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| Fotografia de Sónia Ferreira |
João
Hoje, no percurso até ao consultório do
Dr. Seixas, psicólogo recomendado pelo meu amigo António e pela sua esposa, a
Elvira, pensei cá para mim: “João, já não tens idade para procurares ajuda
junto de um psicólogo…” Este pensamento afastou-me do destino que inicialmente
me tinha proposto. O meu cérebro sussurrava-me que hoje não era dia de expor os
meus tormentos no consultório do Dr. Seixas, apesar de ele ter o dom da escuta
ativa e empática.
Segui rua abaixo, observei as montras das
lojas e cruzei-me com bastantes pessoas aparentemente muito ocupadas no seu
passo acelerado, porém com olhares vazios, sombrios… outros com uma felicidade
estampada no rosto, mas efémera.
Dirigi-me ao Parque da Cidade e procurei
um banco isolado, verde desmaiado pelo tempo, no meio das árvores e da
vegetação vasta que abrigavam aquele espaço. Ali permaneci imóvel, imbuído nos
meus pensamentos.
Episódios da minha vida surgiam como
flashes, mostrando-me que, após o enfarte que sofri, continuo vivo e autónomo.
Os cuidados da Maria foram importantes na minha recuperação. Apesar da nossa
breve conversa sobre a hipótese de nos divorciarmos e seguirmos vidas
diferentes, este meu problema de saúde suspendeu o plano da separação.
Debaixo daquela árvore centenária,
senti-me abraçado pelos seus ramos e folhas. A brisa suave e fresca obrigou-me
a inspirar profundamente e a libertar, lentamente, o ar exalado. Por momentos,
senti uma paz estranha… parecia que os pensamentos que me sufocavam a alma
tinham voado com o vento.
Todavia, voltei a descer à terra e
deparei-me com a minha realidade.
Antes de conhecer a Maria, tive um namoro
na adolescência, proibido pelos pais da Laurinda devido ao meu estatuto social.
Beijávamo-nos longe dos holofotes, num esconderijo de difícil acesso. Momentos
de muitos abraços intensos, como se o mundo acabasse ali, porém sempre a
respeitei… não avancei para aquele meu desejo ardente de a possuir como
menina-mulher.
Laurinda mudou-se para o Brasil. Não houve
tempo para despedidas… as nossas juras de amor simplesmente não foram
concretizadas.
Ela nunca me escreveu uma carta a dar
notícias. Dececionado por ter sido esquecido por este meu amor, amargurado,
retirei a linda foto da minha amada da carteira e guardei-a na caixa onde tinha
o relógio de bolso do meu avô Manuel, a única recordação sentimental do meu
herói, que partira há muito, após um acidente de comboio.
Maria acabou por preencher o vazio que
Laurinda deixou… os nascimentos dos nossos filhos empurraram aquele amor de
adolescência para a margem da vida.
A minha sogra culpava-me de ter um
comportamento frio e distante em relação à sua protegida filha. Nunca tive
paciência para lidar com a avó materna dos meus filhos. Honestamente, a sua
presença na minha casa causava-me mau humor, expresso numa raiva irónica e
afiada para responder a qualquer opinião que manifestava sobre a minha vida
conjugal e familiar.
A minha partida para Luanda acabou por
contribuir para este meu comportamento frio e distante. O nascimento do meu
filho primogénito, Emanuel, exigia muita atenção da parte da mãe… fui ficando
em segundo ou terceiro plano na lista da Maria.
De repente, tomei consciência de que o meu
confidente nesta minha retrospetiva era o banco, enfeitado com musgo na base,
que me sustentava em silêncio.
Sacudi o pólen dos ombros, que circulava
no ar, e fui ao bar do Parque para salivar qualquer coisa que preenchesse o som
sonoro que vinha do estômago.
Pedi um sumo de laranja natural e uma
sandes de queijo. Aproveitei este pequeno prazer, tirei o livrinho de sopa de
letras que vivia no bolso do casaco e concentrei-me em descobrir a última
palavra daquele quadrado.
— Já está! — afirmei, como se tivesse
ganho um troféu.
Bebi o último gole de sumo. Olhei em
frente e reparei numa mulher de cabelos grisalhos pelos ombros e rosto
delineado por pequenas rugas. Os olhos azuis sobressaíam naquela face esguia.
Fiquei hipnotizado ao vê-la. Parecia que a conhecia… estaria a viver um
déjà-vu?
Retornei ao mundo concreto e ouvi a voz de
uma jovem, aflita, a gritar:
— Tia Laurinda, tia Laurinda… preciso da
sua ajuda! O meu pai teve novamente uma crise de epilepsia…
Aquela mulher pousou a chávena de café na
mesa e correu até à jovem. Abraçou-a ternamente e disse:
— Calma, minha querida Flor… o meu irmão,
onde está?
— Chamei o 112 e ele foi transportado para
o hospital. O Martim foi com ele… o meu irmão disse-me que eu estava histérica,
sem condições de acompanhar o pai — afirmou Flor, com a voz trémula e os olhos
rasos de água.
— Vamos juntas para o hospital. Vem! O
carro está ali estacionado, perto da mercearia “D. Quixote” — disse aquela bela
mulher, num tom de voz tranquilizante, de mãos dadas com a jovem Flor.
Presenciei todo aquele aparato sem desviar
o olhar daquela mulher madura, cujo nome era Laurinda. Seria coincidência que,
após tantos anos, o nome Laurinda renascesse do impossível?
Sónia
Ferreira






