

Confesso que de início fiquei um pouco aborrecida com o andar que me atribuíram. Gosto de alturas. Sinto-me mais livre, embora sempre naquela dicotomia entre o medo e a vontade de lançar o voo. Mas logicamente que percebi que era o ideal e eu não estava ali para romancear, mas sim com fins definidos. Faz todo o sentido ocupar um andar mais perto da rua no caso de qualquer fuga ou perseguição.

Sei que me acham vaidosa, as mulheres não o escondem. Eu não uso o discurso sensual da Fernanda ou da Benevides. Até poderia, mas não é o ideal. Prefiro soltar os meus cabelos ruivos e vestir jovialmente em tons alegres que me fazem mais nova do que sou. Assim sendo, passo por eles no Bar da Moreia, rodopiando os vestidos leves com um sorriso misterioso nos meus lábios vermelhos. E oiço quando elas murmuram entre si "lá vai a vaidosa".

Não me importo com a alcunha. Dá jeito passar por tal, por despreocupada, meio cabeça oca, enquanto uso a inteligência para me ir apercebendo de todos os pormenores.

Curioso é o facto de eu, quando não estou a trabalhar, preferir ser um bocado solitária. Aí aproveito para meditar e me agarrar a bons livros, ou danço ao longo do apartamento quase vazio.

Quase vazio é o termo certo. Sendo temporário, tenho o essencial e como tudo foi pintado de branco, são os meus puffs e banquetas indianos, os meus panos coloridos, que quebram a esterilidade do espaço. Para isso a minha estadia na Índia foi profícua.

 Entretanto o matraquear dos sapatos da Tina, está a causar-me uma bela dor de cabeça, até porque hoje parece-me que há outro tipo de passos mais sincopado e forte a acompanhar os habituais. Este prédio é um enxame de curiosidades. Resta saber se são somente isso.

 Os esquemas do 3113, ou uma parte deles, já eu entendi e até agora parecem ser aquilo que se vê, mas não descarto algo mais. A parte do Mercedes já é mais complicada. E a pensar nisso reparo que no bar da praia, mesmo no canto da esplanada se juntou um grupo com alguns dos meus vizinhos. Como não me apetece conversar, tenho de arranjar um modo de os ouvir.

 Pego na grande cadeira de lona que aqui tenho e resolvo ir até lá.

Quando chego coloco um enorme chapéu na cabeça e monto a cadeira mesmo junto à esplanada. O David Raul repara em mim.

  - Vizinha não quer vir para aqui? - respondo que não obrigada porque estou a apanhar sol.

 - Verdade mesmo? - diz a Tixa com aquele sotaque bonito e açucarado.

 - Obrigada, mas preciso mesmo desta vitamina D. Tenho passado muito tempo em casa.

 - Pois, já reparei- argumenta a Sónia. Será do seu trabalho?

 Sei que a Sónia é jornalista, pelo que me limito a sorrir e a acenar a cabeça.

Desapontados, os meus vizinhos ficam na dúvida entre falar de mim ou de outros. Finjo que ponho música e que ligo os auscultadores. Na verdade, ligo antes um amplificador e tento perceber o que dizem. Infelizmente anda muito à volta da Benevides, do Euclides e da Fernanda, dos ex-maridos (muitos dos habitantes do prédio são divorciados) e nada de muito especial até que a Sónia diz algo que a deixa embaraçada e corada. Apercebo-me que ela diz que viu o Mercedes e apontou a matrícula. E zás, apalermada com o olhar que o Pedro lhe deitou, vomita-o rapidamente, apercebendo-se ao mesmo tempo da fuga de informação.

 Respiro fundo e vou um pouco junto ao mar. Confirma-se o que pensava: aquela matrícula não era a mesma que eu tinha apontado. Portanto ou havia mais do que um carro, ou as matrículas eram falsas.

 Volto à cadeira e vejo que todos se foram embora, como se tivesse passado ali um vendaval.  Melhor voltar para casa e pôr em dia todas as ideias e ao mesmo tempo verificar se da sede há alguma mensagem. Começa a ser hora de dar mais passos no assunto. Ao entrar no prédio choco com uma lambisgoia que conheço dos ecrãs de televisão. Pedimos ambas desculpa, mas reparo que vai completamente furiosa, olhos a chispar e vontade de matar alguém. Bem, se calhar até exagero, mas a expressão era essa.

Queria convidar alguns vizinhos porque os conheço mal, para uma espécie de serão literário, mas o problema é que não me apetece juntar o pessoal todo e assistir aos espetáculos de sedução entre alguns. De modo que vou tentar sondar alguns porque me faltam muitas peças do puzzle. Vou começar pelo vizinho que não se dá muito a conhecer, embora me pareça boa pessoa. Mas isso é muito curto para traçar um perfil.

 Subo ao 7º Esq e toco à campainha do João. Oiço passos em casa, mais ou menos apressados e depois mais nada. Fico sem saber se devo desistir ou tocar de novo. Arrisco e toco. Lá dentro ouve-se um restolhar e uns silvos estranhos, mas nem uma palavra. Perplexa com o assunto vou-me embora e desço a escada para não entrar naquele elevador, que quando nos encerra nele mais parece que nos vai despejar num bordel do sec. XIX.

Ainda não passaram cinco minutos quando me tocam à porta. Abro e deparo-me com o João com um ar absolutamente relaxado, tão contrário ao que se tinha passado.

- Margarida, não é? Posso tratá-la por Guida?

- Mas porquê? Margarida é muito comprido? - assim que digo isto arrependo-me imediatamente porque fui brusca e mal educada.

  - Peço desculpa, não quis ofendê-la.

 - Olhe eu é que peço, mas sabe viajo muito e em muitas partes do mundo abreviam ou tratam-me por outro nome, pelo que às vezes já não me lembro que sou Margarida. Mas pode tratar por Guida com certeza e desculpe a minha parvoíce.

 - Foi tocar-me à porta... GUIDA? - e acentuou fortemente o nome.

 - Na verdade fui, mas não me abriu a porta.

 - Pois.... hã... nãoooo.

De seguida a esta fala arrastada que em nada me parecia o vizinho que esporadicamente via, o João desapareceu para as entranhas do elevador não sem antes deixar um:

 - Eu volto... G-U-I-D-A!

 Fecho a porta perplexa com a situação, logo eu a quem já pouco espanta. Nisto um toque e uma mensagem surgem no meu telemóvel " URGENTE, inspetora ligue o seu computador"

Procedo a todos os passos necessários para desencriptar a mensagem e o respetivo anexo e o que vejo muda por completo toda a situação. A operação está em pleno desenvolvimento e a Interpol pede-nos para avançarmos rapidamente, antes que algo muito grave aconteça.

 Chegou a hora e ainda não desvendei todos os factos.

 

 Margarida Piloto Garcia

 

14/02/23

Estendais - Capítulo 10

 

Fotografia: Estela Fonseca 

Estela - 6º Dto

 

Quem vê caras não vê corações,

 

Detesto ser acordada antes do meu despertador biológico, que nunca desperta antes das 17h! Isso mesmo, 17h da tarde! Custa-me ainda mais saltar da cama, ter que olhar a minha fronha ao espelho e recomeçar mais um quotidiano vulgar, ou que até nem será assim muito vulgar, desde que assumi a direção do 3113 e ao mesmo tempo mudei para este condomínio todo marado, com gente simpática, mas ao mesmo tempo cheia de histórias que são visíveis nas atitudes estranhas de alguns vizinhos. Antes de pôr os pés nas pantufas, espreguicei-me preguiçosa e pensei na Sónia, uma das minhas vizinhas, mas amiga também.  Depois do seu divórcio trigo limpo farinha amparo, Sónia decidiu investir efetivamente nas bolachinhas de canela e no David! Torci o nariz quando soube do seu plano. Isto de ficar sozinha e não saber lidar com a situação é muito complicado, quando estamos habituadas a ter alguém ao nosso lado. Mas estar ao lado não significa estar connosco. Sónia ainda não tinha feito o luto e já estava a tentar as suas investidas! Por todas as razões avisei-a que não seria nada boa ideia ir à casa do bonzudo lá do sítio. Mas foi! Tocou à campainha de David com um certo nervosismo de adolescente parva, e qual Golias, grande e imponente, eis que ele surge com um sorriso branqueado a pasta medicinal couto. Sónia corou, suou, sentiu borboletas no estômago e um bocadinho mais abaixo, mas apenas gaguejou um soletrar de canela e bolachas e sobras de lanche de miúdos após a escola. David agradeceu, pegou no pratinho cor-de-rosa choque, agradeceu a lembrança, e explicou que naquele momento não a podia convidar a entrar pois estava a meio de um importante trabalho, com limite de entrega até ao dia seguinte. Contudo, não se esqueceria do miminho e prometeu uma recompensa com um chazinho, um dia, de solinho, na sua varandinha, virada ao mar. Sóninha anuiu a tantos inhos, e claro, compreendia, e claro, raios-partam os sapatos de salto alto azuis cintilantes! Apeteceu-me esmurrar o rosto perfeito de David quando Sónia me contou! Eu tinha avisado! Aquilo não é boa rês! E não era mesmo! Além de que eu sabia e não interessa como, que David vivia enfadado por causa da sua Tónia e não era agora que iria aturar vizinhas recém-divorciadas à procura de um substituto fácil. Estava eu nestes pensamentos quando o telemóvel tocou. Falar, antes de acordar completamente e ainda entre o semi-dorme e as reflexões sobre os outros, irritam-me profundamente! Mas que raio!

- Desculpa, resmungou a pessoa do outro lado - O guito está a acabar. Tens algo para mim?

- Sempre tenho. Tu é que desapareces. Logo à noite, passo às 21h. Vê se te despachas a sair, já começam a fazer perguntas sobre o mercedes que de vez em quando aparece por aí. Já me basta a Benevides, que se atrasa sempre.

Levantei-me! Abri a janela meio incomodada pelo sol. O facto de ter acordado não significa que eu estivesse pronta para começar o dia ou parte do dia que restava. Fui fazer um café à moda da minha mãe. Aquele tradicional, de cafeteira, que faz um borbulhar assim que está pronto e deixa o aroma pendurado no ar durante muito mais tempo. Quase podia mudar de profissão com o jeito para definir tudo com slogans publicitários. Sentei-me na cadeira de baloiço, estrategicamente virada a poente. Ainda em pijama e pantufas, o meu «in fit» preferido para estar em casa. E lá estava eu a inventar palavras outra vez. Esta serotonina que vem do mar acalma-me a alma. Mas esta calma foi interrompida, bem como sossego do condomínio «sui generis». Subitamente tudo isto foi interrompido por risos e marteladas, algures, nos andares de cima. Ora, a Clô não estava em casa aquela hora. Usualmente ia tomar chá de gengibre e perpétua roxa com a Tixa. Era uma espécie de terapia mental para ambas. Sentavam-se na mesa do canto esquerdo, da esplanada do Bar da Moreira e sibilavam trocadilhos das vidas dos vizinhos. Até tinham um caderninho com capa vermelha, onde apontavam o que observavam, o que pensavam que tinham observado e o que supostamente iriam observar. Cogitei, então se não é Clô bem que poderia ser do andar do João. Até que simpatizo com aquele vizinho. Bem-falante, simpático e o único homem com bigode que acho sedutor. Nunca gostei de homens com bigode! Também não gosto deles lambidos de penugem. Barba! Isso! Uma barba rentinha ao rosto! Mas não quis dissipar o pensamento do barulho de cima, e foi quando percebi que só poderia ser da casa da Fernanda! Pois! O Euclides andava sempre por lá a fazer biscates. Só podiam ser as marteladas do Euclides e o riso da Nanda. Já tinha avisado a Benevides que talvez não fossem só biscates e bricolage mas a Benevides não lhe interessavam os hobbies do marido. – Temos uma relação aberta! Dizia ela. E ao pensar no diabo, o diabo tocava à campainha. Benevides entrou. Sempre toda arranjada, com maquilhagem perfeita! Costuma ela dizer que nunca sabe com quem se vai cruzar, pelo sim e pelo não, uma mulher tem que se produzir sempre. Em casa, no trabalho ou até para ir buscar o pão na padaria ao lado.

- Estava a terminar o meu café para te ligar, logo à noite vais ter companhia. Não te importas, certo? Até te alivia um pouco as tarefas. Sorri, enquanto noticiava Benevides das tarefas. Costumam dizer que eu não preciso falar, comunico com os olhos. E com o olhar malicioso, ou zangado, ou feliz, tudo dizia!

- Já algum tempo que não tinha companhia! Mas não me faz sombra! Negócios são negócios e os clientes também são diferentes!

- E o que vais dizer ao Euclides desta vez?

- O de sempre! Noite das mulheres! E além disso, o estendal da Fernanda não ficou bem colocado. Depois do jantar ele vai lá voltar a ver se arranja a coisa de uma vez por todas!

- Pois…o Estendal! Claro, que mais poderia ser!

Benevides encolheu os ombros! Sentou-se ao meu lado na cadeira de baloiço e ali ficou em repouso de preguiça malandra até o sol desaparecer na linha do horizonte.

Tive que me ir vestir e abispar-me. Esta noite é a minha vez de abrir e gerir o 3113. Quando cheguei ao restaurante-bar, fui verificar as reservas. Casa cheia! Não reparei nos nomes do livro das reservas. Mais importante era ter a certeza que o 3113 nunca perdesse o requinte e o glamour. Que o gourmet dos pratos fosse os preliminares das noites quentes e sensuais, da diversão e da libertação do corpo e da alma. Certifiquei que estava tudo ótimo antes de dar um salto a casa, antes de começar realmente a confusão da noite! O 3113 ficou nas mãos do meu fiel sócio. Sem problema. Dentro de uma hora estarei de volta. Assim foi! O prometido é devido e uma hora depois regressava ao 3113 acompanhada de dois amigos. Benevides vinha comigo. O ambiente de vozes altas e risos misturavam-se com o deguste de bons vinhos e dos odores de bons perfumes. Por detrás do bar principal, Benevides deixou sair um - «não posso acreditar»!

Olhei com atenção redobrada para o recinto e o meu rosto completamente embasbacado também não queria acreditar. Logo, à frente do palco, estavam três dos meus vizinhos: o Pedro do 4ºdt, a Cristina do 5º dt e a Luísa do 3º dt.

Mas o que era aquilo? Uma reunião da ala da direita do condomínio? Assim uma espécie de confraternização de um partido radical de direita? De repente lembrou-me de onde conhecia o Pedro. Sempre que nos cruzávamos no elevador ou no átrio do prédio, olhava-o e reconhecia aquela cara sem saber de onde! Tinha agora aí a resposta! Pedro era cliente do 3113. Tudo fez sentido! Havia um cliente, soturno, sempre vestido de preto, solitário, que frequentava sábados à noite o restaurante-bar! Pedia sempre a mesma bebida, um Croft, sem gelo. Simples e forte! Nunca se expunha, escolhia sempre a mesa mais afastada e no local mais sombrio, onde as luzes muito dificilmente o focavam. Passava despercebido, mas desta vez ali estava ele e acompanhado das suas vizinhas. Olhei para Benevides, ambas encolhemos os ombros! E agora? E agora era tarde de mais. Apagaram-se as luzes. O foco era o palco. O instrumental do filme Oficial e Cavalheiro começou. O dançarino vestia a rigor um fato de oficial da marinha. Alto, moreno, sensual. As palmas e os gritinhos histéricos das senhoras sobrepunham-se à música, mas nada o detinha! Com uma mão segurou-se no varão e com a outra despiu o fato de oficial, ficando apenas com uma tanga minúscula e uma proteção de tintins, apropriada para o efeito! A música mudou! It´s raining men. E o dançarino fazia mil e uma piruetas provocadoras. As mulheres rejubilavam. Quase todas, com exceção da Cristina e da Luísa! Pasmas, embasbacadas, interrogavam-se sem palavras. Olharam para o Pedro que deixara o seu lado soturno e sorria entre o divertido e o ar triunfal! – Sim, minhas senhoras, estão a ver bem. Quem ali está dependurado no varão qual salpicão no fumeiro, é o David, o nosso vizinho do 4º esq.

Nem Benevides nem eu tivemos coragem de contar a David quem estava ali mesmo à frente, assim que ele terminou a sua dança. Talvez a ala direita ficasse calada! Pensei no caderninho de capa vermelha da Clô e da Tixa! Aquilo sim, daria pano para mangas, para uma reportagem erótico-vizinhal!

Benevides apreensiva deixou-se ficar nos bastidores. Foi uma noite perdida. Paciência!

Depois do show Cristina e Luísa pediram a Pedro que as levasse para casa. Tinha sido demasiada informação para uma noite só. Tinham que digerir o que viram. Afinal aceitaram o convite de Pedro só porque achavam um tipo singular e solitário. Tinha falado num restaurante muito bom, com boa música e diversão, mas nunca imaginaram um bar de strippers. Chegaram ao condomínio em silêncio. Pedro mantinha o sorriso vingativo. Mas porquê vingativo? E porque as teria levado aquele bar específico?

Despediram-se com um até amanhã e quem sabe uma próxima vez num local mais calmo. Pedro procurava a chave do seu apartamento, quando ouviu uns passos conhecidos que de repente desciam a escada. Não queria acreditar. Era a sua cadela Troia! Mas junto a ela uma voz familiar: Finalmente, chegas! Já estava quase a desistir. Resmungou Filipa Arouca, entregando-lhe languida, a trela de Troia!

 

    Estela Fonseca