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26/09/22

O Alípio Morreu - Capítulo 11 - Final

 

Fotografia: Horst Neumann

- Não o matei, menina, juro que não fui eu.

- Não sou “menina”, sou a agente Sílvia. E as provas falam todas contra si.

- Mas como, se não fui eu? Acha que tenho cara de assassina, menina? Olhe bem para mim e diga!

- Em determinadas circunstâncias, D. Adília, todos nós podemos transformar-nos em assassinos.

- Credo, a menina diz cada coisa…

- Agente Sílvia!

- Sra. agente, pronto! Desculpe, é de estar transtornada. Quem diria que eu vinha parar à prisão? E sem cometer crime nenhum.

- Confesse que o matou, D. Adília! Ao saber que ele era homossexual, ficou furiosa. Pensava que era o amor da vida dele e afinal…

- Não soube nada disso.

- Mas tinha na sua carteira o bilhete anónimo, a denunciar a homossexualidade de Alípio Belmonte.

- Não sei de bilhete nenhum, menina.

Sílvia levantou-se, desesperada:

- Assim é que não vamos a lado nenhum, D. Adília. E não é menina, é agente Sílvia!

Deixou a sala de interrogatórios, batendo com a porta. Tinha a certeza de que a suspeita Adília lhe vinha com aquela lengalenga por a achar suscetível de ser influenciada. Afinal, não passava de uma agente estagiária, de apenas 24 anos. E nem a confissão a uma assassina amadora ela conseguia arrancar!

Sentou-se à sua secretária e tornou a suspirar. Iria ainda demorar, até que a levassem a sério, incluindo os próprios colegas da Judiciária.

Porque insistia a D. Adília na sua inocência? Assim que se soube a causa da morte de Alípio Belmonte, as investigações centraram-se nas mulheres. Os homens optavam pela violência física, com ou sem ajuda de uma arma. As mulheres preferiam o veneno. Na verdade, Adília fora ainda mais esperta, ao usar algo inofensivo para a maior parte das pessoas: misturara amendoins ralados na massa dos biscoitos preferidos da vítima. Pouca gente sabia que Alípio Belmonte sofria de forte alergia ao amendoim. Já anteriormente sofrera um choque anafilático e só a pronta ajuda médica lhe salvara a vida. Adília, sua amante, que também lhe limpava a casa (Sílvia perguntava-se o que se passava na cabeça de certas mulheres), costumava fazer-lhe daqueles biscoitos, uma receita só dela, que ele adorava. No dia fatal, fizera a limpeza na ausência dele, como de costume, e deixara-lhe uma taça de biscoitos na sala. Mal chegara a casa, Alípio pegara num, mesmo antes de despir o sobretudo e ainda com as chaves na mão. Logo sentiu a garganta afunilar-se-lhe, a falta de ar. Estava sozinho, já passava da meia-noite e saíra para o jardim, a fim de apanhar ar. E, por certo, igualmente na esperança de que alguém o visse, na sua aflição. Mas, típico de um choque anafilático, a tensão arterial baixou de forma dramática, enquanto aumentava a frequência cardíaca. Alípio perdera os sentidos. Sem ajuda, morrera numa questão de minutos.

As outras mulheres suspeitas foram sendo postas de lado, mesmo considerando a hipótese remota de elas conhecerem a receita. Alípio desconfiaria de uma visita de cortesia de qualquer delas: Cristina, vítima de plágio (existia inclusive uma gravação em que ela o ameaçava matar); Clara, que o odiava por ele a ter violado e enganar a sua irmã gémea; e Fernanda, que descobrira Alípio ser um fingido e não suportava que o seu irmão continuasse a endeusá-lo. Todas elas já não o contactavam há anos. Visitá-lo, de repente, com uma taça cheia dos seus biscoitos preferidos, poria Alípio com a pulga atrás da orelha. E, mesmo admitindo que alguma delas o tivesse visitado àquela hora e ele a convidasse a entrar, como explicar o sobretudo vestido, a chave na mão?

A única que poderia tocar à sua porta, sem desconfiança da parte dele, seria a Tixa. Na verdade, ela permanecera uma das principais suspeitas da PJ, junto com Adília, durante muito tempo. Até que se encontrou o comprido sobretudo preto e o chapéu de abas largas na casa do agente Adolfo, mais precisamente, no quarto de arrumações, onde Adília costumava passar a ferro. A testemunha Grégor Macondes confirmara serem os adereços da figura que andava a atormentar a vítima. Ele próprio a vira, perto do cemitério, no dia do funeral.

Tudo batia certo: Adília tinha a chave de casa de Alípio, a taça dos biscoitos acabados de fazer encontrava-se sobre a mesa da sala, o bilhete anónimo a denunciá-lo como homossexual foi encontrado na carteira dela, e, por fim, a fatiota.

Era tudo tão óbvio…

Pensando melhor, talvez fosse óbvio demais. Ou era novamente a sua inexperiência a pregar-lhe uma partida?

Sílvia precisava do conselho de alguém mais experiente e lembrou-se do agente Adolfo, o marido de Adília. Era dos colegas mais simpáticos. E andava bastante deprimido. Ficaria com certeza aliviado, se os dois juntos encontrassem o ponto fraco daquele esquema, livrando a mulher da suspeita.

Adolfo não se encontrava no seu escritório. Sílvia telefonou-lhe ao serão e combinaram tomar o pequeno-almoço juntos, numa esplanada perto do edifício da PJ. Adolfo não queria discutir o assunto no local de trabalho. Quando Adília se tornara na suspeita principal, fora afastado da investigação.

 

- Passei a noite a matutar no caso - disse Sílvia. - Há algo a incomodar-me. Acho que é a mistura de perfeição e ingenuidade.

Adolfo olhou-a intrigado:

- Pode explicar melhor?

- O facto de usar o amendoim, que sabia ser fatal para a vítima, denota raffinesse. Por outro lado, fazer os biscoitos, cuja receita só ela conhece, não é ingénuo demais? Por que não usou ela os amendoins ralados num puré, ou num molho de salada, ou mesmo numa bebida? Poderia ter encenado uma refeição a dois. Isso alargaria o leque de suspeitos, não acha?

Adolfo olhava-a surpreendido e interessado ao mesmo tempo. Deixando o pequeno-almoço a meio, tirou os cigarros do bolso, murmurando:

- Realmente… - E, encarando-a, com um sorriso: - Acho que é um grande erro subestimá-la, Sílvia. Algo me diz que será uma excelente investigadora.

Sílvia corou um pouco, lisonjeada. Balbuciou:

- Obrigada. Força de vontade não me falta.

Adolfo acendeu um cigarro, inalou o fumo e expeliu-o lentamente, reflexivo.

De repente, Sílvia sentiu o coração a disparar. Levou a mão tremente à testa. Adolfo reparou na agitação, perguntou:

- Que se passa?

- Não sei, senti uma tontura. - Levantou-se. - Desculpe, tenho de ir.

- Não é melhor ficar sentada e beber um pouco de água?

- Não, eu… tenho uns comprimidos no escritório que me podem ajudar. Desculpe.

Abalou, em direção ao edifício da Judiciária. Antes de entrar, porém, foi a um quiosque comprar um maço de cigarros e um isqueiro. Depois, dirigiu-se à cela onde se encontrava Adília, em prisão preventiva. Tirou o maço da carteira, abriu-o e apontou-o na direção da detida, dizendo:

- Fume um cigarro, por favor, D. Adília.

- O quê, menina? Não estou a entender.

- Fume, D. Adília! É importante.

- Mas eu nunca fumei na vida. Além disso, não é proibido fazê-lo aqui?

- Deixe isso à minha responsabilidade. Prove que nunca fumou! Quero ver.

Olhava-a tão agressiva, que Adília replicou:

- A menina está a assustar-me, credo. Mas pronto, se isso a vai acalmar… e vai ver que não tenho mesmo jeito para isto.

Pôs o cigarro na boca, Sílvia acendeu-lho com o isqueiro. Mesmo sem inalar o fumo, Adília começou logo a tossir.

- Ai menina, que coisa horrível. Porque me obriga a isto, valha-me Deus!

- Fume! Quero ter a certeza de que não está a mentir. Dê mais uma passa, vamos!

Adília obedeceu e começou novamente a tossir.

Sílvia ouviu passos apressados, no corredor. Virou-se, na altura em que Adolfo entrava na cela, que ela deixara aberta. Ele seguira-a.

- Mas que raio se passa aqui - perguntou irritado.

Antes que Adília recuperasse da tosse e dissesse algo, Sílvia pôs um ar inocente:

- Ora, só quis ser simpática com a sua mulher. Disse-me sentir-se angustiada, aqui presa, apetecia-lhe um cigarro. E eu fui comprar-lhos.

- Mas que disparate! A Adília nunca fumou na vida.

- Não me diga, caro colega! A testemunha Grégor Macondes foi perentória a afirmar ter visto um sopro de fumaça saindo da boca da figura que atormentou os últimos dias de vida de Alípio Belmonte. Isto, depois de o próprio Alípio lhe ter igualmente dito ver a criatura fumar.

Adolfo apontou-lhe os olhos escancarados. Depois, lançou-se sobre ela, apertando-lhe o pescoço.

- Jesus, homem - guinchou Adília. - Enlouqueceste? Deixa a rapariga em paz!

Tentou separá-los, mas, não conseguindo, gritou por ajuda. Surgiram dois agentes que livraram Sílvia das garras de Adolfo.

Enquanto tentavam acalmar o colega, perguntando-lhe o que se passava com ele, Sílvia recuperou o ar e lançou:

- Confesse, agente Adolfo! Foi você que matou o Alípio, não é verdade? Não adianta negar, tenho provas suficientes para convencer qualquer juiz. Confesse! Foi você que fez os biscoitos, não foi? Tinha a chave da casa do Alípio, foi lá pô-los, depois de saber a sua mulher ter saído. E pôs o bilhete anónimo na carteira dela, no dia em que sabia que a PJ a ia buscar.

Depois de um compasso de espera, Adolfo berrou:

- Sim, fui eu, fui eu!

- Ai credo, homem!

- Não merecia outra coisa, aquele crápula. Toda a gente sabia que era um bandido, um vigarista. Ainda por cima, encornou-me. Acabaria na prisão, mas já se sabe como são demoradas estas coisas. E eu estava cheio, cheio! Decidi livrar-me dos dois: matar o vigarista, fazendo um favor ao mundo, e meter essa puta na cadeia. Dois coelhos duma cajadada! - Acalmando-se, de repente, prosseguiu, quase num lamento: - E quase consegui. Mas cometi dois grandes erros. O primeiro foi aproximar-me do cemitério, permitindo que alguém me visse, além do morto. - Encarou Sílvia: - O segundo foi ter perdido o controle, há momentos, e tentado esganá-la.

Virou-se para a mulher, novamente agitado:

- Foste bem enganada, sua estúpida! O Alípio nunca gostou de ti, a sua verdadeira atração eram os homens. Além disso, era pedófilo. Sabes porque te usava, sabes porque se esforçou por ganhar a tua confiança? Para ter acesso às investigações que a Judiciária levava a cabo. Só por isso tinha a chave de nossa casa. Para ir ao meu escritório vasculhar.

- Bem, - disse Sílvia, dirigida aos outros dois colegas, - nada mais nos resta fazer do que prender o agente Adolfo, a fim de o interrogar oficialmente.

Enquanto o guiavam para o compartimento respetivo, Adolfo lamentou, abanando a cabeça:

- E eu, que nada percebo de cozinha, pus-me a fazer o raio dos biscoitos. - Parou e desabafou, abatido: - Fazem ideia do trabalho que isso me deu?

 

                                                                                  Cristina Torrão

 

09/09/22

O Alípio Morreu - Capítulo 10

 

Fotografia: João J. A. Madeira 

Tenho uma espinha atravessada nos dentes. Uma pedra a morder-me a sola de um pé. Tento caminhar, mas a outra perna coxeia; ensaio um sorriso, mas a língua abre-se em sulcos de sangue. Queria falar bem de ti, Alípio, mas nem um incorrigível mentiroso – como eu sou – consegue fazê-lo. Pode alguém chamar os nomes que neste momento me assaltam, a um qualquer santo que no pedestal de uma igreja se expõe? Impossível, meu caro, meu amigo, meu sacana. E, no entanto, tu foste o santo cujas vestes disfarçavam a ponta viperina da cauda do Demo.

Nem sempre foi assim. Quando jovens, tu eras o meu ídolo. A tua inteligência perante todos – até professores – a perspicácia que evidenciavas para as mais adversas situações, a tua argumentação para comigo, pobre tímido, fizeram de mim, sem que disso me apercebesse, teu súbdito, teu lacaio e teu defensor para as mais sórdidas ocorrências em que te envolvias. Admito-o agora, finalmente livre de ti, perante esta folha em que escrevo: a minha força bruta e impulsiva, a minha condição humilde e a subsequente insegurança pelo discernimento limitado, serviram como luva moldada à medida da tua mão. Não tivesse eu nascido assim, com uma mente por educar, e mais cedo, muito mais cedo, teria desconfiado.

Recordas-te – eu nunca esqueci – daquele dia em que com gestos de aflição cruzavas as pernas e me dizias estar à beira de mijar as calças? Creio ter sido aí que tudo começou. Quando te apontei o urinol público e saíste de lá minutos depois com um tipo a vociferar contra ti e a querer partir-te a cara. Eu era fiel. Sempre fui devoto da verdadeira amizade e quem lhe partiu a cara fui eu. Só quando o sujeito debandou, nariz a pingar sangue e queixo a dançar-lhe no rosto, te perguntei que se tinha passado lá dentro. E rimos como dois loucos, como dois irmãos, quando me contaste que, distraído, lhe havias mijado os sapatos. Mentias bem, Alípio. Nem os olhos ou os gestos te traíam e, conhecer-te, refinou em mim o dom que já possuía de saber mascarar a verdade.

Ao contrário de todos os jovens, nunca havia tido ídolos. Nada entendia de música, raras vezes frequentei o cinema, não gostava de futebol, o meu pai era um farrapo embebido em vinho. Eleger-te nessa condição foi, por isso, natural num rapaz que ocultava a fragilidade mental sob o fraco manto da força física. Sem que me desse conta, fizeste de mim teu protector físico e teu servo, porque subjugado ao poder do teu corpo de Adónis e à tua retórica de filósofo grego. A teu pedido, fiz recados, bati, roubei e, sem compreender, proporcionei-te encontros com garotos que, sem explicações, desejavas conhecer. Pouco mais tarde, com a chegada do tempo adulto, foi o sexo feminino que à tua volta zumbia como abelhas povoando um jardim. Tímidas, reservadas, simuladamente pudicas como sempre serão as raparigas, serviam-se de mim para a ti chegar, à mais bela flor, concedendo-me assim um efémero poder que, na minha mente obtusa, mais me fazia admirar-te.

Contigo aprendi a técnica do distanciamento, do quase desprezo à paixão que, quanto maior, mais as excitava na busca de te tocarem, de te conseguirem. Raparigas lindas, algumas delas de boas famílias, influentes, endinheiradas. E eu não compreendia a tua atitude perante moças como a Tixa – recordas-te dela? Agora já não, eu sei – uma mulher belíssima, uma simpatia de voz sedosa e cristalina como um fresco rio. Ainda hoje, quando a recordo, evoco instintivamente as palavras do Gedeão, que então lia: “…é nova, desenxovalhada, tem perna gorda, bem torneada. Ferve-lhe o sangue de afogueada, saltam-lhe os peitos na caminhada…”. Era assim, a Tixa. Foi talvez a que mais te desejou e aquela a quem mais esperança – somente esperança – deste. Para, inesperadamente, te casares com a feia e desconchavada Almerinda, que ninguém, nem eu, sabia quem fosse. Intrigado, investiguei. E descobri a ponta ainda pouco consistente daquela que viria a ser a tua linha de conduta: as influências recebidas e projectadas, o dinheiro, a reputação. Já eras alguém bem posicionado quando morreu. De que morreu ela? Pois! Será melhor que não mintas sobre o corpo morto cuja autópsia conseguiste evitar e que só assim te permitiria continuar na senda da fama e do dinheiro. Poderias até, se assim entendesses, voltar para a Tixa. Voltaste? Não, ainda que possas ter provocado nela uma réstia de esperança. Mas ninguém aceita de bom grado descer do patamar a que se alcandorou (mesmo não sendo essa a única razão). Porém… Devias ter sido mais cauteloso. Ou estarias já tão “do outro lado”, que não te apercebias de que é capaz uma mulher despeitada? Quem a avisou da tua morte? Como estava já um grupo de pessoas perante o teu cadáver? Quem as alertou? Acredita, Alípio, todo o ser humano mente. E só eu o admito.

Depois, seguiste a trajectória que havias delineado. E quanto mais tu subias, mais eu me perdia na depressão de me ver só e não conseguir singrar na vida. Até que me reencontraste e me deste a mão. A mão que me recuperou no dinheiro, na auto-confiança fermentada no álcool, nos sonhos impossíveis inalados nas drogas. Recuperaste-me, sem que eu cuidasse que me afundavas. Porque precisavas de mim. Para algo que nada tinha que ver com os livros que sem dificuldade publicaste e vendeste, e te colocou no pedestal de uma cultura cimentada nas ideias dos outros que, indecentemente, plagiavas. Recordas-te da Cristina? Do Grégor, ainda que de um modo mais subtil? Da Luísa que, camuflada na pele de um qualquer António, te entregava textos de gente que apelidavas como cobarde? Nunca te ocorreu que os heróis podem nascer num impulso da cobardia? Em verdade te digo, Alípio: tivesses-me tu roubado na pouca capacidade intelectual, muito próxima da estupidez, e há muito estarias na condição em que agora te encontras.

Estúpido, sim. É como a mim próprio classifico. Por em ti ter acreditado quando me disseste quereres dedicar-te à pintura no seguimento da escrita e que, a teu pedido, fotografasse crianças – rapazes – cujas fotos te entregaria; quando me manifestaste vontade de, por simples entretenimento e mesmo sem qualquer curso, comandares um corpo de escutas; quando, devoto assumido a um ponto que até aí desconhecia, quiseste tornar-te catequista. Cérebro toldado pela droga, barriga refastelada no vinho, interpretei todos esses desejos como caprichos naturais e legítimos num homem que, podendo ter tudo pelo poder que adquirira, pretendia agora descer à vida comezinha da gente vulgar. E compreendi-te por isso. Até àquele dia. Aquele dia em que, talvez pela primeira vez e por eventual desnorte de uma excitação descontrolada, negligenciaste os cuidados e permitiste, sem que o soubesses, que eu te visse. A ti; e a ele. Um dos rapazes que eu havia fotografado, sem os andrajos com que o captara, com a mesma sujidade com que o descobrira. Esbugalhavam-se-lhe os olhos de medo, tremiam-lhe as carnes sob o calor das mãos que não desejava. E eu, cobarde agoniado, desprezível ser com cérebro de escaravelho, afastei-me sorrateiro e confuso. Em casa, vomitei a droga, vomitei o vinho e só não consegui expelir o ódio que, a ti, em mim crescia como num filme acelerado. E, em esforço, compreendi tudo. O repudiar de mulheres que fingias amar para que te aproximassem de homens. Inspectores, juízes, padres, ministros, eram os teus alvos na sociedade de topo. Precisavas deles para as tuas aldrabices literárias, para outros enredos que nunca desvendei, para, com uns, poderes alcançar outros. Que te dessem fama, que te livrassem de obstáculos, numa inquebrável teia que, a determinada altura, já nada conseguia rasgar. No início, pagarias com o teu corpo; mais tarde, com dinheiro; depois, com a tua própria influência. E, sem querer, como que com um estalar de dedos, revi aquele dia do urinol público e a razão pela qual o rapaz vociferara contra ti: tu eras nojento, asqueroso, hediondo, todos os adjectivos que possam definir o que de mais podre existe no Homem. Tu eras a espinha atravessada nos dentes, a pedra entalada no sapato. Tão longe uma da outra que, aliviando uma, teria de suportar a restante. Em quanta maldade se dividiria o teu corpo, Alípio?

O sol tinha-se já posto quando, decidido, retirei da gaveta da cozinha o facalhão de serrilha com que arranjava o peixe. Cada dente do utensílio, agora arma, seria o rosto inocente das tuas vítimas que, pela última vez, engolirias. Vesti o casaco ao qual descosi o fundo do bolso interior e, como bainha de espada, forcei a que o forro dissimulasse a faca. Sem outra coisa em mente senão tu, meu caro, meu amigo, meu sacana, dirigi-me a tua casa. Receber-me-ias. Como sempre me recebeste.

Pela calada da noite, vi-me junto ao pequeno portão do jardim da tua moradia de um só piso. Estranhamente, a minha mão não tremia quando o dedo enluvado apontou à campainha. Que não toquei. No escuro varrido pelos ocasionais faróis de um carro que passava, vislumbrei um corpo tombado sobre os ladrilhos da porta de entrada. Com uma serenidade que em mim não reconhecia, não evitei, porém, que o coração encetasse tão descompassada corrida. Algo me dizia ser teu o corpo que ali jazia. Enfiei a mão por entre o gradeamento de ferro forjado e experimentei o trinco que, com um estalido, se abriu à pergunta que interiormente fazia. E cuja resposta me chegou na confirmação do que pensara. Baixinho, com alguma suavidade até, pronunciei o teu nome. Silêncio. Com a ponta do meu sapato toquei o teu, insensível ao toque. Acocorei-me e levemente te sacudi. E não tive dúvidas: alguém se antecipara a mim. Ou, finalmente, o Deus que tão diferentemente fabrica os homens, renegara uma das suas defeituosas obras. Ergui-me e, com uma frieza desusada, preparei-me para sair. Mas quando as costas eram já o único obstáculo entre mim e ti, voltei-me e olhei-te pela última vez. Posição fetal. A mesma em que dormem as crianças na espera de nascer. A este mundo onde todas chegam com o dom da mentira. Que só eu admito possuir.

 

                                                                            João J. A. Madeira 

02/09/22

O Alípio Morreu - Capítulo 9

 


O sol escaldante fervia nos meus últimos fios de cabelo, que pareciam derreter de calor. A fila para se despedir do falecido era grande, de modo que eu nem tentei me aproximar do corpo. Me contentava apenas em marcar presença naquela cerimônia fúnebre de um praticamente desconhecido. Sim, embora Alípio fosse uma figura notável, comigo não compartilhava nenhuma intimidade. Conversamos apenas em duas oportunidades. A primeira há mais de uma década e a última há quatro dias. Para entender nosso segundo e último encontro, preciso contar do primeiro.

Era verão como agora, eu olhava pela janela do trem, enquanto esvaziava meu cantil de bolso outrora cheia de conhaque. O trem saía de Lisboa rumo a Paris. Alípio sentou do meu lado em determinado trecho que não me recordo. Eu já estava com meus sentidos enibriados pela mistura etílica do conhaque e algumas taças de vinhos que bebi desde que o trem partiu. Dito isso, impossível recordar de como nossa conversa começou. Só sei que ela fluiu com a naturalidade de um curso d’água.

Alípio se mostrava muito inteligente e culto e gostava dos mesmos livros e filmes que eu. Na época ele era apenas um jovem, talvez uns 22 anos. A bebida baixou minhas defesas e me faz falar mais do que costumava. Contei a Alípio quase toda minha história de vida. Contei-lhe vários pormenores que me sucederam desde a infância, meu primeiro amor, a morte de meus pais, e depois como conheci minha amada Leila lendo debaixo de uma flor de cerejeira. Contei-lhe como vi nosso filho adoecer e falecer sem que pudéssemos fazer nada e de como ela foi embora meses depois deixando apenas um bilhete inacabado. Contei-lhe até do tempo em que estive preso por um crime que jamais cometi.

Não caberia aqui relatar tudo o que conversamos durante aquela viagem, só digo que saí de lá com o sentimento de que havia conquistado um amigo. Ele anotou meu nome completo e eu anotei o dele. Prometi uma visita a ele quando retornasse à Lisboa, mas foi uma promessa que por razões pouco compreensíveis nunca cumpri.

Passarem-se anos até eu ver uma foto com o nome de Alípio em uma revista de literatura. Ele estava lançando seu terceiro romance e nessa altura já aglutinava em torno de si certo prestígio e sucesso. Li seu romance quase que de uma vez só. Foi então que resolvi comprar seu primeiro romance, considerado pela crítica como uma estreia grandiosa no mundo das letras. Comecei a lê-lo e a partir daí fui tomado pelo estarrecimento e incredulidade. Aquele maldito romance de estreia contava minha história entre seus parágrafos e pontos. Sim, tudo que eu havia lhe contado durante o trajeto de trem estava lá. As mortes, a separação, meus dramas pessoais espalhados entre aquelas páginas frias. O desgraçado conseguiu contar minha vida melhor que eu poderia fazer. Na hora fui tomado pela raiva. Porém, nada podia fazer contra ele. Não se tratava de um plágio já que essa história jamais havia sido publicada por outro escritor. Além disso ele mudou os nomes, o lugar e as datas dos acontecimentos e eu não tinha armas para rende-lo. Queimei o livro na lareira e segui minha vida como se nunca o tivesse lido. Era como se ele fosse meu testamento secreto, escrito pelas mãos de um desconhecido.

Porém, eu queimara o livro, não seu escritor. Então, há exatos quatro dias conversei com Alípio pela segunda vez em minha vida. A noite já caia sonolenta e não havia uma nuvem sequer no céu para cobrir a lua e as estrelas. Ouvi as batidas na porta de meu apartamento. Olhei pelo olho mágico e reconheci como por maldição a figura de Alípio. Abri a porta e ele me encarou com os olhos frios de desespero pedindo para falar comigo. Não precisávamos de apresentações e acho que no fundo ambos pressentíamos que um dia estaríamos frente a frente novamente.

Ele se sentou. Ofereci um whisky vagabundo que havia comprado na mercearia da esquina e ela aceitou virando o primeiro copo em um gole só. Enchi o copo novamente e também comecei a beber. Alípio estava com as feições severas e o olhar turvo, parecia carregado de preocupação. Ele tentou pedir perdão pelo livro. Disse que me procurou várias vezes sem êxito. Talvez fosse verdade. Andei itinerante por longos anos, até voltar para cá e me estabelecer fixamente há um ano. Disse-me que esperou também que eu o procurasse para exigir que pedisse autorização para publicar aquela história que era mais minha que dele, mas que isso nunca aconteceu.

Sua voz estava claudicante e com tons de agonia. Contou-me que convivia com essa e tantas outras culpas. Havia plagiado a obra de uma antiga paixão e cometidos outras traições de todas as ordens. Disse-me que precisava pedir perdão para acertar essa conta. Perguntei-lhe porque agora. Então ele me disse que estava com um terrível pressentimento. Tinha pesadelos e sentia-se encurralado.

- O rei morreu, mas não foi esquecido. Tudo o que fazemos uma hora vem ao sol. – Disse ele virando outro copo.

- Do que você está falando? - Indaguei, também bebendo a minha quota.

- São tantas coisas que você não entenderia. Só sinto que uma sombra paira sobre mim. Traições, mentiras, orgulho. E ainda tem essa figura desgraçada.

- Figura desgraçada?

- Sim. Ela tem me perseguido e quer acabar comigo, tenho certeza. Essa figura está sempre vestida de preto. Usa um sobretudo até às canelas e um chapéu negro de abas largas que cobre praticamente todo o rosto. Me espreita sempre de longe de modo que some antes que eu consiga alcança-lo. A vi ontem pela janela de meu quarto. Era madrugada. Eu olhei pelo vidro e ela estava lá, em pé na esquina oposta, encarando-me fixamente enquanto fumava um cigarro. Não sei se é homem ou mulher. Dizem que os anjos não possuem sexo, talvez os demônios também não.

- Acho que o demônio tem coisas mais importantes para fazer que perturbar a alma de um escritor.

- Então é alguém que quer acabar comigo. – Disse-me olhando nos fundos dos meus olhos.

Respirei e disparei:

- Já entendi. Você não veio aqui pedir meu perdão. Você apenas quer saber se não sou eu a figura que tem lhe perseguido. Qual é, poderia ter lhe procurado muito antes, não tenho motivo para fazê-lo agora. – Alípio ficou quieto por um instante.

- Preciso descobrir quem é.

- Isso se ela existir. Você anda assustado. A mente perturbada pode lhe pregar peças. Criar imagens que não existem e perigos onde não se tem.

- Duvido muito que seja o caso. Mas, uma coisa é verdade, ando bebendo muito ultimamente. Preciso manter a serenidade.

- Então acabamos por hoje?

- Sim. Poderia apenas me dar uma água gelada? – Disse-lhe que sim e fui caminhando lentamente até a cozinha para pegar a água. Abri a porta da geladeira e enchi um copo limpo primeiramente para mim. Bebi a água gelada com goles vagarosos. Depois peguei outro copo para ele e o enchi. Quando estava voltando para sala vi a porta fechando violentamente e pude ouvir os passos pesados e apressados de Alípio descendo às velhas escadas de cimento de meu prédio. Foi então que reparei que Alípio havia revirado uma estante que ficava logo à frente da mesa em que conversávamos. Da maneira, que saiu, até parece ter descoberto algo que o assustou e que nessa altura eu não poderia compreender, até porque minha mente também estava flutuando entre o álcool e a nicotina, que eu consumia desde antes da inesperada visita de Alípio.

Pois bem. Foram assim as únicas duas vezes que conversei com Alípio. Agora ele estava morto e eu estava ali entre centenas de rostos desconhecidos que queriam se despedir dele ou então ter certeza de que ele realmente morreu. Me ocorreu, então, que talvez ele pudesse guardar um segredo que não deveria revelar a ninguém e que isso poderia ser a razão de sua morte. Ou então ele só havia irritado algumas pessoas. De qualquer modo, eu não tinha participação nenhuma nisso. No fundo, nunca desejei a morte de Alípio. Pelo menos não de forma consciente e isso já me alivia do peso da consciência.

Enquanto derreto no sol, uma mulher de vestido e sapatos negros se aproxima de mim. Ela tem um perfume enigmático que não consigo decifrar, apenas apreciar. Seus lábios estão rubros como um rubi e seus cabelos pretos caem até as costas. Seus olhos estão escondidos de trás de um óculos escuro e ela segura entre os dedos pálidos e finos uma violeta vermelha.

- Olá. - Diz ela em minha direção com uma voz tenra.

- Olá. - Respondo.

- Você conhecia o falecido. – Pergunta-me.

- Apenas dos livros e você? – Retruco.

- Conheço melhor do que eu queria.

- Então meus pêsames.

- Obrigada. – Ela respira fundo e parece ficar introspectiva. Então finalmente fala novamente:

- Como dizia Ingmar Bergman “somos todos mortos insepultos”. Acho que a morte é a única garantia que temos contra o mundo. – Antes que eu pudesse concordar, a mulher sai de perto de mim e se mistura rapidamente na multidão.

Minhas costas estão suadas e meus lábios salgados. Acho que já fiquei aqui o suficiente. Me dirijo para a saída quando, com um relance de olhar, avisto do lado oposto uma figura vestindo um sobretudo negro até às canelas. Seu chapéu também negro cobre quase todo seu rosto que parece voltado para a multidão e consigo ver apenas um sopro de fumaça saindo de sua boca coberta. Por um instante penso em me aproximar. Mas essa luta não é minha. Seja lá qual fosse a dívida de Alípio, ele pagou com seu próprio sangue. A roda da fortuna às vezes trilha caminhos insondáveis.

Desabotoo o paletó. Já estou na rua. Tiro meu cantil do bolso e percebo que não há uma gota nele e me sinto aliviado de ver que estou perto de um mercado. “- Afinal, quem poderia me julgar?”. Digo para mim mesmo enquanto deslizo pela calçada com passos descompassados.

 

                                                                 Grégor Carlos Marcondes

 

13/08/22

O Alípio Morreu - Capítulo 8

 


Reli pela quarta vez as notícias que o computador me mostra. O Alípio morreu e as letras no ecrã parecem baralhar-se todas de cada vez que mergulho no rol de elogios àquela pessoa. Não consigo perceber como tanta gente entende ser tal criatura digna de afetos e elevada aos píncaros da literatura nacional.

Pois é Alípio, não consigo ser hipócrita e encontrar em mim qualquer sentimento de pesar que ilustre a tua perda. Talvez eu te conheça melhor que muita gente e as tuas trafulhices literárias sempre me tenham posto de sobreaviso. Mas pelos vistos muitos acreditavam em ti, para já não falar das mulheres que te seguiam feitas cachorrinhos e a quem te limitavas a dar esperanças, como se lhes atirasses um petisco.

Olho para Vera debruçada na janela, cabelos ao vento e aquele olhar sonhador que a caracteriza. Também eu estou mergulhada em pensamentos sem saber como dar a notícia à minha melancólica gémea, tão parecida por fora e tão diferente de mim por dentro. Enquanto Vera é toda ela serenidade, já eu sou um turbilhão de sentimentos.

Infelizmente a minha irmã é das pessoas que julgam Alípio Belmonte, um génio das letras e um benfeitor abnegado.

- Vera podes largar a janela para falarmos?

- Posso sim Clara, desde que me deixes ver primeiro o barco que está a passar no rio.

Encosto-me resignada na poltrona amarela. Sei que tenho de esperar uns quinze minutos, até que o barco faça as manobras habituais e depois siga viagem. Vera adora passar horas com os olhos na água até quase se confundirem com ela. Enquanto o faz alheia-se das coisas mundanas e dos desgostos da vida.

Ai mana, há coisas que tu não sabes e até as que sabes, finges ignorar como se o fingimento as fizesse desaparecer. Nunca percebi o que vias no Alípio. À altura que o fazia parecer meio desengonçado, juntava-se um rosto sem queixo, decorado com uma pera fina. A juntar-se a voz de desenho animado e as gargalhadas histriónicas, estava o pacote completo. No entanto, isso era apenas um exterior que usava para se passar por uma pessoa aceitável. O pior era mesmo tudo o resto: as mentiras, as falsas promessas, os plágios, os roubos intelectuais e coisas mais graves, de uma das quais sou testemunha principal.

- Clara, afinal não querias falar comigo? Estou aqui há minutos a chamar-te, mas parece que estás noutra dimensão. E depois a sonhadora sou eu!

- Desculpa, Vera mas às vezes há coisas que preferimos não recordar e agora vais também ter de o fazer porque tenho algo para te contar. Mana, o Alípio Belmonte morreu.

- Como? Morreu? Mas morreu como.? O que aconteceu?

Fico assustada com o estado em que a minha irmã está e arrependo-me de imediato de ter dado a notícia tão de repente, mas sinceramente não sei como o fazer de outra maneira. Foi melhor ter sido eu a dizê-lo em vez de Vera o descobrir por outros ou pelas notícias.

- Estava doente? - Perguntou Vera pesarosa com um vestígio de uma lágrima a querer espreitar.

- Não sei se estava ou se o mataram. Ainda não se sabe ao certo.

- Mataram? Quem quereria matar uma pessoa tão boa e cheia de predicados.

- Vera desculpa lá, mas não sei onde foste buscar essa ideia romântica daquele estafermo. Um aldrabão de todo o tamanho que até os teus poemas roubou.

- Ele meteu-os no livro dele porque achou que ficavam bem naquele capítulo final e disse-me que era um favor porque gostava de mim. E enfim, não tinham estrutura para irem em frente se os quisesse publicar.

- Ah não tinham? Por isso foram tão elogiados e ele nunca teve a coragem de te citar fosse de que modo fosse. Um crápula! E gostava de ti? De ti e de outras tantas mais.

- Clara não digas isso. Os nossos caminhos afastaram-se, mas ele era muito carinhoso.

- Era, era, um manipulador dos piores, um narcisista, um borderline. Como ele enganou tudo e todos ou quase todos, demonstra bem como conseguiu subir à conta de outros como ele.

- Olha Clara, eu quero ir ao funeral digas tu o que disseres. Até parece que o querias morto!

Eu ia responder quando a campainha me impediu. Talvez fosse melhor assim porque não íamos chegar a acordo e não valia a pena ficarmos zangadas, mas não suporto aquele feitio da minha irmã que acha que o mundo é um paraíso e as pessoas são todas cheias de boas intenções.

- Bem, não digo mais nada.

Abro a porta e deparo-me com o Paulo. Somos muito amigos há imensos anos e ele é uma espécie de irmão a quem me confesso quando os assuntos são demasiado cruéis para os ouvidos de Vera.

- Olá, Clarinha, já viste as notícias?

- Já e acabei agora de contar à Vera que ficou inconsolável com a perda de uma pessoa tão fantástica, raios o partam!

- Realmente é incompreensível como as pessoas se deixam enganar - disse o Paulo abraçando-me ao ver como rolo os olhos com um sentimento de desânimo e raiva por não ter convencido a minha irmã.

- Clara não achas que lhe devias contar tudo?

- O quê? Estás louco. Ela não iria acreditar e ficaria demasiado magoada comigo. Não vale a pena.

- Mas era a maneira de ela ver quem era o pulha.

- Não, Paulo. Na altura não lhe disse e agora é tarde. E o desgraçado está morto, teve o merecido.

- Achas que o mataram? Aposto que há uma lista de candidatos a tal.

- Não sei, mas eu mesma quis fazê-lo.

Paulo olha-me surpreendido com a minha explosão, mas sabe como sou, vibrante e apaixonada.

- Olha Clara vou-me embora e tu acalma-te e vai descansar que, entretanto, saberemos mais.

Agora que o Paulo saiu, sento-me no parapeito da janela tentando respirar fundo. A minha irmã, entretanto, foi-se deitar e aqui estou eu a tentar erradicar da memória o famigerado episódio que a notícia da morte do Alípio espoletou.

Morreste Alípio e se não foi de doença, agradeço a quem o fez. Não devia? Paciência! Não posso fingir que a tua morte não me enche com uma certa dose de paz. Vejo tanta gente boa morrer, que quando calha a quem merece...enfim não se perde grande coisa

O teu nome nauseia-me quando me lembro do que fizeste. Para além de enganares meio mundo meteste-te connosco e de certo modo ambas pagámos o preço.

Vem-me fel à boca e fogo aos olhos quando me lembro daquela tarde na biblioteca. Tu já andavas metido com a minha irmã e naquele dia confundiste-me com ela e tentaste dar-me um beijo viscoso e cheio de saliva. Disse-te que era eu. Primeiro tentaste negar, mas vi nos teus olhos que tinhas percebido que não era a Vera que agarravas. Empurrei-te, bati-te, gritei-te não várias vezes, mas tapaste-me a boca e com a tua envergadura submeteste-me e violaste-me.

Depois arranjaste uma desculpa esfarrapada para justificares a tua atitude e chantageaste-me para não fazer queixa ou dizer o que quer que fosse. Naquela altura era difícil ir para a frente com uma queixa, sobretudo por teres tantos apoios e eu não ter testemunhas. Segui o meu caminho e tu ficaste isento de culpas e de certeza de remorsos.

Confesso que matar-te de algum modo nunca esteve fora de questão. Agora já está, morreste finalmente.

 

Margarida Piloto Garcia

05/08/22

O Alípio Morreu - Capítulo 7

 

Fotografia: José Bessa

- E tens a certeza de que é ela?

- Por muito tempo duvidei. Era o sr. António, o fugidio, mas há algum tempo que tenho a certeza.

- Enganada, mas sócia; hein? Viste papeis, ouviste conversas?

- Tenho a chave da secretária, ele não sabe; e só depois de muita insistência do pai, de muitos pedidos para que o levasse à razão e a uma conversa é que, por um breve acaso, consegui fazer uma cópia.

- O pai anda muito preocupado. E triste, principalmente triste.

- Eu também…

- Talvez o leve à morte sabes? Esse pseudoescritor deve-lhe tudo, e vai levar-lhe tudo…

- Mas o pai também ganhou uma fortuna com ele!

- E tu sempre a defendê-lo!

- Se tu soubesses…

- E ele, sabe?

- Como assim?

- Mas pensas que nós somos parvos? Não me digas… não me digas que ele…

- …

- Não me digas que ele não sabe?...

- …

- Não valem de nada esses teus silêncios, menina. Todo o mundo duvida e até acham graça ao tratamento por “tio padrinho”. Tendes cá uma imaginação…

- Não. Ele não sabe e creio que nem duvide…

- Pois olha, o pai disse-me há muitos anos que tinha a certeza e até compreendia.

- Foi por isso que o ajudou?

- Talvez… mas o pai gosta muito de dinheiro e aquele impante era um filão promissor. E tu és a filhinha querida. A ligação perfeita.

- Nunca gostaste dele…

- Detesto vaidosos! Principalmente vaidosos simpáticos. São perigosos. Agradáveis sedutores que levam as pessoas pelos sorrisos, gentilezas untosas, uns salamaleques aqui, a florzinha oportuna acolá, a frase calculada e depois: Ah!... não me diga…

- Oh.

- Sim, sim… vais ver que, se não houver mais novidades vai ser ele a matar o pai e não a velhice. O pai está derrubado, sabes?... E, antes de mais, é uma ingratidão. Sabemos pelos nossos meios que estão a ser combinados contratos de exclusividade com outro editor.

- E o pai?... Que diz?

- O que pode fazer o pai, iluminas-me?

- Consegues fotocópias dos papeis? Há mais negócios pelo meio.

- Mas tu pensas o quê de mim?! Eu não sou nenhuma traidora. Ele ajudou-me quando eu mais precisava, não vou esquecer isso.

- Ora essa! Quando mais tinha obrigação para isso!

- Deixá-lo…

- Para mais… não te entendo. Ele está a trair o pai, depois de ter traído antes uns quantos e uma quantas, e tu…

- …

- Sabes que temos uma gravação com ameaças de tribunal sobre um plágio flagrante, que lhe arruinará a carreira e levará o pai ao descrédito como editor?

- De quem?

- Isso não vem para o caso, inimigas tem ele. Pensa como vais poder fotocopiar ou fotografar os documentos dessa gaveta. É muito importante a urgência. Não me faças vir aqui rebentar com a gaveta, ou até, com ele…

- Tu não me assustes!

- Não te esqueças que é ao pai, e a ti, que esse faz-figura deve a fama internacional e a fortuna. Com o que tu escondes, e com o que o pai ganha com isso. Vocês são pai e mãe de uma aldrabice internacional que vos vai cair no regaço não tarda. E eu também me desgraço com isso, não te esqueças! Se fosse com estranhos e eu de fora, até achava graça…

- Estou tão a leste… nem imaginas. Sempre confiei não me intrometendo em nada. As pessoas pensam que uma secretária pessoal com tantos anos de serviço é dona de todos os segredos, que tem obrigação de saber; e isso nem na intimidade acontece. O que se passa e tão grave afinal?...

- Isso não conversas para ter ao telefone.

- …

- Depois de amanhã estou de piquete durante a noite. Saio antes das nove da manhã e encontro-me contigo no café antes de entrares. Marca um encontro com ele para a primeira hora. Diz-lhe ao que venho e que tenha calma. Estou capaz de dar cabo dele.

 

 

- Bom dia…

- Faça favor.

- Fui chamado pelo agente Adolfo…

- …

- Entre! Sente-se.

- Bom dia…

- Já ouviu falar no senhor Alípio Belmonte?

- Ouvi, sim senhor…

- Pois ouviu… pois ouviu… então ponha cá para fora tudo o que sabe dele e da sua relação consigo.

- Não entendo…

- Chefe! Não faça de mim parvo. Da figura pública já todos sabemos, cheira que tresanda e é assunto conhecido, já da sua relação com ele… seu cunhado? Posso referir-me assim?

- Cunhado, não!

- Ah… acordou… então conte lá… conte que eu tenho tempo…

- Sei pouco dele de facto, além de ser patrão da minha irmã, e de o meu pai ser o seu editor de sempre, pouco mais.

- E de ser pai da sua sobrinha…

- Quem lhe disse semelhante?

- Aqui, quem faz perguntas sou eu.

- E de estar metido em negócios proibidos, tráfico de direitos de autor, acções, offshores.

- Também não sei de nada disso…

- E de ter revogado a colaboração com o seu pai, unilateralmente e com justa causa: por incumprimento e incompetência…

- Isso do incumprimento e incompetência é falso.

- E por isso ter arruinado o seu pai, e a si, uma vez que tinham investimentos conjuntos que estão agora insolventes…

- …

- E que sabe você de um envelope, há testemunhas!, que foi retirado do bolso do cadáver enquanto você fotografava, de onde saíram também umas chaves que foram disfarçadamente arrastadas para perto da mão? Também não sabe de nada nem nunca ouviu falar?...

- …

- E já agora… porque carga d’água é que foi logo você, com outro colega repórter de serviço, a ir sozinho ao local tomar conta da notícia de uma pessoa, pública é certo, mas de uma pessoa de que sabe pouco de facto, além de ser patrão da sua irmã, e do seu pai ser o editor, e nhã-nhã-nhã… nhã-nhã-nhã… Quer dizer alguma coisinha sobre esse grande acaso, ou temos de ir ao juiz?...

 

José Bessa