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26/01/18

Em Busca da Verdade - Capítulo XIII - Final

Fotografia © João J. A. Madeira 

Tudo parecia ao contrário. Tudo era uma mentira. Até o pisar da areia era sentido como se a areia a pisasse. Um peso nunca experimentado sobre si, uma sofreguidão de ar que parecia não existir senão no braço da mulher polícia que a encaminhava por entre gente ávida de dramas, sedenta de tragédias que à noite pudesse narrar à mulher e aos filhos. E ela. Ela que não comandava sequer os passos obedientes que em frente, frágeis, titubeantes, se ordenavam um após outro, sem que fosse essa a vontade de quem os seus pés deveria comandar. Haviam-lhe pedido que identificasse um corpo. Mas ela sabia bem qual o corpo que reconheceria. Só não entendia a razão.
Ainda distante viu aquele vulto deitado coberto por um pano branco. O espaço de metros à sua volta delimitado por uma fita amarela que para si se abriria. Os polícias mantendo à distância uma multidão que não cessava de se avolumar. Nos altifalantes da praia alguém teria feito calar uma despretensiosa música de convite à dança e ao abandono dos corpos. Talvez porque não exista maior abandono num corpo que a sua própria partida.
Os sapatos a enterrarem-se na areia antes de a mulher polícia lhe pedir coragem, a ela que vacilava, a ela cujo peito nem da brisa do mar se enchia, a ela que se pudesse nem olhos teria para ver a agente ajoelhar a farda e, lentamente, muito lentamente, demasiado lentamente, pegar numa ponta do pano e deslizá-lo sobre o rosto que se ia descobrindo. O coração a bater, a pulsar, cobarde como se também ele dali quisesse fugir.
E Sofia gritou. Um grito perdido e sem eco por não ter onde ricochetear, mas um grito de lâminas a ferir a gente, a ferir os guardas, a ferir os seus próprios ouvidos que a forçaram bruscamente a voltar as costas àquele homem sem vida que, num repente, parecia roubar-lhe a sua. De costas voltadas, sentiu o abraço leve e fardado que, carinhosamente, lhe perguntava se sim, se aquele ser inanimado era o corpo do homem a quem poucas horas antes amara e dera amor. E ela, revendo mentalmente a imagem que há instantes guardara, voltou-se e enfrentou de novo o corpo de cor macilenta que formigas famintas invadiam já. Viu-lhe o boné verde, os pelos de barba que há muito não desfaria. E disse que não. Aquele homem era-lhe totalmente desconhecido.
— Tem a certeza? Mas temos uma testemunha que diz tê-lo visto sair de sua casa… - e de imediato se interrompeu perante a chamada de um colega que em sussurro lhe falou aos ouvidos.
Sofia ficou presa àquele rosto que nunca vira, àquele boné que nunca João usaria e às perguntas que, como cascatas, não paravam de estrondear na sua mente. Até de novo ouvir os lábios da autoridade que, agora também desconfortáveis, lhe diziam que, lá mais à frente, ainda nas dunas, um outro corpo tinha sido localizado. Teria de fazer um último esforço e identificá-lo, pediu.
E os joelhos de Sofia cederam, as lágrimas da impotência e da certeza antes somente adiada, rebentaram em água, em sal, como se de ondas feitas e caídas sobre a areia. Não tinha coragem.
Mas a sua guardiã de mansas palavras, entrelaçando de novo o braço no seu, conduziu-a sobre as pequenas elevações cujos cactos lhe fustigavam as pernas anestesiadas de qualquer dor, para além da dor que, já sem reacção, dela se havia apossado.
Perante a reprodução da mesma cena, como se o tempo rodopiasse agora em invisíveis espirais que não mais teriam fim, Sofia sucumbiu ao cansaço, à derrota que aquele segundo corpo já vislumbrado à distância, sem pano que o cobrisse, lhe infringiria sem dó. Mas o destino, travesso como criança e sob a forma de um qualquer deus ou diabo, quis projectar-lhe nos olhos, à luz fugidia do entardecer, um rosto que ela conhecia, um rosto que há muito se enraizara em família mal florida. Um rosto a denunciar um esgar de dor que só a morte suspendera, um rosto também ele macilento, talvez também ele invadido pelas formigas, mas um rosto que não lamentava, que a acalmava até, porque um outro, mais seu, se perspectivava como único no seu peito e único no desvendar do novelo em que se transformara o seu cérebro. Onde estaria João? Por que estava ali, morto, o seu tio Carlos?
Ajoelhou-se perante o velho. Não chorou. Talvez porque as lágrimas necessitem de justificação e ela nada compreendesse. Identificou o homem. E de imediato lhe foi perguntado onde estava o seu marido, mas, a pergunta, somente provocou que os seus olhos dessem vida à nascente que ela pensara já seca. E num choro mudo, lambendo cada gota, murmurou “não sei” ao mesmo tempo que todo o discernimento restante se focava no horizonte imediato, na linha divisória entre a areia e o passadiço da praia.
E os seus olhos, o seu peito, as suas forças como que ganharam vida. Conhecia aquele jeito de andar, aquela roupa, aquele vulto na distância, tão bem como a si se conhecia.
E, de um salto, surpreendendo a polícia, a multidão, deu às pernas a firmeza que antes lhe havia faltado, o querer que pensava perdido, e correu pisando covas e montes de areia, deixando que voasse um sapato e libertando-se do outro e ignorando os gritos que atrás de si se manifestavam “apanhem-na, não a deixem fugir”. Ela não fugia, ela nadava nas ondas do ar em busca da sua ilha, da sua jangada, do seu náufrago sendo ela náufraga também. Que agora lhe batia no peito, destilando a sua raiva, a sua impotência, a sua frustração naquele corpo que tanto desejara presente e que, finalmente, lhe segurava os braços, lhe procurava os lábios, lhe pedia perdão. Contar-lhe-ia tudo, disse ele.
Em poucos segundos se viram rodeados pelos guardas. João, prendendo na sua carne a carne que sempre soubera querer, olhou firmemente a mulher polícia.
— Esclarecer-vos-ei de tudo. Somente vos peço uns instantes para que o explique a quem mais necessita de explicações. Vocês são muitos. Não conseguiria fugir e não pretendo fazê-lo.
— Tudo bem – respondeu a mulher fardada da qual recebia masculina pose – Tem o tempo necessário até à chegada do agente da Judiciária. Nem mais um minuto.
E então João contou-lhe. Contou-lhe que depois da saída dela, saíra também e, ao fazê-lo, se deparara com aquele homem de chapéu verde que, tudo o indicava, acabava de sair do jardim. Intrigado, resolveu segui-lo até se esconder atrás de uma duna, muito próximo do local onde ele se deteve. Conseguiu perceber que o sujeito se preparava para se drogar, como infelizmente era usual naquela praia. E então decidiu falar com ele antes que levasse a cabo os seus propósitos. Questioná-lo pela razão de por duas vezes se acercar da sua casa. Mas no momento em que se erguia por detrás do seu esconderijo, sentiu que outra pessoa se aproximava.
— Era o teu tio, Sofia. O Carlos.
— O meu tio? Mas ele…por favor, continua.
“Ouvi o teu tio perguntar ao homem se já tinha feito hoje o que haviam combinado. Ao que o outro respondeu que tinha lá ido – a nossa casa, depreendi – mas não tinha feito nada e não iria lá mais. Que aquilo não era trabalho para ele. Roubava quando tinha de ser, por necessidade, mas andar a pregar sustos às pessoas, além de considerar ser uma coisa estúpida, não era para o seu feitio. Ele – o teu tio – que lhe pagasse conforme combinado e tratasse de arranjar outra pessoa.”
“Estavam muito próximos um do outro, eu conseguia vê-los por uma nesga entre dunas. O teu tio numa pose arrogante, mãos enfiadas nos bolsos de um casaco de verão, lançou ao ar uma gargalhada que até a mim magoou pelo desdém, pela humilhação ao mais novo. Respondeu-lhe a rir num tom jocoso, trocista, de pessoa que se sente acima de todos, que o homem devia ser doido varrido se pensava que ele alguma vez pagaria um cêntimo a um ladrão, a um drogado, a um vagabundo de merda que mais não fazia que transformar em merda este mundo”
“Depois, quase não vi os gestos por nem eu contar com eles. Um movimento brusco, o fugaz brilho de uma lâmina que no corpo do teu tio se enterrava fazendo-o vergar-se, ao mesmo tempo que um grito lancinante se misturava com o som de uma bala disparada do bolso do casaco, fazendo tombar o homem”
Sofia era a máscara do terror. Eram muitas as perguntas ainda caladas, mas o importante era o seu marido, o homem que sabia amar. E ele estava ali.
“E eu tive medo, Sofia. Instintivamente pensei fugir. Algumas pessoas tinham-me visto discutir com o teu tio e facilmente me incriminariam…
— Discutiste com o meu tio? Quando?
— Espera que a polícia me ouça. Depois contar-te-ei. Toda a verdade que tanto buscaste e que, afinal, te chegará através de mim.
— E depois?
— Fugi. Sorrateiramente, consegui esgueirar-me pelo lado contrário. Nada soube de como ficaram…
— Morreram ambos.
… mas não queria saber. Queria somente fugir para bem longe, como se isso fosse possível a pé. Acalmei, tentei recuperar toda a minha lucidez e dei por mim a pensar quanto estava a ser absurdo. Nada fizera, tu estarias certamente a ser incomodada e doía-me imaginar-te entre inquéritos e desconfianças policiais. Eu amo-te muito, Sofia, tive essa certeza durante o tempo de fuga e, para to provar, tinha de voltar.
Ficaram em silêncio por instantes. Ao longe o sol preparava a sua cama e o mar parecia recebê-lo na rotina diária da natureza. Que, ainda que por vezes não pareça, nunca se confunde, nunca se troca, relegando para os homens a tarefa do caos.
— Mas por que razão quereria o meu tio assustar-nos? – Perguntou Sofia.
— Para que saíssemos daqui. Que mudássemos de local, de terra, de país, de modo a esquecê-lo e nunca o julgar em praça pública. As mentes conspurcadas nada temem senão a vergonha. Mesmo essa não as derrota, mas obriga-as a ficarem quietas no escuro como uma criança de castigo. 
            Olhou-o intrigada, mas sabia que o tempo lhe esclareceria todas as dúvidas. Encostou a cabeça ao peito dele e, baixinho, num sussurro só audível entre duas pessoas que se entendem, disse-lhe as palavras que ele mais desejava ouvir.
— Amo-te tanto, João. Tenho agora a certeza de termos derrotado aquela mala. Criada para nos separar, foi ela que, afinal, nos juntou. Mas fico agora satisfeita por me ter desfeito dela.
— Olha, amor. Eu não teria tanta certeza disso.
Sofia abriu os olhos de espanto.
— Como? Que dizes tu?
— Volta-te e olha o mar.
Voltou-se e serviu-se da mão contra o brilho avermelhado do sol
— Que queres que veja?
Ele deu-lhe a mão e conduziu-a à areia molhada que domesticadas ondas iam lambendo. Os polícias tiveram um movimento brusco, de imediato suspendido por desnecessário. Numa rocha, a mala agarrada com a tenacidade de uma lapa, resistia resoluta pela tampa que, por força das dobradiças, salvava a caixa sem conteúdo.
— Como é isto possível se eu mesma a depositei nas águas? E as cartas?
— Vês esta estrada feita pelo sol? O mar é um carteiro como há poucos. Não encontrando quem as deveria receber, levou-as e devolveu-as ao remetente.
E no mesmo instante em que Sofia sorriu, a rocha, para seu espanto, libertou-se da mala e um homem chamou-lhes a atenção. Olharam-no e riram por aquele fato cinzento, aquele braço esticado ostentando uma carteira aberta e uma gravata que badalava a cada salto dado na fuga às pequenas ondas.
— Filipe Merlim, Polícia Judiciária. Vamos conversar?
E João olhou os olhos de Sofia. A sorrir, perguntou-lhe:
— Vamos conversar?
Ela devolveu-lhe o sorriso.
— Não é preciso. Basta que me beijes.
— Mas depressa. Tenho os sapatos alagados de água.


                                                                                              João J. A. Madeira


Fim

19/01/18

Em Busca da Verdade - Capítulo XII

Fotografia © Joaquim Henriques 

Sofia ficou gelada e quase sem reação, seguiu os agentes. Eles falavam, ela ouvia ao longe palavras que não escutava e nem lhe interessava saber o que diziam. Isto não pode estar a acontecer. Porque foi ele fazer uma coisa destas? Logo agora que eu já tinha arrumado a cabeça, que a malvada mala já tinha destino e que nem queria saber de mais possíveis novidades…, foi o pensamento que imediatamente lhe assolou o cérebro, após a trágica notícia.
Sim, tinha consciência que era responsável por grande parte do mal-estar existente entre eles. Primeiro tinha sido o facto de não terem filhos, clinicamente comprovado por ser fruto de uma sua incapacidade, e que apesar de ele nunca lhe ter cobrado por isso, era algo que pesara sempre na relação. Nunca conseguira afastar aquela malvada sensação de incompetência, de sentir-se menos mulher, perante um companheiro que sempre assumira querer ter muitos…
Se sempre tivera curiosidade em saber a sua história, de onde viera e desvendar a origem da tristeza do pai, ela só se materializou a sério depois da última confirmação, a derradeira, depois da bateria de testes, ao longo de vários meses, anos até, a que se submeteu para despistar a incredibilidade de não poder conceber.
Agora naquelas frações de segundo em que ainda não entrara no carro da polícia, em que uma mão a ajudava a entrar, fazia-se luz e sentia-se suja por tudo o que fizera o marido passar. A memória gritava-lhe todas as discussões que tiveram, tudo o que lhe chamara e acusara, mesmo depois da confirmação inabalável que as análises provavam.
Também ela queria muito ter filhos, dar-lhes o que não tivera, uma mãe sempre presente! E, durante muito tempo, conforme a gravidez não chegava, acusou o marido disso mesmo, de não engravidar. Ele, reconhecia agora, sempre a acarinhou e apesar de ter o direito de se sentir injustiçado, nunca lhe devolveu as acusações, nem uma vez!
            As lágrimas corriam-lhe soltas pelas faces. A seu lado, uma mulher polícia segurava-lhe a mão e balbuciava palavras de conforto, também elas não escutadas. Neste momento a dor era repartida pela antecipação do que iria ver ou confirmar, e pela tomada de consciência da sua culpa, do egoísmo que a tinham norteado nos últimos anos. Era agora claro que as entradas fora de horas de que ela sempre o acusara eram, em grande medida, culpa sua. Fora ela que não criara motivos para que ele se sentisse bem e tivesse vontade de regressar ao lar.
Tomava consciência que, de facto, nunca tivera nada de substancial para o acusar. Todos, amigos e conhecidos, atestavam a sua idoneidade, lealdade e fidelidade, e até se recordava de ter perdido a amizade da Maria quando esta lhe chamou a atenção para a sua atuação, a injustiça que o estava a fazer passar.
Sim, ele lutara por ela até ao fim. Tantas vezes em silêncio, outras em gritos desesperados, mas sempre sem baixar os braços ou desistir. Contra todos, e principalmente contra aquela mala, a malvada história que sempre se insinuara na sua vida, e entre eles.
Sentiu o carro afrouxar, e pela primeira vez naquela curta viagem, viu o mar que se habituara a mirar, sempre na esperança que ele lhe devolvesse a mãe desaparecida. Tantas vezes se sentara na areia, vendo e sentindo as ondas molhar-lhe os pés e esperando ver sair da água o sorriso que recordava dela. Era uma sensação quase física e não foram poucas as vezes em que se abraçou a si própria, num abraço forte e pungente, onde a mãe lhe gritava a rir, para não a partir… Era ele, o mar, que mais uma vez lhe tirava um ente querido!
O carro parou finalmente e mais palavras foram ditas enquanto a ajudavam, agora a sair. Estava renitente, as pernas tremiam-lhe recusando-se a andar, mas tinha de ser.
- Coragem! – Diziam-lhe.
As pessoas, os eternos mirones, abriam alas e ao longe, a enfermaria da praia tomava dimensão.

     Joaquim Henriques

13/01/18

Em Busca da Verdade - Capítulo XI

Fotografia © Estela Fonseca

João afastou Sofia suavemente, que lhe mostrou um olhar de desagrado.
 - Deixa! Não vás abrir. Não agora!
A porta continuava maldiçoada pelos punhos de alguém bruto e de teimosia grosseira. João olhou-a com desaprovação, enquanto se dirigia ao hall de entrada. Ouviu passos que se afastavam apressados, abriu a porta, mas só já constatou ao longe um vulto que com toda a certeza seria de um homem. Ainda conseguiu ver o fato de treino de cor esverdeada e um boné pendente pelo andar desengonçado da silhueta que se afastava. Fechou a porta de semblante carregado com a certeza que conhecia aquela figura.
Sofia esperava-o na sala, fingindo estar naturalmente relaxada e pronta para recomeçar o seu número de cinema de mulher fatal. Todas as mulheres são várias almas, várias personagens com máscaras diferentes. Almas que se vestem e despem de acordo com o momento, o lugar ou o homem que têm à sua frente. A simulação feminina é exímia quando se deseja muito chegar à linha limite de qualquer objetivo. Talvez por isso muitos homens se assustem com a desigualdade do quociente da inteligência emocional tão sublime que distingue os sexos senão, que outra razão haveria para a mulher ser considerada um ser complexo e complicado?!
João reparou no vestido florido e leve. Sofia estava bonita. Aliás, a sua mulher é bonita. A habituação do quotidiano e depois o maldito baú com as cartas timbradas a mofo e amareladas pelo tempo que trouxe o passado de volta, tinham-no afastado da mulher. Não da esposa. Mas da mulher! Puxou por isso mesmo Sofia para si de rompante, beijando-a agressivamente. Sofia respondeu sem medo, mordendo-lhe o lábio até sentir o sabor a sangue. Num repente voltou uma certa paixão que há muito tempo João não sentia e que Sofia apenas guardava na memória dos primeiros anos do seu casamento. E mesmo nesses primeiros anos foi difícil libertar-se da educação tradicional que a avó lhe tinha incutido, sem desvios às normas dos bons costumes, que uma mulher de bem e esposa deve ter. Sempre a ouviu dizer que uma esposa deve exigir respeito na cama, porque «o resto são as meninas de rua que o fazem». Sempre houve entre as mulheres daquela família uma luta interior e um complexo recalcado, coletivo, face ao sexo e à entrega do corpo. Sofia nunca teve qualquer proximidade com o avô, mas a austeridade da avó e posteriormente a insanidade mal disfarçada da mãe, bem como a frieza do pai, sempre estiveram presentes, sempre que Sofia tentava contornar os padrões estabelecidos da família. Uma educação pouco dada a afetos e uma falsa paz familiar não são bons presságios para uma vida de adulta feliz. Depois veio o suicídio da mãe e agora o secretismo quase a ser desvendado daquela mala cheia de explicações que chegou de rompante à sua vida e que a abalaram. Talvez fosse melhor continuarem a estar guardadas no fosso do que não se deve recordar, as fotografias mentais do passado de Sofia. Limpou a mente de todo aquele tricô familiar de pontas soltas e entregou-se a João que lhe sorvia o corpo quente. Não ouvia palavras de amor mas sussurros de preces indecentes. Guiou-o para as suas entranhas abrindo as pernas desafiadoras, mas João virou-a bruto e animalesco, puxando-lhe o cabelo solto e comprido que lhe cobria o rosto e saciou-se, apercebendo-se da dor com prazer que Sofia demonstrava nos gemidos fugidos da boca rosada.
Deixaram-se cair exaustos nas almofadas desarrumadas do sofá, ambos com a mente num turbilhão de imagens difusas. O passado e as memórias vividas ou insinuadas por outros; os segredos e os preconceitos; as histórias mal contadas de geração em geração e um presente cada vez mais sombrio, esbarrado naquelas cartas.
Sofia levantou-se ajeitando o vestido e João numa sonolência cansada acomodou-se no sofá acabando por adormecer. Acordou apenas bem cedo pela manhã com o barulho da porta a bater. Sofia saiu com os primeiros raios de sol. Durante a noite mal dormida tinha tomado uma decisão. Dirigiu-se até à praia de areia fina. O mar revolto contrastava com a sua tranquilidade estranha. Incríveis as cores esfumadas do seu mar a contrastar com o céu rosado a tocar a linha do horizonte. Levantou o vestido branco mas ainda assim molhou as rendas suaves que debruavam a bainha. Pousou a mala na areia batida ferozmente pelas ondas e deixou-a partir. Com ela partiam as dores que ela sabia terem existido mas que não eram suas. Partiram as cartas amarelecidas com os segredos do tempo que já não valiam a pena a ser desvendados. O passado ficou irremediavelmente no mar e o presente seria unicamente o seu amor por João.
Quando regressou a casa já não encontrou o seu marido. Um bilhete apenas na porta do frigorifico: - Foi fantástico ontem. Amo-te!
A paz tinha regressado outra vez e Sofia regressou aos seus afazeres domésticos, só que desta vez de sorriso rasgado nos lábios. A manhã passou rápido. Apercebeu-se disso quando ouviu ao longe na Igreja da pequena vila morena, as badaladas melancólicas do relógio centenário, que chamavam as pessoas para a hora do almoço. Achou estranho João não ter telefonado a confirmar o almoço como costumava fazer. Ligou-lhe mas o telemóvel estava desligado. Insistiu mais um punhado de vezes, continuando um silêncio nada usual.
Seriam umas três horas da tarde quando Sofia abriu a porta a dois policiais de rosto soturno e voz demasiado delicada. A notícia gelou o corpo e a alma de Sofia. Emudeceu sem conseguir verter sequer uma lágrima e obedeceu mecanicamente aos dois agentes. Era preciso reconhecer o corpo do seu homem que apareceu morto nas areias finas da praia!

       Estela Fonseca

29/12/17

Em Busca da Verdade - Capítulo X

Fotografia © João J. A. Madeira 

O bilhete parecia queimar-lhe os dedos quando, como sonâmbula, se aproximou da janela. Admirou-se pelo sol que todo o jardim banhava em ouro. O saltitar cantado dos pássaros, o esvoaçar em cor das borboletas, as flores que ao ritmo lento da vida cumpriam os ciclos da natureza; mãe, filhos da sua semente, mães de novo. Conscientemente, achou absurda a sua própria surpresa por tal cenário. Afinal, a Primavera tinha chegado no tempo devido. Ela é que se situara longe de um mundo que rodava, de estações que se alternavam. Subitamente, deu-se conta que a imagem que os seus olhos viam era nada mais que a negação do estado em que o seu interior, a sua alma, se quedara: um despropositado e quase inexplicável Inverno.
Talvez a resposta estivesse naquele papel que a sua mão prendia. Talvez. Porque papéis são papéis, ainda que possam testemunhar um passado que também mais não é que isso mesmo. Não. O Inverno da sua existência estava a ser-lhe transmitido pela sua mente e a sua mente tinha-se enredado numa busca da verdade que nem já certeza tinha de querer encontrar. Mas agora aquelas palavras estavam ali, maléficas na resistência ao tempo, duras como só a verdade consegue ser. E ela nem consciência tinha de as ter compreendido, ainda que receasse nada mais entender para além do que elas lhe diziam.
Por isso procurara João para além dos vidros daquela janela e se quedara surpreendida pela beleza do seu jardim. Sem que nele vislumbrasse o seu marido, agora, logo agora que dele precisava para que, juntos, dissecassem aquele bilhete. Desaparecera. Fá-lo-ia um dia definitivamente? Não sabia, mas, se ele o fizesse, se partisse, restar-lhe-ia, a si, a descoberta de um passado culpado de se ver saqueada do presente, do futuro, e, acima de tudo, do único homem que amara. Que amava ainda, sabia-o. Valeria a pena a troca? A conquista do segredo de uma mãe irremediavelmente perdida pelo entrelaçar dos dedos nos dedos da mão de quem se ama?
Hoje, por acaso inconsciente ou consciência dissimulada, vestira aquele vestido. No qual ele não reparara. Um vestido de cores primaveris que ele mesmo lhe oferecera. Quando ela ainda…quando ela ainda não era Inverno.


João caminhava como um louco. Desvairado, totalmente alheado dos passos que dava, das pedras que pisava. Quem com ele se cruzasse veria um homem de cenho franzido, olhos perdidos no vazio, pensamentos ferventes em lume de nada. À sua frente, em nuvem devolvida pelo tempo, via somente o rosto de Sofia. A Sofia dos anos idos, dos risos soltos e dos beijos gotejados a quem deles sempre fora órfão. Não tivera família, os amigos, escassos, haviam-se tornado distantes, não tinha ninguém naquele mar largo pejado de rochas onde só uma o prendera. Para que agora, pelas arestas desfeitas por um incompreensível bater de estranhas ondas, ele se visse deslizante, sem mais nada a que se agarrar.
As palavras, das quais fora contrariado mensageiro, traços rabiscados pelo pó de gente sem vida, martelavam-lhe incessantemente um cérebro que há muito não repousava. Não entendia aquela entrega de Sofia a dramas de mortos, a tramas de defuntos, quando estava em causa uma relação que por tais fantasmas definhava. Que importância tinham, ainda que importantes fossem, as intrigas e os desgostos do passado, se havia um presente para preservar? Suicidara-se a sua mãe? Sim. E compreendia até as brechas que um acto assim pode abrir nos corpos que lhe sobrevivem. Mas será justo que se suicidem metaforicamente esses mesmos corpos pelo excesso de procura de razões?
Estava só, como sempre estivera até conhecer Sofia e de, os dois como um, aprenderem a partilhar conselhos. Conselhos que nunca poderia agora receber. Porque não há água no mesmo local onde o fogo deflagra.
Confuso, perdido dentro de si, olhou o mar que à sua frente parecia convocá-lo. Mas não, não iria uma vez mais deixar-se tentar pelos pensamentos de sempre que somente o denunciavam fraco, frágil. Desta vez teria de ser forte, teria de ser ele rochedo a segurar a mulher, a sua mulher, que sem saber se afogava.
Estóico, comandou os passos ao longo da costa, indiferente aos risos e aos corpos já meio desnudados. As esplanadas espraiavam-se ao longo do areal refrescando clientes aquecidos pelo sol de fim de tarde quando, inesperadamente, lhe pareceu que alguém o chamava. “João…João”, gritado duas vezes como já nesse dia por duas vezes ouvira em diferente timbre de voz. Apesar da vulgaridade do seu nome voltou-se. E viu, semi-erguido de uma mesa e acenando-lhe, Carlos, o tio de Sofia, o homem que depusera nas mãos da sua mulher a mala que, sem plenitude de culpa, lhes acentuara o afastamento. O homem que a família desprezava, o bêbedo sem norte, o velho sem tino, a ovelha-ranhosa que ele próprio mal conhecia. Pensou ignorá-lo, mas era tarde e, afinal, por que não?
Sentou-se após usuais cumprimentos e de imediato se arrependeu. O sujeito exalava o cheiro podre do álcool, a voz arrastava-se e as constantes palmadas no ombro de João começavam a exasperá-lo. Por entre sorrisos imbecis, palavras mal articuladas e constantemente interrompidas por olhares lascivos às nádegas das transeuntes, perguntou-lhe como ia ele, como ia a sobrinha. E João respondeu que bem, sabendo porém que até mesmo um homem embriagado se aperceberia da mentira denunciada por um rosto pouco habituado a mentir.
E então o velho deu início a voluntária e atabalhoada dissertação sobre como tratar das mulheres e como deveriam ser os verdadeiros homens, como ele, João, demasiado brando, não parecia que fosse. E provocava-o quase forçando a que virasse o pescoço para os corpos femininos que passavam e viravam a cara aos piropos indecentes que lhes atirava, explicando-lhe de que forma se conquistam as mulheres para sempre. João, enojado, cansado de palavras, cansado do homem, fez menção de se levantar, mas Carlos segurou-o pelo ombro e numa voz entaramelada saída de um sorriso imbecil, perguntou:
— És filho único, não és?
Impaciente e tentando furtar-se ao hálito, João acenou afirmativamente.
— Pois foi essa a tua pouca sorte – continuou o sujeito. – Tivesses tu a presença de uma irmã e tudo terias aprendido de um modo fácil e imediato. O que elas gostam, como gostam…
João assustou-se e devolveu-se à cadeira. Que estava aquele homem a transmitir-lhe? Queria ouvir. Tinha de ouvir apesar do asco que lhe era transmitido no que ouvia.
— …O problema é que crescem e se enchem de remorsos caprichosos e, por vezes, causam problemas, que é para isso que servem as mulheres, para criar problemas. Mas, depois, a carne sempre manda mais que os sentimentos…
João sentiu dentro de si um vulcão. A explosão de lava assomou ao seu rosto enfurecido e às suas mãos que, descontroladas, se atiraram ao pescoço do homem inesperadamente resistente e firme na cadeira. Os clientes gritaram, alguns abandonaram assustados os seus lugares e era tamanha a confusão que os empregados agarraram João forçando-o a que saísse dali. João não os via, nada ouvia, somente emitia chispas de fogo àquele homem, àquele velho, àquele nojento. Libertou-se de quem o agarrava e, do modo mais digno que lhe foi possível, afastou-se. Mas não tinha dado dois passos quando, voltando atrás, sem se importar que os homens tentassem de novo agarrá-lo, gritou do alto da sua posição cimeira ao cobarde na cadeira encolhido:
— Foi você quem entregou a mala a Sofia. Sabe que continha ela?
O outro, a medo, respondeu que não sabia. Postais ilustrados, coisas velhas, porcarias, sabia lá…
— Talvez isso tudo. Mas talvez também as últimas palavras da sua irmã à filha que em breve deixaria.
E correu, fugiu. Fugiu de tudo, quase fugindo até de si. Acabava de descobrir o que nunca se poderia saber. Já não eram mensagens ancestrais a estarem em causa, mas sim uma espécie de maldição de família, uma praga propagada até um tempo recente, um tempo tão próximo que nunca Sofia poderia ter conhecimento dele. Tinha de correr, tinha de evitar que Sofia lesse mais cartas, que por via delas se entranhasse nos ossos da mãe há muito desfeitos. O mistério adormecido naquela mala fizera perder o amor de ambos, mas a sua revelação seria fatal à mulher que ele, só ele, estranhamente ainda amava e nunca quereria perder.
E por isso correu como homem fervente de urgência em avizinhada e amena noite de Primavera. Por isso não perdeu tempo na procura da chave de um lar ainda seu e desferiu pancadas na madeira da porta como se fosse árvore de vida. Por isso irrompeu casa dentro, passando por uma Sofia assustada até se deter, desgrenhado e desorientado, à entrada da sala, olhos varrendo cada canto e voltando-se por nada encontrar.
— Onde está a mala? – Perguntou.
Sofia não respondeu. Olhou-o somente. Ao seu marido.
— Acabou, Sofia. Acabámos, talvez. Mas essa mala não sobreviverá ao que conseguiu matar. Hei-de rasgar cada carta, cada caderno, e cada pedaço de papel será um fragmento de dois corações que fortemente batiam. Nem tu conseguirás impedir-me. Porque poderemos resistir ao nosso fim, mas eu nunca resistirei à tua destruição.
Sofia olhou-o. Aquele homem, meio louco, meio tonto, tinha sido seu homem, era ainda seu marido. Sabia-lhe ainda o sabor dos lábios, conhecia-lhe ainda cada músculo do corpo, ainda o seu modo sereno de a amar, ainda o seu jeito de a mimar entre os braços, mas, pela primeira vez, descobria nele um bem-querer dissimulado em discurso de raiva. Subitamente viu-lhe o rosto não de agora, mas de quando ambos não temiam os invernos e ele lhe sorria. Sorriu-lhe, por isso. E quando se apercebeu que iria de novo falar, encaminhou-se para ele, passos de menina leve em jeito de bailado, e depôs-lhe um dedo no meio dos lábios que exigia agora silenciosos.
— Talvez rasgues as cartas, talvez rasgues os cadernos, talvez me rasgues a mim até se o fizeres, mas, antes disso, João…antes disso, rasga-me o vestido que um dia me deste.
E quando um simples dedo parecia deixar de ser obstáculo entre eles, a porta da rua explodiu em pancadas de horror que mãos furiosas não cessavam de bater.


                                                                                               João J. A. Madeira   

22/12/17

Em Busca da Verdade - Capítulo IX

Fotografia © José Bessa

João estava mais uma vez alheado de tudo no jardim. Ouvira chamar como se fosse no fundo dum túnel comprido, lá longe, como que noutra época, tão absorto estava nos seus pensamentos «João… João…»
A fotografia representava um casal - pai e filha? - bem vestido, quase que de cerimónia como era habitual quando se tirava um retrato para o futuro. Eram parecidos, apesar de o homem denunciar um envelhecimento precoce carregando ansiedade e culpa na tez morena.
Sofia tenta descortinar a data num tom sépia que se diluía no amarelecimento do papel «nove de Fevereiro de mil oitocentos e noventa e um… será?!...». Rodou mais uma vez a fotografia… lembrou-se da avó, tantas parecenças… «mil oitocentos e noventa e um... a avó… a avó falava que tínhamos alguém da família implicado no Trinta e Um de Janeiro do Porto, foi nesse ano…»
Joaquim chega à Praça da Batalha acompanhado do seu amigo Urbino de Freitas, já sob suspeita.
A mole acantonada amontoa-se ali mesmo na embocadura da Rua de Sto. António, alinha-se a artilharia, canta-se como se pode o hino do Partido Republicano, socorrem-se alguns feridos, organizam-se os revoltosos «acudam, acudam» «heróis do mar, nobre povo…», Urbino liga, desinfeta, medica urgentemente os que pode com o que pode «não, não, o senhor doutor não!...» «à Câmara!, à Câmara!», o povo escoa-se rua abaixo aos tropeções descendo desordenadamente rumo à avenida «à Câmara!, à Câmara!...», ouvem-se disparos, a gritaria abafa ordens e contra-ordens «Às armas!, às armas!... Sobre a terra e sobre o mar…», a gente chega à praça derramando-se como o puro azeite, alargando-se, escorrendo, diluindo-se na calçada, tomando conta da avenida «a bandeira!... a bandeira!... tirem essa bandeira!...» alguns acedem à varanda, a confusão é tal e o aperto tão forte que levam tempo a retirar o símbolo monárquico.
- Uma bandeira!... Uma bandeira!...
- Qual bandeira?! Não temos nenhuma bandeira para hastear!
Nunca tinha visto aquele homem, mas ela… ela era a sua bisavó Ana, disso tinha a certeza. Já tinha visto uma foto dela «onde estará?...», rosto trigueiro, algum entono, mas graciosamente moça… «este olhar, tão semelhantes ao da minha avó…».
- João! João!...
Levanta-se impaciente e espreita pela janela. Lá está o João, que ouvia de certeza quando ela o chamava. Lá estava o João que, inexplicavelmente, lhe escondia qualquer coisa.
«Aquele envelope não tinha só uma fotografia perdida, tinha de ter também alguma mensagem para a minha avó. “Para a minha querida filha. Para abrir depois da minha morte” Que mensagem? Que terrível segredo se esconde na família há gerações?»
Nasce um impasse. E bandeira para substituir a velha? «Não há! Não temos!» Ninguém tinha pensado nisso. O ímpeto revolucionário não calcula, explode, faz, revolve mas não sedimenta. O povo próximo olha aturdido o contratempo, o mais distante nem se apercebe, é assim na revolução, só os próximos estão em plenitude na revolta.
- Uma bandeira!... Uma bandeira!... Grita Alves da Veiga.
Já lá vem o Joaquim esbaforido, descendo com o pano rubro traçado em si, chegado à porta da Câmara não pode mais, cai de joelhos e entrega a bandeira ao primeiro que lhe estende os braços…
- Mas; mas é a do Centro Democrático?...
- Pois é!... Não há outra!... Hasteia! Não vim dos Poveiros até aqui em vão!... Hasteia!
O povo ulula «Bibà República! Bibà República!», o pano verde-rubro sobe até à varanda onde todos batem palmas e é içado com frenesim «desfralda a invicta bandeira, à luz viva do teu céu…», o povo descobre a cabeça e grita de júbilo «Bibà República! Bibà República!».

... \... 

Joaquim regressa a Lisboa nesse mesmo dia ludibriando barricadas e postos de controlo ajudado por um documento falso que o seu amigo médico forjara. Deixa para trás uma dúzia de mortos, e uma república que durou um par de horas. Foge da certa condenação revolucionária, talvez se livre de outras que o tempo esconde.
Chega a casa dois dias depois, exausto e bêbado como de costume. Tem vinte e seis anos e dez de pequenos crimes. Só a vetusta família, que o mantém por caridade em casa, o tem livrado do degredo, de ser um ninguém e um sem-ninguém. Só o compromisso e olhar atento da Bá, têm protegido a sua irmã, dez anos mais nova, das suas investidas. Se D. Armindo, como ela lhe chamava, sonhasse, era certo que o liquidaria de imediato pela desonra do pensamento. Só a paixão de Balbina por Joaquim tinham evitado o pior, até agora…
A ausência de Joaquim em Lisboa fora notada. Estivera uns dias fora, e quando questionado pela polícia desculpou-se com uma enfermidade que o obrigava agora à clausura doméstica.
Além dos serviços da criadagem, tinha os paparicos da cozinheira que o tentava cativar com canduras e doces, e a atenção da Aninhas, a sua primaveril irmã que com uns inocentes dezasseis anos fazia as alegrias das tardes de domingo com a sua frescura moça, e despertava o interesse às visitas de casa com educação e delicadeza. Uma princesa.
Aproveitando a rara permanência em casa, chamaram o retratista para por em dia as faltosas fotos de família para a posteridade, tantas vezes reclamadas pelos pais e irmã, e outras tantas rejeitadas por Joaquim que não gostava da sua imagem reflectida no papel.
Uma semana após a sua chegada, logo na segunda-feira seguinte, foram feitos os retratos.
«João… João…»
- Convidei o filho do Cortez para jantar cá em casa amanhã, Joaquim. Espero que te portes à altura e te deixes de revoluções ao jantar. Esta, é uma casa de respeito. Não me obrigues a indelicadezas à mesa.
- Estão a pensar em negócios lá para o Brasil, pai?
- Não são assuntos da tua conta.
Raimundo chegou pontual e trémulo. Presenteou a dona da casa com um singelo raminho de flores, corou ao beijar a mão de Ana, cumprimentou respeitosamente Armindo Coutinho e apertou a mão cúmplice ao companheiro revolucionário.
- Olha lá; consta-se aí que vais viajar… Atirou Joaquim, já nos licores.
Raimundo desapareceu dentro da sobrecasaca, tal o embaraço. Olhou em volta, demorando-se em Ana e…
- Onde ouviste semelhante, Joaquim?
- Ora, meu menino, estou para aqui aferrolhado mas tenho as minhas visitas.
Raimundo, perturbado, deslizou um olhar enevoado para Ana que, corada de ansiedade, pediu para sair por momentos.
- E onde vai a menina, ainda não findo o jantar?...
- Ali à cozinha, meu pai, pedir à Balbina que faça mais café…
Joaquim entendeu tudo… Raimundo estava a preparar uma fuga com a irmã e aquele jantar serviria quase como uma despedida da família. Sabia que estava para breve, desconhecia a data, mas disseram-lhe que sairiam para França. Avisaria o pai? Confrontaria a irmã com o desaforo? Aproveitaria a oportunidade da fuga?
João entra resoluto com um papel amarelecido na mão. Tinha hesitado, temia uma reacção tempestiva naquele temperamento já de si um furacão, mas estava ali, tinha de estar ali para amparar a comoção que se previa.
- Toma!... Este é o papel que acompanhava essa fotografia, talvez o consigas ler, mas lembra-te, nada do que está aí, nada do que revela, tem a ver com as nossas vidas presentes e não tem qualquer influência com o futuro. Passou-se assim. Lamenta-se. Mas, é passado. Se alguma coisa pode atormentar a tua família – a tua existência!... – não é o que revela esse papel, pode até ser o que aquela mala ainda esconde, não sei, por isso… por isso, é minha opinião que leias o bilhete e mandes queimar a mala. Toda! O que lá está não interessa. Nada! O que lá está já provocou pelo menos três mortes. Não merece mais uma.
- Dá-me o bilhete imediatamente e sai! Não tinhas o direito de me esconder fosse o que fosse, muito menos ler o que é meu por direito. Sai!
Sofia temeu o papel que tinha em mãos. Respirou fundo procurando coragem, discernimento.
“Querida Aninhas, fica com este daguerreótipo do teu irmão contigo. Ele é teu irmão; apesar da maldade que fez contigo – e comigo. A criança merece, mais tarde, saber quem é realmente o pai. É meu entendimento que uma criança gerada em pecado, não é, ela mesma, o pecado. É o teu filho, e que Deus o abençoe. A roupinha que junto era para um filho meu, que tanto gostava fosse do Joaquim também. Deus não quis. Seja feita a sua vontade. Olha pelo teu filho, e faz do Raimundo o teu marido. Ele merece o segredo.”

José Bessa 

15/12/17

Em Busca da Verdade - Capítulo VIII

Fotografia original © José Manuel Barbosa
Montagem © Luísa Vaz Tavares
 

E agora, que João saíra exasperado, Sofia estava ali, dona absoluta de si e das suas decisões, sem nenhuma intervenção dele para a dissuadir da sua intenção de descortinar, de uma vez por todas, a verdade-mistério escondida naquela mala- sacrário. Sentia-se no limiar de um pórtico susceptível, ou de amainar as suas inquietações, ou de a lançar num precipício sem retorno. Mas, onde aquele ímpeto quase agressivo para arrancar a carta a João, apanhado em flagrante com a ‘verdade’ nas mãos? Um misto de medo e de ousadia travava-lhe o gesto de a abrir. Tanto havia já sondado nas entranhas daquela mala e, vistas bem as coisas, ainda lá se perdiam tantas pontas soltas. Este jogo de João deixava-a intrigada. Seria uma provocação, para a levar ao paroxismo das suas inquietações mais íntimas? Ou não seria ‘jogo’ e fora, simplesmente, apanhado em flagrante? E as interrogações acumulavam-se. Por que razão traria o marido aquela carta consigo? Por que razão quereria subtraí-la aos seus olhares? E que estranhas alusões a consequências trágicas de morte decorrentes desta leitura? Teria ele ousado devassar esta missiva antes de ela a conhecer? E por que razão não a teria, ela própria, encontrado no meio dos diários e das fotos? Ai, como esta catadupa desordenada de questões silenciosas estava a fazer-lhe mal! Apercebeu-se de que as pernas lhe tremiam e a saliva secava-lhe as paredes da boca. Se tivesse de falar não o conseguiria. Pensou sair para beber um pouco de água, mas receou cruzar-se com João e mostrar-se-lhe assim meio desvairada. Dar-lhe de bandeja esta fraqueza seria uma humilhação. Pensou no acto tresloucado da mãe ao lançar-se no abismo das águas. E se João, ao vê-la naquele estado, descobrisse nos seus olhos, na sua agitação, laivos da depressão da mãe? Permaneceu, então, ali, exercitando a respiração e afagando o envelope amachucado e amarelecido. Não queria danificá-lo, tal o nervosismo que lhe desajeitava os gestos. Sentou-se. As palavras do marido vinham-lhe em ressonâncias de uma sinceridade de que já se tinha esquecido nos últimos anos. Pensou, também, que tudo isto teria, talvez, a vantagem de a aproximar mais dele. Ou talvez não. Uma mala, uma incógnita a esfrangalhar-lhe os nervos. Uma mala, aprisionando, há anos, uma qualquer revelação, quem sabe prestes a roer-lhes a esperança de um novo entendimento. O que saberia João que ela ainda não conhecia? Ele lera a carta, de certeza que a lera. E não devia devassar as suas entranhas antes dela. Afinal, João estava do seu lado, visando atenuar-lhe o desconcerto, ou estava sub-repticiamente a atiçar o caos emocional que lhe daria volta à vida? Quereria ele pôr um ponto final neste desaire, porque ainda a amava e desejava normalizar a relação de ambos? Ele não quereria perder Sofia. Ela sentia que seria isso. Paradoxalmente, o seu amor por ele parecia reacender-se neste clima conturbado, brasas cobertas de cinza, mas escondendo a faúlha necessária para lhes devolver a chama. Estes pensamentos acalmavam-na e excitavam-na. Olhou-se ao espelho. Esboçou um sorriso. Puxou os cabelos para trás e achou-se ainda bonita, apesar de não se ter maquilhado, como fazia no auge do enamoramento por João. Sentiu saudade daquele abraço forte e quente do momento em que ele lhe anunciou que queria casar com ela. Estava, afinal, tudo tão presente na sua memória! Ah, mas havia a carta, ali, na sua mão suada, à espera de ser desvirginada. Desvirginada? Mas se João já a lera? Retirou o verbo. Bem, tinha de avançar. João, talvez no jardim, começaria a ficar impaciente. “Tem mesmo de ser, Sofia. Não vaciles, agora! É a Hora” - diz para si, parafraseando o poema da Mensagem, de Pessoa. Encostou-se à janela e a aventura começou. Devagar, mas traída pela respiração irreverente, foi agredindo, com a ajuda de um canivete, a cola quase inexistente – o envelope já teria sido aberto e voltado a ser colado, iria jurar -, e eis, finalmente, o recheio, exposto na sua nudez mais impura. Não, não era assim, havia ainda um outro envelope, esse já recomposto sem tanto cuidado. Nele estava escrito: “Para a minha querida filha. Para abrir depois da minha morte”. Reparou na caligrafia. Tão diferente da dos dias de hoje: escultural, com as consoantes elegantemente desenhadas e um todo harmonioso como se fosse uma pauta de música. Respirou fundo, limpou as gotas de suor que lhe borbulhavam na fronte, ganhou coragem e espreitou, como quem espreita para a abertura de um poço: não havia carta alguma; apenas uma fotografia e uma data. Manuseou-a uma e outra vez. Não estava a reconhecer ninguém. E que data seria aquela? Pensou, de imediato, que talvez o marido tivesse surripiado o texto esclarecedor da imagem e da data. E agora? “João! João!” – Grita.


                                                                                                        Albertina Fernandes

01/12/17

Em Busca da Verdade - Capítulo VI

Fotografia © Gastão Brito e Cunha

            O mar estava tão revolto quanto a sua alma. As ondas rebentavam nas rochas com a mesma intensidade que os flashes da visão de Sofia agarrada à mala lhe chicoteavam o pensamento. Nem tinha percebido o rumo que tomara, até ali chegar. Avançou, em passos ébrios, para a falésia que à sua frente segurava as investidas da natureza em fúria e fechou os olhos, sentindo o cheiro do último trovão. A tempestade repentina daquele final de tarde travaria qualquer um, mas a ele não. João estava tão enlouquecido de raiva que enfrentaria qualquer perigo, como se quisesse medir forças com o próprio destino.
            No último instante, parou à beira do precipício e num gesto reflexo sentou-se na pedra dura que, determinada, suportava a força das águas. Seria aquilo que lhe faltava? Determinação. Determinação para dar a volta ao estado a que chegara o seu casamento? É que nem sempre fora assim. No início, tinham vivido um interlúdio emocional permanente. Sofia era uma mulher intensa, absorvente até, mas ele amava-a e gostava do frenesim que era viver a seu lado. Era como se vivesse constantemente no fio da navalha, uma sensação de vida que só sentia com ela. Mas com o tempo esse frenesim começou a cansá-lo e a força para a acompanhar faltava-lhe, às vezes. Será que com Sofia só era possível viver naquela inquietude? Estava tão atormentado que já não sabia se o que estava a pensar fazia algum sentido.
            Levou a mão ao bolso e sentiu a carta que tinha tirado da mala. Não fazia nenhuma ideia do que pudesse estar escrito naquele pedaço de papel amarelecido pelo tempo, mas constrangeu-se ao tocá-lo e sentado no cume da escarpa, ali ficou com a carta a queimar-lhe nas mãos.
            Em casa, Sofia voltava a atenção, mais uma vez, para a mala. Sentada no chão do escritório, abriu-a à sua frente, tornou a remexer o conteúdo e pegou num maço de cartas amarrado com uma fita de cetim azul bastante desbotada. Curiosamente, tinha as letras viradas para dentro, impedindo qualquer pessoa de à primeira vista ver os nomes ou as direcções. Por minutos, ficou ali, com os dedos a segurar a ponta da fita, mas desviou o olhar para o caderno e com um gesto abrupto, largou o maço das cartas e agarrou-o.
            Abriu-o na primeira página e o que leu causou-lhe um choque.

Diário de Bordo
Travessia atlântica Brasil\Portugal
Raul Coutinho Cortez

Ela conhecia aquele nome! E até sabia de onde. Há coisas que as crianças jamais esquecem. Neste caso, era já uma pré-adolescente. Certa vez, ouvira uma conversa entre a avó e o avô, em que a avó mencionara o nome Raul Coutinho Cortez. Aquilo parecera-lhe envolver um certo secretismo, ainda assim arriscou-se a perguntar quem era a pessoa que falavam. A resposta da avó? Nunca mais a esquecera. Ficou lívida de raiva e proibiu-a terminantemente de pronunciar aquele nome à frente de fosse quem fosse. E é claro, isso incluía qualquer investigação por conta própria.
Esta descoberta só fez aumentar a ansiedade que Sofia sentia e a avidez com que se debruçou sobre a leitura do que agora sabia ser um diário de bordo. Não começou pelo início, abriu uma página ao acaso e leu:

12 de Novembro de 1911
Dentro de algumas horas, o navio atracará no porto de Lisboa. Estou ansioso para finalmente pôr os pés nessa terra que toda a vida deixou a minha mãe de semblante triste e saudoso. Já há quase um ano, que devia ter vindo. Quando o pai soube da mudança de regime político em Portugal – a 5 de Outubro de 1910 -, disse logo que tínhamos de vir a Portugal. Se pretendia ficar ou não, não sei… nunca o ouvi dizer, mas depois houve aquela tragédia e eu, sozinho no mundo, quase que me perdi de mim próprio. Ainda assim, este país corre-me nas veias, o apelo do sangue trouxe-me até aqui. Apesar do amor\ódio que toda a vida nutri pela terra dos meus pais, o destino foi imperioso. Agora, quase a terminar a viagem, ainda não tenho planos. Só há uma coisa que tenho certeza que farei de imediato: procurar os meus avós. Não sei se terei sucesso, mas pelo menos tenho um ponto de partida. Tenho um papel que encontrei entre as coisas de mamãe, com um endereço de Lisboa. Fica no Bairro da Graça…

As revelações jorravam na mente de Sofia a um ritmo estonteante. Não estava certa de estar a entender tudo o que ali se revelava, mas sentia que era importante. Por isso continuou a ler quase sem respirar.
O próximo texto datava de cinco dias mais tarde.
 
Fotografia © Gastào Brito e Cunha
17 de Novembro de 1911
Sempre achei que minha mãe pertencia a uma classe alta da sociedade portuguesa. A forma como me ensinava regras de comportamento e etiqueta e me obrigava a cumpri-las, deixava-me desconfiado. Agora tenho a certeza. Quando cheguei ao número daquela rua mencionado no meu papel, quase levei um susto. Aquilo não é uma simples casa, aquilo é um palacete. Aliás, é assim que vou designa-lo a partir de agora.
Quando toquei à porta, apareceu uma criada de farda bem engomada que foi a correr chamar a patroa, assim que eu disse o meu nome. A avó veio logo a seguir. Puxou-me para dentro e por algum tempo, ficou a observar-me em silêncio. Até que, finalmente me abraçou e disse algo estranho: “és tal e qual como imaginei”. Então ela sabia quem eu era? Antes que eu tivesse tempo de perguntar, levou-me para uma sala forrada de livros que conclui ser a biblioteca da casa. “O meu marido não está, vamos conversar aqui.”
A avó não é exactamente como eu pensava. Eu esperava encontrar uma senhora fina, bem cuidada, talvez fútil, como são as damas da sociedade. Ao contrário disso, a mulher que encontrei tem um aspecto descuidado e no olhar, uma tristeza profunda. Sinais de quem envelheceu antes do tempo.
Mas isso não me impediu de dizer o que fui lá dizer. Foram anos e anos a assistir à infelicidade da minha mãe e às acusações do meu pai. “A culpa é dos teus pais”, “agradece aos teus pais”, “se os teus pais me tivessem aceitado, não precisávamos de ter fugido”, são expressões que ainda hoje me atormentam. Ela precisava saber da infelicidade da filha. Quando era criança não entendia bem o significado daquelas palavras, mas à medida que fui crescendo, fui construindo a história. O meu pai foi para o Brasil contrariado e por isso afundou-se no jogo e no álcool.
Depois… depois houve aquela madrugada que jamais esquecerei. Como habitual, o meu pai chegou a casa embriagado. Ouvi-o entrar e ir para o quarto, onde a minha mãe já estava recolhida. Ao contrário dos outros dias, ela não o repreendeu, nem se lamentou da sua vida sofrida. E eu fiquei à espera naquele silêncio incomum. Até que se ouviu o estrondo. Não dava para confundir, era um tiro. Corri para o quarto onde os dois estavam e quando ia a entrar, outro tiro fez estremecer o meu corpo. Pois é, os meus pais se suicidaram no mesmo dia, praticamente à mesma hora.
Enquanto descrevia o momento a avó chorava. Até que desmoronou num pranto e gritou: “minha querida filha, eu sabia… eu sabia! Meu coração sentiu que algo de mal acontecera, quando as cartas deixaram de chegar”…

Sofia sentiu lágrimas escorrerem-lhe pelo rosto. Estava escuro. Tinha anoitecido, sem que desse conta. Ouviu João meter a chave na fechadura e num instante, estava ali, entre portas. Tinha uma carta na mão.


                                                                                                          Luisa Vaz Tavares