16/02/26

Compatíveis Incompatibilidades - Capítulo 5

Fotografia de Cristina Torrão 

 

Maria

O César, dos olhos verdes.

De quem me fui lembrar, ao fim de tanto tempo!

 Aquele ano sozinha, com o Emanuel tão pequenino… E o João tão longe…

A tentação foi grande. E, no entanto, segurei-me.

Era muito nova, ainda muito influenciada pela educação das meninas daquele tempo. E vigiadíssima pela mãe e pela sogra, duas autênticas polícias, que quase não me deixavam respirar sozinha!

Porém, acima de tudo, estava muito apaixonada pelo João. Nunca considerei verdadeiramente entregar-me ao César.

Fiz mal? Teria tido uma vida melhor com ele?

Na verdade, aquilo que começou na praia, com o João, um idílio, uma paixão intensa, que a separação de um ano fez atingir momentos de saudade insuportáveis, transformou-se num casamento que depressa se desgastou. As expectativas não se cumpriram minimamente. Pelo menos, da minha parte.

Eu tinha ainda muito romantismo na cabeça. Apesar de estarmos casados, gostava de agir como se ainda namorássemos. Desejava andar pela rua de mão dada com o João, ou mesmo abraçada, sentir o braço dele sobre o meu ombro. Desejava mostrar a toda a gente que éramos um casalinho muito apaixonado.

Mas ele irritava-se, dizia que não gostava de mariquices. Se eu lhe recordava que, antes de casarmos, andávamos sempre assim, ele enervava-se ainda mais, alegando “isso é diferente”, embora nunca me explicasse porquê. Ficava muito magoada, não compreendia de todo. E essa ferida transformava-se em raiva, quando eu notava que ele, em público, se afastava ainda mais de mim, caso deparasse com mulheres bonitas.

A isto se juntava a mania de o João decidir coisas sem me consultar, coisas que me envolviam diretamente. Também sobre isso tentei, várias vezes, falar com ele, mas só recebia a habitual incompreensão em troca. E, a partir de certa altura, ele começou a sair muito sozinho. Ia a bares, encontrar-se com os amigos, dizia ele.

Não faço ideia se era sempre verdade. Ocasiões houve, em que desconfiei de alguma amante. Mas deixei de ligar, porque… eu própria tive dois amantes.

Não o trai com o César, mas, passado sete anos, conheci um homem simpático. E, como eu, muito desiludido com a sua vida conjugal.

Chamava-se Artur. Começámos por conversar sobre os nossos problemas. No início, era apenas isso: desabafar. Mas o conhecimento cada vez mais aprofundado sobre a vida um do outro acabou por nos aproximar. E aconteceu.

A relação durou cinco anos, ao fim dos quais acabou, tão naturalmente como tinha começado. Não sei se o João desconfiou de algo, nunca me disse nada. Cada vez falava menos comigo. Quer dizer, falávamos sobre a organização do dia-a-dia, os encargos com os filhos, as refeições, as compras… Mas não conversávamos.

Passado seis anos, conheci um outro homem, ou melhor, o João e eu conhecemos um casal, com o qual nos começámos a dar. E eu iniciei uma relação com o António, assim se chamava. Era uma situação estranha, nem sei bem explicar como alinhei em tal esquema. Encontrávamo-nos com eles, os filhos brincavam juntos, tudo se passava de forma muito convencional. Eu até me dava muito bem com a Elvira, a mulher dele. Mas depois, na primeira oportunidade, o António e eu íamos para um hotel e tínhamos o melhor sexo que alguma vez experimentei. Mas mal conversávamos. Nunca contámos intimidades das nossas vidas, nunca abordámos os nossos problemas. Era completamente diferente do caso que tive com o Artur.

A aventura durou quase dez anos, se bem que, nos últimos três ou quatro, raramente nos encontrássemos. E também os convívios entre os dois casais acabaram.

Várias vezes pensei em divorciar-me. Mas, enfim, os filhos foram nascendo, os encargos foram crescendo, uma pessoa vai-se adaptando, deixa andar, não quer estragar a família, desiludir as crianças… E também o João nunca abordou esse tema, mesmo quando começou a passar mais tempo fora do que dentro de casa e de eu ter a impressão de que o assunto pairava no ar. Seria por comodismo? O João nunca participou grandemente nas tarefas domésticas, tem o jantar sempre pronto, quando chega do trabalho, cama e roupa lavada. No fundo, sou a empregada dele.

E, mesmo assim, continuo casada com ele. Depois de o mais novo dos nossos três filhos sair de casa, a fim de ir trabalhar numa outra cidade, fiz os sessenta anos e senti-me velha demais para começar uma vida nova.

Porém, a ironia entrou na minha vida com estrondo. Nestes últimos três meses, os acontecimentos precipitaram-se.

O João e eu estávamos um dia a ver televisão. Como sempre, sentados lado a lado, sem falarmos, nem para comentar uma ou outra notícia. Nisto, porém, ele começou a falar, muito calmo: que assim não íamos a lado nenhum, que talvez seria melhor separarmo-nos, que deveríamos aproveitar os anos que nos restam para mudar de vida; se tudo fosse de comum acordo, que mal viria ao mundo?

Eu nem queria acreditar!

Depois de digerir aquelas palavras, retorqui, cheia de cautelas, que a melhor forma de nos separarmos era, de facto, de modo amigável. Naquele momento, porém, ficámos os dois indecisos, como se nenhum de nós soubesse como continuar. Acabámos por combinar refletir seriamente, durante uns dias, e depois tornar a falar do assunto.

Foi, contudo, precisamente nessa altura, que o João teve o enfarte. Ficou internado. E eu, sozinha em casa, sentia-me completamente atordoada, sem cabeça para pensar fosse no que fosse.

Dois dias mais tarde, o alívio: ele já não se encontrava em perigo de vida. Regressei a casa mais calma, sem adivinhar que outro tipo de agitação me esperava. Ao pegar no telemóvel, a fim de enviar mensagens aos filhos com a boa nova, deparei com um pedido de amizade, no Facebook. Era do Artur!

Aceitei o pedido e, não se tinham passado nem dez minutos, recebo um telefonema dele!

Depois das habituais saudações, ele foi direto ao assunto: tinha enviuvado e, vendo-se sozinho, começara a pensar muito em mim, nas conversas que costumávamos ter. Disse-me que eu era a única pessoa a quem ele tinha contado tanta coisa da sua vida. E sentia falta dessa intimidade, desse amparo. Sugeriu um encontro.

Porque tinha de acontecer tudo ao mesmo tempo? pensei. Surgia finalmente uma oportunidade de mudar de vida! Mas como poderia eu...

Expliquei ao Artur o que se passava. E disse-lhe que só me encontraria com ele, depois de o João regressar a casa, a fim de ver como as coisas corriam.

O regresso do João trocou-me novamente a voltas. Não estava minimamente preparada para o que aconteceu, depois da conversa tida com ele dez dias antes. O João vinha mais bronco e fechado do que nunca. Muito agressivo, nas palavras e nos modos. Dei-lhe algum tempo, afinal, tinha sofrido um choque e estava ainda em recuperação.

Tem recuperado bem e, sentindo-se mais forte, começou a sair sozinho, sem dizer nada. Não faço ideia para onde vai. Quando pergunto, diz que vai à consulta.

Mas terá assim tantas consultas? Dá-me a impressão de não querer que eu o chateie. E eu perdi toda a vontade de o ajudar.

Ontem, passou-me um papel para a mão, disse que era do médico, sem mais explicações. Constatei que se trata de um psicólogo, especializado em relações conjugais desavindas, dizendo que seria imprescindível a minha presença nas consultas. Mas porque não me informou o João de que andava a consultá-lo? Porque não me disse ter mudado de ideias, quanto à separação? Julgou mesmo que podia resolver o assunto sozinho? Sobre algo que me diz tanto respeito como a ele?

Essa sua mania de decidir, sem nada me dizer, exaspera-me! Nem teve a decência de me perguntar se eu tinha vontade de tentar. Passa-me apenas um papel para a mão, com uma diretiva médica!

Claro que me dá logo vontade de recusar. Ainda para mais, com o Artur a oferecer-me novas perspetivas. Confesso que não tenho a mínima vontade de ir ao psicólogo.

Mas conseguirei deixar o João, na situação atual, sem sequer tentar salvar o nosso casamento?

 

                                                                                         Cristina Torrão

04/02/26

Compatíveis Incompatibilidades - Capítulo 4

 

Fotografia de José Bessa

João

-… e depois do treco fiquei além do mais, manco. E assim me tenho mantido. Não é muito, é só um jeito na perna direita “é só um jeitinho no andar sr. João, quase não se nota…”, disse a enfermeira baixinha ao dar-me alta. A partir daí passei a vida a treinar-me na rua, a olhar-me nas montras, primeiro devagar, depois já com alguma desenvoltura. Um dia um miúdo, as crianças são adoráveis, disparou de cima da bicicleta habitual «lá vai o calcó-risco!...», mas isso foi muito no princípio. Agora, que me apresento mais estável, entrei no bar que fica entre as duas montras-espelho minhas preferidas. A porta gritou à minha passagem e eu sentei-me no balcão sozinho mesmo à vista do empregado que por acaso era um pouco marreco. Assim não gozas, pensei cá para mim. Olhei para a torneira da belga e pisquei-lhe o olho. Nos bares de rua não há desses mal-entendidos. A caneca transpirada de alegria chegou pronta, atarracada, rotunda, com a asa orientada para a minha mão dextra e com uns baixos-relevos muito catitas. Umas mossinhas a toda a volta, não sei se me faço entender. Aterrou mesmo ao lado um deslizante pratinho de tremoços siamês de outro para as cascas. Um conjunto feito num oito. Olhei-me em frente no meio das garrafas e brindei de mim para comigo à minha primeira saída – andas muito saído ó João!, diziam-me sempre que entrava num bar antes do treco. Pintado um venerando bigode de espuma belga, permiti-me a um ah!... de satisfação que motivou o barista a tirar os olhos dos casos-do-dia que lhe ensanguentavam o pensamento. Via-se na cara dele. Barista, porque o estabelecimento em questão não era de primeira, onde os seus colegas de ofício se dizem barman(s). É mais chique. Acto imediato, puxei dum cigarro e dei duas retemperadoras passas para me fazer ao ambiente. Estava nisto, a ver-me nublado no espelho em frente, coisa catita, quando se me aproxima à ilharga direita uma senhora a explodir dum vestido perfumado decorado a fazer pendant com a bola de espelhos rotativa que abrilhantava o Marante deixando o amor na pequena pista de dança. Muitas coisas juntas a considerar num só momento. «O cavalheiro oferece-me um copo?» perguntou-me a sereia a transbordar. «Não.», disse-lhe eu; até um bocado mal-educadamente após ter sido baptizado de cavalheiro. «Ó, não seja mauzinho. Não oferece porquê?...». «Porque estou triste. E quando estou triste quero ficar sozinho. Como pode ver, estou num bar vazio, num balcão vazio, com um empregado ausente». «Mas estou cá eu. Não lhe basta?». «E sobra, como poderá concluir com que que acabei de enunciar». «Pronto, assim sendo, voltarei em melhor maré, boa tarde.». «Boa tarde e obrigado.» O obrigado foi porque me estava a sentir mal com a minha pouca urbanidade. Ela não merecia, realmente. Para mais marinheira. Mas eu estava mesmo triste. Para rematar, deixei-lhe um sorriso, que muito me custou e que ela deve ter entendido como de desprezo. Mas não era. Salvou-me do inconveniente novo grito da mola da porta para deixar entrar um cavalheiro arreado em três peças de fazenda riscada camisa aberta e sapatos de verniz, que vinha muito feliz – estes ambientes deixam-me sempre poeta –, estacionando debaixo da bola de espelhos com os braços abertos, como quem: vem a mim, convidando o vestido ondulante para o tango que começava a gemer vindo da cabine de som. Isto é demais para mim. Pedi a conta ao marreco e saí para vir para aqui.

– A sua esposa, não veio?... Porquê?

– Eu disse-lhe. Olha que hoje tenho consulta. Mas ela respondeu-me logo «já és crescidinho e não sou eu que estou doente.» Pensava que eu vinha ao cardiologista por causa do enfarte. Se soubesse que era aqui vinha logo, que ela anda muito curiosa; e como sabe que estas consultas são para desabafos arranjava logo vontade de vir. Mas ainda bem. Cada vez estamos pior. Ou melhor, enfim. Cada um para seu lado, para não causar estorvo. Pensar que houve uma época há muitos anos, há muitos anos mesmo… nem queira saber… que só queria andar de mãos dadas comigo. Eu na altura não queria. Era uma mariquice. Agora que dava um certo jeito, arreda-se. Tenho de levar isto para a piada. Quando tento falar com ela, grunhe. E eu grunho também, que é para ela ver. Só à frente dos filhos é que disfarçamos. Até ver. Qualquer dia, falta-me ao respeito à frente deles. Que não são burros. Já notaram que os tempos já foram outros. Mais familiares, mais amigos. Mas não dizem nada. Entreolham-se cabisbaixos com vontade de dizer alguma coisa, meter água na fervura – até parece que a coisa anda quente -, e depois vai cada um para seu canto até o desinteresse regressar. E a paz tomar conta do lugar. Só falta pôr-me fora de casa. Já faltou mais. Aqui há dias disse-lhe: «quando o viço e o vigor se vão, ou fica o respeito ou não resta nada». Perguntou-me de que é que eu estava a falar, onde é que eu tinha lido tamanha inteligência. Como é que um homem fica perante isto?

– Na próxima consulta a sua esposa tem de vir. Já devia ter vindo a esta primeira

– Talvez seja melhor passar uma receita para essa medicação.

 

José “João” Bessa

28/01/26

Compatíveis Incompatibilidades - Capítulo 3

 


Maria

Nessa longínqua noite, Maria que estava muito ligada ao seu bebé, sentiu um escalafrio, era a primeira vez que se iria separar do seu amor maior: o filho. Deixa-lo ao cuidado de sua mãezinha, era um conforto, mas ainda assim era deixá-lo!  Como é que foi que João tomou tal decisão sem primeiro falar com ela? Saber a sua opinião? Ela também queria sentir o calor do seu amado, claro. E por um lado até compreendeu que este lhe quisesse fazer uma surpresa, mas o seu filho…

Deixou passar… talvez fosse ela que estivesse errada.

Chegados ao hotel, prometeu a si própria esquecer aquele pequeno senão e fazer despoletar, naquela noite, o amor e a doçura que tinha ficado por realizar há um ano.  João escolhera uma suite maravilhosa com vista para o mar, aquele mar que os tinha enamorado.

Enquanto Maria desfazia a mala, João foi preparando dois copos de fino cristal, afinal era a sua primeira noite juntos e queria impressionar a sua amada. Deslocou- se devagarinho até ela, abraçou- a por trás e sussurrou ao seu ouvido:

-  Maria vem, vamos brindar ao nosso amor.

Ela virou o seu corpo, e deu com o corpo do João coladinho ao seu. Num ímpeto os seus lábios colaram-se e fizeram ali duas almas numa só.

A vida seguiu o seu caminho, o filho foi crescendo e de vez em quando Maria era surpreendida com situações idênticas. João decidia coisas sem a consultar. Ela no seu subconsciente estava a aperceber-se daquelas lacunas no seu casamento, mas ia deixando passar, porque não aceitava pensar que aquela atracão que tinha nascido de um encontro tão idílico se estava a corroer. E depois havia o filho… será que um dia mais tarde o Emanuel não se ressentiria por ser filho de pais separados?

Que embrulhada ia na sua cabeça! E mais ainda o que ela tinha dia e noite a martelar-lhe a cabeça… sim, aquele colega de trabalho, lindo, de olhos verdes, sempre a persegui-la. Ela que sempre pensou ser a honra da família, mas um ano é muito tempo e o César tornara- se tão gentil para ela e para o Emanuel...

Tudo isto e mais o João agora a escolher a casa com o pai ...

“Será que estou a fazer boas escolhas”

Para início de vida a dois era difícil aceitar. E mais, já o colega a alegrava tanto! Sempre tinha um elogio, ou um piropo.

Entretanto, fazia ao mundo querer que eram um casal feliz.

Chegou o dia do aniversário do Emanuel. Primeiro aninho, o pimpolho já dava os primeiros passinhos e balbuciou neste dia a primeira palavrinha:

- Ma… mamã... - foi uma alegria enorme para todos.

João olhou de soslaio para o rapaz que Maria, ao vê-lo entrar, rasgou o seu lindo sorriso e foi receber à porta. Maria viu que ele tinha uma das mãos escondida atrás das costas e na outra, um grande urso de peluche para o aniversariante, que mal o recebeu, correu de alegria a mostrar ao pai.

Enquanto isso o colega de Maria tirou a mão que tinha escondido e disse:

-  Este presente é para a mamã.

Atrapalhada, ela agradeceu e fixou os olhos no João, que parecia fogo.

Dia feliz, e mais feliz ainda porque o seu colega especial tinha aparecido…

 

                                                                     Clotilde Morgado Fonseca  

 

22/01/26

Compatíveis Incompatibilidades - Capítulo 2

 


João

Depois de findo aquele verão em que se conheceram, João passou o ano a sonhar com o próximo verão, a contar os dias para receber as cartas apaixonadas de Maria, que vinham rigorosamente a cada dois dias. Era o tempo de receberem uma carta, lê-la com o coração a acelerar-se descompassadamente, e depois sentarem-se à escrivaninha para, depois de ao menos dez tentativas, meter por fim uma carta repleta de sonhos, fortes emoções e muitas promessas de fidelidade eterna dentro de um envelope e ir aos CTT na manhã a seguir, deixar partir mais um bocadinho do amor que o inflamava.

Ficava em pulgas a imaginar o que Maria sentiria ao abrir aquele envelope e ser soterrada pela avalanche de amor e sofreguidão que tinha conseguido espremer em tão pequeno envelope.

Precisava ocupar o tempo com coisas práticas, pois só o que fazia quando não estava cheio de trabalho era pensar naquele corpo esguio que prendeu seus olhos e abalou para todo o sempre o seu coração, no verão anterior.

Precisava mergulhar nos estudos, para conseguir um trabalho que lhe desse estrutura financeira para deixar a casa dos pais e roubar a Maria à casa dos seus, pondo-lhe um anel, o seu nome de família, e que finalmente a pudesse levar para a casa que seria deles.

Passou a estudar com mais determinação, porque já não via a vida a marcar-se por verões. Não era possível ter de esperar por Maria por muito mais tempo. 

Ao chegar a convocação, preparou-se para partir para Angola, mas com uma impressão de que não deveria ir. Parecia que havia algo que não estava bem, mas não atinava o que pudesse ser. Na volta, iria de certeza oficializar o pedido de casamento, pois sabia que a Maria era a pessoa com quem gostava de viver pelo resto de sua vida. Os risos que riam juntos eram certeza mais que suficiente.

Afinal, estava mesmo certo sobre algo não estar bem. Recebeu a visita da Maria e sua tia às vésperas do embarque para Angola. A Maria estava grávida, mesmo com todo o respeito a que se obrigara diante da firme convicção de Maria durante os seus encontros.

Maria queria casar-se virgem, temia ser motivo de vergonha para os pais e a amada avó. Teve tanto cuidado, e acabou por perceber que se havia contido tanto para nada. Se calhar, se tivesse cedido aos seus ímpetos, a Maria não tivesse engravidado, possa!

Enfim, engravidou, sem que tivessem consumado o amor que lhe devorava os pensamentos e sentidos.

Não pôde deixar de pensar na Maria de Nazaré… iria, sim, cuidar da sua Maria, com todo o Amor que pudesse, e do seu pequeno milagre vindouro. Era mesmo a Maria que queria a seu lado por tudo o que o futuro trouxesse. Ia ser pai! Nisso, ainda não tinha pensado…

Precisou mudar a ordem dos eventos, ia casar-se quando voltasse de Angola, mas já agora… casaram-se, e entre lágrimas e beijos, despediram-se, e ele embarcou para Angola.

Sua amada Maria voltou com a tia para a casa dos pais dela. Nunca tinham pensado que o início poderia ser assim!

E veio um lindo menino, a quem chamaram Emanuel. Era um miúdo iluminado pela beleza do semblante doce de Maria. Emanuel nasceu de cesariana. A sua Maria tinha-lhe dado um filho, fruto de um amor cheio de certezas e sonhos, mas ainda não tinha sido inteiramente sua.

João via as fotografias que Maria enviava, e ficava a pensar na volta. Era a sua Maria, que carregava nos braços o fruto do amor que ainda não tinham feito.

Depois de um ano em Luanda, conseguiu voltar.

Já Emanuel contava 6 meses de vida. Apaixonou-se pelo filho, que era mesmo o fruto do amor que os embalara naquele verão já tão distante… passou o dia a dividir-se entre olhar embevecido para a sua Maria e para o filho dos dois. E que dúvida mais feliz era aquela!!

Naquele mesmo dia, disseram-lhe os seus pais que havia à venda uma casa, não muito distante da deles, numa freguesia próxima., e que já tinham parte do dinheiro para ajudá-lo a comprar. Queriam o neto perto de si. Já haviam conversado com os proprietários, e o negócio estava já praticamente acertado, mas precisava falar antes sobre isso à sua Maria, antes de tomar uma decisão, pois era afinal a casa onde ela iria viver pelo resto dos seus anos de vida. Queria saber antes se a Maria gostava. Ia ter muitos anos para fazer-lhe surpresas, mas, nesta noite, não. A surpresa que queria fazer à sua Maria nesta noite era outra!

Passou toda a tarde a derreter-se pela Maria e pelo Emanuel. Mas já tinha planeado convencer a sogra a cuidar do Emanuel por algumas horitas para ter, enfim, uma noite a sós com a sua Maria, no quarto mais giro do pequeno hotel da cidade em que viviam a sua Maria e o seu Emanuel, em casa dos pais da sua amada esposa.

A sogra aceitou, sem questionar!

“Beijinhos, Emanuel, o papá e a mamã vão deixar-te com a tua avó babada esta noite.  Porta-te bem, porque nós…”

 

                                                                                         Tixa Falchetto

12/01/26

Compatíveis Incompatibilidades - Capítulo 1

 


Maria

Maria, Maria, tantos sonhos investidos no teu despertar para o amor! Eras uma menina, de quase vinte anos, é certo, mas uma ‘menina’, quando tudo começou. Olhando para trás, posso dizer isso mesmo: eras uma menina, o ai-jesus da tua avó, que rejuvenescia sempre que ias ter com ela, nos dias moles de Verão; a avó, com a idade que hoje tens, continuava a acreditar no poder encantatório do Amor e na consumação desse Amor pelo casamento, abençoado por Deus e, como tal, ninguém com o direito de destruir. E tu, Maria, eras assim como ela, como a tua avó nefelibata, que sempre te falava da sua imensa felicidade ao lado do único homem que conhecera o seu corpo e que a respeitava acima de todas as coisas.

Agora que o seu casamento se esboroara, ao que parece, pelo desgaste, Maria dava por si, sentada no velho sofá, ao canto da lareira a remexer na trajectória da sua vida, afinal uma amálgama de areia e ondas, de montanhas e escarpas, de música a rasgar o horizonte, de ingenuidade e de pureza, que a educação em colégio de freiras tinha ajudado a desenhar.

Aquele primeiro contacto, quase sem pensar, no seio das águas, foi o baptismo do enamoramento, a celebração do amor, que despontava e lhe afogueava as maçãs do rosto e lhe enfraquecia as pernas.

Os encontros seguintes foram a descoberta dos pequenos prazeres do seu corpo, que ninguém antes tinha acariciado. Ainda sente as mãos de João, avançando suavemente, com delicadeza e conhecimento, activando os seus pontos mais sensíveis. João sabia parar e ela aceitava, confiante, no seu caminhar pelas sendas do amor e da sensualidade. João sabia como respeitar as fronteiras estipuladas pelas regras castradoras daquela época. Um dia, casariam – estava escrito no Destino – mas Maria iria virgem, vestida de branco e com ramo de flor de laranjeira, virgem, aos olhos de Deus e da sociedade. Assim pensavam os dois, assim havia de ser. Eram oficialmente namorados. A avó rejubilava ao acompanhar a felicidade da sua única neta. A mãe temia pela intimidade que a relação de Maria com João poderia alcançar. E inquietava-se, sondava, quem era, na verdade, aquele rapaz que prendera o coração da sua filha, de que família provinha, o que faria depois de cumprido o seu serviço militar. Como todos os mancebos da sua idade, iria, com certeza, ser enviado para uma das colónias portuguesas, forçado a ser útil à Pátria salazarista de então. E depois? Voltaria vivo, saudável ainda, ou com traumas daquela guerra, de contornos quase secretos e apologéticos, que ceifava jovens indefesos e ignorantes e semeava, pela aldeias e vilas de Portugal, espectros carregados de luto e de dor? A mãe inquietava-se de verdade, mas Maria trazia a sua imensa felicidade estampada no rosto. O Amor atenuava-lhe a perspectiva do perigo que espreitava em todos os lares. Maria não sabia nada das traições da vida; amava, entregava-se ao deleite de beijos doces e quentes e de pequenas excitações, que não afectavam a sua virgindade, cuidadosamente preservada, guardada para a primeira noite de núpcias, legítima sacralização dos corpos.

E o que todos temiam chegou, um dia: João partiu para Angola, ao som do hino “Angola é nossa!”, do bailado de lenços a acenar, no barco, e dos dramas da despedida no cais de embarque.

Nos dias que precederam esta partida, Maria foi com a madrinha à praia, aquela mesma praia onde tudo começara. Estendida na areia, relaxada, a receber os benefícios do Sol, Maria pensava nas carícias do seu amor. Boa observadora, a madrinha deteve o olhar na barriguinha ligeiramente arredondada de Maria. Um pensamento aflorou-lhe de repente. E questionou de chofre:

– Maria, estou a ver mal, ou estás mais gordinha?

– Não sei, Madrinha, mas eu até nem tenho mais apetite... devo sair à minha mãe, que, sendo magra, também tinha – e tem – uma barriguinha. Ou, então, pode ter a ver com a falta do período, que já não vem talvez há uns três meses...

– Ó filha, tu não estarás grávida?

– Ai que disparate, Madrinha nem pensar! Só por milagre!

– Olha, meu amor, pelo sim, pelo não, logo, vamos passar pela farmácia e vais fazer um teste.

– Pode ser, não tenho nada a perder. Mas garanto-lhe que isso seria impossível. Só por obra e graça do Espírito Santo – disse, em tom de brincadeira.

E o Espírito Santo, compôs, de facto, a sua obra divina. Maria estava grávida. E o seu mundo parecia desabar! Que vergonha! Como dizer à avó e à mãe? Interrogava-se, perplexa: como se engravida assim, apenas com umas ‘brincadeiras’?

Maria, na sua ingenuidade de convento nunca tinha ouvido falar dessa possibilidade. As freiras nunca abordavam temas desta natureza, acentuavam sempre a ideia de pecado e de Inferno em tudo que se relacionasse com sexo, e a mãe, por pudor ou ignorância, também não. Maria, a grávida virgem! Pensou na analogia com a origem do Cristianismo, com a história que a Igreja encontrou para explicar como Cristo veio ao mundo para nos salvar. Maria, a sempre virgem, dando à luz o seu filho redentor, misteriosamente, sem sabermos se teve dores de parto, se o seu velho marido, São José, participou desse acto de amor, se alguma vez teria sentido ciúmes do Espírito Santo... Isso fê-la sorrir. Mas um sobressalto veio cortar-lhe a subtileza desse sorriso: como dar a notícia ao João?

– Não te preocupes. Isso não é o fim do mundo, minha querida. Sossega. Eu vou contigo ao quartel.

Passado o choque do inusitado – afinal a sua técnica sexual tinha-o atraiçoado – urgia tomar medidas. Ia ser pai!

– Não estejas triste, Maria. O nosso amor é grande. Isso é que importa. Vamos casar e pronto. Não vais de véu e grinalda, mas levas o nosso filho dentro de ti. É um fruto precioso. Nós sempre falámos de casamento. Só vamos antecipar esse projecto.

O abraço caloroso do jovem militar serenou a jovem Maria, virgem e mãe, como a mãe de Jesus.

Emanuel nasceu, de cesariana; vinha loirinho e cheio de energia. O novo Menino Jesus. Que vida linda a de Maria e João!

Depois, João, tão longe, na incerteza diária de se manter vivo, mas tão envolvido emocionalmente no crescimento do seu Menino Jesus!

E tantas memórias a preencher os pensamentos de Maria! O que aconteceu depois, meu amor maior? O que foi que em nós se apagou e me deixou aqui, ao calor da lareira, a desfiar o rosário das nossas vidas? Será que tudo se deve mesmo ao desgaste? O Amor também se apaga, João, não é para sempre como pensamos quando nos apaixonamos? Ou... Alguém teria vindo agitar a serenidade cinzenta do nosso mar e eu nunca descobri?

 

                                                                     Albertina Fernandes

 

 

 

 

 

05/01/26

Compatíveis Incompatibilidades - Introdução



João nasceu numa pequena vila, situada na margem de um rio que corria para o mar. Certos dias, ao final da tarde, descia junto à margem até alcançar a foz. Ali chegado, caminhava pelo areal até chegar a um rochedo para onde subia e se sentava voltado para o mar, deixando que o seu olhar se estendesse languidamente sobre aquele grande oceano, até ao horizonte; aquela linha distante e enigmática atraía a sua atenção e comandava a sua imaginação. Ficava ali sentado durante várias horas. Por vezes, reclinava-se e adormecia. E quando dormia, embalado pelo som suave das ondas que se espraiavam na areia aos seus pés, sonhava; sonhava com lugares e gentes que não sabia sequer se existiam. Mas sonhava à mesma e prometia a si mesmo que um dia partiria por aquele mar adentro e iria conhecer tudo o que existia no mundo.

Num desses finais de tarde viu aparecer, caminhando pelo areal, os pés descalços pisando a linha d’agua, a figura esguia de uma rapariga. Cabelos castanhos soltos ao vento e o olhar, como o seu, perdido no horizonte. Sentiu- se invadido por uma forte vontade de saltar do rochedo e ir ao seu encontro. Esperou que ela olhasse na sua direção, mas o horizonte exercia nela uma forte atração e a sua atenção não se desviou.

Seguiu-a com o olhar.

Quando ela chegou ao final do areal, percebeu que parou por alguns minutos, depois, viu que retornava. Ao chegar mais perto, pareceu-lhe ainda mais bonita, o seu rosto mais luminoso, os seus cabelos refletiam com intensidade os raios de sol. Então, a vontade de se lhe dirigir aumentou. Quando ela passou à sua frente, João sentiu um forte impulso que o fez saltar do rochedo e caminhar na sua direção. Ao aproximar-se dela, disse de forma quase autómata:

– Olá, sou o João. E tu, como te chamas?

– Maria. – Respondeu-lhe sem parar de caminhar, e sem desviar o olhar daquele mar imenso.

Depois de uns momentos de hesitação, João decidiu caminhar ao seu lado. Perguntou-lhe se era dali. Respondeu-lhe que não, que estava a passar férias em casa da avó materna, numa aldeia ali perto. Após alguns momentos de caminhada, João foi contando a Maria como gostava daquela praia, de olhar o mar e de como o horizonte o fascinava e atraía. Falou-lhe da sua vontade imensa de conhecer o resto do mundo. Maria, aos poucos foi-se interessando por tudo o que João lhe falava e passou também a confidenciar-lhe os seus hábitos e sobretudo o seu enorme desejo de, também ela, desejar atravessar o mar e conhecer o mundo. Riram-se da enorme coincidência de gostos e, pouco depois, sem quase darem por isso, já caminhavam de mão dada enquanto contavam acontecimentos hilariantes das suas vidas. Chegados a umas escadinhas em madeira, perto do extremo da praia, onde o rio encontrava o mar, João perguntou se podia acompanhá-la a casa. Respondeu que não era necessário, que ainda tinha de passar pela mercearia, na vila, para comprar umas coisas que a avó lhe tinha pedido. Depois, sem que João esperasse, perguntou-lhe:

– Amanhã podemos voltar a encontrar-nos aqui, na praia? Gostei tanto de te conhecer e conversar contigo.

João, radiante, respondeu imediatamente que sim.

Combinaram a que horas se encontrariam e, para espanto do João, Maria despediu-se dele com um beijo na face, subindo imediatamente a escada, deixando-o meio aturdido, mas imensamente feliz. Aqueles encontros repetiram-se durante quinze dias, durante os quais, a amizade cresceu, acabando por se transformar em algo mais profundo, um sentimento mais forte que ia além da amizade e fazia crescer neles o desejo de se conhecerem mais intimamente. No penúltimo dia das férias de Maria, o tempo mudou, ameaçando chuva. Porém, não deixaram de se encontrar, como de costume. A meio da caminhada pela praia, começou a cair uma chuva miudinha, que em segundos se transformou num verdadeiro dilúvio. Sem pensar, ambos correram de mão dada para o mar, entraram dentro de água, mergulharam e quando voltaram à superfície os seus rostos encontraram-se e os seus lábios tocaram-se, primeiro, como que a provarem-se, mas logo em seguida, como se ambos sofressem de uma fome que era urgente mitigar. Amaram-se dentro daquela água tépida que parecia envolvê-los numa carícia instigadora. O vai e vem das ondas parecia dizer-lhes, amem-se… amem-se… amem-se. No dia seguinte, encontraram-se novamente. Desta vez, somente para se despedirem e prometer voltar a encontrar-se no próximo ano. 

Depois de quatro décadas juntos, João e Maria, ambos com sessenta anos, enfrentam uma encruzilhada silenciosa. O que começou com promessas de amor eterno e aventuras partilhadas agora parece um caminho desgastado pelo tempo e pela rotina. Os sonhos de juventude, as viagens, os filhos que cresceram e se foram – tudo isso deu lugar a um conforto mudo, um ao lado do outro, mas cada vez mais distantes. A desilusão instalou-se sorrateiramente, fruto de expectativas não ditas, de projetos adiados, de carências não preenchidas. Já não há o riso fácil, as conversas profundas, o toque espontâneo. O amor, agora, parece uma lembrança adormecida. Eles decidem separar-se, não com raiva ou ressentimento, mas com a triste constatação de que a vida de casados não foi o que imaginaram. Com respeito mútuo, escolhem seguir em frente, cada um em busca de um novo capítulo, de um reencontro consigo mesmos, com a esperança de reacender algo perdido pelo caminho.


                                                                               Bartolomeu Frederico


08/12/25

Caminhos e Encruzilhadas - Capítulo 11 - Final

Por prilfish from Vienna, Austria - Mafra, CC BY 2.0, h
ttps://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=71716377

        Adriano foi o primeiro a chegar ao Convento de Mafra. Chegou ao fim da tarde, cansado. Naquele enorme recinto da entrada, com turistas a vaguear e a tirar fotografias, ergueu, num impulso, as mãos ao céu e agradeceu a Deus por o ter guiado até ali, são e salvo.

E deu-se conta do insólito: já não se lembrava da última vez que tinha rezado. Nem durante a doença, nem, depois, na morte de Paula, o tinha feito, tão revoltado estava com um Deus que interrompia a vida de uma mulher ainda nova, uma mulher dedicada à família, que nunca tinha feito mal a ninguém. E agora, sem quase dar conta, erguera as mãos, numa oração.

Teria aquilo algum significado?

De ossos e músculos moídos, sentou-se num dos degraus da entrada e tirou a garrafa de água da mochila. Depois de alguns goles, perguntou-se se teria sido a Paula, lá no céu, a erguer-lhe as mãos. Bem possível…

Vieram-lhe as lágrimas aos olhos. Mas, pela primeira vez, em muitos meses, não se sentiu sozinho. Deixou-se embrenhar naquela sensação, de haver alguém que olhava por ele e lhe desejava felicidade.

Passado uns minutos, respirou fundo e olhou em volta. Viu algumas pessoas de mochila e havia mesmo uma mulher sozinha. Mas não era a Estrela, aquela devia andar pelos trinta anos.

Esperou mais um pouco, até a fome apertar. Jantou num restaurante ali perto e regressou à entrada do Convento.

Nada.

Resistiu à tentação de lhe ligar. Tinham combinado só o fazer depois de, pelo menos, um dia inteiro à espera, para não estragar a expectativa, a surpresa.

Quando ficou tarde, Adriano só queria deitar-se e dormir. Dirigiu-se ao hotel que lhe tinham recomendado, tomou banho e adormeceu mal a cabeça lhe caiu na almofada.

Acordou revigorado. Tomou o pequeno-almoço e encaminhou-se para o local do encontro. Deu algumas voltas pelas imediações, observando as pessoas que iam chegando de mochila, espantado com a quantidade de caminhantes. A maior parte vinha em grupos. Também havia homens sozinhos, mas só viu duas mulheres nessa situação. Uma delas pareceu-lhe a Estrela. Porém, ao passar perto dela, duvidou. E ela não mostrou qualquer reação.

Depois do almoço, regressou. À medida que a tarde avançava e se aproximava a hora de jantar, começou a ficar preocupado. Deveria ligar-lhe? Talvez quando regressasse ao hotel…

Começou a escurecer. Adriano perguntava-se se devia jantar no mesmo restaurante, ou experimentar outro, quando se apercebeu de uma mulher sozinha, com mochila. Parecia muito cansada. E, de repente, a mulher ajoelhou-se, erguendo as mãos ao céu.

O mesmo gesto…

Num impulso, foi direito a ela.

E ela escancarou os olhos, exclamou:

– Adriano!

Ajudou-a a levantar-se, mas sentiu uma ponta de desilusão. O olhar não era o mesmo. Ou seria do cansaço? Estrela parecia esgotada. O cabelo, apanhado num rabo de cavalo, apresentava algumas brancas.

De repente, Adriano envergonhou-se da sua desilusão. De que estava ele à espera? Ele, que já tinha dormido, descansado, comido bem… enquanto ela acabara de chegar de uma jornada cansativa. Estrela dizia-lhe agora ter andado quase 60 km, naquele dia.

Estavam ali os dois, tinham chegado ao seu destino. E tinham-se um ao outro. Era uma ocasião para festejar, não para remoer desilusões.

O jantar foi divertido, os dois conversando sobre as peripécias do caminho. Depois, Estrela estava tão cansada, que quis ir logo dormir. No hotel, pediu um quarto para ela.

Despediram-se.

Adriano não adormeceu tão rapidamente como na noite anterior. Recordou o serão, passo a passo. Os dois continuavam a entender-se bem, gostavam da companhia um do outro. Para quem se sentia sozinho, há já quase um ano, tinham sido ótimos momentos.

 

Na manhã seguinte, Estrela surgiu à mesa do pequeno-almoço mais luminosa e sorridente. Disse-lhe que pretendia passar ali em Mafra os seus restantes quatro dias de férias. E logo a seguir:

– Sabes o que me apetece fazer hoje?

– Não. Diz!

– Vamos visitar o Convento? Nunca mais lá estive, desde aquele dia, há mais de quarenta anos.

– Curioso. Eu também não.

Ela piscou-lhe o olho:

– Desta vez, vamos ficar mais atentos às palavras do guia.

Riram-se os dois.

 

Começaram a visita, num grupo, atentos às explicações do funcionário. Nisto, porém, Estrela viu à sua frente um quadro que lhe trouxe uma recordação. Cochichou ao Adriano:

– Não era este que era parecido com o padre da tua freguesia?

Desataram os dois aos risos abafados. Quando conseguiu falar, ele admirou-se:

– Ainda te lembras?

– Claro.

Olharam-se divertidos, mais alguns risos abafados. Alguns turistas mostraram-se incomodados.

Estrela sugeriu.

– Portemo-nos bem! Já não temos onze anos.

À medida que a visita avançava, porém, iam-se recordando das histórias que tinham inventado para as figuras de certos quadros, como tinham troçado de certas estátuas e até de alguns móveis.

Viam-se aflitos para controlar o riso. Pareciam dois adolescentes patetas, sem sensibilidade para obras de arte. Depois de mais alguns olhares indignados, afastaram-se um pouco do grupo, embora ainda o seguindo.

Sentiam-se a viajar no tempo. Lá estava a cumplicidade que os tinha ligado, aos onze anos. Regressara o olhar recordado pelo Adriano, assim como o sorriso guardado na memória de Estrela.

Ao saírem do edifício, sentiam-se pessoas diferentes das que haviam lá entrado. Eram dois adultos que haviam recuperado o encanto infantil um pelo outro. Beijaram-se espontaneamente. Contaram sobre as suas vidas. Riram e choraram juntos.

Passaram a ocupar apenas um quarto, no hotel.

 

No dia seguinte, durante um passeio num parque, Estrela perguntou:

– Achas que vale a pena tentarmos uma relação?

Depois de uma hesitação, Adriano respondeu:

– Tenho um certo receio de que a distância acabe por a minar. Penso estar fora de questão uma mudança de casa, seja para que lado for. Nenhum de nós se pode dar ao luxo de deixar o emprego.

Estrela sugeriu que se sentassem num banco e disse, depois:

– Sabes, esta caminhada modificou mesmo a minha vida. Pelo menos, a maneira como quero viver, daqui para a frente. Sempre pensei mais nos outros do que em mim, principalmente, depois de formar família. Mas os filhos estão adultos. É certo que ainda dependem bastante de mim, apesar de receberem dinheiro do pai até acabarem os seus cursos. E eu, por vezes, queixo-me de que me visitam poucas vezes, acuso-os de me terem esquecido... Mas, sabes, no fundo, é natural, não adianta fazer um drama à volta disso. Por mais que me custe, tenho de aprender a desprender. E a pensar em mim. – Encarou-o, de olhos cintilantes:

– A pensar, por exemplo, que nunca na vida fui tão livre como sou agora.

– E não é que tens razão? É assim mesmo que devemos pensar.

– Pela primeira vez, não tenho ninguém a quem dar satisfações. – Sorriu: – Acho que ia gostar de não passar o fim-de-semana sempre em casa. Porque não uma viagem ao Algarve, uma vez por mês? E tu também podias fazer o mesmo, indo a Viana. Ou não?

– Claro. E talvez pudéssemos ir, de vez em quando, a Lisboa, onde mora o meu filho.

Sorriram-se. Beijaram-se. Depois Adriano disse, pensativo:

– E talvez pudéssemos passar fins-de-semana ainda noutro sítio…

– Onde?

– Vamos almoçar primeiro. Depois, quero mostrar-te uma coisa.

 

A seguir ao almoço, foram para o hotel. Chegados ao quarto, Adriano foi buscar a caixa de Afonso. Contou a história dele e concluiu:

– Ele disse-me que eu iria encontrar a hora certa para abrir a caixa. E tinha razão.

Lá dentro, havia algumas fotografias da filha, por vezes, sozinha, outras, com ele próprio. Também havia um documento antigo. Adriano analisou-o: era a certidão de nascimento de Afonso, com o nome dos pais e dos avós.

Havia também um envelope. Adriano abriu-o e leu alto o bilhete que lá se encontrava:

 

Caro amigo:

Pode achar-me maluco por lhe ter dado estas fotografias. Para lhe dizer a verdade, nem eu sei bem porque o fiz. Apesar de o nosso primeiro contacto não ter sido amigável, acabámos a conversar amenamente e acabei por partilhar consigo coisas da minha vida que, normalmente, não revelo a ninguém.

Sabe, talvez me tenha tornado “bicho-do-mato”, depois do que me aconteceu. E talvez tenha sido isso que levou a minha filha para longe de mim, desejosa de uma vida mais social. Talvez eu a tenha isolado demais, nesse meu medo de que ela também me deixasse. Enquanto foi criança, tudo correu bem.

Mas eu devia calcular que, chegando a uma certa idade, ela desejasse outros voos.

Acabou por acontecer o que eu mais temia. Porém, depois da sua visita, vá-se lá saber porquê, recuperei a esperança de que, um dia, ela me venha visitar e converse em bom termo comigo.

Desejo-lhe uma boa caminhada e que chegue ao seu destino de boa saúde. Também lhe desejo que reencontre essa sua amiga de quem me falou e tudo corra bem.

A sua amiga Estrela é aliás o motivo por que pus a cópia da minha certidão de nascimento na caixa. Como lhe disse, nasci em Viana, os meus pais eram de lá. Será que a Estrela me saberá contar coisas da minha família?

Resta-me dizer-lhe que em minha casa será sempre bem-vindo, sozinho ou acompanhado.

Um abraço

Afonso

 

Depois da leitura, houve um momento de silêncio, quebrado enfim por Estrela:

– Calha bem.

– O quê?

– Acho que vou gostar do lugar onde mora o Afonso. Durante a caminhada, senti esse desejo de arranjar momentos para fugir à minha vida citadina. E quanto à família dele… – pegou na antiga certidão e acrescentou: – Conheço gente com estes apelidos, em Viana. Não sei se estão relacionados com ele, mas posso perguntar a amigos e conhecidos se os nomes próprios lhes dizem alguma coisa.

– Darias uma grande alegria ao Afonso.

– Sim. Sabes, acho que vou gostar muito desta nossa nova vida.

– A vida começa aos 53 – retorquiu Adriano, emocionado.

– A avaliar por Afonso, eu diria que a vida começa sempre que quisermos.

 

                                                                                         Cristina Torrão

12/01/24

Caminhos e Encruzilhadas - Capítulo 10



Estrela

As cores do sol dissolviam-se sobre o mar deixando as ondas alaranjadas. Caminhei por mais de 2 horas até conseguir sentir as areias da praia de Figueira da Foz coçarem a pele dos meus pés. Contemplo o horizonte marítimo enquanto o vento fresco atravessa meu corpo, carregando com ele uma estranha sensação de nostalgia, que já esperava fosse me atingir. Por um instante, sentia que não era a Estrela de agora, mas a de há anos atrás. Fecho os olhos e deixo a aragem percorrer minha pele e bagunçar meus cabelos negros. Quantos anos faz afinal? Em algum lugar do passado estive aqui com Marcelino, em uma época em que a felicidade parecia ao alcance de nossas mãos. Eu era apenas uma jovem que não entendia quase nada da vida. Diferente de agora, que sou uma mulher adulta e pareço entender dela ainda menos. Como disse antes, há muitos jeitos de amar e de uma certa maneira, eu e Marcelino nos amamos intensamente. Porém, às vezes a estrada fica difícil e o caminho estreito e no final nem sabemos quem está deixando quem ir embora.

Agora aqui de novo, olho para tudo isso. A areia debaixo dos dedos, as ondas do oceano lambendo a praia, os pássaros marinhos mergulhando atrás dos peixes, o vento cortando o rosto, o sol clareando tudo. Tudo parece tão igual. Tão simetricamente igual. Porém, tudo me soa tão estranho agora, como se eu não pertencesse a nada disso. Será que Marcelino sentiria a mesma sensação?

Caminho pela areia rememorando quando estivemos aqui a primeira vez. Lembro de quando já entardecia, Marcelino estava no mar, então começou a chover. Gotas grossas caiam sobre as ondas. Marcelino veio correndo até a areia onde eu estava em pé. Eu ia dizer para irmos embora por causa da chuva, quando ele me surpreendeu com um beijo. Foi um beijo forte, espontâneo, e pude sentir a areia de seus lábios salgando minha boca enquanto a chuva encharcava nossos corpos. Fomos correndo de mãos dadas até a casa em que estávamos. Tomamos banho e quando anoiteceu fizemos amor na varanda, ouvindo Patti Smith e o assoalho de madeira ranger debaixo de nós.

Sorrio lembrando disso tudo. Porém, preciso voltar para o presente, único lugar que me pertence. Respiro fundo e me recordo que estou indo ver Adriano. Então uma ponta de insegurança machuca meu peito e sinto borboletas no estômago. Não sou mais aquela jovem. Será que ele vai gostar do que o tempo me tornou? E será que minha alma cansada ainda pode sentir a paixão ardendo por dentro?

Então, como por um sinal divino, olho para o lado e um rapaz moreno de ombros largos e camisa florida me encara fixamente. Meu olhar esbarra nele por um instante e ele deixa escapar um leve sorriso malicioso para mim. Não sei quantos anos ele tem, mas deve ser metade dos meus. Devolvo a gentileza do sorriso com outro. Me viro e vou caminhando lentamente para longe da praia. Preciso seguir meu caminho e ele leva a Adriano e tudo que pode acontecer depois de todos esses anos.

A essa altura, antes de continuar, cabe agora indagar a pergunta que me trouxe aqui. Estou mesmo livre do passado e dos sentimentos que um dia tive por Marcelino, a ponto de seguir em frente? Minha resposta diante disso só pode ser: com certeza!

Meu coração estranhamente palpita e meu corpo parece entrar em ebulição interna. Percebo que minhas memórias daqui são recortes bonitos de um tempo bom. Porém, meu desejo e meus anseios não estão no passado e sim no porvir. Não iniciei essa longa jornada e cheguei até aqui para me reencontrar com o passado e sim para me encontrar com o futuro e de braços abertos lhe abraçar e acolher.

Com isso em mente, continuo rumo a meu encontro com Adriano, pois a nós dois pertence esse futuro. Futuro incerto, é verdade, mas quem tem certeza de alguma coisa nessa vida?

 

                                                         Grégor Carlos Marcondes