15/01/20

Variações em Quadrilha - Capítulo 12 - Final


Imagem encomenda na Internet sem referência ao autor 

Calem todas as palavras para lá das que aqui deixo; cerrem-se todas as pálpebras para que não seja visto mais que as imagens que vos darei; e não se cocem ou arrastem traseiros nos assentos da impaciência se nada entenderem do que lêem. Que não restem dúvidas: para vós, o meu nome é J. Pinto Fernandes, ainda que essa designação não me pertença.
Assumi-o por ordens do meu Pai, a quem nada se nega pelo feitio bondoso mas simultaneamente irascível quando contrariado. Tenham calma, não o incriminem já. Ficou assim desde que em apenas sete dias fez isto tudo e descobriu, tardiamente, que “depressa e bem, não há quem”.
Subitamente, viu-se sozinho no espaço, sentado numa estrela qualquer e afrontado por uma terrível depressão difícil de diagnosticar, por se ter esquecido de criar os psicólogos, e só hoje identificável como a síndrome SNPF-DTMF (sem nada para fazer depois, de tudo mal feito). O que criara não funcionava. Macacos e javalis morriam afogados por falta de informação sobre o espaço a ocupar; tainhas e robalos penduravam-se em lianas, qual Tarzan muito antes do cinema; muitas plantas eram carnívoras e provocavam conflitos de interesses com animais que questionavam a razão da sua existência; e até as pulgas e os piolhos saltitavam de corpo em corpo na vã tentativa de não serem chatos. Repito: não incriminem já o meu Pai. Tentou tudo. De algumas plantas fez chás e ia morrendo por isso; ensinou caminhos marítimos e terrestres e roubou o ar aos grupos que se baralhassem; tirou cornos a uns e pôs cornos a outros e deu asas a alguns até, finalmente, se rir ao descobrir que a utilidade do que voava era a de borrar os de baixo (prenúncio, afinal, de outras espécies que só mais tarde apareceriam). A uns quantos, puf!, eliminou-os, quando descobriu que ocupavam áreas de latifúndio e espezinhavam o jardim que tão ciosamente criara.
Mais tarde, muito mais tarde, viria a fase VACI-qNSAN (vamos acabar com isto, que não se aproveita nada). Uma fase negativista em que decidiu meter água em todo o lado salvando somente umas espécies que, metidas numa barcaça, apertadinhas, quentinhas, o coração a latejar, tudo a latejar, se foram atracando umas às outras muito antes de o barco atracar a rebentar de enjoos por causa da frase bíblica CeM (crescei e multiplicai-vos). Quase desistiu. Quem o mandara criar uma bola que era afinal uma mola, saltitante e de efeitos imprevisíveis? Por que se armara ele aos cucos – consultou a lista e viu que sim, que o cuco já estava inventado – e fizera tudo sozinho? E foi então, nesse instante, que descobriu como numa resposta divina, apesar de nada haver mais divino que ele, que não estava só.
Vindo de uma nuvem cimeira, um jacto de água tingiu-lhe de amarelo o cabelo e as barbas brancas. Humedeceu os dedos, cheirou, e pasmou-se porque já inventara a chuva, mas só dele para baixo. E ouviu uma voz: “desculpe, pensei que não havia ninguém”. Olhou e viu um homem empunhando um tridente. Enfureceu-se. “E não era suposto haver ninguém, mas aí em cima. Eu não te criei, porque nada criei acima de mim. Quem és tu?”. “Eu sou Neptuno, o Deus dos Oceanos”, disse o sujeito. “Ah”, exclamou o meu Pai, “Então, por isso verteste água?”. O outro corou e, numa tentativa de mudar de assunto, perguntou-lhe quem era ele, ao que o meu Pai, apontando para a bola, disse ser o dono disto tudo, que sem ele nada seria possível. “Engraçado. Nós dizemos o mesmo. E só não registámos a patente porque não inventámos os notários. Mas anda daí que eu apresento-te aos outros deuses. Somos uma catrefada deles”. Sem dizer nada, o meu Pai começou a achar que eram deuses a mais. Falando com os seus botões, que ainda não usava, intuiu que tantas divindades, mais tarde ou mais cedo, dariam asneira.
Foi apresentado a um tal Júpiter – se nome, apelido ou alcunha, não sabia – fisicamente parecido com ele, mas a dar-se ares de uma importância que não tinha por não ser mais que um pau-mandado da mulher, Juno, que – soube-o mais tarde – Deusa do Ciúme, sobre ele exercia coacção psicológica não punível por lei por ainda não haver legisladores. Ao fulano repetiu ele, com uma paciência de Job ainda não bíblico, o que já havia explicado ao pescador arpoado: que havia feito isto tudo. Mas que, acrescentou, começava a ter a ligeira sensação de ter feito merda. “Só pode”, respondeu o outro, “Não vias logo que isto era muita areia para a camioneta de um gajo só?”. E desenvolveu. Eles tinham sido mais espertos – cagança e caldos de galinha, cada um toma a que quer, pensou o meu pai – e tinham criado directores direccionados às necessidades de cada utente. Por exemplo, Ceres para a agricultura, Neptuno para os mares, Éolo para os ventos, Vénus para o amor, Eros para o triqui-triqui e até Hades para cuidar dos mortos. “E há-des reconhecer”, continuou, “que, deste modo, a coisa se torna muito mais eficaz. Ainda que, por vezes e mesmo assim, nos deparemos com alguns percalços. Como daquela vez em que o filho do Apolo, o nosso cuidador do Sol, roubou ao pai o carro que todos os dias nascia a Nascente e se punha a Poente e o deixou cair em África. Uma chatice, tudo chamuscado. Obviamente o transformámos, ao filho, em pedra, por castigo. O que, aliás, também fizemos com o Narciso, o angariador de beleza. Um dia, o parvalhão viu a sua imagem reflectida num lago e apaixonou-se por si próprio. Não fui de modas e, zuca!, transformei-o em pedra também”. “Mas por que raio transformam todos em pedra?”, perguntou o meu Pai. “Oh, dá bem menos trabalho que esculpi-la. Depois, temos também a Medusa, a tipa com cabeças a dar-com-um-pau que Perseu pensou ter derrotado, mas que, talvez por ser um semi-deus, não conseguiu. Senão, veja-se a quantidade de cabeças que ainda hoje cortamos e parecem renascer como cogumelos”. “Por isso”, rematou, “deixa-te lá de infantilidades endeusadas e faz como nós: arranja um cooperante e verás que a tua obra te correrá tão bem como aos deuses do Olimpo, antes de sermos esquecidos. O que a ti acontecerá também, inevitavelmente.”
Conheço bem o meu Pai. Como sempre, deve ter-se mostrado senhor do seu nariz e sem dar ouvidos a ninguém. Terá deixado passar o tempo e, de repente, dar mostras de ter tido uma ideia sem que ela fosse dele. E por isso me criou. Aparentemente do nada, porque nem muleta feminina lhe conheci. Se bem que… se bem que, já depois de eu ter sido criado, desaparecesse noites a fio sem que alguém soubesse dele. Mas, talvez por decoro, nenhuma das escrituras fala disso.
Então nasci. Numa noite qual arraial parolo em que as estrelas se fizeram cadentes e me trouxeram camelos e incenso, ao qual, por sinal, até sou alérgico. Ele, paciente como sempre, deixou-me crescer como se faz à criação para a engorda. O meu nome começou a ser bafejado como já o havia sido por um burro e uma vaca; e daí a pintarem-me a figura por me ir tornando famoso foi um passo. Um passo aldrabado, convenhamos. Nascer onde nasci, com o sol a pique, poucos lagos e sem ar condicionado, natural seria que a minha pele fosse tisnada e curtida como as minhas sandálias que resvalavam – estranhamente, porque a China ainda não existia – em cada pedrita que encontravam. Em lugar disso, pintaram-me com a pele branquinha, olhos azuis e cabelos e barba loura em vez da correcta, hirsuta e pintelhosa, como teria. Quadros há, ainda hoje, em que o coração me salta das costelas como se eu fosse uma aula de anatomia ambulante. E fiz umas coisas, sim. Disse umas palavras que ninguém entendeu, chamei a mim criancinhas que hoje me custariam a reputação e transformei a água em vinho. Erro meu, porque depois quem lhes  aturou as bebedeiras fui eu. Só por elas, as pielas, se explica que na hora da minha morte tenham indultado Barrabás, um bandido da pior espécie, sacaninha até mais não, em lugar de me libertarem a mim (seria um sinal dos tempos vindouros?). E morri. Do jeito que todos sabem, mas morri.
Pensava eu. Porque alguns séculos depois, o meu Pai chamou-me e mostrou-me alguns “grafitti’s” de parede onde se dizia que eu voltaria para ressuscitar os mortos, coisa que achei sinistra e pouco higiénica. “Vês?”, disse ele, “O teu nome nunca mais deixou de ser falado”. “Coisa pouca”, pensei eu, “afinal todos os nomes constam da lista telefónica e só se encontram os que se procuram”, mas, submisso, calei-me. “Tens de voltar”, disse ele. Aí, não me contive. Barafustei, esbracejei, mordi-me e disse-lhe que nem pensasse numa coisa dessas. Levar outra vez com pregos do tamanho do melão de um político não eleito? Nem pensar! Aquela merda, nas mãos e nos pés enquanto suportava o hálito desdentado do pregador, dói como o caraças e não há espírito que tranquilize a dor. “Isso foi porque na altura ainda estava a aprender a fazer cola ou fitas de velcro. Agora, tudo será diferente. Irás como um pobre diabo (e fez o sinal da cruz), daqueles com os quais todos são solidários até que morram. Tudo correrá bem, verás. Assim seja feita a minha vontade”.
Comecei por essa altura a ficar farto das vontades do meu pai. Vim como um pobre e como um pobre fui tratado. Ou seja: deixavam-me abandonado pelas ruas e quando me aparecia alguém vinha rodeado de repórteres, falavam coisas mais estranhas que aquelas que eu dissera da primeira vez e entregavam-me comida para um dia. Que se estragava ao fim de dois, sem que de novo me aparecessem. Morri de fome, roto e a cheirar mal, dessa vez. E quando, ao terceiro dia, ressuscitei, cobriram as narinas e gritaram “Vade retro, Satanás”, sem que forças tivesse para me benzer.
Voltei derrotado, mas o meu Pai não desistiu. Socorreu-se da minha magia dos pães e do vinho e do caminhar sobre as águas e disse-me que teria de voltar nessa vertente. Uma vez mais, não a última, cedi. A magia era em mim um dom deficientemente aproveitado. E vi-me, na idade própria, em cima de um palco, cartola numa mão e varinha de pau feito na outra. Agora, reparem: chapéu de coco numa mão e um pau na outra. Algum de vós conseguiria tirar do chapéu um coelho? Assim? Do nada? Tenho a certeza que não. Pois eu consegui. Do vazio da cartola saquei pelas orelhas um láparo envergonhado que me urinou os sapatos. Esperava uma ovação, um “Ah!” geral de bocas esgargaladas para, depois, conquistado o público, encetar a minha doutrina. Qual quê! As gentes enraivecidas chamaram-me aldrabão, flibusteiro, vigarista, mandaram-me voltar para a minha mãe e atiraram-me ovos, pastilhas elásticas há muito coladas às cadeiras e uma vez mais me abandonaram.
Regressei decidido a nunca mais ceder às ideias do meu Pai. Mas talvez inseguro pela idade com que sempre morri, submeti-me ainda à sua última exigência que, com falinhas mansas, como sempre as têm os espíritos ditadores, me sugeriu que, durante um século, ouvisse música e lesse revistas cor-de-rosa, alguns livros, e me quedasse embevecido perante certos programas de televisão. Durante cem anos, nada me disse. Mas quando o prazo acabou, perguntou-me de rompante: “que palavra te sugere o que viste e ouviste durante este tempo?”. Mais maduro, não respondi de imediato. Mas pelos meus olhos e ouvidos correram músicas do Toni Carreira, do Andy Williams, do Roberto Carlos; folhetins das vidas dos filhos, netos e noras da realeza britânica e da mãe e dos filhos do Ronaldo quase nascidos sabe-se lá como, como eu; romances de Corin Tellado e Max du Veuzit; os ciúmes, os namoros, as agressões e até a cor dos vestidos usados no dia em que por paixão, sempre por paixão, as vítimas eram desprovidas do seu amor-próprio e tudo perdoavam até ao ponto de já nada poderem perdoar. Visto à distância, este era um mundo onde só uma palavra tinha cabimento: amor! Amor entre os homens, amor para com os animais, pela Natureza, pelas crianças pobres e ricas de desejos e pelos pobres ricos tão sem riqueza de poder desejar como os pobres. Solidariedade, amizade, companheirismo eram o nome do meio deste mundo sem nome nas pontas. Amor! Que outra palavra poderia eu escolher como resposta ao que me perguntara?
E os olhos sorriram-lhe sob a alvura das espessas sobrancelhas, as pontas dos lábios ergueram-se por baixo do bigode branco e até eu me arrepiei pela candura da missão que me destinava.
Quanto engano, quanto embuste, quanta manha e fingimento, afinal. Todos se amam e todos se invejam e pela cobiça se matam. Querer amar é querer ter e quando se tem adquire-se novo amor no desejo até que se possua, num imparável círculo. Pela posse se agride, se destrói, se mente, se aniquila. Buscam-se troféus individuais em nome de um colectivo que será desfeito pela força de um só, o mesmo que sobre as outras cabeças trepou, venerado, amado, também repudiado mas em silêncio, porque, no fim dos tempos, as paredes estão realmente a adquirir o dom de ouvir. Este é, até para os semi-deuses como eu, o planeta do amor quando visto do céu; mas o da mentira e do medo, quando descido à terra pela vontade do meu Pai.
Dirão tratar-se da minha visão global de um todo humano, Obra Primeira, e por isso frágil, de um Ser ao qual não se conheceu outra. E que, sobre os erros dela, ao sétimo dia descansou. Amar, verdadeiramente, é pessoal e intransmissível, de alguém para alguém. As multidões destilam ódio, só o indivíduo partilha o coração. Será?
João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que era amada por Alberto que também amava Elvira que amava Leonor que amava Pedro que amava Amélia que também amava Lili que não amava ninguém. Uma enredada teia que nem o meu Pai alguma vez conseguirá desfazer. Porque, pessoa a pessoa, são tão conturbadas as relações como as milhentas células que entre dois corpos se cruzam. Ao contrário da lâmpada de Aladim, tudo o que se toca foge. Como jangada perdida no mar, busca-se a salvação em quem não se conhece porque só em quem não se conhece pode existir um Génio. Até que se absorve e deixa de o ser, fazendo com que tudo volte ao princípio.
 Como é o meu caso. J. Pinto Fernandes, de meu transitório nome. Que não fiz parte da história e por ela escrevo. Vou partir, talvez fugir, para os braços do meu Pai. A questão é encontrá-lo. Com a mania das invenções, não parou de criar estrelas onde, numa delas, estará sentado à direita de qualquer coisa. Mas, nesta abundância estrelar, não sei onde o encontrarei, o que me preocupa. Está velho e, de cem em cem anos, tenho de lhe dar a medicação.
Receio bem que tudo isto piore, se acaso o não descobrir.    


                                                                           João J. A. Madeira

16/11/19

Variações em Quadrilha - Capítulo 11

@Helmut Newton 

Amélia



Introdução

Ah como era belo o mar que sempre a chamava, as ondas profundas, a impoluta areia branca antes de ser tocada! Todas as manhãs a desvirginava com as mãos afundadas nos pequenos grãos, enquanto sorvia em golfadas os eflúvios da maré. Todos os dias deixava na praia um pouco dela, quem sabe para exorcizar todos os sentimentos que sempre a devastavam.
Amélia nascera na capital, mas de certo modo nunca fora verdadeiramente citadina. Fizera o liceu com boas notas e até chegara a metade de um curso de Letras mas sempre se sentira uma solitária.
Precisava de afundar os olhos na natureza para se sentir inteira, viva e capaz de todas as façanhas. Vivia na cidade como uma prisioneira, encerrada entre prédios e forçada a conviver com quem nada lhe dizia.
Um dia decidira conhecer uma pequena vila costeira e apaixonara-se completamente. Adorava o sotaque cerrado das gentes da terra, o bulício da chegada dos barcos de pesca, os sons do mar a quebrar na areia, os passeios matinais mal o dia despontava. A cidade ficava lá atrás cheia de tudo aquilo que mais detestava e lhe pesava nos ombros.

A cidade

Tinha-lhe dado e tirado tanto essa cidade! Fora lá que conhecera Pedro. Ainda hoje não sabia se era uma boa ou má recordação. Ele nunca percebera quão errado era o que nutria por ela. E ela fora tonta, verdade se diga, quando não lhe travara logo de início aqueles sentimentos. Mas Pedro era um companheiro interessante, um conversador que também sabia guardar silêncios, também ele um amante de música e da natureza. Conhecera-o através de uns amigos que fizera quando estudara na faculdade e descobrira com ele algumas paixões comuns. Sentia que tinha um amigo para a vida, alguém que compreendia as suas idiossincrasias. Infelizmente nunca se apercebera, ou não o tinha querido fazer, de que Pedro sentia por ela mais do que uma calorosa amizade. Até ao malfadado dia em que tudo acontecera.
Ainda hoje se lembrava do choque sentido, não tanto por si, mas pelo amigo que defraudara.
Como eram maravilhosos os dias que passavam a tentar pilotar o pequeno Cessna Skyhawk! A adrenalina a correr nas veias, o coração como um louco, a concentração misturada ao riso da vitória por conseguirem uma manobra mais arriscada. Ambos loucos pela aviação, muitas vezes se tinham abraçado envoltos pelo enorme prazer sentido, de cada vez que cruzavam o céu.
Se ela tivesse percebido tudo o que despertava em Pedro, teria tentado afastar-se ou mesmo confessado a sua grande paixão. Mas não! Fora preciso Pedro sofrer uma humilhação para perceber quão distante o seu sonho estava da realidade.
Ele nunca lhe perdoara, nem a rejeição, nem a louca decisão que tomara ao casar com Leonor. Pobre Leonor que sempre o amara e ao mesmo tempo a desprezava por não o ter feito.
Ela também nunca se perdoara. E esse era um estigma que guardara em si.
Nunca mais voltara às aulas de aviação, como se elas tivessem sido as causadoras de todo o mal.

A vila

Seguira outros caminhos. Nem o curso de Letras, nem a aviação a tinham prendido. Um por nada lhe dizer, outro pela força das circunstâncias. De certa maneira, ainda trazia na pele aquela amizade com Pedro e a falta dos risos e das palavras tontas enquanto estudavam, era uma recordação penosa que a perseguia. Agarrara-se a um misto de sentimentos, a uma revolta que fazia dela as delícias de quem a conhecia. Ninguém percebia que debaixo da capa guerreira, existia uma mulher frágil a pedir socorro. É sabido que uma mentira dita muitas vezes se torna verdade. Era assim com ela. Perder o amigo à conta de um tremendo equívoco deixara rudes marcas.
A vila era o seu talismã, o local onde conjurava todos os males, o local onde ao mesmo tempo todas as paixões eram possíveis.
Percebia que Pedro achara que nunca se poderia ter interessado pelo sexo oposto. No entanto, isso nunca fora inteiramente verdade, pelo menos até conhecer Lili.
Lili tinha uma vantagem em relação a todos e a todas as pessoas que conhecera. Era de uma impudência arrasadora, sem com isso se preocupar. De certa forma, o amoralismo dela livrava Amélia de todos os pecados. Podia ser quem era, resguardar-se de qualquer sentimento que quebrasse o escudo que há muito erguera e proteger-se assim das deceções que via nos outros.
Vira o pai e a mãe cruzarem uma vida de infelicidade agarrados a convenções e jurara a si mesma levar a existência sob o lema carpe diem. Na realidade, apenas aquela amizade quase fraternal com Pedro a tinha desviado um pouco desse caminho. O catastrófico resultado da mesma era mais um ponto a favor da sua teoria.
Lili era o que era, muito simplesmente. Devastadora, sensual, mestre nos devaneios sexuais, um vulcão a despertar outro. Com ela não precisava pensar, questionar-se, meditar no certo e no errado. Com ela a chave era viver intensamente cada segundo, sem esperar o dia de amanhã.
Os homens que tivera, porque tinham existido, sempre lhe cobravam algo mais. Amélia queria ser livre nas tardes de sol da vila piscatória, correr pela areia de mão dada com Lili, ou gritar com ela no suor da cama. Na volúpia dos sentidos, a palavra «amor» era apenas uma palavra. Nada de compromissos, de projetos futuros ou amarras. A paixão não requeria género. Era apenas uma explosão, um apocalipse que a purgava de todas as dores. Não necessitava que Lili a amasse, mas somente que a desejasse nas tardes em que se encontravam. O amor levaria ao ciúme, à posse e a tudo o que ela mais detestava por se achar incapaz de o suportar.

A vida pelo meio

Afinal, nem tudo seria assim tão fácil. Abdicar de uma companhia para a vida, apesar de todas as vantagens, também teria consequências e Amélia sabia-o. Mas seguira o seu rumo levando a pose de guerreira mesmo quando ruía por dentro. As lágrimas que fazia na cidade, ia chorá-las na vila, salgando ainda mais o mar que amava.
O lado negro de tudo, atingia-a muitas vezes depois que decidira ser parteira.
Quando mais tarde tinha decidido enveredar por essa profissão, regera-se por algo que muito tinha a ver com ideais incutidos. Mas a verdade era muito diferente de um idílico mundo imaginado.
Muitas vezes tinha trazido a felicidade a quem esperava exausta o milagre da vida.  Esses eram, sem dúvida, os momentos de júbilo de que se orgulhava.
Mas nem sempre era assim. Certos acontecimentos eram uma sombra negra que porfiava em não se separar dela. Agarrada à pele, trazia a memória de um local numa rua de Lisboa, onde tantas mulheres tinham desembocado e com elas mais uma vida perdida. Tantos dramas tinham embatido nela a tentarem devastar-lhe a confiança!
Nunca fizera juízos de valor sobre o assunto e nem sequer era religiosa, mas era impossível não ser afetada por tantas histórias de vida que com ela se tinham cruzado.
Incrivelmente fora num hospital da capital que voltara a rever Pedro. Leonor tinha dado à luz com a sua ajuda, um dos filhos do casal. Quando os vira, ficara estranhamente amedrontada perante o que a vida deles fizera. Ambos gordos, anafados, mas como se debaixo de toda aquela gordura balofa, existisse um poço de raiva e de amargura que só precisasse de um pouco de força para rebentar e explodir-lhe na cara.
Em Pedro, os olhos tinham mirrado à medida que a vida cobrara dividendos e um breve esgar vincava-lhe os lábios. Mal lhe dirigira a palavra e o ressentimento aprofundava-lhe as rugas, como se a presença dela o fizesse amarrotar. Já Leonor, perdera toda a beleza que lhe conhecera na fatídica tarde em que ele a tinha pedido em casamento. Fora com um olhar de ódio que recebera a sua ajuda durante o parto. Achava mesmo, que se não fossem as circunstâncias e o proverbial feitio de se acomodar, e Leonor teria mesmo pedido o seu afastamento.

Final

Após tantos anos, era ali junto ao mar, que encontrava alguma paz. Sem afetos, sem amarras, numa solidão pensada e assumida.
Cada onda era um sussurrar que a levava em cadência, cada grito de gaivota era também seu, na lembrança dos muitos que se permitira naquela terra.
Rompera quase todos os laços, mesmo que não pudesse dizimar as recordações. Nada sabia de quem cruzara a sua vida e era preferível assim.
A última vez que vira Lili, não tinham recolhido ao quarto. Ela apenas lhe sorrira e naquele seu jeito impudente e desprendido dissera que ia ter com Ernesto, um tolinho, como lhe chamava, mas que lhe apetecia por ser tão volátil. E as paixões, dizia ela, queriam-se assim, a consumirem toda a lenha. Depois ela pulava fora, antes que tudo esfriasse demasiado. Amélia aceitara perfeitamente. Não se tratara de amor, só da aparência do mesmo e tal como as marés, havia que aceitar o inevitável.
Curiosamente chegara a conhecer Ernesto e os seus devaneios, mais a sua insuportável tendência para namoriscar a torto e a direito. Também ele um dia viera à procura de Lili, que, entretanto, já tinha uma nova paixão. Naqueles estranhos acasos que a vida proporciona, tinham descoberto que a tinham tido em comum. Após alguns diálogos à beira-mar e a certeza de que não valia a pena usar nela os seus esquemas de encantamento, Ernesto tinha conseguido ser uma espécie de amigo. Ele era prosaico e dogmático, um lutador desse lá por onde desse, o que lhe facilitara sem dúvida o percurso de vida e isso era algo que apreciava nele.
Desse modo, ia aproveitar o convite que ele lhe fizera há uma semana.
Hoje quando o sol se pusesse romaria a Lisboa. Ernesto ia estrear-se no Finalmente Club e ela sentia uma enorme curiosidade em perceber como é que alguém como ele se iria sair.
De um certo modo, a sua coragem era uma espécie de motivação para ela.
Se um namoradeiro incorrigível conseguia ser travesti, quem sabe o que ela ainda poderia ser?
Afinal nem tudo estava perdido.


               Margarida Piloto Garcia


02/11/19

Variações em Quadrilha - Capítulo 10

Imagem de PrettySleep por Pixabay

           Pedro 


         Ah, Amélia... que mulher!  Por que é que nunca me tiveste o carinho que recebia da Leonor?
           Isto de viver não é fácil! Desde que começamos o curso, não consegui mais tirar-te do meu pensamento! Mulher forte, decidida, ousada! Não era fácil encontrar mulheres neste trabalho, ainda mais àquela época! Mas tu, não, tu nem sequer te parecias com uma mulher, tão cheias de não-me-toques, tão medrosas.  Tu eras corajosa, aventureira, compincha!!! Mas, e talvez por seres assim, tão parecida a mim, não quiseste sequer dar-me a chance de provar-te que, juntos, seríamos perfeitos!
        Anos mais tarde, foi que descobri o por quê... eras mesmo tão parecida a mim, que tinhas o mesmo gosto... Soube, há pouco tempo, que quando eu estava disposto a dar-te o meu nome, a minha vida, o meu companheirismo, a cumplicidade de um casal que se entende, tu estavas a sonhar com a tal Lili... Ora, que diabos! Aquela mulher era uma máscara! Nunca houve quem a conhecesse verdadeiramente. Engendrava a todos em sua melíflua teia, caíam todos a seus pés... nunca enganou-me!
           À época em que estudávamos, tentei por várias vezes dar-te a perceber o meu amor, a minha paixão, mas tu eras sempre escorregadia, sempre te esquivavas de momentos mais íntimos. E eu, tolo, não atinava. Julgava ser recato teu, logo tu, uma mulher tão destemida! Não, não era recato. Era aversão ao sexo oposto... e eu, tolo, não atinava... Por várias vezes, em minhas caraminholas, pensei em fazer-te ciúmes com a Leonor, a ver se reagias e te chegavas mais pra mim... e nada! Mas quando estávamos juntos a estudar, dávamo-nos tão bem! E quando fazíamos exercícios de voo, parecíamos feitos da mesma massa. Nessas horas, ninguém era tão próximo quanto nós dois. E eu enchia-me de esperanças outra vez, e mais, e mais vezes.
       Mas sempre que tentava levar o assunto para o lado romântico, tu fugias como uma adolescente tímida – isto era o que eu, tolamente, pensava. Na verdade, eras tão “meu amigo”, que não me querias magoar, agora percebo. Não querias perder a amizade que tínhamos, e que foi, durante anos, a melhor das amizades. Mas eu sonhava contigo a sós, só nós dois e um quarto à penumbra, um suave perfume a rosas, das que eu despetalaria para forrar o chão aos teus pés. E dali, seguir a vida num crescendo, casar-me contigo, dar-te filhos que seriam como nós, aventureiros, fortes, decididos.
       Não quiseste. Deixavas-me sempre sem jeito, esfriando-me os ímpetos quando tentava aproximar-me de ti.
          Até àquela vez, aquele maldito dia em que, após quase ter feito cair o avião num looping, por estar a sonhar contigo, decidi encher-me de coragem e pedir-te a mão em casamento, com todas as pompas, todos os rituais de um gajo apaixonadamente romântico, como sempre fui. Comprei-te o anel de brilhante, aquele enorme bouquet de rosas vermelhas, contratei aquele trio de músicos para fazer-te uma surpresa ao fim do dia de trabalho. Assim que pousaste o avião, estávamos todos à tua espera no hangar, eu, os músicos, os colegas de trabalho. O violino começou a tocar, a cantora soltou as primeiras notas diante do teu rosto estupefacto... eu ali, de joelhos, com as flores e o anel nas mãos, o coração a saltar pela boca, criei coragem e comecei...
          - Amélia...
          E tu, olhos arregalados, boca aberta, olhavas para os músicos, para mim, para os colegas. Logo deduziste o que eu tencionava fazer, claro, nunca foste tonta. O olhar que por fim me lançaste destruiu-me as poucas esperanças que tinha. Não precisaste dizer uma palavra. O pedido engasgou-se-me na garganta, baixei os olhos diante da tua muda recusa. Simplesmente deste-me as costas, deixaste-nos todos com cara de parvos à entrada do hangar. Os colegas não sabiam se se riam de mim ou se se condoíam da minha derrota.
          Humilhado, possesso, com raiva de mim mesmo por ter sido tão palerma, por não ter tido a esperteza de fazê-lo a sós contigo, porque me julgava bom partido o suficiente para encher os olhos a qualquer rapariga casadoira, ainda pensei em correr em teu encalço, mas não o fiz. Em vez disso, pedi aos músicos que parassem, dei uma desculpa esfarrapada para os colegas, disse que foste pega de surpresa e não souberas como reagir.  Entrei no carro e fui levar os músicos a casa. Dei as flores à cantora, que as agradeceu, comovida e compreensiva. Afagou-me os cabelos, ofereceu-me um café... aceitei, entrei em sua casa e abandonei-me aos seus cuidados.
          Sofri por vários dias, e ela sempre a cuidar de deixar-me mais alegre, vinha sempre à minha procura... acabei casando-me com ela, a pobre. Nunca lhe tive amor, e ela, sempre a tratar-me com doçura. E a doçura que me dava era tanta, que faltava-lhe ao paladar...
          Compensou nos doces todo o abandono em que viveu por todos estes anos. 
        Não lhe quero mal, coitada, e por isso mesmo, venho a pensar em deixá-la viver sem o peso de ter tomado por marido um homem que só pensa em outra. Ela merecia encontrar alguém que a amasse, pois é uma mulher delicada, de valor. Infelizmente, seu nome não é Amélia.
       Os miúdos são giros, mas já são homens feitos, não precisam mais que lhes esteja a acompanhar os passos. Um deles deu pra aviador, como eu, e por mais que tente, desde que lhe vi o interesse na profissão, mais o peso do teu nome martela-me a mente. Soube que tu, depois daquela malfadada e infeliz tentativa de pedido de casamento, abandonaste a aviação. Não sei se por birra, ou se por te apetecer mais a nova profissão, foste pra parteira, e calhou, ó, ironia do destino, que fizesses um dos partos dos meus filhos, e justamente esse tornou-se aviador. Foi a tua mão! 
        Enfim, querida Amélia, esta vida não é para quem sonha! Isto de amar alguém é uma grande troça. Às vezes ainda me lembro da pobre Leonor, que vivia a esfregar-me na cara o amor que sentia, e que eu não podia retribuir... já eras tu a senhora dos meus pensamentos e desejos.
          O amor é cruel. Destrói vidas! Pelo meu amor por ti, destruí os anseios da Leonor, destruí teus sonhos de aviadora, destruí os sonhos da minha senhora de ser amada como merecia, destruí a minha vida enfiando-me num casamento que só me fez crescer a barriga e a prole. E a vida passou, os anos a escorregar pelos dedos, daqui a pouco morre-se, e de que valeu tanto amor por uma mulher ? 
Não, Senhores, não amem! Escolham o lado fácil da vida.
          (Há pouco encontrei um bilhete da minha esposa, um desabafo escrito num caderno de receitas, na última folha... coitada! Passou todos estes anos a sofrer e a esperar que eu te esquecesse.)
          “...a senhora, dona Amélia, é uma parva! Deitou fora um homem do calibre do meu Pedro, capaz de humilhar-se por amor! Mas, por mais que lhe agradeça por isso, por ter deixado o meu Pedro para mim, não posso deixar de odiá-la com todas as forças do meu coração! Que diabos de feitiço fez com que invadisse assim os pensamentos do meu homem, que até mesmo na hora do amor, consegue mostrar que não é em mim que está a pensar? Dei-lhe meu amor, dei-lhe filhos, dediquei a ele todos os meus dias, e o que tenho é um resto humano de solidão e dor! Tenho pena das crianças que ajudou a trazer ao mundo! A senhora deveria ter morrido! Mas nem para isso serve! Só serve para destruir pessoas! ...”
          Pobre desta mulher! Não a posso mais fazer sofrer... viver é uma carga!


                                                                           Tixa Falchetto

11/10/19

Variações em Quadrilha - Capítulo 9


          Leonor pessoalmente.
          E outros pronomes.
@José Bessa

         TU:
     Esperava-te na sala de pilotos tricotando-te camisolas de malha enquanto fazias voltas-de-pista contemplando aquele ponto móvel sempre previsível, tocou, andou, subiu, voltou, tocou, andou, subiu, voltou, sempre à mesma altura do horizonte, a mesma sombra reflectida no solo, o ronronar monótono do motor, redondo, calmo, confiante, concorrendo com o tic-tic sistemático das agulhas compridas, que, ponto após ponto, linha após linha, avançavam, hoje o peito, amanhã a manga, depois a gola; e pensava como serías comigo na vida inteira.
Por inteiro.
       Depois regressaste sorridente de mais um voo solo no ar laminado de Janeiro e 
eu, antecipadamente doméstica, em espera mais uma tarde inteira. 
       Por inteiro.
     Tomei conhecimento que tinhas combinado estudar com a Amélia navegação em regime de voo nocturno, e desculpa não te ter avisado, esqueci-me completamente, mas tem de ser, faremos viagem para a semana que vem…
       Vem…
      De repente vejo que quem andava com a cabeça nas nuvens era eu, que, mesmo quando após o baptismo abraçaste e beijaste calorosamente a colega de curso, vi na alegria do momento a justificação para o ímpeto e a comunhão. Nada mais.
Sim… foi melhor ires…

        ELA:
        Irmã. Foi como a vi sempre para além das descobertas.
       Quando no liceu nos espiavam curiosos e admirados da intimidade constante, não disfarçávamos. Ela viveu sempre comigo, irmã colaça, os brinquedos dela foram os meus, os meus os dela, tudo-tudo mútuo.
    Defendidas pela madrinha de todas as movimentações alheias a uma família, vivemos com aulas domésticas e outras mordomias pagas pelo sr. Conde até sermos crescidas. Nunca desconfiamos se tínhamos algum grau de parentesco, nem isso tinha qualquer importância. Mais tarde, aquela era uma casa especial para duas adolescentes…
       Éramos nós.
       Temperamento impetuoso, querer imenso, hoje nisto amanhã naquilo, mais tarde sabe-se lá; dava-lhe, dá-lhe!, um poder de atracção que tem feito a vontade da sua vida.
        E da minha.
     Se ela tem pretendentes? Sim, vários, mas a sua independência leva-os a desistirem passados os primeiros dias de deslumbramento. De todos voltou para mim.
Ela era minha.
       O único caso com algum assunto foi o do Alberto, um bisonte sexual, carnal como ela, espontâneo, uma débil inteligência encoberta num semblante grave. O Alberto, dizia-vos, com que ela teve um calculado e esbraseado romance, terminou com um papelito, sem comprometer nem sofrer, libertando-o na sua intenção de casar. Conheci-o quando ela finalmente se mudou, eram vizinhos frescos, e ela não descansou enquanto não o seduziu dominando-o. Até que um dia lhe falou de mim; mudando-me o sexo!
        Vejam. Que ironia…
        Depois, voltou para mim. Voltou sempre.
        E agora, sem mais, este misterioso telegrama.

--/--

     - Querida mana.
     - Vou tornar-me monja aqui.
     - O advogado já transferiu todas as acções para a tua posse.
     Despojo-me em ti.
     - Lembras-te quando te dizia que a crença era o esteio dos fracos?
     - Não é!
     - Um beijo sempre. Amo-te.

--/--

      NÓS:
      Só com ela atingi a desejada plenitude na compreensão dos meus afectos.
    Cresceram num lugar de especulativas liberdades e sensações onde nada, ou quase nada, era constrangimento; dizia-nos o Pedro sem conhecimento de causa, mas adivinhando, quando se sentia agredido pelas nossas intimidades.
      Mas era a ele que eu amava.
   Nele via a segurança, a alegria, a força, a desenvoltura que me faltava. Um companheiro, um amigo.
       Um marido?
      Não sei o que é ser-se marido, mas era com ele que eu gostaria de passear de braço dado no jardim da cidade, de comer um gelado no bar da praia, ir de férias para um local exótico, quem sabe até, acampar.
      É isso, talvez ser-se marido seja ser compincha, como ouvi um dia dizer um cliente à Mdme. Blanche «sabe o que me falta faz na minha mulher? É que ela seja compincha.» E creio que é essa mutualidade que faz os casais felizes. A íntima cumplicidade de ser compincha.
      Não era fácil a convivência em nós, enquanto o Pedro tinha em mim a posse, talvez resultado de um reminiscente abandono inicial, era na Elvira que estava a minha identidade, quase uterina, originária numa desordem de sentimentos que implodiu a nossa amizade e demoliu planos futuros de vida conjunta.
        Percebi tardiamente que os triângulos têm demasiadas arestas.

        VÓS:
        E vós?...

        ELES:
   Quando à tardinha começam a entrar aureolados pela luz azul do candeeiro equidistante aos dois ananases que ombream coloridos a porta de duas folhas, começa o dia. Primeiro timidamente no bar, saboreando prolongadamente um cocktail, depois, já sentados nos sofás, metendo conversa, desenhando o ambiente de soirée que se quer morno, calmo e demorado.
     Vêm de todos os tipos e idades, porém, todos das classes privilegiadas que dão aos seus nascituros o fino gosto e a elegância da convivência.
    Consegue-se em pouco tempo um ambiente de aconchego familiar, não fossem as origens e pergaminhos do palacete, um boudoir em que um frou-frou de bom gosto e donaire femininos exaltam a clientela exclusiva.
    As meninas, que gastaram tarde e saber em convidativos apuros de estética escolhendo aprimoradamente os reduzidos trajes de convívio, vão chegando parecendo sempre, noite após noite, ser um fortuito encontro de gente que se gosta.
       Não raro se dança ao quente sabor do jazz inventando em cada acorde um afago, um carinho, uma atenção a que a música era alheia.
       O que os traz aqui?
       A elegância de privar nos afectos treinados para ouvir e agradar sem responder; o ido carinho maternal agora sem a ascendência da progenitura; a falta doméstica?
     Não será a aventura, senão do momento, uma vez que estão vedadas as excursões exteriores.
     Os celibatários, e os muito ocupados, talvez o preenchimento do vazio quotidiano, talvez; os maridos, quem sabe, procurem pagando o amor que lhes falta em casa, talvez. Mas porque entram sempre alegres e expectantes e saem, sempre, sorumbáticos e culpados?
        O que os faz regressar, leves e airosos, sabendo que sairão pesados e soturnos?
       (Falemos baixinho… Quando os dirijo e assisto penso no que sería um palacete para senhoras necessitadas, envergonhadas, e escondidas no desencanto do bem parecer conjugal. Como se comportariam cá? O meu mundo invertido – elas chegando, eles esperando…
        Deixem! São devaneios...)
    A Mad. Nós nunca lhe chamamos Madame, para nós foi sempre a madrinha. A madrinha teve ao longo dos anos o cuidado duma selecção esmerada e só trabalha no palacete o crème de la crème. Todas chegam sem problemas nem pressões e assim se mantêm, sendo o rendimento e estada de superior qualidade. Não é nada elegante salientar estes aspectos, que, não sendo discretos, são, porém, do foro privado.
       Mas porque vos contos isto, a vós?

       EU: Até que enfim…
       Cá estou…
     Não foi um regresso à casa de infância, nem à família que conheci. Nem as pessoas são as mesmas, não; umas foram com Deus e outras foram para longe envelhecer sozinhas.
       Tal como aconteceu com a vossa e amigos, talvez, desapareceram... Quem ficou?
     Não regressei senão à prometida posse, agora que a madrinha faltou. Quem, senão eu?
       E à segurança. Só quando somos donos estamos seguros, a fruição é passageira.
     No entanto é uma clausura, não fora o convívio da arbitragem e as viagens para os jogos estava sempre aqui onde me vedes, sozinha nos meus compromissos de gerir uma casa de mulheres achadas com homens passageiros. Vocês sabem lá…
    Uma encenação diária com actrizes habituais para espectadores assíduos. Alguns dramas. Quando me dou conta que passamos a nossa infância numa casa de ilusões perdidas e comportamentos desviantes e não ficamos afectadas…
       Bem, o meu psicólogo chamou-lhe um dia um palavrão comprido, difícil lembrar-me.
       Mas está-se bem…
       O Pedro vai assistir aos jogos. Eu vejo-o. Gola levantada, boné grande, óculos escuros, lugar remoto. Disseram-me que pergunta como estou.
       É tarde…
  Consta-me que tem filhos, mulher gorda, prestações a pagamento, emprego periclitante, uma correria, adianta-se-lhe a barriga, poucos prazeres. Diabo! Podia ter sido comigo…
       Uma família…
       Faz tempo que não sei dela. Escrevo-lhe e devolvem-me as cartas com qualquer coisa escrito. Parece que vive incomunicável e sem afectos.
       Também eu…
    Procrastinação! É isso!... O médico diz que eu me transformei numas reticências, adiando, estagnando, com medo de apegos…
       E se lhe telefonasse… Parece que se vai divorciar. Constou-se-me…

                                                                                                                                       José Bessa

27/09/19

Variações em Quadrilha - Capítulo 8


          Elvira

Imagem de S. Hermann & F. Richter por Pixabay

         - Passport please!
     Depois de recolher a escassa bagagem e cumprir as rigorosas e intermináveis formalidades de entrada no país, Elvira abandonou o Aeroporto Internacional de Lhasa. A esperá-la no exterior, encontrava-se o guia que iria acompanha-la durante os 8 dias que duraria a visita.
      Sem prestar grande atenção ao rapaz e ao movimento frenético que a rodeava, quase desprezando a oferta da tradicional Kha-Tag, atirou-se literalmente para o interior do táxi que os aguardava rumo à cidade, capital do Tibete.
      Depois de acomodada no banco traseiro, o guia, sentado ao lado do motorista, indicou - Shangri-La Lhasa Hotel.
       Mal acabou de se instalar no quarto que tinha reservado, Elvira deixou que o seu corpo se entregasse de forma abandonada a um longo e relaxante banho de imersão.
      Antes mesmo de desfazer por completo a sua bagagem, vestiu-se e decidiu sair para um pequeno passeio.
       De novo na rua, e acompanhada do guia que se desfazia em mesuras, dedicou-se a admirar os tradicionais edifícios, deixando-se aos poucos envolver naquela atmosfera estranha, impregnada de cores, tradições e aromas.
      Sem notar, os passos de ambos levaram-nos até junto do Palácio Potala, onde o guia, sempre excedendo-se em simpatia, a convidou a descansar um pouco enquanto esperavam pelo pôr-do-Sol, espetáculo que garantia ser único no mundo.
      Não ficou desiludida, o momento foi mágico, algo a que nunca tinha assistido e que sentiu desejo de que viesse a repetir-se todos os restantes dias da sua vida. Agradeceu ao guia e retomaram o passeio.
       Enquanto absorvia e se deixava absorver, absolutamente deslumbrada, por aquele incomensurável e grandioso espetáculo que a cercava, começou lentamente a recordar os últimos acontecimentos, e tudo o que a tinha levado a iniciar uma abrupta e radical mudança de vida.
     Na verdade, toda a sua vida, desde que se conhecia, decorrera a um ritmo alucinante. Os acontecimentos que marcaram todos os momentos importantes da sua existência revestiam-se tanto de imprevisibilidade como de inconstância, de alguma frivolidade e de completa falta de programação. O acaso e o caos regiam a sua vida desde o dia em que nasceu, moldando-lhe um caráter pragmático, desapegado das coisas mundanas, profano. O mesmo acaso e caos regeram também a sua vida sentimental e amorosa, tendente exclusivamente para a obtenção do prazer imediato, sem nunca estabelecer qualquer vínculo de afeto.
       Passou-se assim desde o fim da adolescência, quando a curiosidade a levou a descobrir o prazer, através das carícias e do contacto físico com Leonor.
        A sua “irmã de leite” herdara da mãe uma aptidão excecional para a prática de intimidades, as quais aperfeiçoava consigo própria e potenciava quando se encontrava nos braços de Elvira, levando-a a atingir o êxtase e algo mais, indefinível, indecifrável mas que não tinha o poder de a deixar confortável consigo própria.
      Com a fase da juventude chegaram os contactos masculinos, efémeros mas sempre muito intensos. Contudo, aquele desconforto parecia não querer abandona-la, por mais homens que conhecesse e fingisse amar.
      Certo dia, já adulta e na posse das propriedade que herdara, decidiu abruptamente tomar uma decisão radical: terminar de uma cutilada com a relação unicamente sexual que mantinha com Alberto, o último protagonista das suas “maratonas” sexuais e... perder-se no mundo.
     Vendera uma enorme propriedade que possuía em Nelas e com a ajuda e aconselhamento do seu gestor bancário, aplicara parte do produto da venda em ações que lhe garantiam um rendimento muito confortável e a possibilidade de concretizar um sonho antigo; viajar, conhecer países, culturas, paisagens. Era esta a sua forma de entender a liberdade e de não estar sujeita a viver num espaço único e a conhecer pessoas que esperavam dela sentimentos que não possuía.
      Talvez esta sua forma de ser estivesse relacionada com o modo como veio ao mundo e como foi criada e educada até à idade adulta. Estes pensamentos fizeram-na acordar e reavivar memórias, transportando-a a uma tenebrosa noite de trovoada em que, muito abraçada a Leonor, a sua “irmã de leite”, recebera a revelação acerca da forma como fora parar ao palacete de Mm Blanche.
        Recordava essa noite tenebrosa e as revelações que Leonor lhe fizera em modo de discurso direto, como se ainda ouvisse nitidamente o som da sua voz entre-cortado pelo ribombar do trovões. Recordava o calor aconchegante do corpo de Leonor e o sabor do entrelaçado das suas pernas nas dela. Na escuridão do quarto, quando a trovoada se afastou e terminou o relato da história que Leonor ouvira contar a sua mãe, sentiu uns lábios húmidos unirem-se voluptuosamente aos seus. Ainda trémula, esperou pelo que viria em seguida. O que veio foi estranho, foi estonteante, foi irrecusável, foi consentido e correspondido. Aquela noite, gravada na sua mente e no seu corpo a vários fogos, repetiu-se com uma frequência e uma intensidade indescritíveis. De súbito, e sem motivo estruturado, terminou de forma tão abrupta como o ribombar do primeiro trovão da primeira noite.
        Elvira fora abandonada à nascença, à porta de um prostíbulo numa fria noite de Dezembro decorria o ano 1970.
        Quem cometeu o terrível ato de abandono, premeditou que aquela seria a hora de maior afluência ao local, pelo que, provavelmente não demoraria a ser encontrada. Efetivamente, a pequena Elvira fora encontrada por um distinto senhor, que visitava regularmente a casa de Mm Blanche, no preciso momento em que as suas cordas vocais iniciaram um estrepitoso choro.
       Quando a dona do palacete - mulher garbosa já entrada na idade, mas ainda altiva, detentora de uma personalidade férrea e um auto-domínio que os anos de experiência no "ramo" lhe conferiam – abriu a porta, encontrou o seu cliente habitual segurando um cesto de verga que transportava uma ternurenta bebé.
         Deu-se um momento de estupefação e de indecisão, que fizeram Mm Blanche ficar como que pregada à soleira da porta, de olhos muito abertos, fitando ora o Sr. Conde, ora a pequena criança.
          - Então Mm Blanche, vai querer que a pobre criança enregele? Permite-nos que entremos?
     Como que acordada à força de um pesadelo, Mm Blanche afastou-se dando passagem ao Sr. Conde e à sua protegida.
         - Mas Sr. Conde, pode explicar-me o que se está a passar?
Sem prestar atenção à pergunta formulada, o Conde do Monte a Nelas passou a entrada, poisou o cestinho sobre uma poltrona e aliviou-se dos abafos que lhe mantinham o já velho corpo aquecido. Depois, pegando a pequena Elvira nos braços, chegou-a perto da luz mortiça de um aplique de parede e perguntou como que afirmando; é linda, não é?!
        Mm Blanche, ainda insegura da situação, acercou-se um pouco mais e confirmou.
        - Sim, de facto é uma linda bebé. Mas, a quem pertence, Sr. Conde?
        Lentamente o velho conde virou-se, e de olhar penetrante e arguto concluiu:
      - Esperava que fosse a senhora a esclarecer-me essa questão. Não será obra de alguma das suas “pupilas”?
      - Não estou a perceber a lógica da sua dúvida senhor conde, pelo facto de nos encontrarmos numa casa de prostituição, não quer dizer que sejamos pessoas desumanas, capazes de abandonar uma recém-nascida a um destino tão desfavorável.
      - Bom, assim sendo, crendo na veracidade das suas palavras, tenho um enorme favor a pedir-lhe.
     - Se estiver ao meu alcance, pode estar certo que atenderei ao seu pedido Sr. Conde.
       - Estará certamente, Mm Blanche. Como poderá imaginar, ficar-lhe-ia muito grato se tomasse a seu cargo a responsabilidade de criar esta menina. Estou certo que lhe saberá proporcionar o conforto e educação apropriados.
      - E, para suportar todas as despesas com a alimentação e educação da pequena, providenciarei amanhã mesmo com o meu advogado, o usufruto de uma das minhas propriedades de Nelas, que será administrado por si e passará para a posse da menina, logo que ela atinja a maioridade.
       Perplexa e sem reacção, Mm Blanche não ousa sequer contrariar a vontade do Sr. Conde. Chama imediatamente uma das meninas e ordena-lhe que recolha a bebé, lhe dê banho e procure com urgência uma ama que a amamente. Ao pegar no cestinho onde Elvira fora encontrada, Mm Blanche descobre um pequeno papel onde um nome se encontra garatujado: Elvira Clara das Neves.
      Uma hora depois, chega ao palacete de Mm Blanche, acompanhada por uma das “meninas”, uma anafada e andrajosa mulher, transportando no colo uma bebé quase a completar um ano de idade.
       Mm Blanche reconheceu-a de imediato. Tratava-se de uma antiga “funcionária” da casa que um ano antes, tinha abandonado a profissão para se juntar com o Zé-Naifas; um ladrãozeco de vielas que lhe prometera vida de princesa e lhe oferecera fome e tareia sem parar, acabando por a abandonar, prenhe e sem poiso minimamente decente onde pudesse criar o ser que lhe crescia no ventre.
     Mm Blanche recebeu-a com rispidez e clarificou logo ali, de uma penada, a situação; precisava que amamentasse Elvira. Em troca, oferecia-lhe alimentação e uma dependência no piso superior do palacete, quase nunca utilizada. Zaldemira - era o nome da ex-rameira - aceitou a oferta de imediato sem pestanejar. Quando já se encaminhava para a sua nova morada, Mm Blanche perguntou-lhe o nome da criança que trazia ao colo.
        - Chama-se Leonor… é uma menina, linda como o Sol.
        - Miss Elvira ???
       Como que acordada de um sonho pelo chamamento, Elvira abriu os olhos. O Sol tinha desaparecido por completo, restando no céu uma ténue névoa em tons vermelho-sangue.
        Levantou-se com a ajuda do seu guia e dirigiram-se de novo ao hotel.
      Nos lábios de Elvira bailava um sorriso estranhamente luminoso que não passou despercebido ao seu guia, levando-o a questiona-la se estaria tudo bem.
      Elvira alargou o sorriso e respondeu, como estando a responder a uma pergunta que carregava desde que se conhecia: Estou ótima! Há poucos dias decidi abandonar a vida que levava, as pessoas e os lugares que conhecia e… perder-me no mundo. Percebo agora que afinal buscava encontrar-me comigo própria e com o mundo. Este é o meu verdadeiro primeiro dia de vida. E abrindo os braços declarou bem alto: Acabei de nascer! Sou eu, Elvira!
        Elvira…

                                                                                                                   Bartolomeu Frederico