16/08/19

Variações em Quadrilha - Capítulo 6

        
            Lili
Do filme "Love Story"

Lili não amava ninguém. Não compreendia sequer a razão pela qual deveria amar. Afinal, tanto quanto percebia, o amor não era mais que uma capa para os ciúmes, o asco, a desconfiança, quantas vezes o ódio, que todos de todos tinham. Não amava ninguém, sublinha-se. Mas procedia de modo a simular amar toda a gente, e, por isso, ninguém havia que a não amasse. E esse feito, conseguia-o facilmente pela indiferença, um quase desdém que pessoa alguma destruía porque, simplesmente, não o detectava. Era dócil por feitio, desprendida por qualidade, simpática e aparentemente submissa porque a ira provoca rugas e ela gostava de se apaixonar por si. Parecia amar, desprezando. E recolhia amor por parecer que amava. Tudo fazia ao contrário. Toda ela, falsamente, se dava, até que as pessoas, conquistadas, se dessem. E ela pudesse manipulá-las. Submetia-se às vontades dos outros ao ponto de deixarem de ver que essas mesmas vontades, quando satisfeitas, já não eram delas, mas suas.


Conseguia, unicamente gostando de si, que todos dela gostassem e poder assim odiá-los ainda mais. Era quase como se, logo à nascença, tivesse tirado um curso de psicologia que lhe concedia o dom de funcionar com tudo do avesso. Despercebidamente, baralhava e dava as cartas de um jogo cujas regras só ela conhecia, ao ponto de serem seus os trunfos de naipes que só a sua mão faziam triunfar.

As suas armas eram o seu corpo sedutor, a sua doçura no trato, o riso fácil e o olhar mentiroso que, também ele, fazia crer a quem consigo se cruzasse o contrário daquilo que habitualmente sentia. Que era nada. E, com alguma modéstia, a este seu modo de jogar com as pessoas, nem sequer apelidava de inteligente. Não. Era tão só uma habilidade intrínseca, nata, de saber manobrá-las. E para a qual, sem sombra de dúvidas, muito contribuíra o seu diploma de enfermeira na área da psiquiatria.

As mulheres eram as mais fáceis de anular. Porque, habitualmente, nem necessitam de intervenção para que não se entendam. A inveja, os ciúmes, as intrigas entre si acerca de outras obviamente ausentes, o desdém sobre o penteado desta, que, “coitada, deve pensar que tem vinte anos”, o corte da saia daquela, que, “desgraçada, vê-se mesmo que anda a oferecer-se”, a “lingerie” comprada, apreciada e elogiada a outra, que, entre-dentes, “olha-me esta putéfia, então mas comprou aquilo para mostrar a quem? Ao marido não é, certamente”, derrotavam-nas à nascença. Quando isso não acontecia e urgia eliminar a senhora em causa, vítima sabe-se lá se de depressões, desilusões ou até a falta de outros “ões”, lá aparecia ela e o seu “simposium terapêutico” que, além de soluções, lhe granjeava prestígio. Fora assim com Maria, “tomas umas gotas disto, uns comprimidos daquilo e verás que melhoras”. Normalmente, sendo essa a sua intenção, não melhoravam – tal como a Maria, ficavam todas um pouco taralhoucas – mas também nunca ninguém a poderia acusar de crime algum. Qualquer técnico de saúde sabe que o “Simpósium” existe para se poder receitar o que, eventualmente, fará bem ao paciente. Se as reacções não são as desejadas, paciência. Nem todos os corpos reagem do mesmo modo àquilo que lhes dão. Não somos todos iguais, ora essa!

Era, portanto, fácil afastar do caminho as mulheres empecilhos quando não se empecilhavam a si próprias.

Já com os homens a coisa piava mais fino. Mais unidos, mais cúmplices, menos intriguistas, tornavam-se por vezes mais perigosos, acima de tudo por, amiúde, serem mais papagaios e se porem a palrar sobre o que comeram sem nada terem comido.

E ela era bela, sabia-o. Que queriam eles de si, nesse caso? Pois, todos o mesmo. Só o modo de o conseguir diferia, ainda que sempre com a promessa de amor a pender-lhes dos lábios, sem nunca entenderem, coitados, que ela não amava ninguém. Assim conhecera Raimundo que a desejava como a Jesus nas palhinhas deitado. Ela atiçava-o, espevitava-o, punha-o louco, e quando os olhos já se lhe reviravam, a baba luzia e as mãos lhe procuravam o corpo como ao náufrago em busca de jangada, então, só então, ela dizia-lhe que não, que era pecado, ao que ele retorquia não fazer mal, não se importar. “Mas não queres ser padre? Como vais tu conseguir lidar entre a profissão de fé e a fé de que te entregue o que tanto anseias?”. E o homem definhava, tresloucava, vivia com um pé na terra que não sentia e outro no céu onde (ainda) não estava. Ainda hoje recordava, sorrindo, a confusão em que andaria o pobre diabo quando se deu o desastre. Nunca lhe fora tão fácil fazer de um homem um perfeito desastrado.

Depois veio o Joaquim. Bom, com esse cedera. Afinal, até mesmo uma mulher que não ame ninguém tem as suas necessidades fisiológicas. Mas aí matava não dois coelhos, como soe dizer-se, mas três – Ah, caçadora! – com uma só cajadada. Saciava-se, saciava-o e ainda deixava Maria a efervescer de raiva ao permitir-lhe que espreitasse pela porta entreaberta. Como foi feliz nessa altura. O prazer na cama e o gozo atrás da porta. Quase não precisou de agir para o aniquilar, as circunstâncias encarregaram-se de lhe ditar o destino. Maria de um lado a azucrinar-lhe a cabeça e o desgraçado definitivamente enfeitiçado por Lili, só poderia ter como consequência a decisão que então tomou, ao saber que também ela tinha sido a causa do esfrangalhamento do primeiro.

É que – é justo que se diga – as capacidades manipuladoras de Lili não se cingiam ao corpo ou ao modo afável do trato. Note-se aqui o uso da palavra “azucrinar”. Pois bem, era termo alheado do dicionário de Lili. Nunca maçava fosse quem fosse, precisamente por desprezar toda a gente. Aquelas frases sobejamente conhecidas, tipo “porque deixaste as meias em cima da torneira da casa de banho e…pfff!, há quanto tempo andas com elas?”, ou “já tomaste o comprimido das quatro e meia? Depois não te venhas queixar da azia”, ou “larga lá a porcaria do futebol e chega aqui para eu te contar o que me disse hoje a vizinha”, ou “deixa mas é as gajas do facebook e vê se pões a mesa que isto cá em casa não há criadas”, essas frases, ou parecidas, nunca viriam de si para moer o juízo de um homem. Porquê? Precisamente porque não amava ninguém e lhe era indiferente tudo o que todos fizessem. E qual o membro do chamado sexo forte que não fraqueja, não cede, perante uma mulher plena de amor (falso!, mas isso só nós sabemos) que não lhe frita os miolos com coisas de meias e comprimidos, vizinhas e “pores” de mesas? Quase apetece dizer que homem que não se satisfaça com uma mulher assim, não é homem, nem é nada.  

Por essa razão, por ver nela alguém que lhe respeitaria a liberdade mesmo depois de casado, andava agora Alberto a dar à costa. Tipo machão, camisa aberta a mostrar o fio de ouro que a mãe lhe dera – e assim ele não precisara de roubar – aquando da última despedida da senhora, não parava de telefonar a convidá-la para isto e para aquilo. Fazia-se muito romântico – uma voz melada, pausada, sussurrada, como quando se muda a fralda borrada a bebés que berram – mas ela já percebera a confusão que ele fazia entre Lili e “Pipi”, assediando uma para conseguir chegar à outra. Só tinha um problema, coitado, facilmente se lhe dava a volta. Há poucos dias telefonara-lhe para a convidar a irem ver a reposição do filme “Love Story” de Arthur Hilley (o realizador só Lili sabia, obviamente) e ela já estava a ver o “outro filme”: ele, no escuro do cinema, a chegar-se a ela, a dizer-lhe ao ouvido que precisava da sua mão, que não podia com aquelas injustiças do destino, que coitadinha da rapariga e tal com um cancro e coisa, logo agora que lhe aparecera um gajo, e ele que até lhe vinham as lágrimas aos olhos com tamanho castigo de Deus… Sim, seria tal e qual como pensava, ou não fosse um dos segredos do seu sucesso a antecipação de cenas. Então sugeriu que, em vez daquela, fossem ver uma outra reposição, “A Fúria do Dragão” com Bruce Lee. Ele aceitou enternecido, desarmado com o gosto dela em lhe agradar e, como calculara, nada aconteceu. O homem ficara de tal modo agarrado à pancadaria, aos músculos e aos truques acrobáticos, remexendo-se na cadeira e pontapeando a da frente, que se esquecera dela. Lili sabia perfeitamente que todos os homens são assim. Ponha-se à frente dos olhos aquilo de que gostam e rapidamente se esquecem daquilo que realmente queriam. Agora só tinha de pensar como ia “tratar-lhe da saúde”. Tinha dinheiro, fruto de uma qualquer missão no Afeganistão ou no Azerbaijão ou outro “ão” qualquer, cujo nome tinha tatuado no braço onde dobrava a manga curta da camisa para que melhor se visse. Mas não havia pressa.

Mas não se pense, apesar do insinuado no parágrafo anterior, que Lili agia assim por dinheiro. Não! Ainda que, obviamente, se um casaco tem de ter botões, melhor será que sejam de madrepérola que de latão ou cordel. E se o puder ganhar com esperteza, antes isso que com trabalho. Não se transpira tanto e a recompensa é quase sempre maior. Mas não era pelo dinheiro, não. Lili tinha sobretudo prazer em sentir-se como uma bela flor a que toda a gente deita a mão, mas que tardia e repentinamente a afasta, já com um dedo a menos por ser carnívora a planta.

No entanto, este mundo é um conto a que a todo o instante se acrescenta um ponto. E Lili, como qualquer pessoa, tem o dever de projectar o futuro. E, por isso, reflecte. Não amando ninguém e sendo efémeros os que a amam, que lhe reservará o destino baseado num passado com tão pouco que contar?

Sabe-se – sabem os narradores – que desposará, não já, mas daqui a uns anos, um homem chamado J. Pinto Fernandes. Segundo consta, alguém ligado à construção civil e familiar afastado de um tal J. Pimenta, cujo apelido – não o apelido do fim, mas o do início (há códigos civis que, bem pagos, fornecem apelidos onde se quiser) na primeira inicial do nome, mais snob por diferente – cujo apelido, dizíamos, lhe abrirá portas à velhice que merece. Fiel à sua linha de conduta, Lili não o amará. Não porque seja feio. O seu estrabismo e os pêlos a evadirem-se pelas narinas até lhe dão um ar engraçado. E não tem os dentes todos, mas quando ele lhe confessar que os substituirá por uns de ouro, ela irá pensar em como partir-lhe os restantes. Para além disso, chama-se Pinto e, os pintos, vêm a nós quando lhes damos comida e deixam-nos em paz quando nada lhes damos. Nunca ela lhe confessará que não o ama, mas exigirá dele o amor, quanto baste, que obrigatoriamente ele lhe terá de dar. Só assim se consolidam os matrimónios. Assim, ou numas idas ao dentista para que removam os dentes postos, porque mesmo de ouro, há próteses que não encaixam bem. Cereja em cima do bolo, verá nele uma enorme qualidade – lida em tempos idos num livro antigo – nunca encontrada em homem algum. A de ter inteligência suficiente para reconhecer que é estúpido. Quem sabe – desconhecemos sempre o que a idade nos reserva – se não conseguirá amá-lo um bocadinho por isso? 




                                                                                  João J. A. Madeira


09/08/19

Variações em Quadrilha - Capítulo 5

       
           Joaquim 

Imagem de M P por Pixabay

Sempre soubera que Maria era fraca, mas que o caso do jovem padre a fosse afectar daquela maneira, jamais imaginara. Afinal, já tinham sido tantos os incautos a cair na sua excentricidade aparentemente maléfica… é certo que, possivelmente, nenhum outro chegara a saber o verdadeiro propósito do assédio de que tinha sido alvo, porque assédios verdadeiramente não eram, mas que raio, não era caso para se desesperar até à morte. E Maria, também porque é que tinha de tomar as dores do rapaz? Se o tivesse esquecido, como havia feito com os outros, não tinha sabido do acidente e consequente morte e tudo teria continuado na mesma: ela a caçar presas durante o dia, para à noite, os dois se deleitarem com os seus segredos de alcova.
Agora, da jovem fogosa e apaixonada, nada mais restava que os pequenos resquícios de beleza que ainda vislumbrava naquele corpo magro, quando às escondidas a vigiava. Sabia que ela não o queria ver mais, mas ele sentia essa necessidade, como uma obrigação. Quando a conhecera era tão jovem, tão inexperiente das coisas da vida, que só aquele palco e o xaile no gingar do microfone podiam tê-lo levado ao engano. Talvez a culpa de tudo aquilo, de toda a situação por que Maria passava agora, fosse dele. Incentivara a frieza e a ausência de carácter, que logo lhe reconhecera, em proveito próprio, sem sequer se preocupar com os danos que toda aquela clandestinidade poderia provocar numa mente de estrutura frágil.
 Por isso a ajudou, para expurgar a culpa que ainda não tinha a certeza se sentia. Procurou ajuda profissional e deixou-a continuar em sua casa. Antes não o tivesse feito!
Lili, com a sua postura arejada e jeito falsamente meigo de ser, fê-lo apaixonar-se. Em pouco tempo, absorveu toda a sua atenção e disponibilidade para se dedicar a outra pessoa. Os olhares, os toques inusitados, as palavras quase codificadas… tudo isso, Maria observava com um sofrimento profundo. Até que um dia, fingiu estar bem e foi para a casa que herdara. Sim, Joaquim tinha a certeza que Maria fingira.
Ninguém muda de um dia para o outro o que lhe foi cimentado desde a raiz. Maria até poderia iludir-se a si própria, convencer-se que era capaz de enveredar pelo caminho altruísta que planeava com extremo afinco, mas um dia viria em que a construção desmoronaria. Porque ela não era assim, ela não tinha sido feita assim. Ela tinha sido feita para ser servida e não para servir. E nesse dia, ele tinha de lá estar. Já que não tinha estado quando Maria pedira socorro, em silêncio.
Envolvera-se numa paixão maldita que o cegara por completo. Paixão essa que ainda o consumia… mas já não lhe tirava a lucidez, como acontecera até então.
Lili era o demónio em forma de mulher. Mulher sensual é verdade, mas demoníaca na mesma proporção. Enfeitiçara-o com o prazer da carne e ainda mais com o delírio da mente, nas alvoradas em que juntos ascendiam aos céus. Durante dias e principalmente noites fizera-o esquecer Maria, a sua doença e a sua necessidade de protecção. Quando por momentos a lembrava e tentava chamar a atenção de Lili para o facto de Maria se encontrar no quarto ao lado, esta logo o tranquilizava com a maior desfaçatez, dizendo que passara por lá antes de vir ao encontro dele e que a coitadinha dormia o sono dos anjos. De seguida enrolava-o em luxúria e de imediato, Joaquim entrava na rota do torpor em que vivia por aqueles dias.
Até ao momento em que, a altas horas de uma madrugada, num esgueirar de olhos se viu confrontado com a expressão desesperada de Maria, pela porta entreaberta. Olhou para Lili e viu o riso pérfido soltar-se-lhe em sonoras gargalhadas. Percebeu, naquele instante, o que Lili tinha andado a fazer: usara-o para enlouquecer Maria, pois sabia que Maria o amava. O pior é que também ele já a amava irremediavelmente a ela: Lili!
Maria ainda ficou mais uns dias em casa de Joaquim, depois de ele mandar Lili embora, mas quando saiu foi para não mais voltar.
Estranhamente, ou talvez não, Joaquim começou a preocupar-se com Maria, por entremeio aos sonhos acordados e adormecidos que tinha com Lili. E o seu tempo tornou-se algo sem nexo, que o atormentava cada vez mais. Entre as idas e vindas do hospital, vigiava Maria, mas não procurava Lili. Ainda não percebia o porquê do seu comportamento, mas naquele momento, nem o seu próprio compreendia.
No entanto, mais cedo do que previra, veio o esclarecimento. Lili esperava-o, no consultório, numa manhã ao chegar para trabalhar.
- Bom dia, meu amor!
- O que é que fazes aqui?
- Então, não gostaste da surpresa? - Lili exibia um sorriso irónico - Não tens vontade de recordar os velhos tempos? Oh, que pena… tinha umas coisinhas para te sussurrar ao ouvido.
- Lili, sai daqui!
- Já? Mas ainda não te disse o que vim cá fazer…
- Não quero saber, sai!
- Pensei que me amavas…
- O que é que isso interessa? Tu não me amaste.
- Hum, hum… aí é que tu te enganas. Interessa e muito! É aborrecido sentirmos na pele o mal que fizemos aos outros, não é?
- Mas tu enlouqueceste ou quê? Do que é que estás para aí a falar?
- Do futuro padre… Raimundo. Lembras-te?
- Esse é o padre que morreu em consequência de um atropelamento.
- Que tu e ela mataram, queres tu dizer!
- O quê? Mas onde raio foste buscar essa ideia?!
- Eu sei de tudo, Joaquim. Sei que ela, a tua amiguinha, fez com que ele se apaixonasse e os dois esfregaram-lhe na cara o gozo de que tinha sido alvo.
- Isso não faz com que tenhamos tido alguma coisa a ver com a sua morte.
- É como se o tivessem matado com as próprias mãos, não vês?
- Não, não vejo… mas o que é tu tens a ver com isso? Amava-lo?
- Amar? – Lili soltou a sonora gargalhada, aquela que ele tão bem conhecia. – Oh meu querido, amar é para os fracos.
- Então… não entendo…
- O Raimundo era de uma família riquíssima. Essa riqueza ia ser toda minha… se aquela… se tu e aquela cabra não tivessem estragado o meu plano.
- Ele era padre.
- Quase padre! Ainda não era padre, nem nunca seria. Estava quase a fazê-lo desistir da ideia, quando ela apareceu.
Joaquim, atónito com tais revelações, deixou-se cair na cadeira atrás da secretária. Mas Lili ainda não tinha terminado e aproximou-se, olhando-o no fundo dos olhos.
- É claro que já relatei os acontecimentos à polícia, numa versão cheia de pormenores bem requintados. Afinal, manipulação é rotina para mim, como tu bem sabes!
Joaquim levantou-se rapidamente da cadeira para tentar agarrar Lili, que saía apressada, com um sorriso no rosto, mas foi interrompido pela recepcionista:
- Sr. Doutor, estão ali dois agentes da polícia judiciária que querem falar consigo.
- Peça-lhes para esperarem cinco minutos e depois mande-os entrar…

Naquele dia, as primeiras páginas de todos os jornais vespertinos exibiam o mesmo título:
MÉDICO SUICIDOU-SE NA CASA DE BANHO DO HOSPITAL



                                                                                  Luísa Vaz Tavares


30/07/19

Variações em Quadrilha - Capítulo 4


Maria

Ilustração para a capa da Revista Superinteressante, da Editora Abril.

Dias passados do acidente em que Raimundo partiu para uma outra vida, Maria, ao contrário do que lhe era habitual, andava curiosa de saber do jovem lindo, inexperiente, doce. Seu último objecto de sedução... Maria do Rosário ou muito simplesmente Maria, logo decidiu visitar o jovem "padre", como Raimundo gostava de parecer, até por questão de defesa relativamente às mulheres que tanto o intimidavam. Foi uma e outra vez à Igreja onde sabia poder encontrá-lo e nem vislumbre de Raimundo. Repetiu a visita na semana seguinte e a ausência do jovem era notória. Cada vez mais se empolgava na sua procura, já num misto de ansiedade e suspeição...
Uma noite, após a sua actuação no restaurante tradicional, indo ao encontro de Joaquim que sempre a esperava na mesma mesa, ouviu alguém ao lado, perguntar ao doutor o que acontecera ao jovem que dias antes fora atropelado à saída do Bar do outro lado da rua. Joaquim ficara a saber que falava com o individuo que chamara o socorro e logo depois desaparecera no meio da multidão de curiosos que ali se juntara e lembrando-se do caso recente, informou-o que o jovem chegara ao hospital já sem vida. E segundo constava afirmado por um enfermeiro que o conhecia desde os bancos de escola, era alguém que estava hesitante entre a vida mundana e o recato do sacerdócio... Maria quase saltou do colo de Joaquim em que se enlaçara. A sua cara cheia de espanto ficou lívida, o que deixou Joaquim preocupado. Rapidamente, Maria trémula, sussurrou-lhe que tal jovem fora o que ela havia seduzido dias atrás, no chão da Igreja que invadira. Tendo reparado nele numa das ruas paralelas ao seu local de trabalho, e achando-o homem interessante, começou a segui-lo e logo engendrou um plano para o usar a seu bel-prazer, aproveitando-se da ingenuidade e bonomia do jovem, para engrossar a lista já extensa de suas conquistas demoníacas. Também para gáudio de Joaquim a quem, estes contos e enredos de sedução e mistério, proporcionados pela sua companheira, o deixavam em ponto de rebuçado para os encontros de alcova com ela. Diziam ambos que o prazer lhes resultava em dobro. Excitação total Mas nunca nenhum outro - peça de caça - poder-se-á assim entender, a havia tocado ao ponto de querer revê-lo. Não sabia porquê, para quê, nem como seria recebida, mas arriscaria!
Oh... agora não, já não iria. Não poderia inverter o sentido dos nefastos acontecimentos - Intuíra, de imediato, que o triste caso estava ligado ao seu acto, de excentricidade malévola. Um sentimento de desespero, de dor, a preencheu de imediato. Caiu desfalecida nos braços de Joaquim. Maria do Rosário fora uma menina desafortunada pelo destino. Seus pais ainda jovens pereceram num grave acidente de automóvel, que apanhou todos de surpresa (como sempre acontece). Maria foi surpreendida numa fase ainda muito precoce dos seus afectos. Filha única de pais algo abastados era muito mimada em casa. Tê-los perdido foi como lhe "tirarem o tapete debaixo dos pés". Acolheu-a uma irmã da mãe, que casada e sem possibilidade de gerar, prontamente a acolheu e amou como sendo sua. Os mimos vieram em dose redobrada e o ego de Maria ia aumentando com o seu crescimento: Os tios não lhe poupavam elogios, que ela se habituou a aceitar e guardar como verdades absolutas. A sua autoestima tornou-a muito vaidosa. E sendo a vaidade o caminho mais curto para o paraíso da satisfação, procurou aplauso… foi crescendo, fez-se mulher de poucas virtudes e muita arrogância e convencimentos. Achou-se no direito de jogar com os sentimentos alheios e aos homens que para ela olhassem com alguma insistência, ou não olhassem de todo, decidia de imediato que os haveria de ter todos ali, a seus pés. Com jogos e submissões aparentes, agindo com todo o seu glamour; assumiu-se uma pessoa fria, sem alma: destrutiva! Facto aproveitado pelo seu companheiro, a quem verdadeiramente amava, que premiava os seus actos diabólicos com momentos de enorme prazer, que ambos desfrutavam até ao êxtase. De certo modo, este comportamento era apoiado e incentivado por Joaquim que estranhamente não mostrava sentir ciúmes. Pelo contrário, promovia em Maria uma tendência, embora veladamente, de melhorar cada ocasião de conquista fútil. A nossa mente é algo misteriosa relativamente ao que nos respeita, mas muito em actos ligados ao amor, já que este sentimento é o impulsor de nossas breves Vidas! Tanto nos poderá tornar no delicioso par Romeu/Julieta como nos monstros que foram Bonnie/Clyde...
Joaquim preocupava-se com o estado psíquico de Maria, que não recuperava do choque causado pela notícia abrupta do acidente mortal de Raimundo... como médico, dera-lhe alguma assistência, mas logo depois recorreu a um colega do foro psiquiátrico para que a ajudasse. Maria que vivia em casa de Joaquim, lá continuou, após pequena estadia no Hospital local. Agora sob alguma vigilância de uma enfermeira da área de psiquiatria, recomendada pelo colega de Joaquim: a jovem Lili, mulher doce e profissional competente, zelava pela boa recuperação da enferma. Tratava-a do corpo mas também lhe tentava amaciar a alma. Grande parte do dia, Maria mostrava-se alternadamente ora apática ora agreste... para com Lili, para com o psiquiatra mas sobretudo para com Joaquim, que silenciava lentamente o ardor da paixão que sentira pela amada, talvez por saber-se em grande parte culpado e por perceber em Maria o apagar lento da chama. Perdera todo o seu encanto, evidenciando agora um desinteresse por muito do que a havia motivado. Antes queria sim, encerrar a página deste seu percurso de vida atribulada. A pouca credibilidade que formara relativamente à Igreja parecia agora transformar-se aos poucos no seu suporte para tentar reaver a sua sanidade mental.
Um dia de sol bem luminoso Maria regressa a sua casa. Há muito que não a habitava - Desde o início do seu romance com Joaquim. Era necessário arejar salas, quartos, arrumar roupas e ideias também, colorir o enorme jardim, agora com aspecto algo abandonado, e que havia proporcionado alguma alegria à sua ainda curta Vida. Começava a sentir-se em paz. Sozinha e possuída de uma calma inusitada, estava agora centrado no seu principal objectivo. A sua casa, casa que fora dos seus pais e onde chegara a viver com sua tia, pouco antes desta partir. Joaquim começara a ser uma neblina no seu percurso. Perdera já o fulgor que por ele sentira anos atrás, quando o conhecera na casa de fados. Era agora algo que tinha de ser acomodado bem no fundo do seu coração para que a paz de espírito, que adquiria, fosse mantida. O tempo passava e Maria percebia-se em transformação pessoal. Perdia vaidade, porque esta não convivia bem com os actos de solidariedade a que se entregara piamente. Quem sabe, talvez Raimundo procurasse, do lugar em que agora se encontrava, trazê-la ao bom caminho, tornando-a mulher virtuosa...


                                                                       Fernanda Simões


20/07/19

Variações em Quadrilha - Capítulo 3


Raimundo 
Imagem de Willgard Krause por Pixabay
Ao contrário do que Teresa pudesse pensar, Raimundo acordara tarde para as coisas do amor e do pecado.
Que força aterradora era essa que o impelia a pensamentos e atos insanos e impuros?
Chamavam-lhe desejo, vontade própria do corpo desalmado e sem freio, ainda em toda a sua inexperiência.
Assaltavam-lhe pensamentos impróprios que lhe subjugavam o olhar cobiçoso, que embora simulado, interiormente desnudava as mulheres com que se cruzava. Bastava-lhe uns lábios desenhando um sorriso fresco, um botão inadvertidamente desapertado, um roçar de tecido de uma saia denunciando as formas femininas, para que os seus sentidos imaginassem sem pudor um corpo vivo, quente e sumarento como uma romã rasgada sob o sol doirado.
Pensava que se o inferno deveras existisse, se assemelharia a essa loucura que lhe inflamava a mente e a pele, e lhe prendia as mãos e os pés e lhe secava a voz mesmo ainda antes de ousar as palavras.
E procurava o frio dos claustros e a mudez do homem preso na cruz, vítima de um suplício tão agonizante como o seu, e a solidão em que se recolhia.
Conhecia Teresa desde que se lembrava.
Haviam sido irmãos nas brincadeiras e, até há algum tempo, também confidentes sem qualquer receio de julgamento. Isso até ao momento em que a desejou. E não fosse terem sido interrompido, teria ousado um gesto, um toque inconsciente e irresponsável. Na frieza da solidão, analisara a confusão de sensações de que fora acometido e agradecera em oração, a imprevista entrada da mãe dela na salinha onde fingiam estudar.
No entanto, a consciência do impossível não abrandara a sua reação ao corpo esguio de mulher que despontava em exuberância,
Quase que pressentira que Teresa sentia o mesmo, mas a inconcebível hipótese do seu relacionamento justificava-se como sendo praticamente incestuosa. Por outro lado, se cogitando se o passado partilhado por ambos poderia aliar-se a este recente sentimento, logo desconfiava que o que os seus sentidos lhe ditavam nada tinha a ver com o amor de que lera nos clássicos: seria pura e ferozmente uma fome que, depois de saciada, nada mais teria para oferecer a não ser o fim de uma amizade que prezava.
Assim, sentenciou-se ao afastamento, à reclusão na igreja que frequentavam; por tradição apinhada de crentes aos domingos, mas despovoada de gente de fé aos dias de semana. Só os santos purulentos nas suas chagas expostas e iluminados pela frágil e tremeluzente chama das velas amarelecidas, velavam a sua inquietude. E sempre que uma beata ou outro devoto inoportuno invadia os seus claustros, escondia-se no confessionário de madeira escura que exalava um pesado e estranhamente apaziguador aroma céreo.
Por entre o pó incrustado na craticula do vestíbulo indiscreto ou nas cortinas de veludo vermelho que vedavam os segredos ali confecionados, Raimundo observava quem ali esporadicamente se recolhia; os seus rostos sofridos ou até irados, o mover dos lábios em surdas orações, o gesticular do sinal da cruz a terminar cada ato de fé na procura de ajuda ou absolvição.
E foi assim que a viu; um anjo de negro ou era negro o véu que mal dissimulava os longos cabelos loiros que, por debaixo dele, desciam revoltos. Mais que qualquer outra coisa, foi a curiosidade que se lhe aguçou na procura do rosto daquele vulto feminino.
Mas a revelação do desconhecido semblante não se proporcionou: o ângulo de visão do pequeno estande face ao banco onde a mesma se ajoelhara tornava-o alheio a qualquer vislumbre de um simples traço que fosse. Apenas aquela cascata de caracóis dourados se lhe oferecia a instigar o seu diletantismo.
Raimundo percebeu que ela chorara – vira-a retirar de uma bolsinha de renda atada ao fino pulso um lencinho de cambraia que levara aos olhos a ele velados.
E como chegou, logo se levantou e partiu.
Mas voltou outras vezes, sempre discreta, sem que Raimundo a pudesse confrontar e lhe ver o rosto desnudado.
E a curiosidade levou à ansiedade da antecipação dos momentos que já considerava de ambos tão íntimos, mesmo que ela dele nada soubesse nem o pressentisse sempre ali escondido na sua alcova.
Lá fora, o sol por ele ignorado, assim como todo o restante mundo exterior, já descia na sua exuberância de ruídos de cor e de sons frenéticos, quando ela finalmente entrou.
Não se ajoelhou em sinal de reverência, nem iniciou quaisquer preces caladas.
Sem aviso, desvendou a cortina de veludo e ajoelhou-se de frente para o rosto surpreso e impreparado de Raimundo. Entre eles, apenas a pequena rede que separava o padre do penitente e logo ela abriu a pequena porta. A respiração dele contida, a dela um sopro ansioso e os gestos nervosos.
- Padre, desejo me confessar. Tem a sua porta fechada, mas, desculpe-me o atrevimento, vi os seus pés por debaixo da cortina e eu estou tão necessitada!
Incapaz de lhe falar, ele abriu a porta e acenou-lhe com a cabeça.
- Padre, eu hoje vou matá-lo, o meu marido!
- O quê? Mas senhora, o que me dizeis? – Balbuciou ele levantando-se.
 Ela levantou-se também e correu para a outra cortina, sem que tivesse tempo de se cobrir com o véu.
- Mas padre, eu sei que é contra a natureza dos homens e de Deus, a decisão que lhe anunciei, mas, como sabe, tenho mais do que justificações. Não lhe contei já tudo sobre a minha situação? Aquele homem é um demónio. Nunca deveria ter acatado a decisão do meu pai e casado com ele. Tudo para salvá-lo da ruína e da vergonha e, de nada valeu. Estão mortos ambos os meus pais, nada resta. Apenas a solidão… … sempre a violência das suas palavras e dos seus gestos.
Ele de nada sabia. Certamente tomara-o pelo sacerdote que talvez nunca tivesse visto ou conhecido bem. E que pobre criatura aquela; a fonte de tudo o que sentia que sabia ser agora amor.
Se lhe revelasse a sua identidade, provavelmente, fugiria e não a poderia dissuadir de tal loucura.
- Mas, filha lembra-te da tua alma e da perdição eterna … - fora o que lhe ocorrera, enquanto tentava organizar uma contra-argumentação credível e eficiente.
- Que alma, padre? Com toda a selvajaria daquele homem, se alma eu tivesse já me havia de a ter arrancado.
Estavam ambos expostos no exterior do confessionário, falando num tom nada condizente com o eco do silêncio da nave.
Estavam sós, mas poderiam ser facilmente vistos e ouvidos da larga entrada da igreja.
Raimundo, tocando-lhe levemente o braço magro, orientou-a por umas escadinhas laterais que levavam ao balcão do coral.
Sentaram-se frente a frente e só ali Raimundo se apercebeu do castanho aveludado dos seus olhos e receou perder-se neles.
- Mas recorde-me o seu nome… - pediu-lhe.
- Chamo-me Maria do Rosário de Lemos. Sou casada com o Dr. Joaquim Lemos, o diretor clínico do Hospital de S. Teotónio.
Já ouvira falar dele como um bom profissional e era estimado pela comunidade. Era também filho de boas famílias, bastante abastadas pelo que se dizia.
- Conte-me novamente como tudo começou, talvez possamos arranjar uma solução que não seja essa que a levaria à prisão.
E Raimundo ouviu-a com o coração dilacerado pela impossibilidade do seu descoberto amor, assim como pela angústia que lhe ouvia no rosto ao contar-lhe todas aquelas histórias barbaras.
No fim, deixou-a chorar agarrada aos seus braços, desejando logo que não o tivesse feito. O seu corpo reagia ao dela como se o conhecesse desde o primeiro respirar, antecipando cada movimento, moldando as suas concavidades nos seus convexos ângulos, como se de um só ser temporariamente divisível se tratassem.
Que loucura os tomou que logo a sua boca procurava os lábios de Maria, abertos para si e as suas mãos que tremiam buscavam o que a sua alma sempre conhecera do corpo da sua outra metade.
Era um fim que se transformava em início e um recomeço continuo e em crescendo que o assustava e deliciava, restando-lhe a completa subjugação.
Já Maria o despia e lhe orientava as mãos incautas para si, levando-o a ousar o mesmo.
Amaram-se ali mesmo no chão frio e duro da pedra escura e desnuda.
E já Maria repousava no seu braço, enquanto Raimundo a observava languidamente. Maria era pequena e esguia e a sua pele clara era seara de pequeninos pelos muito alvos, onde agora repousavam pequeninas gotículas de suor. Os seus olhos estavam fechados, notando-se-lhe os longos cílios de mel. Tudo nela lhe parecia pueril, quase divino na sua perfeição.
De repente, sem uma palavra ou olhar que denunciasse o que haviam vivido, ela vestiu-se e saiu.
Raimundo não percebia o que sentia, nem o sentido do que se passara. Não tinha vivências que o situassem nem palavras que o firmassem num ponto preciso da sua existência. Nada o prepara para o que acabara de experimentar.
Apenas a memoria ainda viva em toda a sua pele lhe provava que não sonhara, que fora real e palpável para si, agora só naquele refúgio da igreja.
A noite invadira todas as ruas e recantos da cidade e os seus passos na calçada ritmavam o mudar do sentido dos seus pensamentos. Ora pensava que Maria também o amara naquele ato, ora pensava que ela partira daquele modo porque não conseguira fazê-la um pouco mais feliz e que para ela nada significara, ora que estavam destinados um ao outro num futuro muito obscuro…
Era tarde e não comera desde a sopa da mãe e entrou no Restaurante Tradicional, centro de repasto para corpo e para a alma: lá se cantava o fado, hino dos atormentados.
Sentou-se na obscuridade de um canto pouco iluminado. Sorvia um caldo farto e quente, quando as luzes do pequeno palco se iluminaram.
Acompanhou com o olhar a chegada dos músicos que já tentavam algumas notas em jeito de breve ensaio e afinação das guitarras, mas logo se absorveu no prato de carnes agora disposto à sua frente.
Ouviu o bater das palmas, mas não olhou.
Só quando ouviu aquela voz aveludada é que quase se levantou de rompante.
Maria do Rosário, ou fosse quem ela fosse, cantava à sua frente. Os mesmos caracóis dourados sobre as costas nuas que o vestido preto deixava antever, os lábios vermelhos e no cabelo, uma rosa cor de sangue.
E ela cantava e contava uma história de amor mal-aventurado, uma severa cujo amor entregara a um homem cruel e sem moral, mas que mesmo assim ainda sonhava mudá-lo com a força do que sentia… a sua história, a história que lhe contara.
O que significava tudo aquilo?
Haveria de haver uma explicação. Viu-a sair do palco para se dirigir a uma mesa do outro lado da ampla sala. Segui-a e quando quase a acercava, ouviu a voz do homem que a esperava:
- Cantas sempre divinamente, meu amor.
O seu riso, ainda para ele desconhecido, brotou cristalino de dentro da fina garganta de Maria.
- Meu amor, minha paixão, meu querido futuro marido, de divino eu nada tenho.
- Eu sei e por isso te amo ainda com mais loucura. Que história para mim caçaste hoje, meu pequeno demónio? Diz-me. Mal posso esperar. Quase não me contenho. – E o homem abraçou-a possessivamente, sentando-a no seu colo.
- Que tal uma com um jovem pároco, tenro como um cordeiro?
E riram ambos em sonoras gargalhadas.
Raimundo já saía porta fora em busca de ar fresco, algo que o fizesse voltar a sentir os pés no chão, naquele remoinho de raiva, vergonha, medo, tudo o que invadia em catadupa o seu coração destroçado.
Pensou nas piores loucuras, mas rapidamente as abandonou.
Entrou num botequim e bebeu. Pensou no que os seus amigos foliões que haviam dito: que tudo parece mais fácil depois de uns bons copos de cachaça…
As meninas, adivinhando carne fresca, rodearam-no, pensando que talvez aquela noite e aquela vida fosse mais feliz com um rapagão tão bonito. E  o levaram para um dos seus quartinhos.
Uma a uma, foram cuidando daquele coração de bater tão ingénuo, entre beijos e caricias, entre risos e suspiros, num inebriante frenesim. Raimundo sentia-se revigorado pela manhã. Jurou a Deus e ao Diabo não mais se apaixonar tão estupidamente e apagou todas as capelas e igrejas do seu itinerário.
A vida era frívola e bela e ele queria vivê-la, sorvê-la até ao último trago.
Mas cada corpo de mocinha que dedilhava o lembrava da textura da pele de Maria. Na verdade, todas as vezes que amava, era Maria do seu Rosário, que revisitava.
Sentia que o demónio ria do seu juramento.
- Seria Deus a resposta? – Pensou, enquanto caminhava pela rua que levava à capela da Nossa Senhora dos Aflitos, repleta de transeuntes, de turistas, de vendedores de rua, de automóveis e das suas buzinas, e dos elétricos deslizando nos seus eixos metálicos.
Sabia o que o demo de si esperava, mas o tormento de eternamente amar a Maria do Rosário que idealizara, tão diferente da verdadeira, apresentava-se como um sofrimento demasiado penoso para uma alma como a sua.
Lembrou-se da paz em que vivera na sua juventude, antes das tentações dos paraísos demoníacos.
E quis regressar.
Correu a passos largos, mas agora decididos para a igreja matriz. Iria ingressar no seminário e aceitar os votos eclesiásticos. Era o que o mais faria feliz a longo prazo, pensava.
Corria pelo passeio, entre as pessoas, e rodeando os edifícios que invadiam a estrada.
Não o viu, o automóvel que o colheu.
Viu-se deitado no asfalto agora escarlate e a sua pele tão branca. E ele lá do alto, viu o horror daqueles que ali chegavam e o desatino incrédulo do condutor. Viu até não mais se importar e virar o rosto para o alto.
Ouviu duas vozes distantes que conversavam entre elas:
- Dizes-me a razão? Não entendi esta safra, meu grande amigo.
- Com males menores, evito grandes tragédias. Seria a perdição de muitas beatas…. e já cá temos tão poucas almas…
Lá em cima era esperado.
Deus e o Demo, irmãos na criação do mundo, duas faces da mesma moeda, o aguardavam de braços abertos.


                                                                                              Rosa Lídia Santos


29/06/19

Variações em Quadrilha - Capítulo 2


Teresa
@Joaquim Henriques 

Sim, sabia-se complicada. Sempre de cabeça no ar, cheia de ilusões artísticas, frustrações de quem adorava arte e não pintava uma árvore ou escrevia duas folhas de texto. Refugiava-se num pretenso conhecimento artístico, conhecia os museus todos e até muitas das obras que por lá ganhavam bolor e em segredo suspirava vontade de criar algo semelhante, infinitamente semelhante, no mínimo.
Por outro lado, sempre presente estava a sua educação católica, profunda, imensamente castradora, que não parava de lhe segredar o que não devia fazer, os eternos pecados… Raimundo era do seu mundo, criado e educado da mesma forma, crente e casto, sincero nas suas convicções, sem mentiras ou hipocrisias, parecia…
Todos de boas famílias, cumpridoras dos castos deveres, missas dominicais e outros ais. Cresceram juntos, viu-o crescer, era o seu ídolo. Raimundo estava sempre entre os preferidos, ajudava na missa, na catequese ou nos campos de férias, até se falava que seria padre, tão aplicado era na mensagem. Ajudava em tudo mas nunca se envolvia com ninguém do grupo, estava noutra dimensão: perfeito, inatingível, como as peças de arte que aprendeu a adorar.
O amor, ou o que ela pensava ser tal sensação, cresceu assim, descontrolado. Teresa tudo fazia para estar perto, ser a primeira das ajudantes, e ele gabava-a, dizia que era uma excelente rapariga, bonita até, mas nada mais do que isso…
Durante anos, apesar de tudo, bastou-lhe. Afinal ele não abdicava da sua presença, da sua ajuda, e também assim, ela estava no centro das atenções. As beatas, principalmente, as mais velhas e encarquilhadas, tantas vezes desenganadas pelos seus, também castos maridos, incentivavam-na, transferiam para ela as suas frustrações, alinhavam com o santo padre, na mensagem: “a virtude, e a esperança, são as últimas coisas a perder…”
Houve algumas tentativas, alguns esfreganços, até. Uns beijos e mexidas em sítios inconfessáveis sempre travados à última hora por ele, sempre por ele! Por ela, por muitas avéns Marias ou padre nossos que tivesse de dizer depois, há muito que se lhe teria entregado toda, sem limitações, sem se ralar se era pecado ou não!
E assim continuou a sua vidinha; suspirando pelos cantos, certinha e adorada por todos, bolorentos… até que um evento mudou a sua vida. Raimundo, o exemplo a seguir, aquele que todas as suas amigas também disputavam, afinal tinha duas faces: um hipócrita! Não se sabe se sempre fora assim ou se tal começara quando saíra para estudar na capital, mas pelos vistos descobrira o prazer da carne, e pouco lhe importava se era tenra ou rija. Foi um marido enganado que, inventivo e destemido, o desmascarou. Foi em plena missa em que o “santo” participava, que lhe deu uns abanões vigorosos.
Estranhamente, ou talvez não, depois da surpresa, vieram as desculpas, as confissões e contrições. A família influente e abastada pagou a bula e rapidamente tudo caiu no esquecimento de todos, menos no dela…
Não importava que ele tivesse tido mulheres, poucas ou muitas, era-lhe indiferente, até o tornava mais humano e apetecível. Mas o que não aceitava, de forma alguma, era o facto de todas as coisas de que o acusavam não terem acontecido, consigo também!
Os primeiros dias foram complicados. Mirava-se ao espelho, nua ou vestida, de costas ou de frente, maquilhada ou desgrenhada, e só conseguia ver um excelente espécime feminino. Aliás, os homens na rua, de forma mais ou menos elegante, todos os dias a lembravam disso.
Depois do desgosto, veio a revolta, a raiva por se sentir preterida! Caramba, era adulta, tinha pretendentes e algo que estava constantemente sonhado, sempre só com ele, guardado e intacto, de repente tornou-se um fardo, exemplo da sua incompetência…
Lembrava-se da cara dele, até do nome, mas do resto, nem por isso. O sonho, na sua forma platónica, deu lugar primeiro a alguma dor fugaz e depois a imenso prazer. Mas, depois do depois, veio a malvada da consciência, bem lavada por anos e anos de doutrina, que acordou e não parava de lhe cobrar.
O Porto foi a sua fuga; não do Raimundo, de si própria. Tinha de sair dali e encontrar-se, perceber onde estaria o equilíbrio entre o que a sua condição de humana sentia e queria e o que lhe impunham os ensinamentos.
O João, homem culto e interessante, apareceu-lhe no meio de todas estas cogitações, mas para algo acontecer com ele, tinha de exorcizar o seu demónio: Raimundo! Esperava ver-lhe na cara uma expressão arrependida, mas o que encontrou foi alguém de curso terminado, cada vez mais inserido na sociedade, a sorrir cinicamente e a desejar-lhe felicidades. No regresso ao Porto, no Instituto ainda tentou falar com o João, mas ele, despeitado, não lhe deu qualquer hipótese, não lutou!
Uma manhã, qual bruxa má, quando se olhava pela milionésima vez ao espelho, disse:
“Que se lixe, para hipócrita, hipócrita e meio! O meu espírito precisa da igreja, mas o meu corpo também. Vou para um convento e de certeza que também há padres que são homens… cuidem-se!”


                                                                                              Joaquim Henriques


23/06/19

Variações em Quadrilha - Capítulo 1


Desta vez, o nosso formato de escrita partilhada tem inspiração no texto “A Quadrilha” de Carlos Drumond de Andrade. Numa séria brincadeira que pretendemos homenageadora para o autor, vamos interpretar os personagens deste texto à medida da nossa imaginação.

A Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Mas como o número de participantes é superior ao número de personagens do texto, inventámos alguns.

Variações em Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que era amada por Alberto que também amava Elvira que amava Leonor que amava Pedro que amava Onésimo que amava Amélia que também amava Lili que não amava ninguém, mas namoriscava Ernesto que amava todas as mulheres.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se, Alberto casou secretamente, Elvira perdeu-se no mundo, Leonor fez-se árbitro de futebol feminino, Pedro tornou-se aviador, Onésimo guarda-nocturno, Amélia parteira, Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história e Ernesto, numa tentativa de ludibriar a falta de emprego, fez-se travesti num bar de uma qualquer capital da moda. 




João 

 (“Touching the Sky”, Ciudad Rodrigo)
@Albino Pereira 

Sempre lhe dissera o mesmo: só tens que cumprir três regras. A primeira, nunca ultrapasses, em kg, o peso ditado pelos dois últimos dígitos da tua altura, em cm. A segunda, mal possas, põe de parte o equivalente a três dos teus salários mensais e não lhe toques nunca a não ser em caso de extrema necessidade. A terceira, e a mais importante, nunca entregues todo o teu coração a ninguém.
João continuou, pela vida fora, a tentar seguir estes ensinamentos, confiando na sua bisavó nonagenária. Alguma razão deveria ela ter, afinal não conhecera nunca ninguém que tivesse uma bisavó sequer.
Cumprir a primeira das regras trouxe-lhe um dos prazeres de que já não abdicava. Era assíduo no ginásio da moda, corria pelas manhãs e ia dando uns mergulhos nas praias frias do Norte o que lhe assegurava o equilíbrio necessário para aproveitar o que os dias lhe iam oferecendo além do corpo bem tonificado.
O trabalho como docente convidado num dos Institutos Superiores mais requisitados da zona do Grande Porto satisfazia-o. O contacto com os alunos, muitos deles a viverem os primeiros anos das suas vidas adultas, era desafiante e o facto de lidar com a necessidade de acompanhar o que de mais recente se fazia na sua área de trabalho trazia-o bastante ocupado e apaziguava, de alguma forma, o seu estado permanente de inquietude curiosa. Assegurada a segunda das regras, ainda ia tendo, graças a algumas colaborações como freelancer em revistas especializadas, uma conta bancária que, longe de generosa, pelo menos dir-se-ia suficientemente apetrechada.
O tempo dedicado quer às viagens que fazia, algumas por obrigação profissional outras por puro deleite, quer às aulas e à prática do exercício físico, ia garantindo o cuidado necessário para não infringir a terceira das regras. Estava disponível para relações curtas e intensas. One night stand bastava-lhe e os olhares de desejo que adivinhava em muitas das suas alunas, e em algumas das suas colegas, alimentavam o seu ego quanto baste.
Quando aquela nova colega chegou ao Instituto para lecionar espanhol a uma das suas turmas do curso de Relações Internacionais, João achou-lhe uma certa piada. Era o oposto de Marivi, a anterior professora que deixara o lugar vago ao regressar a Barcelona para acompanhar os tratamentos da mãe, tanto quanto rezava a versão oficial. Entre os colegas, dizia-se que quisera afastar-se de Leonor, uma professora do curso de Educação Física na faculdade que ficava no mesmo campus. As desilusões que cada um carrega são mais esconsas que as ilusões que às vezes partilham com almas próximas.
Teresa, jovial e irrequieta, aparentava estar nos inícios dos seus trinta anos e o facto de trazer uma mochila vermelha às costas em vez da tradicional puída pasta castanha, chamou a atenção de João.
Já em casa, querendo saber mais sobre Teresa, João procurou-a nas redes sociais. Encontrou-a no Instagram e, como a conta era privada, pediu para a seguir. A autorização foi quase imediata e João teve a oportunidade de verificar que Teresa não era daquele tipo de pessoas que o irritavam de sobremaneira. Não era exibicionista (na sua conta não havia apenas fotos da sua pessoa, em poses de diva e bocas de silicone) nem era mais uma daquelas instagrammers que partilham constantemente pensamentos irritantes em inglês ou em português do Brasil com recados sabe-se lá para quem, nem pertencia àquela terceira categoria dos que exibem tudo o que comem em fotos sucessivas de pratos de peixe, de carne, de batatas e verduras, de muitos vinhos e muitas sobremesas. Na sua conta podia-se ver fotos de monumentos visitados, de paisagens captadas, de livros, filmes ou referências a músicas. Tudo muito em torno da cultura espanhola, exceto uma ou outra ligação a alguns clássicos universais. Curioso, procurou algum registo que envolvesse Portugal ou as suas gentes. A única coisa que encontrou, que remetesse para Portugal, foi uma fotografia de um trabalho da Ronda dos Quatro Caminhos, Terra de Abrigo. João desconhecia por completo este grupo. A ausência de fotos suas com amigos ou de fotos de familiares aguçava a curiosidade de João. Revelaria alguém que estava sozinha no mundo ou traduziria alguma forma de ser mais independente?
Buscou informações sobre o disco e descobriu que datava já de 2003. Tratava-se de um disco de cante alentejano, largos anos antes de ser considerado Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, envolvendo oito Grupos Corais do Alentejo, a Orquestra Sinfónica de Córdoba, uma cantora de flamenco, outra marroquina, uma fadista portuguesa e dois virtuosos guitarristas, um português e outro espanhol. Que mistura! 
Procurou o disco no Spotify e ouviu-o. Tinha bom gosto musical a nova professora.
Estes tempos modernos não deixavam de ser algo estranhos. O quanto se poderá saber sobre alguém a partir de alguns posts seus numa rede social? Tinha consciência que só acedia ao que Teresa quis mostrar da sua vida, mas agradava-lhe o que via.
Quando foi atualizar o seu Instagram viu que tinha alguns corações (traduzindo agrados) novos. Estava habituado a que as suas fotos (nunca recorria a vídeos) tivessem muito sucesso. A sua conta era aberta ao público pelo que não precisava de autorizar seguidores e, deste jeito, Teresa pôde mostrar que gostara de algumas das fotos mais recentes que ele disponibilizara nessa conta.
Na manhã seguinte, procurou-a no Instituto tentando encontrar-se, casualmente parecendo, com ela. Mas não a encontrou. Nem nos outros dias dessa semana.
Quando a reviu, reparou que o olhar dela procurava o seu e o sorriso que os lábios retinham, os olhos não conseguiam disfarçar. Assim, habituado a estabelecer primeiros contactos certeiros, João, com o melhor dos sorrisos, apresentou-se e convidou-a para almoçar.
Começou assim o que seria o quebrar da terceira das regras que João aprendera da sua bisavó Maria.
Teresa deu-lhe a conhecer o novo cinema espanhol, muito para além do já seu Almodôvar, e trouxe-lhe o mundo de Albert Espinosa. Em espanhol, dos latino americanos, ele conhecia os mundos encantados do Gabriel Garcia Márquez, do Luís Sepúlveda e da Isabel Allende, mas nunca tinha ouvido falar deste vizinho peninsular nem dos seus amarillos. João falou-lhe de outros mundos encantados, também provenientes dessas latitudes sul americanas mas descritos em português. Foi assim que lhe deu a conhecer Jorge Amado, Monteiro Lobato e José Mauro de Vasconcelos. Mas também lhe falou de Dulce Maria Cardoso e de Manuel António Pina. Ouviu com ela Maria de Medeiros, António Zambujo e Cristina Branco. Levou-a a Serralves e aos jardins do Palácio de Cristal. Foram à Casa da Música e ao Coliseu.
Nem se davam conta de que os meses se passavam tão enlevados estavam nas descobertas múltiplas que iam fazendo juntos.
Assim, desta forma, achou natural aceder ao convite dela para passarem aquele fim de semana a seguir ao feriado de quinta-feira, em Salamanca. Aproveitaram a ponte, e partiram na quarta-feira, ao fim da tarde. Pernoitaram em Belmonte, numa casa de turismo local rural. Antes de chegarem a Salamanca, pararam em Ciudad Rodrigo e visitaram, depois, La Alberca a povoação de onde era natural a avó de Teresa. Tiraram muitas fotografias e Teresa postou, no Instagram, uma foto da rua onde brincava quando era criança e ia visitar a sua avó. João tinha escolhido e postado uma fotografia que tirara quando subiam para visitar o castelo de Ciudad Rodrigo. Na praça principal de La Alberca onde estava estranhamente instalado, no que teria sido em tempos idos uma prisão, o posto de Turismo da povoação, comeram umas tapas de presunto e beberam, cada um uma cerveja bem fresca pois o calor fazia-se sentir e o presunto era “puxadito”, como dizia Teresa.
Quanto mais conviviam, mais João se deixava apaixonar por Teresa.
Teresa levou-o a conhecer os locais onde sempre vivera, antes de se mudar para o Porto. O seu apartamento ficava situado na zona histórica de Salamanca, bem perto da Praça de Colon, numa rua pedonal. Dali à catedral, eram uns minutos a pé. Mostrou-lhe a fachada belíssima da Universidade e desafiou-o a encontrar a rã escondida entre as largas dezenas de esculturas que a adornam. Contou-lhe a lenda antiga segundo a qual se um estudante da Universidade fosse capaz de a encontrar, sem ajuda, seria bem-sucedido nos exames e se não fosse estudante, mas encontrasse a rã, encontraria também o amor da sua vida e seriam felizes. João bem tentou mas era de facto muito difícil… só com as dicas de Teresa conseguiu, por fim, encontrar o bicho. Numa das muitas lojas de Recuerdos que por ali pululavam Teresa comprou uma rã de Salamanca e ofereceu-a ao João.
Desceram até à zona do rio e sentaram-se numa manta para descansarem. Naquele torpor, João deixou-se adormecer. Quando acordou, Teresa estava a uns metros a conversar com alguém. Apresentou-lhe Raimundo como sendo um amigo de longa data e, a Raimundo, disse que João era um colega português que a acolhera no Porto e a quem estava a devolver a simpatia, mostrando-lhe Salamanca.
João esperava que, por esta altura, já fosse um pouco mais que isso. Ele já se via a assumir, pela primeira vez na sua vida, um compromisso com alguém. Estava a sentir-se descartável… Pensando bem, sempre tratara assim as suas conquistas. Seria isto a lei do retorno?
Na verdade, que sabia ele sobre Teresa? Sobre o seu passado e os seus sonhos?
Enquanto regressavam, ao passar por uma das pontes, João quis fazer uma selfie com Teresa, pois o lusco-fusco trazia uma luminosidade a todo aquele entorno realmente digno de registo. No entanto, contrariando todo o comportamento daquela semana, Teresa negou-se com um simples abanar de cabeça e disse-lhe que estava cansada e com pressa. Outro sinal do desconforto causado por aquele reencontro com Raimundo.
No dia seguinte, João levantou-se mais cedo e foi correr pelas ruas estreitas da cidade descendo até ao rio e acompanhando as suas margens. Perdido nas reflexões nem ouvia a música que escolhera para essa corrida. Mais tarde, Teresa levou-o a conhecer a Casa Lis e a sua magnífica coleção de peças Art Nouveau e Art Déco. Deveras impressionante, para João, foram as criselefantinas pela total novidade para ele: a mistura requintada do bronze com o marfim e as impressionantes bases de ónix e mármore faziam daquelas pequenas esculturas umas magníficas obras de arte.
Não foi de somenos importância o chá tomado no café do museu, que o transportou para uma época de glamour e ilusão fazendo-o sentir-se a viajar no tempo.
No entanto, apesar de todo o ambiente de romantismo do local, no rosto de Teresa algo se perdera. Apesar dos sorrisos rasgados, o seu olhar transmitia tristeza.
João não resistiu e começou a fazer perguntas. Por que razão quis Teresa abandonar aquela cidade onde tão bem se sentia e ir ensinar espanhol para o Porto? Afinal o que tanto a transtornara na conversa da tarde anterior com aquele seu amigo?
Teresa não foi capaz de continuar a levar os seus intentos por diante. Disse-lhe que queria mesmo, que tentou muito, conhecer alguém que lhe fizesse esquecer Raimundo. Tinha sido o seu único amor, desde os tempos da adolescência. Raimundo nunca lhe dera qualquer esperança mas Teresa achava que isso se devia ao facto dele ser muito aplicado nos estudos e que tal o impedia de estar disponível para namoros pois, na verdade, nunca lhe conhecera qualquer amor. E citou Albert Espinosa “Si crees en los sueños estos se crearán.” (Se acreditas nos sonhos, estes tornar-se-ão reais). Mas os anos iam esgotando o tempo e a amizade com Raimundo nunca evoluíra para o que ela ansiava. Teresa precisava de sair desse encantamento a uma voz apenas.
Quando Marivi, amiga de infância da sua mãe, lhe falou da oportunidade de Teresa ir para o Porto trabalhar, substituindo-a, ela não hesitou. Mal João lhe estendeu a hipótese de algo mais, Teresa agarrou-se com unhas e dentes e dispôs-se a amar e a deixar-se amar por outro homem que não Raimundo. João era bem-parecido, charmoso e sedutor.
Tudo correu relativamente bem até reencontrar Raimundo, naquela tarde. Tudo nela se reacendeu e ela percebeu que nunca nada nem ninguém lhe faria esquecer aquela insana paixão.
João não insistiu pois o olhar de Teresa dava-lhe acesso ao mais íntimo dela e não negava nada daquilo de que agora se inteirara. Regressou ao Porto, sozinho. Calmamente, recusou-se a voltar pelo mesmo caminho e escolheu outra fronteira para deixar Espanha. Parou em Gismonde e chorou como nunca antes o tinha feito.
No final desse ano letivo, anunciou a sua decisão aos superiores do Instituto: concorrera a uma bolsa de doutoramento nos Estados Unidos e, também ele, sairia do país para tentar esquecer um amor.
Na bolsa, levava uma rã de Salamanca.


                                                                                  Albino Pereira