30/11/18

Ecos de Mentes - Capítulo 2


©Fátima Ribeiro

- D. Laura?...
- Ai que susto, homem! Não se aproxime tão silenciosamente, que ainda me mata do coração.
- Desculpe, D. Laura, desculpe. Mas é que preciso de indicações.
- Indicações sobre quê?
- Então, sobre… isso. Paramos a obra?
- Não paramos nada a obra. Então agora íamos parar a obra por causa de uns cadernos velhos? Leve-os todos lá para baixo, que eu vou lê-los, e continuem o vosso trabalho.



Gabriel

Trouxe o caderno para o jardim. Não sei se é permitido, mas ninguém disse nada e olha: aproveitei que chegaram as “No Podemos Hablar” para fazer a limpeza do quarto e pirei-me com ele dentro da sweatshirt. O que, provavelmente, foi cuidado desnecessário, já que não encontrei nenhum dos outros pelo caminho. Apesar de ao pequeno-almoço a sala estar cheia, não sei onde se meteram todos, que nunca mais os vi. Não que isso me incomode. Não, não incomoda nada. Sou bicho solitário e pressinto que vou dar-me bem, aqui entre os recantos da natureza. Aliás, já andei por aqui de madrugada, àquela hora que ninguém desconfia. Estava ansioso e não conseguia dormir. Saltei pela janela.
Estava a ver que ía ter que me arranjar lá no quarto. Não ía ser fácil, mas sem malhar é que eu não ficava. Ah, pois não! Já basta não ter os aparelhos que tanta falta me fazem. Nem que tivesse de desmontar a mobília, pendurar-me do tecto, sei lá… agora que atingi o ponto que pretendia não posso regredir. E é que não é só o corpo é também a mente, a minha mente não consegue suportar as endorfinas que estão sempre a acumular-se. Só o ginásio é que as liberta e na falta de um, teria que me desenrascar. Ainda que fosse saltando pela janela. Que sou obcecado pelo culto do corpo, dizem. Tretas, só tretas. Eu sei perfeitamente que não caí no exagero, apenas não me sinto bem se… não quero um corpo flácido, ponto. Se esfumaçasse que nem uma chaminé, como alguns que já aí vi, isso é que era de preocupar. Agora fazer exercício físico, que mal há nisso? Que mal há em querer ser saudável?
Mas pronto, pelo menos por enquanto já arranjei solução. Durante a escapadela madrugadora, andei a vasculhar o jardim e encontrei uns sítios que vão dar para fazer bons esquemas com sequências alternadas. Assim vai ser mais fácil não perder massa muscular. O pior é a alimentação. Pela amostra que me foi dada a conhecer, é só gorduras poli-saturadas, hidratos processados e açucares. Proteínas, nada de nada. Trouxe – e isto ninguém sabe – um grande stock de suplementos. Não resistiria sem eles. Mas mesmo assim, não posso, não devo abdicar do meu plano nutricional. E a isso é que vai ser mais difícil dar a volta. A não ser que – surgiu-me agora uma ideia – engate a gaja da cozinha. Aposto que não daria trabalho nenhum, elas não resistem a este corpo de Adónis. Falo por experiência: são sempre aos montes a ver quem ganha o pedaço. E não são só elas, eles também; mas esses, enfim… não me interessam para nada. Voltando à da cozinha, acho que se chama Ilda, será que já reparou aqui nestes esplendidos bíceps? Hum… se calhar não. Com aquele aspecto badalhoco, nem deve saber o que é um corpo bem cuidado. Pensando melhor, talvez não seja uma boa ideia. Pois, não; quem teria estomago para aguentar o cheiro a fritos ou tocar aquela pele peganhenta de suor e gordura? Não, essa também não é uma hipótese.
“Olá, boa tarde!” Espera… estava eu a dizer que não sabia onde se tinham metido todos, pois aqui está um. – Boa tarde! – Respondo, sem ênfase. – Não vê que agora estou ocupado? – Apetece-me dizer. Mas não digo, fico à espera que o gajo continue a conversa. E continua: “chamo-me Amadeu”. Sim e o que é que eu tenho a ver com isso? Vêm-me à mente a resposta pronta, mas em vez de a verbalizar solto um amistoso - Sou o Gabriel. “Muito prazer, Gabriel. Tens um cigarro?” Ah, é isso que ele quer? Não vou ser nem sequer cordial: - Claro que não, não fumo! “Ah, está bem. Achas que podemos ver a bola, logo à noite? Quer dizer, haverá cá algum plasma ou pelo menos um bom aparelho de televisão?” Olha-me este… deve ser daqueles que se empanturram de petiscos a babar gordura, enquanto chamam nomes ao árbitro. “O que é que escreves aí nesse caderno?” Mas o gajo é parvo ou quê? Então não estamos aqui todos para o mesmo? - É para a posteridade, não foi o que nos disseram? Não te deram um? “Acho que vi um lá no quarto… até logo, talvez a malta se encontre para ver a bola.”
Estão a ver porque é que eu digo que sou bicho solitário? Esta foi a conversa mais longa que tive com alguém, desde que entrei neste lugar, e para dizer a verdade já estava com vontade de enfiar a caneta nos olhos do tipo. Ou naquela barriga inchada, a ver se rebentava como um balão… eheheh, havia de ser giro aquela porcaria toda a saltar cá para fora. Que nojo! Não sei como é que são capaz de andar com aqueles corpos nojentos a exibir-se por aí. Comigo não, comigo não contem para ver a bola a ingerir petiscadas ao ritmo dos gritos de gooooloo! Não gosto dessas socializações. Mas também não vim para aqui para socializar. Vim para aqui para… para que foi mesmo? Bem, talvez um dia saiba.

O jantar de hoje não me correu mal de todo. A comida foi uma mixórdia parecida com a de ontem e de anteontem, mas estive à conversa com a Helena. Aquela é que é uma gaja que me enche as medidas. Assim que a vi percebi logo… longos cabelos negros, olhos verdes, corpo bem torneado. Mas até agora só dava conversa ao David. O gajo até me parece boa pessoa, talvez o único com quem me identifique um pouco, mas desculpem lá: os meus interesses são os meus interesses e os teus interesses são os teus interesses. E os teus não podem nunca sobrepor-se aos meus.
Porém agora que ela sabe que sou PT, adeus David. Amanhã, já vamos ter uma aula. Eu sabia que aquele corpinho não se fazia assim do nada. A propósito, será que devo fazer um esquema para ela? Ah, não… não sei em que forma está. É melhor esperar por amanhã e assim observo-lhe o nível e tiro-lhe as medidas. Não é que não lhas tivesse tirado já, mas isso é outra história.  
Raios! Estão a bater à porta. Quem será agora? Que não me venham cá com mais saraus. Já me bastou o outro, onde tive que aturar aqueles dois malucos a dançar sem música. E a histérica da Cláudia ainda a dar-lhe trela, que nunca mais nos abriam a porta. Não estou para isso…
Novamente, vários toques com força, na porta do quarto. Quem quer que seja está com pressa, bate tão insistentemente. “Boa noite! É o Gabriel, não é?” Este não sei de onde é que apareceu. Nunca o tinha visto, nem ao pequeno-almoço onde achei que estava toda a gente – sou o Gabriel, sim – confirmo. “O meu nome é Dionísio, já nos cruzámos por aí.“ Já? Quem diria… eu não disse que não eram só elas a disputar o pedaço? Já deve ter andado a catrapiscar-me à socapa. “Posso entrar?” Entre, entre, sinta-se à vontade – o meu pensamentos é irónico, pois a criatura vai logo invadindo o meu espaço sem o meu assentimento. “Sabe Gabriel, soou-me que é PT”. Soou-lhe? Será que a Helena lhe contou? “Blábláblá, blábláblá… e então resolvi vir procurar os seus serviços.” Ah, então é isso que o gajo quer: um personal trainar: “faço qualquer coisa para manter esta maravilhosa forma. Estou muito bem, não acha?” Talvez, talvez esteja mas terá de arranjar outro. Eu já estou ocupado. – Dionísio, eu não sei se posso fazer isso aqui. Não sei se as regras o permitem, entende? Acho melhor não arriscar. – Tento esquivar-me, mas… “acha melhor não arriscar, é? Mas com a sua amiguinha Helena não se importa, com ela não faz mal de infringir a regras?” P… da bicha, esteve a ouvir a conversa. Ai que ganas de a esganar! “Pensavas que eu não sabia, era? Não te enganes, sei tudo o que se passa aqui. Amanhã, encontramo-nos os três à hora combinada.” Mas… “Bons sonhos, darling!” 
Nem esperou qualquer resposta. Saiu, batendo a porta na minha cara, sem cerimónia. Parece-me que vou ter problemas com este. Logo eu que sempre achei piada em vê-los a cobiçar o meu corpo. Muitas vezes, tentavam algo mais, claro, mas eu era explícito a mostrar as minhas tendências e tudo ficava por ali. Agora este, este quer armar confusão. De certeza.

                                                                             Luísa Vaz Tavares


23/11/18

Ecos de Mentes - Capítulo 1

©João J. A. Madeira


Cláudia

Estou farta, cansada, extenuada. Tremem-me as mãos em cada coisa que pego, arranha-se-me a garganta nas raras vezes em que a minha boca se abre, quase definha asfixiado todo o meu interior que tanto me pede para gritar sem que possa fazê-lo. Que faz aqui este meu corpo? Que fazes tu aqui, Cláudia? Ah! Pudesse eu fugir, tivesse eu coragem de sair porta fora e rasgar esta pele em ervas bravias, em espinhos sangrentos, entre bichos de asco e de medo. Como deixei que para aqui me trouxessem? Como? Pára de roer as unhas, Cláudia, pára! Já sabes quanto isso te desfeia as mãos, por mais jóias que uses nelas. E, sobretudo, não chores. Já viste o resultado das lágrimas na porosidade do teu rosto quando, ainda por cima, os cremes estão a acabar? Sim, os cremes estão a acabar. Acreditarias nisto, mãe, se cá estivesses ainda e pudesses ler o que escrevo? A tua filha, a menina que se fez a mulher mais bela do bairro (da cidade até, como bem ouvimos um dia dizerem-me na rua) a tua flor, como me chamavas, a deixar acabar os cremes de beleza? A usar roupas mal engomadas, estragadas e debotadas por uma lavagem mal cuidada? Imaginas a tua Cláudia, a refilona, a quedar-se calada perante tamanha ofensa? De nada serve ser respondona aqui, ou mesmo malcriada. São muito mais agressivas e grosseiras que nós as cabras das espanholas que nos tratam da roupa e limpam o quarto. “No te entiendo”, “no podemos hablar”, “no podemos hablar”. Ninguém aqui “habla” coisa alguma. Ninguém. O silêncio e um apressado desviar de olhares derrotam todas as perguntas quase antes de serem proferidas. Mas pior, bem pior, é a pu… não, não posso conspurcar este caderno, não devo marcar estas folhas com obscenidades que contrariariam a senhora que sou, educada, simpática, culta e, acima de tudo, extremamente bela, se acaso algum dia estas páginas forem lidas. Mas aquela… aquela Ilda, encho-me de comichões ao escrever esse nome – não coces, Cláudia, resiste, não te coces com essas unhas roídas. Recorda-te de como te ficaram as pernas marcadas quando uma vez, distraidamente, o fizeste – Não, não coço. Mas aquela mulher, aquela vadia, não é espanhola, é bem portuguesa, uma minorca, uma caga-tacos que cresce nas ofensas a qualquer residente. Tresanda a suor e, à semelhança do buço descuidado, devem crescer-lhe nos sovacos autênticas barbas negras que nem um pirata ousaria escanhoar. E é dessa fealdade descuidada, aliada às mais ordinárias expressões, que se serve para nos calar as perguntas, rindo e imitando as mulheres da manutenção: “no podemos hablar”. E nós calamo-nos, amochamos, resignamo-nos àquela chantagem camuflada. Porque aquela ordinária era capaz de tudo, tenho a certeza. De nos cuspir nos bifes, de nos urinar na sopa. Mas estou a adiantar-me, a falar-vos de gente sem educação à qual entregaram a cozinha. Tem-nos na mão, como nos tem na mão quem para aqui nos trouxe. Não sei como me iludi com isto. Não sabemos onde estamos, receamos aprofundar, entre os residentes, quem somos e, muito menos, por que razão estamos aqui. Mas é melhor começar pelo princípio. Já o devia ter feito. Ou corro o risco de nada entender quem um dia encontrar este caderno.
Acalma-te, Cláudia. Levanta-te por momentos e descontrai. A varanda. Ao menos tens uma varanda. Sim, ao menos tenho uma varanda. Dela aprecio o verde das árvores. Não sei que árvores são, nada entendo do campo, mas estivesse eu noutras condições e desejaria correr entre elas sem receios de ser maltratada. Mas as condições são estas, que eu aceitei, e não quero, não consigo sequer imaginar o meu corpo invadido por mãos que toda aquela verdura esconderia. Ou aquele trecho de rio do qual somente vislumbro uma curva. Quem me reconheceria se nessa curva me achassem enleada em prováveis cobras que – oh horror - me roeriam a pele? Esta minha pele que admiro no espelho, esta pele que todos os homens desejam e as mulheres invejam. Apetece-me despir-me. Ver-me nua e, melhor ainda, saber que alguém me vê. Gosto que me vejam. E me desejem. E comigo fantasiem. A única coisa que os homens levam de mim, a fantasia que lhes concedo. Eles não me merecem. Eles e aquelas mãos peludas e nojentas com nascentes de suor, aquele resfolegar obsceno, eles, por quem me enojo, satisfaçam-se pela vista, que pelo toque do meu corpo nunca. Sim, apetece-me olhar-me nua, apaixonar-me por mim e saber que só eu serei sempre minha, sem os medos que, desde que aqui estou, me invadem. Mas há um caderno à minha espera, o único confessionário que encontrei quando descobri não poder falar com ninguém porque ninguém falava comigo. Aqui, nestas folhas, restará para o futuro esta letra que já foi redondamente bela e agora nada mais mostra que um traçado incoerente de linhas que se embrulham como rolos de arame carregados de farpas. Mas há uma história, a minha, por contar.
Eu tinha, tenho, um problema. Perdoem, mas não vou escrever aqui aquilo de que sofro. Escrever é perpetuar e o meu mal é somente uma falha, um pequeno erro na minha concepção e não gostaria, no futuro, de ser avaliada por ele. Procurei-os por esse mal e por constar serem bons. E caros. Mas dinheiro nunca me faltou, felizmente, e depois de testes invasivos ao meu cérebro, ao meu coração, falaram-me de uma técnica inovadora ainda em desenvolvimento. Acreditei, aceitei. E um dia vi-me entre eles numa noite feita de estradas sem luz com rumo ao que me pareceu o fim do mundo, o final dos tempos. Não percebi, nem me foi explicado, que terras cruzei para aqui chegar. Durante a viagem, os meus haveres a meu lado completaram-se com os seus conselhos. Nunca entabular conversas com o staff da casa que, aliás, era estrangeiro e nada compreendia. Conviver com outros residentes, mas evitar qualquer cumplicidade com  eles de um modo que pudesse ameaçar o projecto e, nunca por nunca, porque essa seria a chave do sucesso, considerar que os outros me eram superiores física ou intelectualmente. E eu sorri. Entendi de imediato que, na sua posição, não quiseram dizer-me que a minha beleza não teria ali adversários e que, apesar dos ciúmes que criaria, deveria aceitar o facto com humildade. E concluíram: se porventura alguma espécie de fiscalização existisse por parte de entidades oficiais, deveria responder ser parte interessada de um projecto inovador na saúde para o qual se tinha ocupado aquela casa. Que não me preocupasse com isso. Eles tratariam depois dos processos burocráticos. Nestes tempos pós-revolucionários todas as ideias vanguardistas eram bem aceites.
Fui literalmente despejada no largo fronteiriço. Estava em boas mãos, disseram antes de fazerem inversão de marcha e partirem. As boas mãos eram as de Ilda que, carrancuda, sem qualquer tipo de cumprimento, deixou que, sozinha, eu carregasse a minha própria bagagem. A noite, fria e ventosa, assombrada por longínquos grunhidos, zumbidos indecifráveis e os assobios dos ramos sobre o silêncio, assustava-me e só descansei quando me vi no quarto cuja porta Ilda abriu, entregando-me a chave. Depois, ainda que apreensiva, num instante adormeci.
No dia seguinte pensei conhecer a casa, deambular por ela e visitar os jardins, evitando, porém, o denso arvoredo que a partir deles de algum modo me assustavam. Fá-lo-ia após o pequeno-almoço. Sem saber ainda que nessa pequena refeição se daria início à minha asfixia, à minha sensação de clausura.
Uns chamar-lhe-iam restaurante, outros, refeitório. Para mim era simplesmente uma cozinha com sala de refeições, daquelas antigas, enormes e frias, onde a mesma mulher que me havia recebido na noite anterior nos despachava – a palavra é essa “despachar” – com leite e pães com manteiga. Pedi um sumo. E aquela maldita mulher correu-me com os olhos o corpo até onde podia vê-lo por detrás do balcão. Interiormente, rejubilei. Era a costumeira inveja a nascer. E a tornar-se ódio no olhar e na voz de quem não esconde os ciúmes. “Vossa Excelência”, respondeu-me ela com desdém, “deve pensar que está num hotel. Ande sente-se e coma o que lhe dão e, se não gostar, corre muita água lá em baixo no rio”. Como devem calcular, desatei a tremer, pensei descer ao nível dela, mas contive-me. Virei-me e sentei-me a uma das quatro mesas para quatro pessoas. Sozinho, numa outra, encontrava-se um homem. Estranho, muito estranho nem para mim olhar, mas, por outro lado, mover o pescoço, o corpo, como fazem certos pássaros em jeitos continuadamente mecanizados, bruscos. Olhava para todo o lado, para a janela, para a porta, para trás de si, como se receasse ser atacado pelas costas. Inventei um sorriso e disse-lhe “bom-dia” ao que ele respondeu com o mugido de uma vaca. Apesar da tensão em que me encontrava, quis mostrar a minha simpatia, causar boa impressão. Da minha mesa para a dele, insisti. “Como se chama?”. E o homem pareceu quase saltar da cadeira antes de, num dos seus repentes, se virar para o balcão e depois olhar o pão à sua frente e, de cabeça baixa, proferir um audível, mas sussurrado “Dinis”. Bom, era um começo. Arrisquei. “Só nós aqui estamos?”. Negou com a cabeça. “Onde andam os outros, então?”. A olhar o tampo da mesa, fez um gesto circular com o braço, “ Por aí”. E, nesse instante, vinda do balcão, ouvimos a voz esganiçada da Ilda, qual peixeira apregoando o produto. Advertiu-nos para a proibição de nos interessarmos pelo que não nos dizia respeito e, de imediato, o homem redobrou os tiques com um claro, mas tímido “Perdoe, Ilda”. Nervosa, comi em silêncio o meu pão a seco por evitar o leite (não gosto). Quando saí da cozinha, deparei com um papel escrito à mão, afixado num pequeno placard, onde uns gatafunhos quase ilegíveis anunciavam o almoço: bife ao grelo. Furiosa, voltei atrás.
— Dona Ilda, desculpe, mas detesto grelos. Qual é o prato alternativo?
A mulher limpava copos com um pano encardido. Atirou-o para a bancada abaixo do balcão e pousou nela as mãos virando o corpo para mim.
— Vossa Excelência deve ter uma mona de galinha. Você acha que isto é o Ritz? Com pratinhos à escolha de Sua Senhoria? E que é isso de grelos? É só nisso que pensa, com esse corpo de… de… ai, cala-te boca!
Penso ter corado dos pés ao cabelo. Mas quem pensava ela que era? Senti-me alterada e, dessa vez, não me contive.
— Mas por que raio me fala assim? Fiz-lhe algum mal? É o que está ali escrito. “Bife ao Grelo”!
— Eu falo-lhe mal porque me apetece e porque Vossa Excelência é estúpida. Se não fosse, saberia ler. Bife ao grego! Bife ao grego!
Virei-lhe as costas e pela primeira vez – quantas mais vezes iria desejar o mesmo – quis ir-me embora dali. Mas tinha acabado de chegar. Nem as instalações ou o jardim conhecia. Dispus-me a sair, mas, à porta, lembrei-me de não ter comigo a minha bolsa, os meus cosméticos. Assim, recuei e subi as escadas. Foi então que as vi. Mulheres de batas negras afadigavam-se em limpezas. Recordei-me das instruções, mas achei-as tão absurdas que me aproximei de uma e perguntei quem geria aquilo, quem lhes pagava. “No te entiendo” disse-me afastando-me com os braços gordos “No podemos hablar, no te entiendo”. Acerquei-me de outra e questionei-a sobre a Ilda e a sua má educação e, no entanto, a resposta foi a mesma, tal como a das seguintes “No podemos hablar, no podemos hablar”. Subitamente, puxam-me por trás os cabelos. Virei-me. E senti nesse instante uma bofetada, leve, mas uma bofetada, que me fez corar e levar a mão à face. Era Ilda. Os olhos raiados de raiva, o rosto transfigurado num horripilante monstro.
— Desce deste piso imediatamente – ordenou-me, fazendo com que lágrimas de vergonha se soltassem de mim.
— Tenho de voltar ao meu quarto. Preciso da minha bolsa.
— Voltas no fim da limpeza. Às 10:30. E ai de ti que volte a encontrar-te a perguntar o que não te diz respeito. Sai. Desce!
Deambulei como sonâmbula pelo jardim. Que era aquilo? Que fazia eu ali? Que tratamento existiria naquele local para o meu problema?
Só pude regressar ao quarto pela hora de almoço. Conhecia apenas um residente. Dinis. Um homem. Tinha de conquistá-lo do único modo que sabia. Vesti a minha mais curta saia e uma blusa cujo decote evidenciava quase indecentemente a beleza dos meus seios. E desci. Sem palavras, recolhi o meu almoço que mal provei, ainda que, ao menos isso, estivesse bem confeccionado. Ostensivamente, sentara-me de frente para o tal Dinis e puxara ainda mais para baixo o decote. Pela primeira vez na minha vida, os olhos do homem, um homem, nem para eles olhou. Porém, num rasgo de tempo em que Ilda saiu da cozinha, levantou-se e veio até mim, fazendo-me crer que, finalmente, me iria deitar um piropo, obsceno, como sempre. Sorri-lhe antes que o dissesse e ajeitei o sutiã através da blusa. Naquela travessia de mesas, o homem parecia louco e tive medo, reconheço, mas quando estava a curta distância, disse e repetiu uma frase que eu nunca esperaria. “Eles querem matar-nos. Eles querem matar-nos” e, de um salto, devolveu-se à sua mesa no preciso instante em que Ilda regressava.
Toda a tarde cismei naquela frase. De frente para a janela, comecei a pensar numa fuga. Que não levei avante pelo já referido no início deste caderno. Um dos muitos que havia empilhados e vazios no corredor e que só hoje me dispus começar a escrever. Mas foi frente à janela que pude ver a entrada de uma pequena camioneta de onde saíram várias pessoas. Os restantes residentes, pensei acertadamente. Vinham como se de uma espécie de excursão, embora calados e com passos robotizados. Situação vulgar em qualquer estância, reconheci. Talvez, afinal, o Dinis fosse maluco e a Ilda tivesse simplesmente mau feitio. E a este pensamento posso agradecer algum do alento recuperado.
Ao jantar, a sala de refeições tinha as cadeiras ocupadas quase na totalidade. Em jeito de “buffet” as pessoas traziam para as mesas a sua refeição cuja ementa eu evitava agora ler. Tratava-se de um prato leve à base de peixe que todos, em silêncio, mastigavam, libertando no ar unicamente o som tilintado de copos e talheres. No fim, todos, de uma vez só, se levantaram. Disposta a assimilar as regras da casa, também eu me levantei, seguindo-os para onde quer que fossem. Desceram então à cave, que eu desconhecia. Despercebidamente, acerquei-me do Dinis que, olhando em frente, respondeu rápido e conciso “Café, baile”. Finalmente alguma diversão, pensei. Mas pensei mal. Ali em baixo, as mesas estavam dispostas de modo a libertarem um recinto de dança. Sentei-me junto de um casal que, percebi posteriormente, eram de facto um casal. Beatriz e Vicente. Ele, altivo, arrogante e prepotente, tratando, perante os outros, a mulher pior que a um cão. E que, por coincidência, verifiquei serem meus vizinhos de quarto. Bebeu-se o café, mas, música, era coisa que não existia. Ouviam-se apenas sussurros, como se num funeral. Eis senão quando Vicente se levanta, Beatriz atrás dele e, na pista, encetam uma dança solitária. Aquilo era ridículo. Uma dança feita de passos medidos ao som do silêncio. Onde estava eu? Seria toda aquela gente um singular grupo de doidos? Nesse caso, que fazia eu ali? Então, quando se sentaram, não resisti.
— Desculpe, como conseguem dançar sem música?
Beatriz – naquele momento ainda não sabia os seus nomes – abriu muito os olhos e olhou o marido. Este, com a sua pose autoritária, respondeu:
— A senhora deve estar muito mal. Muito mal, mesmo. Não ouviu a música?
— Calma, Vicente. Tem calma – disse a mulher, dando-lhe uma palmadinha na mão – Eu explico à senhora. E, virando-se para mim: a senhora deve estar aqui para um tratamento intensivo, certamente. A música está na cabeça do meu marido. Todos a ouvimos quando ele assim o pretende. Depois, basta seguir o ritmo com os passos adequados.
Fiquei sem palavras, totalmente bloqueada por instantes. Quando consegui raciocinar disse à mulher não estar ainda adaptada a nada, visto ter chegado nesse dia. E reparei, ao dizê-lo, que o homem, indiferente ao que pensasse a esposa, não parava de, com alguma sobranceria, me percorrer com os olhos o corpo. Interiormente, sorri. Ele que guardasse a sua música inaudível. Eu faria dele gato-sapato.
Contei já o modo como tratava a mulher, o modo superior com que a todos olhava e falava. Mantenho o que disse. Era assim em público, de facto. Mas nada disso na intimidade. Logo nessa primeira noite, mercê das janelas abertas e de um colar de ouvidos à parede comum, verifiquei que a situação ali se invertia. Era ela quem levantava a voz para ele, acusando-o por certas atitudes do dia e também de coisas antigas. E a potente voz masculina exibida sem cessar perante todos com a complacência da esposa, era ali, entre as quatro paredes do seu quarto, submissa e carregada de lamurientos pedidos de perdão. Pior que isso, ela negava-lhe, com uma constância inusitada, os prazeres do cumprimento conjugal e, que me recorde, só uma vez o autorizou a que os cumprisse. Repito o que já antes aqui escrevi: não quero tornar obscenos os meus textos, mas, em silêncio, encostada à parede, chamei-lhes porcos, depravados, ao perceber que na cama era ela o macho e ele coisa nenhuma. Enojavam-me os grunhidos, os gritos, as ordinarices. Porque uma qualidade guardo em mim. A beleza de uma mulher, a minha beleza, é a arte suprema da criação, ao contrário do sexo, o acto mais vil, desumano e asqueroso pelo qual só merece castigo quem o pratica. E eu sei castigar. Durante o dia de ontem consegui o que há muito venho tentando. Deixar cair no bolso do casaco dele um papel anónimo com um convite para ir para a cama. Se bem os conheço, será ela quem o descobrirá.
Termino, por agora, esta história. Esconderei este caderno a que brevemente voltarei. Mas concluo com duas enigmáticas situações: ontem, preocupada com o que esta situação poderá andar a fazer ao meu corpo, vi-me nua ao espelho. E os meus olhos, já de si belos e persuasivos, brilharam como estrelas ao ver que a beleza, tão minha, dificilmente deixará de o ser. Propositadamente, tinha deixado a porta semi-aberta e, pelo reflexo, vi uma mão a largar a maçaneta. Alguém me tinha estado a espreitar e vocês já sabem como isso me faz feliz.
A segunda é simples de contar. Hoje, notei que algum segredo era passado em surdina por bocas nitidamente preocupadas. Sem fazer qualquer pergunta, consegui perceber. O Dinis desapareceu. Descobriremos nós o que realmente aconteceu? Se no podemos hablar?

                                                                                           João J. A. Madeira  
  
  
     

17/11/18

Ecos de Mentes - Capítulo 0

Quadro de Marta Bessa,
espantosamente conservado numa parede luminosa da casa

«A meia-idade, que a todos traz serenidade, condescendência, conforto e o prazer duma vida estável, a mim, tirou-me tudo. Agora, que os miúdos seguiram os seus caminhos e ele outro, estou para aqui sem serventia nem destino, remoendo, remoendo, sem fim à vista, sem motivos e sem amigos. Não tens amigos porque não queres! Não quero? Não quero? Onde estão eles, onde? Há dias passei em revista a minha agenda de contactos, aquela, a última antes dos telemóveis e das memórias digitais. O que vi? Mortos. Mortos e algarismos a menos. A mania de ter amigos mais velhos foi no que deu. Daquelas dezenas ou mais de contactos, a maioria profissionais bem sei, não há nenhum que atenda o telefone? Nem um? Pode lá ser… Eu não disse que tinha tentado. Fiquei a ver, só. Mas há muitos defuntos, isso te garanto. E depois o que é que lhes ia dizer; olhe, sou a Laura, lembra-se? A Laura, aquela que. Para ouvir do outro lado, quêêmm??, como fazem as pessoas quando não se querem lembrar de alguém. Podia tentar, sim, podia, mas quem se lembrará de mim, desaparecida de cena vai para uma dúzia de anos e sem manter contactos com ninguém? Nos primeiros anos, telefonava pelos aniversários, presenteando com um abraço ou um beijinho os felizardos, ‘obrigado por se ter lembrado, sempre simpática’, um abraço, um beijinho, e nenhum apareça! Há quanto tempo não nos vemos! Que tal um cafezinho?, vá lá… Nenhum! Também nunca te disponibilizaste para uma visita surpresa, qualquer coisa como, um dia destes apareço. E depois, aparecias. Aparecia como? Sem ser convidada? Era o que faltava. Depois da minha iniciativa? Parece que não sabes. Na altura bem sabia o fastio com que era recebida, as hesitações na voz. Parece que tinham medo que lhe fosse pedir alguma coisinha. Aparecias… Aos que não sabia a feliz data, enviava mensagens de Natal, era aquela quadra do coração, da amizade, da fraternidade. Enviava, e ficava ansiosamente à espera do agradece e retribui. Alguns davam-se ao trabalho de enviar aquela mensagem automática que, vê-se logo, não é personalizada, é para todos e para nenhum, mas a maioria nem isso. Um dia, deu-me para fazer uma estatística, vê bem ao que se chega, meter pessoas em números. E cheguei à esperada conclusão que a percentagem dos que retribuíam ia diminuindo a cada ano que passava. Um ano, não enviei jingle bells a ninguém. E não fiquei à espera de nada. E o nada chegou. Foi o último Natal e nunca mais telefonei a ninguém.
Estaca zero.
Talvez me ponha para aí a escrever. Mas sobre o quê? O que era interessante já foi escrito, quantas vezes com um brilho que me é inacessível. Cheguei tarde. Por vezes tento. Paro. Corrijo. Recomeço. E depois, ainda bem que deito fora. Estava uma merda, daria chacota, lá está esta armada em. Mas ficas com pena, diz lá, sim ou não? Às vezes. E depois, vem a inquietação. Talvez fosse uma saída, conhecer gente, trocar opiniões, partilhar textos, não sei. Quem sabe? A indecisão é o maior dos tormentos. Quando leio boa prosa esmoreço, jamais serei capaz, isto é para gente de outros talentos, outras vezes, é tão mau que me sinto tentado. Depois paro. Que dirão? E isso importa? Claro que importa! E se escrevesses só para ti, para aliviar tensões, para te despires dos tormentos? Escrever, só. E guardar, para mais tarde ler, ver os erros; não os léxicos nem os gramáticos, os teus erros de leitura do momento, lidos só por ti em construtiva introspecção. E mantinha-me neste tormentoso isolamento indefinidamente, lendo-me a mim própria num interminável pleonasmo? Não tenho com quem falar, já te deste conta?! E contigo estou farta, raramente me dás novidades ou me esclareces. Muito menos me dás ouvidos. Quantas pessoas saberão o meu nome, além dos vendedores de pacotes exclusivos de gigabaites e plafonds, dos promotores de purificadores de água de atarraxar à torneira, do assíduo carteiro e da instrutora de ioga? ‘Ó dona Laurinha, então não levanta mais a perninha?’. Olha e se te fosses. E o Facebook?... e se abrisses conta no Facebook? Toda a gente tem. Encontram-se amigos idos, fazem-se conhecidos chegados, lêem-se notícias, vêem-se filmes catitas, até tem uma horta virtual vê bem… Podes pôr likes mostrando-te interessada, comentar, enfim, sem te meter na vida alheia – parece que não há vida alheia no Facebook. Conhecer pessoas confortavelmente! Para gente na nossa idade tem sido um sucesso Por acaso… lá no ioga já me falaram nisso, aderir ao grupo, conversar com o grupo, trocar impressões com o grupo, fotografias com o grupo. Um grupo fechado, bem entendido, que nós andamos todas descompostas. Mas não. Não estou interessada, grupo-grupo-grupo são sempre os mesmos, é a mesma coisa que estar só. Com os mesmos. Eu preciso de arejar, conhecer gente-gente!, que não sejam os mesmos, eu preciso de viver, e viver só se consegue andando, conhecendo pessoas novas, ideias novas, discussões novas. Quem fica redundante definha, ron-ron, ron-ron, ron-ron, sempre às voltas com a mesma vida. Não! Não será só o grupo, aquilo é um mundo de gente imensa, podemos pedir amizades e. Pedir amizades. Isso é coisa que se peça?! Quem sabe se é por isso que estou aqui. Pedir amizades… Agora fizeste-me lembrar aquele vizinho lá da rua. Como é que ele se chamava?... que dizia ‘o senhor doutor fazia o favor de ser meu amigo’. Eu não quero amizades dessas! Já tive que chegue dessas comparências prestimosas. Mais um quadro pregado no teu muro das lamentações? É o que há.»
- O seu bisavô, foi um dos últimos daquela nata que se lançou ao mar e fez vida no Brasil. Deixou cá numerosa família; todos passavam fome. Más terras e maus tempos. Quando regressou, vinha rico e apegado. Foram terríveis as contendas com leiritas e courelas nas partilhas. Muitos irmãos, pouco que repartir, empréstimos para tornas. Enfim, misérias. Na freguesia, só ele tinha chapéu, dinheiro, e relógio de ouro. Dava fazenda para um romance do Camilo. Conta-se para aí uma história de crime por um caneiro de água. Mas nunca se apurou. Em suma, esquece-se facilmente de onde se saiu. Quando o conheci, era eu um rapazito e ele um homem grande e espesso, fartos bigodes, tonitruante, polegares nos sovacos, cigarrilha na comissura, grossa corrente abotoada ao colete, olhar imperativo. Todos lhe descobriam a cabeça e, consta-se, que algumas mulheres mais alguma coisa. Herdeiros de fora não há que se saibam, esteja descansada. O seu avô, um pouco mais velho do que eu, frequentava o liceu e só o via nas férias. É ao doutor Ladislau que se deve esta exigência de manter a casa. Quando me tornei advogado da família disse-me: - Onésimo! Jura-me com a palavra de honra que, se me faltarem as faculdades, arranjas maneira que esta casa vá para o meu filho. Para os outros, só o que eles querem! Mas não foi preciso. Fez-se testamento, deixou-se o dinheiro e os valores para os outros. Era muito, olhe que era muito... E a casa para o seu paizinho. Que pouco se gozou dela, coitado. Quando ele faltou, chegou aquela gente de fora, e usurparam, usaram, e romperam-na até ao fio. Diziam-se ocupas, entravam e saíam, a cada semana uma cara nova com identificação duvidosa. Embora houvesse de tudo, talvez até gente de boas famílias a julgar por algumas atitudes, mas como saber? Pareciam uma comunidade e diziam-se com direito a uma habitação digna, veja bem. Foi o cabo dos trabalhos. A demorada justiça, fez-se sentir ano-após -ano, numa interminável e desanimada espera. A impotência das minhas démarches esbarrava com a jurisprudência do requerimento, da alegação e do adiamento, da impossibilidade de notificação; levando para as calendas a justa devolução ao proprietário. Veja a menina, que chegaram a insultar-me dizendo que eram pessoas e precisavam de abrigo condigno. Tinham direito! E o tribunal, corroborava com essa afirmação nas suas pensadoras demoras. Quando consegui a ordem do tribunal, foi preciso mandar cá a guarda para muscular o despejo. Ai se ele tivesse assistido. Morria de vergonha. Depois, enfim, vocês estavam lá para África, e naquela confusão da independência nem as moradas consegui. Depois, com o segundo casamento, a sua mãezinha não se importou com a propriedade, não respondia às cartas. Que fazer? E foi assim, ficou ao abandono e o telhado não caiu porque, às minhas expensas, o conseguimos manter; assim como a propriedade mais ou menos vigiada dos amigos do alheio, que os há aqui na terra. A casa do caseiro está arrombada há anos, mas em bom estado. Aqui há tempos queriam arrendá-la, mas eu não aceitei.
E pronto menina, aqui tem as chaves. A partir deste momento, e dos meus honorários e despesas regularizadas evidentemente, há-de compreender… fico livre deste compromisso de honra e amizade assumido há quase uma vida com o seu avozinho. Ao dispor menina, foi um prazer.
«Assim, sem me deixar dar um pio de admiração, nem pedidos de esclarecimento sobre a surpresa em apreço, o senhor doutor Onésimo de Albuquerque e Severo, e Associados, Lda., deixou-me proprietária à porta da mansão que o meu bisavô mandara construir com os dinheiros da cana lá do Pará.
E agora?
Agora, há que vender a outra casa, mobília, tudo! Nada de memórias! E sair de lá, ar fresco, vida nova. Para uma terra onde não conheces ninguém? E lá, conheço? O conhecimento advém do convívio, e hoje só se convive nos relacionamentos profissionais enquanto duram, os restantes são hologramas com quem nos cruzamos, espectros adiados. Nem os vizinhos conheço; a alguns, sei-lhes os nomes e nada mais.»
- Dona Laura!…
«Esta casa não será a tábua de salvação. Será, A Libertação, O motivo, O objectivo. Um sonho? Não! Já não tenho idade para sonhos, e os que tive puf! A libertação porque ocupação, o fim dos dias de tédio sem rumo, o motivo, pela mesma razão. Sabes o que me atormenta as madrugadas? A caliginosa memória das derrotas, a consciência das falhas, a convivência com a irreversibilidade, a amarga prestação de contas, e. O não ter fim nenhum para me levantar. Um fim? Sim, um fim, um objectivo, uma obra a concluir. Foi essa paz que esta casa me trouxe quando aqui me apearam faz mais ou menos um ano. Sair todas as manhãs da horizontal para um horizonte no tempo, para uma obra a concluir. Disfrutar do frenesim do projecto, da obra em curso, dos prazos, da chegada dos materiais, da sua escolha!, das discussões com o empreiteiro, das noites mal dormidas espectando o dia seguinte, agora não de fim-de-vida, mas de fim-de-obra. E fantasiar. Fantasiar com quem poderá chegar; estender a mão para o puxador e manter a expectativa, o suspense, até ao abrir a porta. Será uma casa de hóspedes, uma residência onde chega gente, e não clientes, pessoas e não caras; isso fica para a hotelaria. A estes que chegam, quero que cheguem cá a casa e se sintam em casa, e eu com eles, como numa família. Eles hão-de chegar, sem nunca serem suficientes. Vais ver. Sabes lá a quantidade de familiares sem família escondidos nesse Mundo. São esses que me interessam, e é para esses que eu quero esta casa e nela estou a gastar tudo o que tenho, tudo o que sou, pois já não sou mais nada. Nem ninguém.»
- Dona Laura!… - Dona Laura!…
- Hã! Diga mestre Zé, diga.
- Desculpe… a senhora estava aí tão entretida a falar com Deus e consigo que eu…
- Não era com Deus, mestre Zé, não era com Deus. «Era com uma afogada». Mas diga, diga.
- É que os estucadores encontraram ali uns cadernos, não sei, eles disseram que eram sebentas, mas, sabe como é, eles não são letrados, e…
- Cadernos?!
- Sim, estão lá em cima espalhados, venha ver…
- Sim. Vamos lá!

    
                                                                                                                  José Bessa


12/10/18

Janelas de Tempo - Capítulo 14 - Final

©P. S. Fotografia


Desta vez, a chegada pareceu-lhe diferente: os cheiros, os sons, a leveza do ar, tudo lhe era familiar. Uma sensação de deja vu invadiu-lhe os sentidos, no curto tempo dos poucos segundos que se passaram entre o cessar do silvo metálico e o abrir da porta.  
Whisky saiu disparado, passando-lhe à frente e fazendo-o tropeçar. Que raio de animal, parecia que estava possuído por um qualquer demónio que por ali passara sem se deixar ver! Júlio atabalhoadamente equilibrado correu atrás do cão, que viu atirar-se nos braços de dois desconhecidos. Dois desconhecidos que pareciam esperá-lo, ou pelo menos reconhecê-lo. Só nesse momento, caiu em si. Voltava ao ponto de partida e os dois homens que afagavam Whisky eram Luís e Klaus. Precisou de mais alguns instantes para ver tudo com nitidez, mas não havia dúvidas: aquele era o armazém de onde tinha partido, há… há quanto tempo?
- Deves ter sofrido uma quebra de tensão, é natural… ao longo dos tempos, a densidade atmosférica, também ela, foi tendo oscilações.
Era Luís que se aproximava com uma mão estendida para o cumprimentar.
- Hã?! Mas do que é que ele vinha a falar? – Júlio, ainda com a cabeça à roda, interrogou-se com os botões que não sabia se trazia.
Ah, pois… as transições de época em época que vinha de vivenciar. Luís apresentava-lhe a explicação científica para a tontura que acabara de sentir. Uma recepção fria, pensou. Podia demonstrar, no mínimo, um pouco mais de afectividade, já que o tinha feito cobaia para uma experiência inédita que em muito beneficiaria os estudos científicos de Luís e Klaus. Não é que estivesse arrependido de ter entrado naquela aventura, afinal tinha-lhe permitido ver in loco, e até mesmo sentir na carne, coisas que até então só conhecia da história estudada. Muito diferente da vivida. Mas caramba, o que é que lhe custava demonstrar um pouco mais de humanismo?
Klaus vinha logo atrás, com o seu linguajar de erres carregado:
- Estamos ansiosos pelo teu relatório dos acontecimentos.
Júlio sentiu uma estranha revolta dentro de si próprio. Que se lixassem, aqueles dois. Sem qualquer explicação, saíu do armazém em direcção às ruas da cidade. Whisky correu saltitante a seu lado.
- É isso mesmo, companheiro! Eles sabem lá… as explicações ficam para depois.
Naquele tempo, que ainda não sabia dizer se tinha sido muito ou pouco, tinha percorrido o limbo das emoções de um extremo ao outro. Tinha visto o melhor e o pior da humanidade e tinha, com certeza, desconstruído muito do que até então fora na sua condição de ser supostamente inteligente. Aquilo não podia ser relatado como uma mera experiência científica.
Percorreram as ruas e travessas que os levaram até casa, num tempo que Júlio não soube contar. Aliás, contar o tempo era coisa que certamente tinha desaprendido. Entrou em casa com a sensação que tinha saído dali há poucas horas. Mas como? Se na sua lembrança tinha experiências de viagens entre tempos tão diferentes. Entre séculos. A comprová-lo ali estava o cão, que segundo se lembrava tinha encontrado lá numa Lisboa de outra época.
Correu para o frigorífico. O frigorífico podia ser uma boa prova do tempo que passara. Consoante o estado dos alimentos que ali deixara, saberia se havia passado muito ou pouco tempo. Abriu a porta, estava uma grande bagunça mas não parecia que houvesse alguma coisa em estado de putrefacção avançada. Restos de pizzas, um pacote com leite azedo, uma alface murcha e embalagens, cujas datas de validade também não o elucidavam.
Mas aquilo lembrou-o do desleixo em que vinha sobrevivendo nos últimos tempos. Na verdade, desde que perdera Laura naquele fatídico acidente e logo depois, a mãe. Que por ser mãe, talvez o tivesse conseguido agarrar antes de se precipitar na ravina da depressão psicológica que se tornou física. Lembrou-se da vontade que tinha tido de acabar com a própria vida. Ou talvez a tivesse mesmo acabado, porque aquela condição em que existia já não era vida. Lembrou-se do encontro com Luís e da fuga ao inevitável para a máquina do tempo. E no mesmo instante, dos encontros que tivera com Laura durante aquelas viagens temporais. Nunca chegaram a ver-se ou tocar-se, mas foram vários os momentos em que a sentira dentro de si.
Dava-se conta, agora, da serenidade que tais encontros lhe tinham trazido. Querida Laura, sempre tinha sido o equilíbrio para a sua imaturidade crónica. Ou talvez nem fosse imaturidade, talvez ele fosse uma daquelas almas sonhadoras que estão destinadas a não viver sem outra que as mantenha presas às coisas terrenas. Primeiro a mãe, depois Laura e mais tarde novamente a mãe, sempre haviam feito isso por si. Não admirava que tivesse ficado sem chão, quando perdeu as duas num curto intervalo de tempo.
Foi até ao quarto e abriu o guarda roupa do lado de Laura, coisa que não fazia desde a sua morte. Pegou uma écharpe colorida, que estava logo ali à frente. Provavelmente a última que usara, ainda tinha o seu cheiro. E com a peça de roupa junto ao nariz, deixou-se cair sobre a cama.
De repente, ela estava ali. Com um semblante tão colorido quanto a écharpe que usava. Peça única que lhe cobria o corpo. Aproximava-se sorrateira, enquanto ele fingia que dormia. Jogo íntimo que os dois encenavam como ritual do seu encantamento eterno e que sempre antecedia o êxtase. Era assim a paixão que sentiam e partilhavam no amor que nutriam um pelo outro. Riam às gargalhadas sem saber porquê. Mas também o que é que interessava o porquê, se no segundo seguinte estavam profundamente compenetrados nos braços um do outro, presos pelo olhar.
- Nunca mais me deixes.
- Nunca, eu nunca te deixei.
- Mas eu procurei por ti e não te encontrei. Não estavas aqui e eu fiquei sem saber o que fazer… quis ir para ao pé de ti.
- Não procuraste bem. Quando precisares, procura bem. Estarei sempre aqui… contigo!
Whisky, sentado nas patas traseiras, observava o amigo agitar-se de uma forma que nunca tinha visto. E surpreendentemente, viu-o levantar-se com todo o vigor.
- Vamos, amigão! Vamos lá fazer o relatório àqueles dois.


                                                                           Luísa Vaz Tavares    


Fim

05/10/18

Janelas de Tempo - Capítulo 13

Fotografia: Henrique António Guedes Oliveira


Sempre que Júlio navegava na “cápsula do tempo” sentia um atordoamento, cuja causa não sabia explicar, mas que o deixava enjoado e, simultaneamente, esfomeado.
Naquele momento, sentiu o estômago colado às costas, tal era a fome que sentia, apesar de ainda se recordar do manjar que lhe fora oferecido pelo ancião em Bali. Porém, todo aquele odor dos frutos existentes no mercado que atravessara, mantinha-se intacto nas suas narinas.
Não sabia onde estava, mas sentia um cheiro nauseabundo a mosto e vinho, misturado com um fedor acre, como se alguém tivesse acabado de vomitar a seu lado. Procurou o Whisky. Viu-o encolhido a seus pés. Mas não tinha sido ele.
Percorreu, como olhar, o local onde tinha vindo parar. Pareceu-lhe uma enorme adega, repleta de toneis. Estranho!
A agitação era enorme. Carroças, puxadas por bois, vinham despejar enormes cestos carregados de uvas, no que lhe pareceu ser um lagar.
Na sua consciência fez-se luz! Tinha vindo parar a uma majestosa quinta no Douro, a avaliar pelo sumptuoso palacete que vislumbrava por uma das janelas da adega. No tempo, tinha regredido cerca de dois séculos. No ano, estaria no final de setembro, época das vindimas.
Enquanto as vindimas decorriam, podiam ouvir-se cantares ao desafio, que alegravam aquele que poderia ser considerado um trabalho penoso, perigoso e cansativo, dado o posicionamento das próprias videiras em escarpas por vezes deveras acentuadas.
Os homens que se movimentavam na adega, vestidos, na sua maioria, com umas calças surradas, largas, presas com uns suspensórios, também eles desgastados, deslocavam-se agilmente, num vai e vem, entre as carroças e os lagares, onde despejavam as uvas destinadas a serem pisadas e convertidas nos famosos vinhos do Porto e do Douro.
Quando o lagar atingiu o limite certo, pensou Júlio que era um pouco leigo nesta matéria, uma dúzia deles e algumas mulheres, entraram no mesmo. Abraçaram-se e iniciaram uma dança de pés cadenciada e uniforme, enquanto entoavam canções populares em uníssono, talvez com o intuito de minimizar o esforço que tinham de despender para aquela tarefa, e que soavam até à hora em que o sol se punha.
Ouviu uma voz grossa, mesmo atrás de si:
– Que estás aqui a fazer? Não achas que há muito trabalho a fazer? Continua a trazer as uvas para dentro. Aqui não queremos molengões!
Júlio não esperou segunda ordem, morto que estava por se livrar daquele lugar, cujo cheiro se tornava, com o calor, insuportável. Podiam chamar-lhe o “Néctar de Baco”, mas a sua preparação não tinha nada de divinal.
Já fora da adega, observou melhor a maravilhosa mansão. Era majestosa e soberba.
Júlio recordava-se de ter lido, nalgum livro sobre o “Douro e a sua região” que a maioria dos solares ali existentes tinham sido construídos no Século XVIII, e aquela não era exceção; apesar do seu aspeto austero, como se de um castelo se tratasse, atraía muitas vezes os olhos dos turistas que por ali passavam, deixando-os maravilhados. Toda ela granítica, apresentava uma fachada decorada com grandes arcadas, ornadas por trepadeiras que se tornavam uma delícia para os olhos, quando florescidas.
O portão da entrada, trabalhado, mas sóbrio, era encimado por uma pedra de armas e por um pequeno nicho onde existia cravada uma imagem de Santo António. Ao lado da casa, podia ver-se uma capela, cuja bula datava de 1785 e onde até há bem pouco tempo eram celebradas missas regularmente.
Tratava-se de uma quinta tradicional de onde se pode desfrutar uma das mais belas vistas panorâmicas da região do Douro. As montanhas de xisto que se erguem do rio, as suas escarpas transformadas em socalcos e cobertas de vinha, constituem de “per si”, um dos mais belos cenários do mundo. À noite, do terraço superior da casa, onde naquelas noites quentes se procurava um pouco da frescura que as frondosas árvores que a rodeavam proporcionavam, podia observar-se, em noites de lua cheia, o brilho branco, encantador e mágico que nas águas calmas do Douro se refletia.
O acesso ao universo íntimo da casa era restrito aos familiares, com exceções para poucos amigos, o que tornava a entrada nessa área um privilégio. Aos trabalhadores restava-lhes a admiração do exterior.
Júlio saiu do seu encantamento momentâneo pela mansão, e voltou ao trabalho. Quando a sineta soou, a anunciar um pequeno repasto, deu graças a Deus. Estava exausto e esfomeado, mas ninguém lhe fizera perguntas sobre si, o que o livrara de algumas complicações.
Ao cair do dia, foi enviado, juntamente com mais três homens, encosta abaixo, em cima de uma carroça que transportava alguns barris de vinho. Para onde iriam? Começou a temer, por si e pelo Whisky, que não o largava de vista. Tinha saltado com ele para a carroça. Cada vez mais, Júlio amava e admirava aquele animal, que sabia estar silencioso quando era necessário. Bastava um sinal de olhos. Compreendia-o.
Chegaram a um pequeno cais, onde se encontrava acostado um pequeno barco. Júlio identificou-o como sendo um dos famosos barcos rabelos, que faziam o transporte de mercadorias até ao Porto, pelo rio Douro abaixo. Apesar do perigo que estas pequenas embarcações representavam, estavam isentas de portagens, o que permitia obter preços melhores pelo vinho que se escoava até à cidade do Porto, a partir da qual seguiam, maioritariamente, para Inglaterra.
O barco rabelo era, para a época, uma máquina sofisticada cuja condução exigia coragem, destreza, e um conhecimento íntimo das correntes e das rochas que se espalhavam pelo curso de um rio “de mau navegar”.
De repente, Júlio sentiu um balanço enorme. O barco partira, mas aquela noite estava particularmente ventosa. O rio agitava-se, “rugia” com as rajadas de vento que o açoitavam.
À medida que iam deslizando rio abaixo, ele começou a temer pela sua vida. Naquele momento, voltou a visualizar a imagem de Laura. Viria protegê-lo ou avisá-lo que deveria sair dali o mais rapidamente possível? Sabia que eram frequentes os naufrágios daquelas pequenas embarcações. O rio tinha muitas fragas traiçoeiras e se o rabelo embatesse numa delas, não escapariam com vida, e muito menos com o caudal veloz que o rio levava. Júlio nunca fora um bom nadador.
Mas no que estava a pensar para não ter saído da quinta, quando lhe bastava carregar no comando da “nave do tempo”, em vez de se deixar conduzir até ali? Talvez a curiosidade de conhecer melhor como eram adversas as condições de trabalho daquele tempo, já tão remoto.
Por outro lado, o Porto tinha sido sempre uma das cidades que Laura admirava. Gostavam de ir lá passar férias e, especialmente, usufruir da famosa noite de São João, tão célebre naquela cidade, cheia de luz e cor. Seria por ele se estar a dirigir para lá que Laura comunicara com ele?
A incógnita permaneceria, agora e sempre.
Júlio aconchegou-se no velho blusão que o capataz lhe dera para a viagem. Com ele abrigou ainda o Whisky, para se proteger do frio e do vento, que cada vez era mais forte.
Cansado, acabou por adormecer. Não sabia dizer por quanto tempo. O sol já começava a despontar quando despertou.
Ao olhar à sua volta, ficou apaixonado pela deslumbrante paisagem que vislumbrava. As escarpas do Douro, já todas elas cobertas do maravilhoso tom doirado de Outono, eram uma delícia para os olhos. Fosse ele pintor! Seria, certamente, aquela cena que ele reproduziria numa tela.
Não deu pela passagem das horas. Comeu o naco que pão (já duro), que o mestre lhe ofereceu, dividindo-o com o Whisky.
Já o sol se começava a por de novo e, ao longe, começou a descortinar aquilo que se aparentava com a “cidade grande”, como os marinheiros lhe chamavam e que seria, certamente, o Porto tão ansiado por todos.
Júlio pensou:
– Talvez fosse melhor eu sair daqui, enquanto é tempo. O que me esperará naquela cidade? A prisão pela clandestinidade? Nem documentos tenho!
Assim que o barco acostou, no cais de Gaia, vila para onde se destinava o vinho que levavam, Júlio ainda ajudou os companheiros a descarregar os barris. Dirigiu-se a uma tasca que por ali perto ainda estava aberta e cheia de marinheiros (a cair de bêbados), para “trincar” alguma coisa, e poder, também, lavar-se um pouco. Sentia-se nauseabundo.
Feito isso, chamou o seu fiel companheiro, que, com as suas habituais lambidelas, premiu o botão da “nave” e, depois do silvo a que já se tinha habituado, ei-lo, de novo, a caminho de um outro tempo, de um outro espaço.


          Natália Vale

28/09/18

Janelas de Tempo - Capítulo 12

Imagem\Internet

Júlio descansara um pouco. Dormira? Sonhara? Nem recordava se acontecera durante a viagem no Tempo ou ainda com a nave em repouso, mas rapidamente descobriu, pois acabara de pousar num qualquer lugar e a máquina, ou a ausência dela, emitira um silvo desusado!... Ainda um pouco tonto devido talvez, ao encontro com Laura no torpor do sonho, em que a olhara, linda, sorridente tal como quando viviam a sua felicidade conjunta, e esta lhe dissera num sussurro, que lhe havia preparado uma surpresa... o silvo da cápsula providenciara o afastamento da imagem da sua amada companheira.
Abriu a porta ou esta abriu-se. Por um forte odor a ervas lavadas e o alagamento do terreno avermelhado em que se encontrava, percebera que acabara de acontecer uma forte chuvada. Folhagem variada, árvores desconhecidas embelezavam o quadro agora descoberto. Esta vegetação rica em variadíssimos tons de verde era densamente cerrada. Ouviam-se águas correntes por todo aquele denso e exuberante mato. Piares, chilreios, de aves que, por vezes sobrevoavam este paraíso, livres e coloridas. Aqui e além, frutos polposos e intensamente perfumados, que no seu mundo habitual desconhecia. Acabou parado numa clareira, onde a luz do sol penetrava agora intensamente. Uma cachoeira ouvia-se com alguma intensidade, talvez pelo acréscimo de fluxo acabado de receber... Afastando alguma vegetação rasteira que lhe tolhia a passagem, com braços e mãos, Júlio avistou por fim um casario a curta distância de si. Para lá se dirigiu, curioso. À sua frente, agora, um mercado pejado de vida, ostentava um variado colorido de frutas/legumes. Também pequenos lugares de comes e bebes, de oferta vária. Sentou-se a descansar do calor intenso que se começava a sentir, numa zona central do mercado, onde além de alguma população local, se encontravam, também, militares oriundos de países europeus colonizadores, que se evidenciavam pelas fardas. Os produtos em exposição para venda, eram todos da agricultura local e peças elaboradas, de arte cerâmica, também.
Após beber um chá fresco e perfumado aceitara com agrado um repasto oferecido por um ancião local, pelos vistos dono do local, que percebera nele um forasteiro simpático, algo diferente dos demais, e a quem Júlio agradecera a benesse. O menu era composto de legumes que libertavam odores inebriantes, convidativos, cozinhados com especiarias e arroz. Pela conversa desenrolada pelos militares ali presentes, Júlio percebeu estar em Bali, na Indonésia. O calendário manuscrito, pendurado ao balcão da entrada, marcava o ano de 1898. Júlio olhou para baixo onde sentira um roçar e percebera a companhia de Whisky, que acabara de se aninhar, vindo sabe-se lá de onde, deixando-o mais sossegado. Terminada a pequena e satisfatória refeição, Júlio ergueu-se despedindo-se do seu anfitrião com o simpático agradecimento da terra (que fora ouvindo repetidamente por ali) - "terapia kasih". Toda aquela gente raiava em cores alegres, fortes, vestindo saris (mulheres) e saias lisas por cima de tangas (homens), cruzando-se numa azáfama geral de compra e vende...
Júlio percebera finalmente o "recado" da sua doce Laura, no sonho que ainda há pouco tivera. Era um segredo de ambos, a paixão que Laura nutria por danças exóticas, especificamente as desta zona do globo. Exibia-as, em privado, para encantar e seduzir aquele que se admirava com a leveza dos seus movimentos ondulantes. Ah, fora este o recado de Laura!... Ainda tinha guardado no seu quarto um sari oferecido a Laura e que dera origem ao seu dançar após a curiosidade desta em ver filmes e documentários sobre o assunto… fora deste modo que se interessara pela vida de Matta Hari, famosa bailarina de origem holandesa, que habitara nestas paragens e se tornou uma apaixonada deste exotismo, desempenhando com arte, elegância e sucesso esta forma de bailado.
Talvez esse protagonismo tenha ferido susceptibilidades nuns e gerado inveja noutros, elites europeias, de mente estática, que só sossegaram quando a souberam sentenciada e morta como espia, na 2ª guerra mundial. Quanto a Laura poderia não ser a melhor dançarina, mas que era linda, bailando, era! Com este esvoaçar de recordações, Júlio deu por ele a sorrir feliz e agradecido...
Volteou mais uma vez pelo mercado, ainda inundado de gentes várias. O sol aquecera fortemente o ambiente que fervilhava. Logo depois seguiu uma multidão que se dirigia para o centro cultural Ubud, em Bali, onde no teatro a céu aberto se iriam executar as famosas danças tradicionais. Jovens malaias javanesas com sorrisos enigmáticos e colocadas em posições estudadas davam início ao bailado, acompanhadas por homens que, sentados em círculo, emitiam sons com as bocas. Música e rodopiares cresciam acompanhados pelos sons de pulseiras que buliam com os movimentos dos braços, também mãos, pernas, olhos... enfim todo o corpo ondulava nas dançarinas, numa enorme leveza e harmonia! O baile terminaria com todas as executantes de costas para o público e uma delas, em posição central deixava escorregar o seu sari, exibindo um corpo perfeito. Céus! Seria ela a própria Matta Hari? Pensava Júlio muito feliz mas já com uma névoa de saudade...ah Laura, Laura!
Ordeiramente, acompanhado de Whisky que o aguardava pacientemente á entrada, Júlio afastou-se do recinto, rumando em direcção ao vale densamente arborizado, onde o chão já secara, aquecera. Olhou o céu visivelmente pintado de vermelho alaranjado, acompanhando a enorme bola de fogo que, rápidamente se deslocava para o horizonte. Pensou mais uma vez em Laura que o deixara de coração amaciado. Olhou o seu companheiro de andanças a seu lado. Moveu a língua á volta do dente. Logo Whisky erguera a pata accionando o botão. Rápidamente, quase tanto quanto o sol se escondia no horizonte, a cápsula emitiu um silvo, e emaranhou-se no espaço, rumo, talvez, a um outro século, a uma outra odisseia!


                                                                                       Fernanda Simões


21/09/18

Janelas de Tempo - Capítulo 11

Imagem\Internet
- Mãe, mãe, não me sinto nada bem. – Murmurava Júlio. - Mãe, onde estás tu? – Continuava, enquanto sentia todo o seu corpo embalado por uma força estranha. Parecia que todas as suas entranhas estavam a ser remexidas e era como se tivesse o estômago no lugar do cérebro. Mas que raio estava a acontecer? Só queria a sua mãe. E aquele vento, que trazia uma mistura de cheiros entre maresia, suor, cordames e putrefacção.
- “Hey you! Wake up!” – Ouve, num inglês que parecia saído dos filmes do tempo da Rainha Vitória. De repente, um pontapé nas costas acorda-o do torpor em que estava, sabia lá ele há quanto tempo. Abre os olhos e vê um homem com umas barbas desgrenhadas e meio desdentado, com uns olhos muito arregalados a olhar para ele. Ao seu lado, um mulato muito espantado, olhava também para ele, com um ar surpreso.
- Onde é que estou? – Balbuciou Júlio a muito custo, enquanto um novo solavanco o fez agarrar a barriga, e sem conseguir conter mais, vomitou um líquido esverdeado e ácido aos pés daqueles dois homens. Que enjoo tão grande e ao mesmo tempo uma fome estranha! Bom, realmente já nem se lembrava a última vez que tinha comido.
- “What? What he said?” – Diz o homem andrajoso.
O mulato esboçando um sorriso de alegria, baixa-se e tenta ajudar Júlio.
 – Oh que bom, fala Português! – Num tom açucarado, denotando a sua proveniência do Brasil.
De repente alguém grita lá ao fundo e o desgrenhado responde num grunhido.
– “Yeah, I’ll go in a minute.”
Olha novamente para Júlio e para o mulato que o tenta ajudar a levantar-se e encolhe os ombros, como querendo dizer eles que se entendam.
- Você está bem? – Pergunta o moço a Júlio.
- Sinto-me muito enjoado. Onde é que estou?
- É natural, estamos em alto mar e a corrente hoje está muito forte.
- Alto mar? – Oh meu Deus, ele que tinha tido sempre medo de andar de barco e que enjoava mesmo na travessia de um cacilheiro para a outra margem.
- Sim. Estamos a caminho de umas ilhas quaisquer. Quem é você? E como apareceu aqui no barco? Anda fugido? – Questionou o rapaz.
Fugido? Pois se calhar era um bom termo. Afinal o que é que ele andava a fazer de tempo em tempo? A fugir do seu próprio tempo. Aquele tempo interior que lhe provocava insónias e dores no peito e um vazio maior que o da sua barriga naquele momento.
- Não me lembro como vim aqui parar – optou por responder Júlio. Mas afinal em que ano estamos? E em que barco estamos? – Questionou Júlio, a custo ainda.
- Eu também ando fugido. - Disse o rapaz, sem responder logo às questões de Júlio. - Fugi dos meus senhores, quando o Beagle atracou na Bahia. Já não aguentava mais as chicotadas do capataz. - E nesse instante, a sua face ficou vermelha de um ódio que Júlio percebeu vir de dentro, de algo muito profundo.
- Beagle… esse nome não me é estranho. Já ouvi esse nome. – Diz confuso Júlio.
- É natural. Deve-o ter visto atracado antes de entrar aqui.
Mas Júlio sabia que não podia ser esse o motivo pois tinha aterrado naquele barco vindo directamente doutro tempo. Beagle…
- Quem é o comandante deste navio? – Pergunta.
- Não sei o nome dele porque não percebo a língua deles. Faço apenas o que me mandam, pelos gestos que fazem. – Disse o rapaz. - Mas a pessoa mais importante do barco é aquele senhorzinho ali ao fundo – apontando para um homem, bem-posto, que escrevia algo com muito entusiasmo num caderno.
A muito custo, Júlio olhou em frente e reconheceu uma imagem que já tinha visto num documentário da National Geographic. Aquele não era nem mais nem menos que Charles Darwin, o famoso naturalista, pai da teoria da evolução. Isso significava que tinha ido parar algures em 1800s.
- Em que ano estamos? – Perguntou Júlio.
- Ué, eu é que sei! Só sei quando o Sol se põe, e quando a Lua fica cheia. Não sei nada dessas coisas do senhor-branco. Como o senhorzinho se chama? – Perguntou ele. - O meu nome é Manuel. A minha mãe deu-me o nome do patrãozinho, que é o meu pai, embora sempre me tratou com panca da. Daí eu ter fugido quando este navio parou na Bahia. Escondi-me e só apareci quando vi que estávamos no mar. E tem sido uma vida bem melhor. O senhorzinho Charles embora eu não perceba o que ele diz, é bom para mim. Tenho ajudado a carregar caixotes em cada terra que paramos. Eles andam a trazer coisas e bichos do mato. Não sei para quê mas o senhor Charles passa todo o tempo que está no navio a ver nos caixotes a bichagem e também muita planta.
Nesse momento, e antes que Júlio pudesse responder, o navio Beagle levou mais um solavanco provocado por onda mais intempestiva e tornou a ver tudo a andar à roda.
Manuel segurou-o e amparou-o até a uns caixotes pousados no convés. De repente, Júlio lembrou-se de Whisky. Onde estaria o seu fiel amigo?
- Manuel, viste um cão aqui no navio? – Perguntou ansioso Júlio.
- Cão? Não! Um cão aqui no navio nunca vi. Vi muito bicho estranho mas cão nunca.
- “Manuel, come here!” – Gritou Darwin, lá do fundo.
- Tenho de ir ajudar o senhor Charles, deve querer ver mais algum bicho. Volto já. Não se mexa que o senhor está branco que nem parede de casa.
Júlio sentou-se mais direito encostado a um barril. Sentia ainda o corpo todo virado do avesso e suores frios, cada vez que o navio avançava mais mar adentro.
E agora, o que fazer? Estava preocupado com Whisky. Tinha-se habituado à presença daquele ser tão meigo e que era uma companhia tão fiel. Pensou em chamar a máquina, mas hesitou. Estava num dos navios mais importantes da História. Se continuasse ali podia viajar meio mundo e conhecer terras fantásticas, para além da sua imaginação. Talvez encontrasse um canto numa ilha deserta onde pudesse passar o resto dos seus dias, sem precisar de andar a saltitar mais. Mas e Whisky? Não, tinha de o ir procurar. Não podia ficar ali sem ele, e desejou ardentemente que, fosse lá o tempo onde fosse parar, desta vez os seus pés pisassem terra firme e sentisse de novo a lambidela no nariz do seu amigo.
O desejo foi tão forte que o chip se activou repentinamente e Júlio viu-se novamente dentro da máquina.
Manuel, quando voltou, ficou sem perceber o que tinha acontecido. Aquele homem estranho mas simpático foi-se, tal como veio, dissolvido na espuma do mar.


                                                                                      Carolina Lemos