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22/06/18

Voar Sem Asas - Capítulo XVI - Final

Imagem encontrada na net sem indicação do autor 

Laíssa incorporou no seu sonho o ribombar de um trovão gigantesco e o vibrar do chão e das paredes. Centenas, talvez milhares, de naves cobriam o céu.
Teria a elite descoberto os planos de revolta? Ela bem desconfiara que, com tanta gente envolvida, haveria fugas de informação.
A porta do apartamento foi arrombada. Guardas, de armas em punho e de rostos irreconhecíveis pela viseira escura dos seus capacetes, apoderaram-se de Orionte e entraram no quarto dela. Tinham vindo para os prender, ou para os matar?
Laíssa deu um grito. E acordou, banhada em suor. Num primeiro momento, ficou aliviada: apenas um pesadelo. Mas o trovejar mantinha-se, o apartamento vibrava, as persianas abanavam como loucas.
Levantou-se, foi até à janela do seu quinto andar e, depois de abrir a persiana, quedou-se aturdida perante uma chuva diluviana e ventos ciclónicos que arrancavam árvores pela raiz. Ao longe, o rio Auron aumentava assustadoramente o caudal, formando ondas altas.
 De repente, a terra começou a tremer. Laíssa agarrou-se ao parapeito, sem saber como reagir. Ao ver os primeiros prédios a desabarem, porém, percebeu que só lhe restava fugir. Calçou-se e, enquanto vestia um casacão por cima do pijama, dirigiu-se ao quarto de Orionte, cambaleando, devido aos abalos.
O ancião continuava deitado, de olhos fechados. Não ouviria aquele barulho ensurdecedor, não sentiria os abanões? Laíssa impressionou-se com a sua palidez. Abanou-o pelos ombros, berrando o seu nome. Orionte não reagia. Estaria morto?
Os quadros, os livros e os outros objetos colocados nos móveis caíam ao chão, gavetas abriam-se. Era imperioso que saíssem dali e Laíssa não deixaria Orionte sozinho, sem saber se estava vivo ou morto. Carregá-lo-ia, por mais que lhe custasse. Puxou-lhe a roupa da cama para trás e preparava-se para o agarrar pela cintura, quando ele gritou:
- Não, Laíssa!
Tinha os olhos escancarados, raiados de sangue.
- Deixa-me! Resta-me pouco tempo de vida.
Orionte aproveitou a perplexidade dela para lhe passar uma pequena placa com um ecrã para a mão:
- Rafael deu-mo ontem. Chama-se “digi-phone” e permite-te comunicar com ele e Iosef. Só precisas de chamar os seus nomes…
De repente, o ancião levou as mãos à garganta, abafado, a lutar por cada lufada de ar. Pedaços do estuque das paredes e do teto começaram a cair, o prédio abanava cada vez mais, a chuva batia nas janelas com fúria nunca vista. Ouviam-se os gritos dos homens, vindos das escadas do prédio.
- Despacha-te - ordenou Orionte de voz rouca. - Pertences aos eleitos.
- Eleitos? Enlouqueceste? Não me deixes sozinha, neste fim do mundo!
- Vai! - O ancião fazia um esforço terrível para se fazer ouvir, no meio do barulho. - Vai ter com Iosef e Rafael! Tendes uma missão a cumprir, sois eleitos…
- Não fales assim, que não te entendo - replicou, entre lágrimas, enquanto o prédio ruía à sua volta.
Orionte agarrou-lhe os ombros e, de olhos escancarados, berrou, como em transe:
- Não matarás! Não matarás!
Largou-a, de repente. Estava morto.
Laíssa rompeu num pranto desesperado. O instinto de sobrevivência, porém, fê-la reunir todas as suas forças para largar Orionte e sair do apartamento.

Embora aquela visão o dilacerasse, Theo decidira-se pela escrita de um novo Tomo do livro Terra. Daria mais uma hipótese à raça humana, considerando, porém, que tal só seria possível evitando a revolução que Rafael e os seus seguidores planeavam. Teriam de matar, a fim de acabar com a elite tirânica, o que contrariava o Quinto Mandamento que ele próprio criara. Por várias vezes, Theo constatara que uma nova sociedade, fundada por humanos que haviam matado e causado sofrimento a outros humanos, mesmo sendo por uma boa causa, estava condenada ao falhanço. Por isso se decidira por uma catástrofe de proporções gigantescas, chamando novamente a si a responsabilidade de eliminar todos aqueles que achasse desnecessários, mesmo os inocentes.
Tudo isto o dilacerava, dando início ao sofrimento que tão bem conhecia, desde o tempo em que se materializara humano. Novamente sentia o crânio massacrado pela coroa de espinhos, o sangue a escorrer-lhe pelo rosto, os chicotes deixando-lhe as costas em carne viva, o desprezo e achincalhamento públicos, a sede, a fome, o desespero. Mas sabia que o pior estava para vir, quando sentisse os grossos pregos que, à força de martelo, lhe dilaceravam as mãos e os pés, tudo confluindo na dor indiscritível de agoniar pendurado numa cruz.
«Meu Pai, porque me abandonaste»?
Quantas vezes teria ainda de arcar com os pecados daquele mundo?

Laíssa juntou-se aos restantes habitantes do prédio, todos homens, na sua fuga. As escadas estavam ainda intactas, mas muitas paredes já tinham desmoronado. A chuva penetrava no edifício, batia-lhes no corpo, o vento soprava violento. Nem todos se conseguiam manter agarrados ao corrimão. Laíssa ouvia os gritos dos que eram levados pelas rajadas ciclónicas, via-os a voar como se fossem folhas no Outono.
Sem saber como, conseguiu chegar à rua, mas não havia tempo para suspiros de alívio. Era quase impossível andar, a visão miserável. Enxurradas levavam consigo pessoas e animais, o tremor de terra persistia, gente caía desamparada dos prédios que desmoronavam, ou ficava soterrada nos escombros.
Abrigou-se na soleira de uma porta ainda intacta, sem saber o que fazer. Lembrou-se do “digi-phone” que Orionte lhe tinha dado e que ela tinha posto no bolso do casacão. Agarrou nele, a tentar lembrar-se das instruções do ancião. «Só precisas de chamar por eles».
Embora lhe parecesse patético, pois nunca tinha usado aparelhos daqueles, pôs o “digi-phone” à sua frente e berrou por Iosef. Depois de algumas interferências no ecrã, viu-lhe o rosto.
- Iosef, meu amor - exclamou, entre lágrimas. - Onde estás?
- Laíssa, graças a Deus! Espera um momento, enquanto te localizo!
- Vens buscar-me?
- Não posso. Rafael e eu estamos a tentar salvar o maior número de crianças possível. Mas dou-te já um itinerário. Espera!
- Itinerário? Que queres dizer?
- Tens de vir ter connosco ao edifício RT 505.
- Edifício quê? Estás louco? Eu não conheço nada aqui…
- Fica calma, Laíssa…
- Calma? O mundo desmorona à minha volta e pedes-me calma?
- É só mais um momento… Ah, cá estás! E aqui está o itinerário. Foi difícil programá-lo, pois o Auron aumenta de caudal a cada instante e já alagou muitas ruas, provocando enxurradas que não dão hipóteses de sobrevivência. Acabará por alagar a cidade inteira. Mas só precisas de seguir o itinerário que te envio, para lhes escapares… se conseguires fazer o percurso em 15 minutos. Estarei à entrada à tua espera. Despacha-te!
O rosto de Iosef desapareceu para dar lugar a um mapa. Uma seta indicava a posição dela, uma voz feminina fez-se ouvir: «a vinte metros, vire à direita».
Laíssa reuniu todas as suas forças para sair do local abrigado e iniciar a sua caminhada, contra o vento e a chuva. Naquela rua, a água corria já muito rápida, mas ela conseguiu atingir a esquina, que lhe deu acesso a uma ruela mais abrigada. Teve igualmente a impressão de que o tremor de terra tinha cessado. Foi seguindo as instruções do aparelho, até que deparou com uma grande avenida, muito fustigada pela tempestade. A água subia, a corrente ficava cada vez mais forte, Laíssa avançava a passo de caracol. A voz disse-lhe, naquele tom neutro de quem dá instruções para uma receita: «Acelere o passo! A avenida será dominada pelas águas em poucos minutos».
- Como posso acelerar, sua estúpida? O vento e a chuva não me deixam. Além disso, não vejo nada.
«Se não atingir as escadas dentro de dois minutos, diminuirá a sua hipótese de sobrevivência».
Entrou em pânico:
- Iosef! Ouves-me, Iosef?
O rosto dele surgiu:
- Laíssa! Deixa-me ver onde te encontras… Despacha-te, estás em grande perigo!
- Não consigo…
- Consegues, pois! Tu és uma eleita! Acredita! Tem Fé!
A água já lhe chegava à cintura, com uma corrente incrível. Laíssa avançava agarrada aos puxadores de algumas portas que se mantinham de pé. Pessoas levadas pela enxurrada passavam por ela, algumas aos gritos, outras já mortas.
«Restam-lhe trinta segundos».
Alcançou as escadas, um acesso pedonal a uma rua num nível mais elevado. Laíssa agarrou-se ao corrimão, mas demorou uma eternidade a vencer três degraus. Não via como conseguiria chegar ao fim.
«Os dois minutos esgotaram-se. Tem apenas 10% de probabilidade de sobrevivência».
Com a força do desespero, cerrou os dentes e almejou alcançar os degraus ainda livres da corrente assassina. Atingiu a rua desejada e caiu esgotada, a respirar às golfadas.
- Laíssa! Responde, Laíssa!
- Iosef, não posso mais…
- Despacha-te, restam-te quatro minutos para atingires o edifício RT 505! As águas atingirão igualmente as ruas de nível mais elevado.
Mais uma vez arranjou forças sem saber onde. Livrou-se do casacão, que se tornara um peso inútil, e avançou, encharcada até aos ossos, o pijama colado ao corpo, seguindo as instruções do “digi-phone” na sua mão.
- Laíssa! Já cá devias estar. A enxurrada não tarda a surgir.
- Estou quase…
Dobrou mais uma esquina e Iosef viu-a. Foi ao seu encontro a fim de a ajudar a vencer os últimos metros contra a chuva e o vento ciclónico.
- O Rafael está à nossa espera com a nave para nos levar à plataforma.
- À plataforma?
- No edifício RT 505 encontra-se a única plataforma que permite a aterragem e a descolagem de naves Jumbo, nesta cidade de ruas apertadas e prédios altos. Mas temos de nos despachar. As crianças estão sozinhas e, em breve, começará um terramoto ainda mais forte.
- Como sabes?
Iosef não respondeu. Tinham chegado à entrada do edifício e embarcaram, sem demora, na pequena nave. Rafael descolou, a fim de atingir a plataforma a 150 metros de altura. Depois de recuperar o ar, Laíssa perguntou:
- Onde estão as crianças?
- Esperam na nave Jumbo.
- Sozinhas? Não há adultos? E o meu pai, Thays, Eduína…
Os homens não responderam. Rafael limitou-se a pilotar a nave, enquanto Iosef desviava o olhar, porém, sem conseguir disfarçar a dor. Laíssa agarrou-lhe as vestes:
- Diz-me! Morreram todos?
Iosef encarou-a:
- Tenho muita pena, mas tivemos de nos concentrar nas crianças, cumprindo a palavra.
- A palavra? Que palavra?
- A palavra escrita. Assim está escrito.
- Que queres dizer, Iosef? - Berrou Laíssa. - Não estou a entender nada…
- Não há tempo para discussões - admoestou Rafael. - Começou o novo terramoto, a plataforma não aguentará muito tempo.
Tinham aterrado mesmo ao lado da nave Jumbo, de outro modo, não resistiriam às rajadas ciclónicas, já que a plataforma abanava igualmente devido ao tremor de terra.
- Depressa! Depressa!
Mal entraram, Rafael dirigiu-se à sala de comando, enquanto Laíssa e Iosef se dedicavam às cerca de sessenta crianças assustadas. Os adolescentes que se encontravam no seu meio ajudaram os dois adultos a apertar os cintos de segurança das mais pequenas. Depois, sentaram-se nos seus lugares, Thyara agarrada ao pai, entre ele e Laíssa, que apertava Míryo contra si.
Rafael lutava contra as dificuldades na descolagem. Uma nave Jumbo devia ser pilotada por três pessoas, duas, no mínimo. Acabou por descolar aos solavancos e aos abanões, mesmo a tempo de deixar a plataforma que começava a desmoronar.
Rafael via-se aflito para estabilizar o aparelho, um joguete nas garras do ciclone. As crianças gritavam e choravam, Iosef e Laíssa tentavam acalmá-las, sem poderem sair dos seus lugares e escondendo a própria angústia. Com Míryo junto ao peito, Laíssa viu, pela janela, como os prédios mais altos da Grande Cidade colapsavam e eram engolidos por enormes valas abertas pelo terramoto. Antes de a nave romper a parede de nuvens escuras, ainda teve tempo de ver um tsunami colossal a engolir as ruínas.
Acima das nuvens, a nave estabilizou. Puderam desapertar os cintos de segurança e deixar os seus lugares. Laíssa tinha inúmeras perguntas, mas urgia, primeiro, tratar das crianças, garantindo-lhes que o perigo tinha passado.
Assim que tudo estava calmo, Laíssa, que já se tinha secado e mudado de roupa, perguntou a Iosef:
- Para onde vamos?
- A lado nenhum. Ficaremos em órbita e regressaremos à Terra, assim que as catástrofes naturais tenham passado.
- Mas está tudo em ruínas…
- Aterraremos num local aprazível, uma enorme ilha que, depois da tempestade, apresentará um céu azul, um sol radioso e um mar calmo.
- Não me digas! E como sabem vocês da existência dessa ilha paradisíaca?
- Rafael tem as coordenadas… Estavam nas Escrituras.
- Nas Escrituras? - Chegara a altura de esclarecer as dúvidas. - Iosef, que conversa é essa de Escrituras, de palavra, de sermos eleitos?
Depois de respirar fundo, ele respondeu:
- O meu pai, Orionte, era um profeta.
- Profeta?
- Sim, uma pessoa próxima de Deus, capaz de comunicar com Ele. Tudo o que viveste hoje, estava previsto, escrito. Meu pai sabia que nós os três seríamos os únicos adultos a sobreviver, deu-nos instruções de como agir e as coordenadas da ilha onde devemos aterrar. Rafael, tu, eu e estas crianças somos os eleitos, os primeiros protagonistas do novo Tomo do livro Terra.

Depois de, mais uma vez, aguentar toda a agonia e todo o sofrimento, Theo suspirou aliviado. O novo Tomo estava iniciado e os eleitos tinham agora o seu destino nas próprias mãos. Cabia a Rafael, Iosef e Laíssa, adultos corajosos e honestos, que nunca tinham sujado as mãos com sangue humano, educar as crianças, sem injustiças, invejas, nem violências desnecessárias. O seu próprio exemplo, a retidão do seu carácter e a sua capacidade de cumprir os Dez Mandamentos eram imprescindíveis, mais do que qualquer sermão.
Theo esperava que não tivesse de, novamente, sofrer as agruras da cruz.

À saída da nave, Laíssa foi surpreendida por uma pomba branca com um ramo de oliveira no bico.

                                                                                                            Cristina Torrão

09/06/18

Voar Sem Asas - Capítulo XV

Foto © Fátima Ferreira 

O barulho da chuva eternizava a trovoada. O chão lá fora parecia rachar, ao passar de cada segundo, debaixo de uma intempérie que se descrevia a si própria com um silêncio difícil de decifrar. Theo refletia sobre o futuro da vida. O futuro do planeta. O que estaria para vir para si, e para os que gostava. Sabia que o Mal estava nos pequenos pormenores de todas as decisões que o homem alguma vez tomou, e das quais se arrependeu. Ou não.
Dar um passo que fazia de si próprio um Deus, tornava a vida de Theo uma alienação. Um pensamento que não poderia caber na cabeça de todos os seres humanos deste planeta, porque cada um deles nunca terá o poder investido em Theo. A certeza de que poderá abrir o chão, para fazer a Terra cuspir fogo e recentrar o foco da criação noutro ponto desta Galáxia, ou no mesmo local onde sempre esteve. Revolver os oceanos, a ponto de destruir tudo, como um sopro de Armagedão.
Amanheceu, com a perspectiva de Theo de que, afinal, era um ser humano. Com um condão de escrever a vida de uma forma mais intensa que o habitual. Por isso, sentou-se à mesa, no único sítio naquele local que permitia fazê-lo, e repensou toda a história de criação de morte da qual tinha sido o projetista.
No livro Terra defendeu a certeza de que os homens são os únicos donos do seu próprio destino, e deu-lhes o dom da ubiquidade. Cada canto teria um respirar humano. Um dote de amor no toque. Nas expetativas. Seria a lua a comandar o girar da Terra, e nunca o contrário. As estrelas desordenadas numa sopa primordial alumiariam as decisões de cada pessoa, para que o Mal fosse gradualmente substituído pela necessidade de lógica na evolução.
Nos eclipses, conhecidos numa nota de rodapé do livro da Terra como assassinos do Sol, as pessoas iriam encontrar um refúgio dos sonhos maus. Os tais que mais não eram do que o Mal que andava à solta nas páginas do livro da Terra, a querer desenhar um rosto no âmago das pessoas que respiravam para estar vivas, e estavam vivas tentando fazer muito mais do que respirar.
Theo sentia que não podia falhar no que debitava com o ritmado compasso da caneta que, hirta, tomava conta da sua mão, deixando-a sozinha a lutar contra o poder desgastante do tempo. E o livro da Terra teria também de ser uma prova do seu poder. Sentia-se o escolhido para, com palavras poderosas e magnéticas, capazes de revirar o sentimento das pessoas transformando a maldade em bondade, alterar o destino de todos os seres humanos.
E por isso criou uma ideia de reconciliação entre todas as pessoas. Apesar de saber que aquele era um espaço que só existia na sua mente, também sabia que se sentia ligado a milhares, milhões de seres semelhantes. E por isso desenhou uma casa comum para todas as pessoas. Teria janelas grandes, amplas, que deixassem abraçar toda a luz solar. E recantos desenhados com a mestria possível, para acolher as vicissitudes de cada uma das pessoas.
Teria de haver espaço para os ambiciosos, os conformados, os desesperados, os fazedores de esperança, e até as pessoas más. Os assassinos, os que se regiam pelo desprezo pela beleza e conceito de vida humana.
Quando chegou ao fim da reconsideração que devotou aquela obra, sentia-se uma pessoa cansada. Capaz de abdicar da criação, do desejo de perpetuar o belo, apenas para se sentar, fechar os olhos, e pensar que o bom da vida era a possibilidade de a maquilhar. Como o rosto da mais linda mulher do universo.

                                                                                         Miguel Curado

18/05/18

Voar Sem Asas - Capítulo XIV

Imagem tirada da net, sem referência ao autor 

É poeira a última vez em que Theo entrou na Biblioteca, mas recorda-se nitidamente de todas, tem memória ilimitada, por isso sabe de cor os títulos dos livros e o conteúdo inteiro de todas as obras, nem um só segundo da universal criação se eclipsou do seu conhecimento. Na Biblioteca guarda toda a História do Cosmos, uma quase infinita coleção de livros, desde o instante em que escreveu a primeira palavra, a milagrosa palavra com que inaugurou a primeira obra, à qual deu o nome de BIG-BANG, e à segunda obra, FIAT LUX.
Entrar na Biblioteca é a ação que mais custa a Theo e que muito o entristece, não pela dificuldade de encontrar qualquer livro, apesar de nela estarem depositadas todas as narrativas do Universo. A Biblioteca é um espaço inconcebível fora da mente de Theo, inacessível a qualquer entidade pensante, pois é na sua mente que a Biblioteca existe, e facilmente ele entra nela, facilmente abre o livro que o chama com urgência, facilmente o manuseia e facilmente encontra o episódio que lhe interessa, mas é sempre no presente da narrativa que age sobre o texto.
Interromper e alterar o curso de uma obra é o ato que mais lhe custa; não por falta de criatividade, pois, sendo autor de tudo o que existe no Cosmos, o grande livro que contém todos os livros, cujo exemplo mais parecido é a Bíblia, é incontestável a sua omnisciência de todos os processos narrativos. O que lhe entristece e magoa, se um motivo infinitamente forte o obriga a entrar na Biblioteca, a fim de abrir um livro e nele escrever, é o facto de as personagens dessa narrativa, por causa do livre-arbítrio que lhes concedeu, protagonizarem ações que põem em perigo a continuidade de um mundo cujo propósito é o Bem, princípio e fim absolutos que presidem a toda a sua criação.
Às vezes arrepende-se de ter criado o livro Terra, o único de todas as obras que o tem obrigado a corrigir o desenvolvimento da ação. Muitas vezes se interroga em que momento preciso e por que motivo se distraiu na conceção das personagens, a única explicação para o facto de o Mal se ter revelado uma personagem invisível desde Caim, para o caso de grande parte das personagens deste livro se aproveitarem do livre-arbítrio para fugirem ao domínio do seu criador e revelarem fascínio pelo Mal, obedecendo a este cegamente, como se o Mal fosse o deus do Paraíso.
A primeira vez que Theo mexeu no livro Terra foi logo nos primeiros capítulos, quando se lhe tornou evidente que o Mal se instalara na obra como personagem invisível, e então teve de exercer a sua omnipotência autoral, não quis que o fim do livro fosse o caos, o retorno ao Nada, resultado da extinção de todos os seres vivos. Por isso, com o Dilúvio e com a Arca de Noé, acabou o primeiro Tomo e iniciou o segundo do mesmo romance, para que as personagens, aprendendo a lição, percebessem que o livre-arbítrio é a dádiva mais valiosa da vida, que não deve ser utilizado para servir o Mal. Infelizmente, em outras ocasiões teve de agir, e novos tomos foram engrossando o volumoso livro da saga Terra.
Agora, decorrido um século desde a sua última intervenção, pondera se entra na Biblioteca, ou se, desta vez, desiste da obra — se a melhor solução é abandonar os humanos ao seu livre-arbítrio e permitir-lhes que percorram o caminho da autodestruição até ao fim, até à última palavra do último Tomo do livro Terra, definitivamente uma narrativa fechada e arquivada para sempre na Biblioteca.
Valerá a pena ajudar Laíssa, Orionte, Thays, Myrio, Thyara e todas as personagens que combatem o Mal?
Valerá a pena encerrar este Tomo do livro Terra e iniciar a escrita de um novo?
Ainda é possível acontecer uma obra perfeita, sabendo que o Mal é a semente que germina em todos os seres vivos da Terra?
Este é o dilema angustioso de Theo.


                                                                      António Breda Carvalho

11/05/18

Voar Sem Asas - Capítulo XIII

Frame do filme  "Metropolis"  - 1927
Caminharam calados, em passo cadenciado, para manter o ritmo... Faziam-no, sempre que possível, entre ervas altas, arvoredo, caminhos ladeados por abundante vegetação. Providenciava-se assim, uma certa segurança. À suave aragem do início da manhã sucedeu um calor tórrido. Aproveitaram para uma breve paragem, em que comeram alguma coisa, reviram mapas, reavaliaram possíveis estratégias. Seguiu-se-lhes um descanso merecido. Sempre que possível, antes do sono decidiam também, por um tempo de meditação, de reflexão.
Chegados, por fim á Grande Cidade!.. Com uma entrada guardada por altos muros de pedra, que Orionte tão bem conhecia. Aproximaram-se um pouco mais do portão, para que, de dentro, lhes fizessem o reconhecimento de imagem, através das câmaras ali instaladas, e lhes abrissem portas.
Então era ali, naquela fortaleza resguardada, que se moviam as Elites Governamentais e seus fiéis colaboradores... Pensava Laíssa.
Cumprido o primeiro obstáculo, sogro e nora propuseram-se calcorrear ruas menos movimentadas (de homens, obviamente) permitindo-lhes um certo à vontade para trocarem impressões.
O edifício principal era sumptuoso, rodeado de jardins bem cuidados, coloridos, com uma larga escadaria que os levou ao salão de entrada.
O olhar atento de ambos conduziu-os a um agente sentado a uma ampla secretária. Este, depois de os ouvir e identificar acompanhou-os ao elevador, não antes de lhes pôr nos casacos um cartão/ficha electrónico.
Saíram no piso indicado e surpreendidos depararam-se, de imediato, com Rafael fardado, formal, sério, que os aguardava. Não reconhecendo de imediato o "jovem rapaz"...
Rafael conduziu-os a uma sala aconchegante e luminosa, cheia de estantes e pastas. Fechou a porta e sentaram-se.
Laíssa e Rafael entreolharam-se algumas vezes, até que Rafael...
- Laíssa, estás muito bem disfarçada. Só te reconheci, pela expressão do teu olhar inconfundível. Por isso, não temas, não serás desmascarada...
Sorriram todos. Mais descontraído agora, o ambiente propiciou a conversa. Orionte e Laíssa, confiantes, expuseram seu plano de acção. Rafael, pela primeira vez, abriu-se-lhes em confidências, também. Para espanto de ambos. Laíssa confortável e mais apaziguada quis saber por Rafael, dos amigos e amores desaparecidos.
- Que aconteceu a Naldan, Sabras, Thays e Miryo, Laygar, Thyara e Iosef? 
- Foram embarcados na nave de reconhecimento que os sobrevoara no dia do desaparecimento. - Respondeu-lhe Rafael. - Estão agora em alas separadas, Thyara, Thays e Miryo, na ala feminina. Os homens numa ala própria…
Rafael informou-os que fora Eduína quem recebera Thays com Miryo e Thyara. Ela era a directora das alas femininas, localizadas num enorme edifício, vigiado do exterior, por soldados governamentais. Aqui se acomodavam as mães, que cumpriam todas as actividades domésticas, e crianças até á adolescência. Também mulheres férteis que, obrigatoriamente eram destinadas á procriação... Administravam-se aulas aos jovens. Logo, havia professoras... As restantes mulheres habitavam outra ala, mais afastada.
Os homens, funcionários do Governo, residiam para lá da ponte que atravessava o rio Auron, nesta altura de grande caudal. Em pequenos e confortáveis apartamentos. Os restantes, moradores em bairros, uns engrossavam as fileiras do exército, outros trabalhavam os campos, de grandes extensões, providenciando o sustento da comunidade. Toda a cidade era diariamente observada por câmaras ópticas e por "soldados vigilantes", além das naves...
Orionte tudo ouvia, cofiando a sua barba grisalha. Laíssa
não despegava os seus olhos de Rafael, bebendo-lhe cada palavra.
Em voz calma, Rafael soltou tudo quanto sabia sobre este burgo-mistério. Os seus visitantes, amigos, mereciam-lhe já toda a sua confiança. Eles, por sua vez, espantavam-se a cada novo relato de Rafael.
A promoção de Rafael fora importante para agilizar o processo. A nave agora posta ao seu serviço, iria ser-lhes de uma grande ajuda! Claro que Rafael não estava só. Seria impossível pensá-lo! Falou-lhes do movimento revolucionário que se vinha firmando há muito, compreendendo mulheres e homens. Além de Eduína, que se movimentava com razoável à vontade, no sector das Mulheres, quer das F.E. quer das M.C., contavam também com o grupo das professoras, das especialistas em artes defensivas, de orientadoras disciplinares... De homens apresentavam-se muitos dos que compunham as filas do exército, em postos graduados - não era de admirar pois que eram filhos e também pais de gente injustiçada! Um enorme grupo de ambos os géneros!
O plano indiscutível era derrubar o Centro nevrálgico do Poder instalado. Rafael cedo se apercebera das aberrações perpetradas pelos seus superiores. A irmã, Thays, era um exemplo disso... Assim, trabalhou capacidades de infiltração em lugares que importava conhecer, estudar, para tentar acabar com tanto descontentamento! Investiu, ao longo de anos, neste propósito, pedindo sempre aos companheiros, muito secretismo e moderação em conversas, em atitudes.
Laíssa ouviu tudo isto, e uma onda de paz, tranquilidade, tomou conta dela. Família e amigos estavam bem. Um sorriso sereno amenizou seu rosto agora transformado e um pouco grotesco. Olhou Orionte que ia questionando Rafael sobre detalhes que achava importantes.
Orionte e Laíssa abandonaram o edifício munidos de credenciais cedidas por Rafael. Com elas iriam mobilizar-se na grande cidade e mais além…
Já bastante afastados da zona de Serviços, pararam um instante. Laíssa e Orionte olharam-se sorrindo. Sem palavras, abraçaram-se felizes e comovidos. A revolta ganhava consistência!
Dava-se a partir de agora, início ao processo de mudança.
Para muitos, humilhados, o sonho tomava forma. Ganhava asas!...


                                                                                       Fernanda Simões

07/05/18

Voar Sem Asas - Capítulo XII

Foto © Tixa Falchetto

Tendo passado a noite em claro a imaginar uma melhor estratégia para entrar na sede daquele governo tirano e promíscuo, sem despertar suspeitas de início, até que se pudesse aproximar dos governantes, Laíssa tomou uma drástica decisão. Cortou rentes os longos cabelos sedosos e rasgou várias tiras de couro e tecidos grossos para compor uma indumentária masculina que disfarçasse suas delicadas formas femininas. Sujou os cabelos com carvão e cera de abelhas, para que parecessem menos suaves. Amarrou tiras de couro nos braços e em volta da cintura para que se apresentasse mais forte. Confiava em suas habilidades de luta, pois nunca deixava de praticar seus exercícios de Sambo, e nunca perdia a concentração. Estava sempre atenta a movimentos suspeitos, coisa que se aprimorara com o tempo em que vivera escondida na casa de Malpertuis.
Apesar de jovem, tinha a sabedoria das pessoas que se dedicam à meditação e aos ensinamentos de pessoas sábias como as que conhecia dos livros, e de seu pai, homem cioso de suas responsabilidades e dos perigos que os cercavam.
Precisava primeiro acercar-se da comunidade sem despertar suspeita ou cobiça nos homens, e, já infiltrada, tentar encontrar Iosef, Rafael, Sabras, Naldan, Laygar e quem sabe até Iohan... precisava de outros braços para levar a cabo o plano de revolta que traçara.
Ao nascer do novo dia, já estava pronta para partir, e foi à casa que Iosef estivera a recuperar, para despertar Orionte, que para lá tinha se recolhido após aquela longa noite de explicações e planos detalhados em sua casa. Ao chegar à porta, encontrou-a aberta, sem sinais da presença de Orionte. Nesse momento, uma sombra de preocupação perpassou-lhe o cenho, fazendo-o franzir-se em redobrada atenção. Esgueirou-se por todos os cantos da casa, e nada viu que mostrasse sua presença. Orionte ou não havia passado ali a noite, ou havia desmanchado todo e qualquer vestígio de sua passagem por aquele lugar. Precisava dele, é certo, pois conhecia bem o caminho, e, chegar à cidade acompanhada por ele despertaria menos suspeitas, mas mesmo assim, decidida que estava, não deixou que esse contratempo a demovesse do intento de encetar viagem.
Checou também a casa de Thays, minuciosamente, a ver se encontrava algo que a ajudasse a compreender o desaparecimento de Orionte, mas nada encontrou. Caminhou cautelosamente até o rio, escondida por arbustos e troncos de árvores, e estava a observar as duas margens quando, de repente, sentiu uma perigosa sensação de estar a ser observada. Todos os seus sentidos aguçaram-se, e procurou esconder-se ainda mais embaixo de um arbusto para olhar em toda a volta a ver se encontrava seu observador. Infrutífera busca! Nada via! Nem sequer um barulho de folhas a ser pisoteadas, nem sentiu passos ao colar o ouvido ao chão, como lhe ensinara o pai na mais tenra infância. Mas tinha certeza, em algum lugar, nada distante, havia alguém, e esse alguém apenas esperava um descuido seu para atacá-la! Não haveria de descuidar-se, todos os nervos de seu corpo estavam retesados à espera do desenlace dessa dupla caçada.
Então, a dois passos de si, num galho pouca coisa mais alto que sua cabeça, ouviu um farfalhar de asas (Ah, se asas tivesse!!). Era um belíssimo espécime de ave-do-paraíso que ali estava a observá-la. Nunca havia visto um tão belo! Conhecia-os, mas esse, em especial, encantou-a... suas cores eram mais vivas, e seus olhos menos ariscos. Parecia uma ave habituada ao convívio com humanos. Estendeu a mão a chamá-lo, e, no exato momento em que a ave veio pousar em seu braço, sentiu a aproximação de um golpe de porrete, que, por sua agilidade adquirida pela persistência nos exercícios, conseguiu minimizar! Virou-se a tempo de somente receber o golpe na altura do antebraço, já em posição de defesa! E foi então que viu o rosto enfurecido de Orionte, já iniciando um novo golpe!
– ORIONTE, por que me ataca??? – gritou, estarrecida, ao mesmo tempo que se defendia como podia, conseguindo também imobilizar o homem já avançado na idade, embora ainda muito forte e resistente. – Acaso enganou-me com toda aquela conversa?? Enganou também a Iosef, durante toda a vida, ao fazê-lo crer que era um pai amoroso e justo? Que estava contra o jugo dessa gente enlouquecida pelo poder? Como pôde???
Nesse momento, olhos arregalados, imóvel, Orionte balbuciou:
– Laíssa? És tu??? Mas... que fizeste???? Não te havia reconhecido quando te vi sair da tua casa. Havia arrumado toda a casa de Iosef para chamar-te e partirmos em nossa tresloucada missão, mas vim antes ao rio para refrescar-me. Quando já estava a voltar, vi-te sair da casa em atitude suspeita, a esgueirar-te pelos arbustos, e achei que já haviam mandado para cá algum soldado à nossa procura! Não te pareces em nada com a delicada menina que meu filho escolheu para amar, e que deixei ontem a descansar na casa!
Caíram os dois por terra a rir da situação, Laíssa ainda mais feliz por ter conseguido enganar ao próprio sogro.
Ali, sentados, ela explicou-lhe todos os passos que fariam ao chegar à fortaleza dos malfadados governantes. Orionte não pode deixar de sentir uma enorme admiração por essa menina, que havia sido poupada pelo pai durante toda a sua existência, que até poucos dias atrás nada sabia da maldade humana, e que agora mostrava-se uma guerreira preparada para enfrentar os mais difíceis obstáculos, com atitude de liderança, como sempre esperou que pudesse um dia encontrar!!
Reconheceu ali, naquele instante, que era Laíssa a predestinada, a mulher que iria se insurgir e levantar um exército contra os facínoras do poder. De repente, Orionte deu-se conta de que nessa menina poderia depositar sua esperança de acabar com aquela monstruosidade que já imperava há tantos sofridos anos.
Repassaram os planos, e, a cada fala de Laíssa, mais Orionte a admirava e cria ser, enfim, possível a derrocada do poder vigente, para que a humanidade pudesse, enfim, respirar ares de Humanidade!!
Arrumaram, então, o resto dos pertences necessários para garantir o sucesso de sua empreitada, e puseram-se à estrada.


 Tixa Falchetto

29/04/18

Voar Sem Asas - Capítulo XI

Foto © Sónia Ferreira 


Laíssa ficou perplexa com tudo o que acabara de ouvir, sentiu um turbilhão de emoções percorrer-lhe o corpo e a alma. Sentiu-se determinada e, ao mesmo tempo, impotente para lutar por aquelas mulheres tratadas como reféns da própria sorte…
Orionte, com os olhos cravados no chão, pontapeava pequenas pedras que se dispersavam no manto verde coberto de papoilas de frágeis pétalas, mas com raízes resistentes presas à terra.
Laíssa, mais uma vez, enfrentou Orionte, olhos nos olhos e elevou o tom de voz:
- Vais levar-me até lá! Quero ver com os meus próprios olhos esse mundo cruel…
Orionte, calado, abanava negativamente com a cabeça. Era um pedido demasiado perigoso para uma mulher que, apesar da sua determinação, poderia tornar-se em mais uma refém naquele harém de ditadura.
Laíssa segurou no braço de Orionte e segredou-lhe ao ouvido:
- Nós vamos pensar numa estratégia para desmantelar este poder soberbo de governantes desumanos e perversos…
- Vamos jantar e mais logo conversamos sobre este assunto… - afirmou Orionte, acariciando os ombros de Laíssa.


Rafael aproximou – se de Philipe, subchefe do governante daquela comunidade para receber orientações sobre a sua nova missão.
Philipe era um homem alto com cabelos negros, tinha olhos grandes, castanhos escuros desenhados num rosto de barba cerrada, transparecendo um ar rude.
- Esta é a tua nave para vigiares o que se passa dentro da comunidade – afirmou Philipe, mostrando com o dedo indicador o novo objeto de Rafael.
- Começarás por fazer um relatório diário do que se passa na comunidade, relatando tudo o que observas. Ficarás atento às mulheres, principalmente àquelas que constam na base de dados, identificadas como “o futuro da comunidade – F.C.”. Debruçar-te-ás sobre todos os passos destas, para que não ocorram desaparecimentos. Relativamente às mulheres estéreis, também estas estão na base de dados rotuladas como “fêmeas infecundas – F.I.” Também é importante estares atento a estas, pois muitas delas servem para saciar os desejos sexuais de todos nós que fazemos parte deste governo de elite. – Philipe terminou, assim, o discurso de boas vindas a Rafael. Entretanto, esfregava as mãos a pensar em várias F.I. para saciar os seus desejos voluptuosos e libertinos.


Laíssa, com uma chávena de chá de camomila na mão, aproximou-se de Orionte, sentou-se no sofá à frente dele e recomeçou novamente o assunto que lhe estava em mente: salvar aquelas mulheres da promiscuidade daqueles governantes selvagens.
- Orionte, vamos fazer um mapa, no qual assinalamos os pontos fortes e os pontos fracos para chegarmos àquele sítio, já que conheces muito bem essa zona. – Disse Laíssa, com um brilho no olhar semelhante à luz da lua cheia numa noite escura.
- Tu és esperta e destemida! – Exclamou Orionte com um sorriso escondido no rosto.
Laíssa largou a chávena de chá sobre a mesa que ainda esfumaçava um vapor perfumado de camomila, foi buscar um papel grande e duas canetas, com o intuito de começar a sua aventura…
Abriu o papel sobre a mesa, ofereceu uma caneta a Orionte para que este começasse a registar o percurso que os levariam àquela selva de mulheres objetos, presas ao infortúnio do destino e presas fáceis dos desejos animalescos daqueles governantes de elite.
Orionte começou por desenhar uma encruzilhada de caminhos, seguidamente registou os respetivos nomes de cada rua.
Laíssa seguia, fixamente, os traços de caneta azul naquele papel como se já estivesse a percorrer aquelas ruas, a mente dela funcionava como um GPS: visualizava montes, planícies, florestas e, até mesmo, o harém como se conhecesse aquele sítio.
Entretanto, Orionte começou a assinalar no mapa os ditos pontos fortes e os pontos fracos. Os primeiros eram assinalados a vermelho, indicando zona de perigo; os segundos eram registados a cor verde, evidenciando zonas de transição e de aproximação ao alvo.
Laíssa deitada no seu leito pensava em Rafael. Já que ele tinha partido, supostamente, para cumprir outros objetivos, será que ele é aquela figura estratégica para entrar na comunidade? No cérebro de Laíssa reinavam várias questões às quais tentava ajustar soluções capazes de desmantelar aquela rede de governantes arrogantes e prepotentes.


      Sónia Ferreira

20/04/18

Voar Sem Asas - Capítulo X

Foto © Paula Madeira Alexandre


Todos desapareceram: homens, mulheres, crianças. Tinham sido levados. Restavam eles. Orionte ajoelhou-se ao lado de uma Laíssa desfeita em lágrimas. Ele mesmo tentando controlar as que teimavam em rolar pelo seu rosto. Se por um lado, a sua experiência lhe havia dado a sabedoria suficiente para saber que aquele dia chegaria, por outro lado a sua visão enquanto avô quase lhe garantira que nunca isso aconteceria. Nunca com a sua neta. Ficaram ali os dois ajoelhados, como que parados no tempo, a olharem para as águas do rio sem perceberem que tipo de água na realidade viam, se a do rio se a dos seus olhos.
- O que se passou? Para onde foram todos? O que vai ser de nós? Estamos sozinhos – perguntava Laíssa num misto de tentar entender o que se passara e a espera de uma resposta. - Nós escapamo-nos porque nos escondemos - respondeu Orionte.
- Regressemos a casa rapidamente. Não podemos ser vistos - avisou Orionte.
Em passo acelerado, regressaram à casa de Laíssa. Fecharam todas as portas e janelas. Não poderiam dar a entender que alguém teria ficado para trás. Especialmente uma mulher. Sentados no sofá e mais calmos, Laíssa tentava perceber o que se passara buscando nos olhos e na boca de Orionte as justificações para o que se passara. Num gesto repentino, Orionte levantou-se e dirigiu-se para a lareira em frente. Virando-se para o sofá onde Laíssa se encontrava, começou a sua explicação.
- Sabes Laíssa, o mundo antigo viu no controle da água, bem essencial e primordial, uma fonte de poder sobre o resto do Mundo. Como toda a ganância de poder absoluto exige, teria de haver controle também em outras áreas fulcrais. A mulher foi a escolhida. Elas sempre assustaram, com o seu poder de influência sobre as outras mulheres, que era preciso silenciar num mundo que se quer controlado por homens e as quer utilizar como objecto doméstico e sexual. A procriação também é controlada por este Governo de ditadores. É essencial nascerem mais meninos do que meninas para que este controle não se perca. Eu próprio estive durante anos encerrado num local, uma espécie de harém, e tive várias mulheres. O meu filho Iosef nasceu de uma delas.
Laíssa sabia onde ele havia estado. Iosef tinha-lho contado. Ficou algo estupefacta, ainda que de certo modo já disso soubesse, com o controle exercido sobre as mulheres. O livro que leu sobre Mary Barra veio-lhe à mente. As mulheres realmente tinham-se tornado poderosas influenciadoras, daí todo este controle sobre elas. Por isso é que, até hoje, as poucas mulheres foram pensando que eram as únicas sobreviventes. Para que não se juntassem e se revoltassem.
- Eu consegui sair em liberdade – continua Orionte perante uma Laíssa atenta mas perplexa com tudo o que ouve – porque fiquei velho e já não servia para procriar. Trouxe comigo o meu filho. Os homens de físico mais forte são libertados para serem enviados para trabalhar nos campos. Os mais débeis também saem – aqui Laíssa recorda-se de Iohan. - Os restantes ficam para procriarem, seja pelos meios naturais ou para fornecerem um banco de esperma que será posteriormente manipulado conforme os objectivos para os nascimentos: quantas meninas e quantos meninos. As mulheres férteis têm os filhos. As outras servem para alimentar a libido das elites governantes.
Laíssa está completamente abismada com tudo o que ouve. A tentar digerir toda a informação.
- É insano! É cruel! É terrivel! - Grita Laíssa. É para esses haréns que levam todos os que estão em condições de procriarem? A viagem de Rafael? O desaparecimento de Thays e Myrio? E a Thyara? É uma menina… - diz Laíssa a olhar para um Orionte de olhos cravados no chão.
Laíssa levanta-se de um pulo decidido e dirige-se a Orionte que ainda olha o chão. Num gesto brusco e de força, adquirida nos conhecimentos de Sambo, coloca aquele gigante direito. Fá-lo olhar para ela, olhos nos olhos, afirmando – vamos resolver toda esta situação! Orionte percebe a força da atitude de Laíssa e tenta esboçar um sorriso. O cordão que traz ao pescoço chama a atenção de Laíssa. Tem a imagem de Gyra, a mulher por quem se apaixonou e que lhe deu um filho, e da sua neta Thyara. Laíssa repara nele pela primeira vez. Vira as fotos para ele e convictamente afirma:
– Vamos fazer isto por elas! E por todas as outras! Por onde começamos?


                                                                 Paula Madeira Alexandre

13/04/18

Voar Sem Asas - Capítulo IX

Foto © João J. A. Madeira 


Apesar de a noite já cair sobre aquele lugar perdido não se sabe bem onde, Orionte mantinha os óculos escuros. A comunidade tinha-se reunido novamente antes do descanso noturno para aproveitar ao máximo a presença dos três chefes de família, que deveriam partir logo pela manhã. Todos aparentavam sentir-se confortáveis dentro daquela paz artificial. Todos menos Orionte. Orionte servia-se dos óculos para observar Laíssa, sem ser notado. Ela também não se sentia confortável.
Laíssa mexia-se e remexia-se com uma inquietude que mais ninguém parecia notar. Não prestava atenção à conversa e até aos carinhos de Iosef, respondia de uma forma automatizada.
As palavras de Rafael não lhe permitiam tranquilidade. E Orionte?… A resposta intempestiva que o fizera sair de detrás da moita para questionar Rafael. Saberia ele de alguma coisa que nunca demonstrara? Não, o mundo não podia resumir-se apenas àquilo que ela sabia. É certo que naqueles livros que o pai selecionava para ela ler se descrevia um mundo muito mais complexo. Mas o pai também lhe dissera que as coisas tinham regredido, que a fúria desenfreada com que o ser humano tinha abusado dos recursos do planeta tinha feito com que se tornassem escassos e por isso agora eram só para as elites. Era uma explicação plausível, lá isso era. Ainda assim, não a desinquietava… e as mulheres? Porquê aquela perseguição? Quase mito… de que eram em número tão reduzido, que eram procuradas como objectos preciosos.
Era isso. Era assim que se sentia! Um objecto. Uma coisa que o pai e Iosef manipulavam a seu bel prazer.
- Laíssa… Laíssa, querida?...
- Hum… o quê? O que foi?
- Querida, estou a chamar-te há que tempo e não me ouves.
- Desculpa, estava distraída…
- Isso vi eu… olha, vou dormir que amanhã eu, o teu pai e Naldan partimos cedo.
A noite foi muito agitada dentro de si própria e quando os três homens se juntaram para rumar ao seu destino, Laíssa já lhes tinha preparado tudo o que precisavam levar, despedindo-se sem mais demora. Parecia que os queria ver pelas costas. Pensou, ao vê-los desaparecer na curva do caminho. Não devia ter agido assim. Mas pronto, já estava… encolheu os ombros e voltou para dentro de casa.
Com a luz do dia ainda difusa, tropeçou numa caixa grande que estava encostada à parede, no seu quarto. Era uma das que tinha trazido de Malpertuis. Por esquecimento ou por falta de tempo, tinha ficado para ali arrumada. De súbito, parou quando viu o conteúdo derramado. Como é que nunca mais se lembrara daquilo? A caixa continha livros. Um livro em especial que tinha escondido no meio dos outros. Na véspera de o pai lhe ter anunciado a fuga inesperada, tinha-o encontrado no quarto dele. Estava escondido no fundo de uma gaveta, com vários objectos sem importância por cima. Primeiro ainda pensou em lhe perguntar se o podia ler, mas logo mudou de ideias. Se o pai o tinha ali escondido, era porque não queria que ela o lesse…
Ávida de descobertas, Laíssa sentou-se na cama com o livro no colo. A primeira coisa que reparou foi a data da primeira edição. Era bastante mais recente que os que habitualmente lia. Aquele livro tinha pelo menos, menos um século que Os Maias, Amor de Perdição e outros que tais. Datava do início do século XXI. Começou a ler devagar. O livro contava a história de uma mulher. Uma mulher muito importante, que tinha sido CEO de uma grande multinacional. Não imaginava o que poderia ser isso, mas com certeza era algo com muito poder. Essa mulher trabalhava com a internet e deslocava-se num carro que ela própria conduzia. E mais surpreendente ainda: lidava com os homens de igual para igual. A princípio pensou que fosse uma história inventada, como aquelas que o pai lhe contava quando era criança, mas à medida que avançava na leitura, ia sentindo cada vez mais a realidade de tudo o que ali era relatado. Até porque a mulher, para além de tudo o que lhe era estranho, tinha outra parte da vida onde era mãe e esposa como ela sempre pensara que tivessem sido as suas antepassadas.
Mergulhou de tal maneira na leitura, que às tantas já se sentia ela própria a protagonista da história. E lia como uma faminta que precisava daquelas informações como de pão para boca. Ah, como gostaria de ter sido aquela mulher… revia-se perfeitamente nela.
Tinham passado algumas horas quando retornou à realidade. Continuava sentada na cama, com as pernas estendidas e recostada na almofada que tinha ao cimo. Ainda tinha o livro no colo, mas agora estava aberto na última página. Virou a capa e leu o que não tinha lido antes: “Biografia Autorizada de Mary Barra”.
Estava atordoada com tanta informação, mas de uma coisa tinha agora a certeza: as mulheres podiam ter um papel muito mais interveniente na sociedade. Tal como ela sempre imaginara e nunca se atrevera a revelar, por recear que fossem delírios da sua mente inquieta.
 Porque é que o pai lhe impedira o acesso àquele conhecimento? Num sentimento de benevolência, decidiu que ele o fizera para a proteger. Para evitar que a sua ansiedade por mudar o mundo extravasasse para fora do seu pensamento e a levasse a meter-se em sarilhos graves… muito graves. Pois o pai conhecia-a, sabia o pequeno monstro que tinha criado mesmo contra a sua vontade. Desde muito pequena que aquela sede de entendimento, a fúria pela reclusão a que estava sujeita, as manhas para driblar todos os contratempos se tornaram evidentes para o pai, que tudo tentara para a refrear. O pai apenas quisera protege-la de si própria, como qualquer pai sempre faz de tudo para proteger os filhos. Mas agora era tarde…
O monstro saíra de dentro dela e já não havia forma de o parar. Laíssa precisava saber mais sobre aquele outro tempo que até então desconhecia. Mas como? Onde é que podia ir buscar o que precisava? Falar com o pai estava fora de questão. Se conseguisse um acesso à internet… mas nem sabia onde pudesse existir.
Rafael! Era isso, se conseguisse falar com Rafael talvez arranjasse maneira de o persuadir a leva-la a algum lugar onde houvesse esse acesso.
Levantou-se para ir falar com Thays. Não iria revelar nada à amiga, mas talvez fazendo-a repassar as últimas conversas com o irmão, detectasse alguma pista que a levasse a um contacto com Rafael.
Estava entre portas quando ouviu o zumbido metálico que tão bem conhecia. Não! Dessa vez não ia mostrar-se ao controlo. Só ela sabia a revolta que sentia de cada vez que tinha de se por a jeito para aquele olho indiscreto. Voltou para dentro de casa e varreu o espaço com os olhos à procura de onde se esconder. Fixou-se no alçapão que se habituara a ver ali no chão do quarto. Afinal, aquele abrigo que sempre lhe lembrara guerras antigas, não eram tão antigas assim.
Desceu os degraus, fechando a portinhola por cima da cabeça, e aninhou-se no escuro à espera que o perigo passasse. Sim, porque para ela aquele é que era o verdadeiro perigo. O perigo de não saber de nada, de não a deixarem evoluir, de não a deixarem crescer… de não a deixarem mudar o mundo.
Passou um tempo indefinido, até que ouviu o zumbido afastar-se. Saiu com cautela e dirigiu-se para a rua. Naquele instante sentiu um vazio dentro de si. O silêncio que sempre sentira como a grande harmonia daquele lugar era agora aterrador. Correu a casa de Thays, foi até à albufeira, chamou Thyara e também a amiga. Gritou alto, muito alto, a ver se alguém a ouvia. A resposta era apenas o eco da sua voz.
Estaria outra vez só?
Desfalecida, deixou-se cair sobre os joelhos dobrados… de repente olhou e viu Orionte pelas costas, de mochila ao ombro e bordão na mão.

                                                                                Luísa Vaz Tavares