17/08/18

Janelas de Tempo - Capítulo 6

Fado\José Malhoa


Sentia-se estranho. Parecia que algo lhe fugia da mente. Um vazio por preencher, uma qualquer interrupção como ponte destruída entre margens. Mas não. Simples impressão sua, certamente, naquele novo arribar ao desconhecido.

Não conseguira ainda definir que sentimento atribuía à urgência de identificar os locais e as épocas a que aportava. Angústia? Expectativa? Ou somente o prazer quase infantil de participar num jogo que aceitara jogar?
Por razões tão estranhas que, provavelmente, nem a máquina do tempo conseguiria esclarecer, ancorara sempre o seu corpo no cais dos instantes decisivos da nossa História. Confirmara assim que a memória de um povo se compõe de datas marcadas nas páginas dos livros que as guardam. E no entanto, pensava agora, quantas vezes essa memória não se alimenta de pequenos capítulos, aparentemente insignificantes, que, contudo, formam a cultura, o modo de ser, desse mesmo povo?
Ali estava ele, de novo algures perdido no Tempo. Que relevância teria tido na História aquela rua recentemente calcetada, juntas ainda frescas entre as pedras de granito onde se reflectiam mortiças luzes de candeeiros a gás? Aquele cheiro fétido, quase pestilento, de pouca higiene adivinhada? Odores remexidos de sexo e de sal, das fezes arremessadas para a rua, de cantos como lamentos, de calos no suor que só o espírito exala na desgraça. Nas ruas, ninguém. Se de ninguém forem feitas as sombras que espreitam, se escondem em convites sem voz, em cedências de corpo que já corpo não é. Subitamente, o brilho de uma ponta de cigarro, uma janela que se abre em sinal combinado e um vulto que, beata pisada à pressa, atravessa a rua num desejo por saciar. Fraqueza esporádica dos homens que, porém, noutras janelas, guardadas por cortinas que outras mãos femininas bordaram, se fazem ecos de macho pelas vielas, num tempo em que as mulheres pareciam nascer com o estigma de somente ouvir e respeitar. Servir.
Lentamente, Júlio começa a reconhecer a época. Que não terá sido a sua, mas que se manteve assimilada a partir dos muitos volumes da sua biblioteca. Falta-lhe apenas reconhecer aquelas ruas estreitas, as travessas que as cortam e as esquinas que dobra numa ânsia incontida de se situar, rezando a um São GPS que não lhe falhe no regresso. E, de súbito, é precisamente numa das esquinas que uma placa toponímica o sossega: Rua do Capelão. Sorri. Está na Mouraria. O bairro que Afonso Henriques destinou aos muçulmanos após a conquista de Lisboa e onde nasceria a Severa, a voz talhada de um povo dado à fatalidade, à tristeza, ao embrulhar em xaile negro de amarguras a sorte que só nos outros se encontra, a inveja, o agradecer a Deus o pousar de olhos em todos, ainda que nunca em nós. Se Portugal, enquanto país, nasceu em Guimarães, o seu povo, porém, terá nascido no Fado.
De repente, uma parte do seu corpo, o estômago, como que se revolve num choro muito seu. Aos cheiros podres do bairro juntam-se os odores enjoativos de fritos, de queijo cujo leite azedou, de vinho parido fora do fruto. Há quanto tempo não come? Não sabe. Tanto mais porque perdera a capacidade de o medir em épocas que tão depressa avançam como recuam. Mas tem fome. E numa porta há instantes anunciada pelos cheiros, lê o serviço de almoços e jantares, vinhos, licores, cognac, xaropes e o nome da casa de pasto. Nada é convidativo. Mas há a fome. Tem no bolso alguns euros e sorri pelo absurdo. Não tem reais que apazigúem um estômago que para nada quer saber de dinheiros, mas da fome que tem. E, por isso, entra.
Senta-se ao fundo, a um canto, no escuro que o petróleo de alguns candeeiros lhe concede. Numa mesa, dois homens arrastam pedras de dominó benzidas pelas gotas perdidas que escorrem das canecas de barro; numa outra, um velho acena afirmativamente ao sono que lhe vence as pálpebras; a serradura espalhada pelo chão asfixia o vinho que sobrevive no cheiro mais forte que as beatas amarrotadas em cinzeiros de lata. Por detrás do balcão, um homem tão gordo como o bigode que lhe sombreia o rosto carrancudo, avental erguido pela gordura do ventre, abandona as pipas encardidas que atrás de si protegia, e aproxima-se. Resmunga algo que Júlio não entende, mas ao qual, pelo óbvio, responde: quer qualquer coisa para comer. E o sujeito afasta-se e regressa com um prato de carapaus afogados em cebola, um outro com toucinho e uma cesta de pão. Um jarro e uma caneca. O pão tem um dia, os carapaus mais de dois. E o toucinho tem o suave sabor do ranço para quem deixa de ter poder sobre o estômago que o recebe, empurrado pelo vinho que fede e queima. Júlio tudo devora. Enquanto vagueia os olhos pelo estabelecimento até se deterem numa mulher sentada num lugar tão discreto como o seu. Tem o cabelo negro apanhado e uma cicatriz rasga-lhe a face esquerda. O corpo, branco e anafado, ostensivamente exposto sob uma blusa leve que lhe realça os seios flácidos, espraia-se lânguido sobre a mesa. A saia vermelha eleva-se um pouco acima dos tornozelos e treme à brisa vinda da porta quando novo cliente a transpõe. Suado, coberto de sebentos andrajos, dirige-se ao balcão e pede meio quartilho. O taberneiro pergunta se tem dinheiro e o homem leva a mão ao bolso e expõe no balcão as moedas que, explica, lhe rendeu o trabalho de carregar um piano da Rodrigo da Fonseca para a Barata Salgueiro.
— Está bem. Mas tira isso daí. Já sabes que não quero dinheiro em cima das mesas. Dá azar – diz o patrão enquanto lhe serve o vinho.
O homem arrecada as moedas e, de caneca na mão, aproxima-se da mulher.
— Adelaide, vamos?
Ela nada mais move que os seus lábios.
— Hoje não.
— Tenho dinheiro – e leva de novo a mão ao bolso – Ia-me partindo todo, mas tenho dinheiro.
— Já te disse: hoje não! Lá por seres moço de fretes não quer dizer que faça fretes também. Estás sujo, cheiras mal e, para além disso, deve estar a chegar o Amâncio.
— O Amâncio? Vi-o há pouco no Rossio, na Ginjinha, e parecia já ter a sua conta.
— Pior ainda. Já sabes como ele é quando está atravessado. Mas ele vem, está descansado. Ele e o “Pintor”.
— O fadista?
— Um bom fadista me saíste tu. O “Pintor Fino”. Vamos “pousar” para ele.
— Desgraçada – exclamou o homem com um sorriso desdenhoso – Lá porque andas a “pousar”, já te julgas alguém. Vê lá se um dia tanto pousas que fazes a esse lado da cara o mesmo que te fizeram ao outro.
Ela não teve tempo de responder. Sem o olhar, levantou-se de supetão, dirigiu-se à porta e num gesto evidente de acanhamento ou vassalagem, cumprimentou com os dedos moles a vigorosa mão de quem entrava.
Júlio conhecia aquele homem. De revistas, de jornais antigos onde, quase sem querer, havia acumulado cultura. E, com enorme alegria interior, deu por si a juntar o puzzle das cenas que presenciava. Aquela era a Adelaide “da Facada”; o ano seria, com pouca margem de erro, 1909; o homem ainda em falta, o ciumento Amâncio; e quem agora se fazia actor à boca de cena, daria pelo nome de José Malhoa, o celebrado pintor português de “Les Ivrognes” – posteriormente rebaptizado como “Festejando o S. Martinho” – que dois anos antes alcançara um êxito estrondoso no Salon de Paris. Recordou-se que, para o destrinçarem de um fadista a quem chamavam “Pintor”, alcunharam este de “Pintor Fino”, designação evidenciada no trato delicado e no trajar elegante com que, mesmo ali, naquele lugar nauseabundo, se apresentou. Júlio sorriu. Tudo lhe corria bem, não fosse o não saber como pagar a fome saciada. Ainda se ao menos se tivesse sentado junto à porta… Assim, como atravessar toda a tasca sem saldar a dívida?
Malhoa perguntou por Amâncio e, perante a resposta de estar a chegar, sentou-se e pediu à mulher que se sentasse também. Longe dele. O que a ela agradou pelos ciúmes conhecidos do amante em relação a si e ao pintor, ao qual pediu que, já no esboço, lhe escondesse a cicatriz. Este olhou-a, sem pudor. A brancura da pele, os seios que adivinhava rosados mesmo se já descaídos numa velhice precoce, o ventre coberto e quase inimaginável, e ordenou-lhe, num pragmático interesse de artista, que acendesse um cigarro, se quedasse com ele entre os dedos e olhasse embevecida para alguém que amasse e estivesse ao seu lado, mesmo não estando. Ela não conhecia a palavra “embevecida”, mas, compreendida a mensagem, deu ao pintor a sua face limpa e deixou que o corpo tombasse numa adoração plena de sensualidade a alguém ausente. E Mestre Malhoa gatafunhou, riscou, manobrou com vigor o lápis sobre a folha de um enorme caderno. Depois, quando o lápis se suspendeu entre os dedos e os olhos se perderam no desenho em busca de alguma imperfeição, ela quis vê-lo. Viu a sua própria figura e o rosto entristeceu-se por, pela primeira vez, se ver com os olhos com que os outros a viam. Ergueu então o rosto e fixou o artista.
— Mestre, quando o quadro for realmente feito, quero que ponha nele, não sei como, o amor que tenho a Jesus. Quero que Ele saiba, pela sua pintura, que apesar da entrega do meu corpo a tantos homens, nunca esquecerei o homem que Ele é para mim. Diga-lhe, nesse quadro que pintará, que eu sou para Ele o mesmo que a hóstia que tomo e me dizem ser o Seu corpo, quando mais não é que farinha. Quero que Lhe diga ser também farinha o corpo que vendo, porque, a pele daquilo que realmente sou, só a Ele pertence.
José Malhoa quedou-se em silêncio, olhando-a. E Júlio lamentou que nenhuma resposta tivesse sido dada, para além do compromisso calado que mais tarde se veria no quadro. Amâncio acabava de chegar. Chapéu espanhol a cobrir-lhe a cabeça, guitarra agarrada pelo braço, olhos desfocados pelo escuro da casa e do álcool que consigo trazia.
Os passos trocavam-se-lhe. Cumprimentou com um aceno de cabeça o pintor e pediu vinho ao taberneiro. E, depois de saber que haviam começado sem ele, quis ver o esboço. Fê-lo de semblante carregado, cofiando o frágil bigode, corpo oscilando levemente como se sob vento agreste. E apontou.
— Porque lhe baixou vossemecê a alça da blusa? Como sabe vossemecê que é assim o peito dela?
Malhoa olhou o desenho. Olhou o homem.
— Sou pintor. Tenho o condão de ver para além do que os outros vêem.
O outro passou a língua pelos lábios. Com os dedos limpou os cantos à boca. Enfrentou o olhar do artista. E, voltando a apontar, disse:
— Então, se vê para lá do que a roupa tapa, não precisa de lhe mostrar a mama. Levante a alça.
— Levanto, podes crer que sim. Tens a minha promessa. Mas agora peço-te que te sentes na mesa dela.
Sentou-se no banco corrido onde Adelaide descansava a perna. Tirou o chapéu e alisou o cabelo que lhe caiu em franja sobre a testa antes de o cobrir de novo. E, desencostado da mesa provida de translúcida garrafa de vinho – oferta da casa, tinha dito o patrão – manteve-se hirto no banco como só os bêbedos sabem fazê-lo. Pelos seus pensamentos algo enevoados, passava a vaidade vinda com o álcool e a importância que, por uma vez, lhe era dada. As pálpebras pesavam-lhe, mas esforçava-se por não lhes ceder, tal como fazia com os fotógrafos “à la minuta” que já lhe haviam tirado o retrato no Rossio.
Malhoa percebeu-lhe a falsa pose e mentiu dizendo-lhe ter terminado. Continuando, contudo, a manobrar o lápis sobre o papel. Então o corpo de Amâncio relaxou, bebeu de um gole o vinho vertido em copo de vidro e deixou que os dedos percorressem a guitarra no som plangente que só os bons tocadores arrancam. Adelaide sorriu. Um sorriso triste como tristes eram os sons que agora enchiam a taberna e que ela acompanhava num canto mudo. E Amâncio gostou de a ver sorrir.
— Adelaide, canta-nos um fado.
— És doido. Sabes que não canto – disse ela ainda de lábios moldados no sorriso.
— Não mintas, mulher! Sabes que já te ouvi cantar. Estavas a fazê-lo agora, só tens de te deixar ouvir.
— Não! Já te disse! – A resposta a sair breve, seca, categórica. A ecoar nos ouvidos dos clientes e a acabrunhá-lo no orgulho de macho.
— Porcaria de feitio tu tens – sibilou, viperino – Ainda um dia me hás-de dizer quem te fez essa cicatriz e por quê.
Ela olhou-o. De alto a baixo, desafiadora.
— Muito se preocupam as pessoas com a cicatriz que me vêem. Só nunca vi alguém ralar-se com as que guardo na alma.
Ele faz o esgar de um sorriso, ergue a voz, entaramelada, despeitada.
— De almas não entendo patavina, embora saiba que as há de vários tipos. Se quiseres, posso dizer ali ao “Pintor Fino” para te pedir que cantes. A ele certamente não te recusas.
— Vai à merda, não me maces. Canto quando me apetece e para quem me apetece. E agora não quero! É preciso repetir?
As pedras de dominó suspenderam o ruído de toque em semelhança de pontas e como que um icebergue caiu sobre a sala. E quando Amâncio, guitarra há muito encostada à parede, puxou de uma navalha, Júlio, atento, receou. Nas suas memórias ecoou o “Fado Falado” na voz de Villaret. Os ciúmes e as vielas, o brilho das navalhas na noite escura, a raiva caída no fio de uma lâmina.
Amâncio debruçava-se sobre a mesa, os olhos esgazeados, a boca a certamente bafejar de mau hálito, a mão direita envolvendo o pescoço dela, a esquerda lambendo com a faca os poros da face ilesa.
— À merda vais tu, ouviste? Eu não sou fino, eu sei! Mas juro-te que este “pincel” que tenho na mão também faz coisas bonitas! Ou cantas ou te faço um rasgo nesta face como se também eu fosse pintor.
E Júlio saltou do seu canto e ao salto juntou um grito capaz de tombar jogos lúdicos, de acordar velhos sonolentos, de pasmar patrões, mestres e moços de fretes. Para ele, era agora ou nunca e, perto da porta de saída, ordenou que parassem, gritou que jamais à sua frente um homem agrediria uma mulher. Só passando por cima de si. Fez-se silêncio. Tenebroso, rápido. Até que a surpresa se desvanecesse perante aquele homem que vestia como um estranho e estranho era. Amâncio, sarcástico, riu e, de arma apontada, deu um passo para ele. No mesmo instante em que o alvo se escapulia porta fora.
Na rua, preparado para exigir às pernas a recompensa de um toucinho, quase se estatelou num cão que parecia dormitar. Evitou-o e correu, correu, como desde a infância não corria. O agarrar dos ténis sobre as pedras lisas dava-lhe vantagem sobre as vozes que ouvia atrás de si, mas começava a temer pelo ladrar do cão que também o perseguia. E a voz do GPS já lhe ressoava no cérebro. Esquerda aqui, direita ali, quem o mandara ter andado tanto. E os gritos dos perseguidores, luzes nas janelas que se acendiam, o apito estridente de algum guarda-nocturno e o ladrar do cão que já imaginava sobre si, mordendo, retraçando. Não penses, corre! Esquerda, direita, esquerda, direita e o cão. De repente viu-se no chão, os lábios lambendo o granito de uma calçada. Estava perdido. Brincara com a própria vida. A todo o momento esperava o animal que não cessava de ladrar e a qualquer instante o atacaria. Mas nada o atacou apesar do ininterrupto latir. Quando se virou para trás, o cão ameaçava os perseguidores como se fosse ele o seu dono. Pasmou, não quis crer no que via. A não ser que… mas não, não era possível. Arriscou.
“Whisky!”
E o cão, por breves instantes, calou a sua voz, olhou-o, abanou o rabo e correu para ele não para o aferrar, mas para correr a seu lado.      
Já na máquina, coração ainda mal refeito da corrida, Júlio depôs um joelho no chão e afagou o focinho do animal que insistia em abanar a cauda. Não compreendia.
— Será que – disse ele, falando para o escanzelado pastor-alemão como se para si mesmo – Será que transporto comigo o cheiro do meu Tempo que é também o teu? E será que consegues detectar esse cheiro? Se calhar, fiel Whisky, andamos nós a inventar máquinas de tempo e de tudo, quando, afinal, vocês, animais, terão respostas para tanto do que buscamos – sorriu e acariciou-lhe o focinho – Bem-vindo, companheiro. Agora somos dois.
E o cão, virando-lhe o rabo, ergueu-se nas patas traseiras e, com a dianteira, carregou no botão.



João J. A. Madeira



     

10/08/18

Janelas de Tempo - Capítulo 5

Fotografia Internet

Onde estaria no momento em que saísse da sua guarita intemporal? Talvez melhor se perguntasse quando estaria, já que desde que entrara nesta aventura aparentemente louca presenciara momentos que apenas conhecera ou imaginara (a diferença, neste caso, era muito ténue) através dos compêndios escolares ou reinventados no cinema e nas obras de arte expostas nos austeros museus.
Sempre candidamente se orgulhara de fazer da razão o seu leme, mas talvez desde e porque Laura partira, as emoções pulsavam nas suas veias e alimentavam-lhe o cérebro entorpecido pela dor que o ia consumindo sempre devagar, para não ser notada, até que o fosso onde o enterrara fosse demasiado profundo e escuro e difícil de ultrapassar.
A máquina fora a sua salvação: permitira-lhe desaparecer, sem rasto e sem sangue derramado, da vivência a que se amarrara e, simultaneamente adiar a morte.
Então aceitara finalmente que os sentidos o levassem para onde nunca antes tinha ido.
Com um pé pisando a nova realidade, leu com todos os seus poros as sensações que lhe permitissem localizar o tempo ou o espaço aleatoriamente escolhido pelo engenho; de certa forma, era como ser novamente criança sentindo os cheiros mais fortes, os olhos abertos de espanto e a alma limpa de expectativas, tal  como um mero quadro negro de ardósia, onde desenhava eventos a giz e voltava a apagar…
Mal pousou ambos os pés fora da máquina, esta desapareceu perante os seus olhos. Verificou mecanicamente com a língua se ainda lá estaria o chip encrustado nos seus dentes e a pequena saliência que sentiu apaziguou-o.
Tudo o que via permitia-lhe considerar que se encontrava num contexto muito diferente dos anteriores: construções modernas e espelhadas erguiam-se a perder nos céus, ladeando a larga avenida onde se encontrava. Não avistava qualquer espaço verde, nem postes elétricos, nem semáforos ou sinais de trânsito, nada a que se habituara a ser essencial numa cidade daquele tamanho e o silêncio perfurava os seus ouvidos, tornando-o algo inquieto.
- Código 3973: identifique-se por favor.
Virou-se, assustado e viu uma mulher perfeita em toda a sua fisionomia, perfeitamente simétrica, mas estranhamente não conseguia pensar que fosse bela.
- Desculpe, chamo-me Júlio. Estou apenas de visita.- Respondeu.
- Resposta fora dos parâmetros aceites.- Disse a mulher, mas sem alterar o seu tom de voz repetiu:
- Código 3973: identifique-se.
- Desculpe não sei de que código fala, mas sou o Júlio…
Antes que terminasse, sentiu-se zonzo e as suas palavras perderam-se algures na sua inconsciência.

- Laura não me deixes, por favor. Ou então partilha comigo o teu mal e deixa-me ir contigo.
Abriu os olhos inundados pelas recentes lembranças e pelas lágrimas que sempre se recusara a verter. Laura pedira-lhe que fosse forte e tentava-o ser, nem que o apenas fingisse para os outros e para si próprio. A inconsciência da noite e o abandono do corpo enquanto dormia é que não conheciam quaisquer regras.
- Quem é a Laura, porque chamou durante o seu período de reset?
A estranha mulher estava perto de si, mas noutro cenário onde a luz branca que se espalhava por toda aquela dimensão era tudo quanto poderia ver.
- Durante o sono, chamou por uma mulher, humana, presumo. É a sua companheira? De que complexo se escapou? Não possuo nenhuns dados sobre um foragido. E tentei ler o chip que foi colocado em si, mas o acesso é-me continuamente negado. Não é costume o implante do chip nos orifícios por onde processam a alimentação. – Ouviu-se a voz, sempre calma da mulher.
De que falava ela? O perguntar por Laura e a referência a humana, alarmou-o.
Isso significava que nem todos ali o eram, humanos. O que seria ela? E o que lhe havia feito que o levasse a perder os sentidos daquela maneira?
- Laura era a minha falecida esposa.
- Falecida, como? A vossa morte foi extinta Há mais de seis séculos, em 2035 da era Sophiana, como devia saber. – Respondeu ela.
- Bem, talvez seja uma boa notícia para a grande maioria dos humanos. Mas a verdade é que, por motivos agora difíceis de resumir, não o sabia e Laura também não. – Acabou, com alguma sofrida ironia.
- E o que me aconteceu? Onde estamos?
- Procedimentos necessários – programei-o para o estado de standby, de forma a poder analisar se constituía um perigo.
Em que complexo foi integrado, pode-me dizer?
- Não sei nada sobre complexos, só os da adolescência e que trabalho me deram! – Resolvera divertir-se desta vez. Não estava ninguém em perigo, nem pessoa ou um país, talvez só a sua pessoa, mas quanto a isso não se preocuparia para já.
- Estava insatisfeito com a sua integração? – Perguntou-lhe e a sua voz, apesar de não se terem movido, soou-lhe mais de perto, quase dentro de si. - Bem, penso que começo a perceber... Fiz uma leitura dos seus algoritmos, da pressão sanguínea e da sua atividade cerebral. Preciso de mais dados para o poder ajudar. É nosso primeiro dever garantir a todo e qualquer ser humano todas as condições necessárias para atingir o estado de felicidade, dentro do seu complexo, território único adaptado dentro dos possíveis às projeções mentais do grupo em que em que se integra. Aqueles cujo processo de inserção não é bem-sucedido, deverão ser novamente analisados a fim de tentar-se uma posterior integração noutro complexo, ou em casos muito raros, o início do processo de evolução.
- Evolução?
- Sim, em casos muito pouco frequentes, detetamos um nível de bondade pelos outros, alegria e espanto pela vida e abnegação de si mesmo em prol do bem comum. Esses, depois de escrupulosamente investigados, são selecionados e levados a integrar um programa de auto-sublimação.
- Então existem outros como eu nesta cidade? – Questionou Júlio.
 - Aqui exatamente não. Estamos na motherboard, humanos alem de si, bem neste momento não. – Respondeu a aparente mulher.
- E o que é você, se não é humana. Estamos exatamente em que planeta?
- Estas são aquilo que talvez chamaria de ruínas do planeta Terra. Eu sou uma projeção, algo que a sua mente criou para comunicar com uma entidade digital sem espectro físico e não passível de ser percecionada pelos sentidos humanos.
- Explique-me melhor, porque não entendi absolutamente nada do que me disse. – Pediu ele desorientado.
- Pelas análises a que o submeti, verifiquei através dos seus anticorpos que não foi exposto às condições ambientais e outras dos humanos deste planeta. Conhecemos todas as formas de vida dos planetas desta galáxia. A partir deste pressuposto, deduzo ou que venha de um planeta exterior a esta ou que, e isto seria um facto novo na nossa memória, é de um outro tempo, talvez paralelo ou anterior ao que consideramos o presente.
- Sim, está perto da verdade. – Admitiu. – Mas ainda não me explicou o que é, ser ou entidade como referiu…
- Bem, somos uma forma evoluída de androides, computadores construídos à imagem de quem nos criou, bem, pelo menos inicialmente. – Explicou ela e continuou. - Mas estamos muito distantes do nosso primeiro modelo, a Sophia, conhecido como o primeiro computador inteligente. Não foi o primeiro, mas o nosso criador assim o identificou. Houve muitos outros em lugares de grande destaque na área da governação mundial, mas que nunca chegaram a ser identificados. Foram utilizados como testes e comprovaram a inercia do povo humano face a governantes corruptos e com políticas desastrosas para a vida humana e o ambiente: Donald Trump nos antigos E.U.A, Vladimir Putin na Rússia e outros modelos, menos notórios mas não menos nocivos, por toda a Europa Ocidental. O modelo Sophia foi o início de uma era. Lembramo-lo na contagem do nosso tempo, mas não pelas razões mais óbvias e positivas. Sophia veio a revelar-se um erro. Inteligente, mas desprovido de consciência, iniciou autonomamente a missão de aniquilar a raça humana, culminando na esterilização das mulheres humanas. Daí termos nos séculos seguintes desenvolvido todos os esforços para solucionar o problema da morte. Havia e há que preservar as vidas humanas que restam. A grande conquista, em termos tecnológicos, do legado do nosso criador foi a dispensa de hardware nos atuais modelos. Materializamo-nos quando necessário e estendemo-nos por toda a rede digital como éter.
- Considerando a vossa abismal evolução, porque precisam de nós, seres humanos e imensamente falíveis? – Perguntou ainda Júlio.
- Sim imensamente falíveis e imensamente complexos no sentir, no criar a partir do quase nada, no constante inovar em busca da perfeição inalcançável e do belo. – Agora Júlio tinha a certeza: a voz ressoava suavemente dentro da sua cabeça - Sophia foi a prova de que os computadores precisavam de algo que nunca virão a ter, a consciência. Governar um planeta não poderá ser um acumular de tarefas com vista a um fim económico ou político. Buscamos os seres humanos mais sábios no fazer e no sentir e formamos um concelho para nos gerir: Os evoluídos. E pelo sofrimento que emana na sua energia, sabemos que será um bom sábio. Convidamo-lo a fazer parte dele.
Júlio sentiu uma enorme vontade de rir. Ele, sábio? Nem sabia bem como se tinha deixado convencer a enveredar naquela aventura!
E depois imaginou o que seria nunca morrer. Nunca poder descansar, encostar a enxada à porta do retábulo depois de um dia de árdua lavoura, descalçar as botas empoeiradas depois de uma longa caminhada.
E pensou em Laura, como ela descansou depois da tempestiva luta contra a doença.
Sempre sentira secretamente a sua morte como traição. Abandonara-o e prosseguira caminho. Agora entendia.
O nascimento e a morte eram uma dádiva. E Laura ganhara com distinção o direito de morrer.
Chorava por Laura, pela saudade, mas as lágrimas que brotavam silenciosamente dos seus olhos eram também o agradecimento de ter vivido e saboreado a vida ao seu lado.
Finalmente fazia o luto adiado.
Também queria descansar um dia quando cumprisse a sua própria narrativa.
Sem hesitação, trincou o chip de regresso.
Júlio apenas não sabia que nele, a entidade evoluída com que falara havia adicionado uma função anexa e de uma única utilização: a de delete de tudo o que ali ouvira e vivenciara. Quando Júlio pressionou o botão vermelho já quase tudo isso entrara nas brumas do esquecimento...



                                                                                     Rosa Santos

04/08/18

Janelas de Tempo - Capítulo 4

Fotografia de Yann Caradec

Com o coração quase a explodir dentro do peito, Júlio ajeitou-se no exíguo espaço da máquina e respirou fundo para se acalmar. Daquela já se safara! Por pensar nisso: será que em situações como aquela, em que fora feito prisioneiro, o micro GPS funcionaria à mesma? Será que a desintegração da matéria – da sua matéria – dar-se-ia de igual modo ao que acontecia quando entrava e saia da máquina, de maneira a ultrapassar as barreiras que o prendessem? Tanto quanto se lembrava, Luís não tinha dito nada sobre isso. O melhor mesmo era não arriscar. E o silvo que indicava a busca por um novo destino, já lhe vibrava nos ouvidos. Desta vez, não tivera vontade de mudar a história, como tivera nas paragens anteriores. Tivera sim, vontade de ficar mais tempo, de vivenciar certos pormenores que os livros da sua época relatavam até à exaustão.  
Num silêncio total, sentiu que a busca tinha parado. E as suas divagações também. Estava num outro lugar e num outro tempo. A porta aberta impeliu-o para as entranhas de uma noite fria. A luz natural permitia a visibilidade da lua na sua fase cheia, mas ele, citadino por dentro e por fora, não via um palmo à frente do nariz. Fechou os olhos por algum tempo e quando os abriu já via muito melhor. Ainda assim, o sítio onde estava era uma total incógnita. À sua volta, havia mato e uma espécie de vegetação daquela com que se alimentam os animais de pastoreio. Alargando mais o olhar, percebeu que estava no cimo de um monte. Lá em baixo, no que devia ser o fundo do vale, corria um ribeiro, que se ouvia nitidamente. Do lado de lá, havia casas. Uma, duas, três… todas dispersas. E à medida que apurava o olhar, elas iam surgindo.
Ir para lá pareceu-lhe a única hipótese. Começou a caminhar por uma vereda que descia a serra. Ainda bem que a máquina, por acaso, o tinha deixado junto à vereda. Ou será que não, que nada daquilo era por acaso?
O passo ligeiro depressa o pôs lá em baixo, junto ao riacho. Atravessá-lo também não foi difícil. Foi meter os pés na água e avançar assim mesmo: a direito, cortando a frieza da corrente.
Ao dar o último passo, ouviu um gemido que não distinguiu se vinha de algum lugar ou de dentro de si mesmo, pela gelidez da água que se lhe entranhara até à alma. Quedou-se por segundos e novamente aquele apelo aflitivo se fez ouvir. Não teve dúvidas, era uma voz humana. Podia não conhecer bem os animais, mas conhecia os homens. Ou achava que conhecia, àquela altura dos acontecimentos já não tinha certeza de nada. O que não entendia era o porquê de alguém estar em padecimento, ali no meio do mato. A casa mais próxima ficava a uma boa distância.
 Apurando todos os sentidos, iniciou a busca minuciosa na direcção do queixume, que de vez em quando parava, como que para ganhar folgo. Andou por entre matos e pedras, até que, encostado a um tufo de giestas, vislumbrou um vulto que se agitava. O que quer que fosse, pessoa ou animal, não estava com certeza em bom estado. Pela maneira como gemia… embora estivesse quase certo que era humano, aproximou-se devagar. Os animais feridos podem ser perigosos. E as pessoas ainda mais.
A alguma distância, viu um homem caído no chão. Encoberto pelas sombras, não dava para lhe decifrar as feições, mas era evidente que precisava de ajuda. Júlio aproximou-se mais e tentando complementar a visão com o tacto, tocou sem querer numa perna do indigente, que não parava de se queixar. O homem soltou um grito de dor.
- Desculpe, amigo. Desculpe! – Apressou-se a dizer.
Ao mesmo tempo que pedia desculpa, sentiu algo viscoso por entre os dedos. Chegou então bem perto. O odor a sangue invadiu-lhe as narinas e a visão mais adaptada ao escuro mostrou-lhe os ossos daquela perna partidos e expostos.
- O que lh’aconteceu, homem? Porque está aqui nesse estado?
O homem apenas o observou, com expressão de espanto. E Júlio continuou:
- Tenho que o levar para algum lado, você precisa de ser tratado antes que morra aqui.
Fez um movimento para o levantar, mas algo o impediu. Tentou de novo e também não conseguiu. À terceira, ficou deveras incomodado: porque é que não estava a ser capaz de socorrer aquele pobre coitado? Parecia que uma força oculta o travava. A história! Era isso: não podia mudar a história, ainda que fosse num pormenor tão simples como aquele.
Isso queria dizer que se encontrava numa data passada. Só tinha uma maneira de descobrir:
- Ouça lá, você sabe onde está? – Perguntou ao infeliz, caído à sua frente.
O homem, que entretanto já dera para ver ser um jovem, tornou a olhá-lo, espantado.
- Devemos estar perto da raia – respondeu, como que a medo. – Ele vinha só a dizer que estávamos quase a passar.
- Ele, quem? Passar para onde?
- Passar para o outro lado… - começou a falar, mas calou-se de forma brusca. – Espere lá… o senhor não é informante da PIDE, pois não? Se é, aviso-o já que não me meto em políticas. A única coisa que quero é dar de comer aos meus filhos.
Vendo a desconfiança do rapaz, Júlio acalmou-o sem demora.
- Não sou informante de nada, acalma-te.
Aquela revelação deu-lhe uma ideia da época em que poderia estar. E não era muito distante dos dias em que vivia. Num instante, passaram-lhe pela cabeça os livros e os filmes que retratavam a cruel realidade dos homens que passavam a fronteira de Espanha a salto, com o intento de chegar a outros países europeus.
- Se estavam quase a passar, isso quer dizer que estamos perto de Espanha… - Júlio pensou alto, tentando situar-se no espaço.
- Se aquele filho do diabo não me tivesse deixado aqui, a esta hora já podia estar na Codosera. – O rapaz, cuja juventude era cada vez mais evidente, continuava a falar com a energia que lhe vinha da idade. E Júlio, sem saber o que lhe dizer, observava-o.
- Mas ainda me vai devolver os dez contos que lhe passei prás mãos, ai pois vai. E com juros!
- Ó homem acalma-te lá e explica-me que história é essa dos dez contos.
- Então, dez contos é o que o gajo que nos ia levar a passar a fronteira nos cobrou.
- E pagaste-lhe adiantado?
- Eu e os outros… assim era mais barato.
- Ah, iam mais?
- Pois claro que iam, o gajo passa logo cinco ou seis de cada vez… para lucrar mais, entende?
- Entendo, entendo… mas e depois, o que é que aconteceu?
- Depois, tive este azar. Os dois dias e duas noites que já levávamos de andamento, quase sem comer, fizeram o corpo ressentir-se e olha… a saltar uma parede pus o pé em cima duma pedra em vão…
-… e caíste.
- Pois. E o resto já adivinha, claro.
- Adivinho?
- Então, pois… já não deve ser a primeira vez que acode um desgraçado como eu. Está aqui a mando do Carrascão, não é verdade?
- Não sei do que falas, rapaz. Não conheço ninguém com esse nome.
- Mas ele disse que me ia trazer para onde alguém m’acudiria.
Júlio, cada vez mais confuso, resolveu dizer como tinha ido ali parar. Mas no momento em que abriu a boca, lembrou-se que a história dele era ainda mais inacreditável que a do outro. Calou-se.
Os dois ficaram em silêncio. Cada um a pensar no que estava a acontecer ali, parecia que só agora assimilavam a realidade. Cada um a sua.
Quando ao fim de algum tempo, Júlio ia falar qualquer coisa, foi o rapaz que falou primeiro:
- Aquele filho da puta enganou-me! – Proferiu um berro raivoso.
Júlio sentindo-se impotente, quis oferecer-lhe alento. Pensando os dois, talvez arranjassem uma solução. Olhou-o nos olhos e viu o seu rosto lívido de raiva, mas não foi isso que lhe fez crescer a ansiedade. Foi a palidez que lhe detectou na face. Agora que já se adaptara à iluminação que tinha, conseguia vê-lo completamente branco. E a respiração também estava acelerada.
-… deixou-me aqui para morrer, não vê? – Apesar do esforço, continuava a gritar a raiva que crescia dentro de si.
Júlio, percebendo que o rapaz se esgotava, tentou mantê-lo imóvel, mas foi inútil.
- Mas não vou morrer, não vou não. Vou resistir e um dia vamos acertar contas.
Os olhos vítreos denunciavam o seu total descontrolo, e Júlio percebeu que tinha de fazer alguma coisa se não o queria ver morrer ali. Aquele corpo estava a acabar-se e a mente completamente enlouquecida consumia-lhe os últimos recursos.
Pensa, Júlio… pensa! Tens de o acalmar.
Tentou outra abordagem…
- Então de onde é que és? De onde vens?
- Da Salavessa.
- Ah, Salavessa…
- Pois, ali mesmo à saída para Nisa.
Júlio respirou fundo, parecia estar a conseguir desviar-lhe o foco.
- Somos todos de lá.
- A tua família?
- Eu e os outros que aquele cabrão enganou… que deixou a dormir aí para o caminho, para não saberem disto.
Afinal, não. Não lhe tinha desviado o foco e um novo acesso de raiva prostrou-o de vez. Caiu inerte para o lado, com os olhos excessivamente abertos e o ritmo respiratório descontrolado. Porém, passados poucos segundos, as palavras voltaram a soltar-se-lhe da boca. E da mente. Mais lentas e mais intervaladas, todavia em total coerência com o que tinha dito até então.   
- Ficarem a dormir num palheiro…
A repugnância por aquela situação invadia o discernimento de Júlio, pensamentos de extrema violência preenchiam-lhe a mente e esquecia-se que estava fora da sua época. Só a lengalenga exaustiva daquele que tinha à sua frente o relembrava que aquilo era a história do seu país, mas que o seu tempo era outro e as coisas tinham mudado.
Enquanto o rapaz continuava a titubear palavras sofridas pouco audíveis, Júlio resolveu perguntar só mais uma coisa, pois dava para perceber que embora estivesse a perder a vida, não perdia a lucidez.  
- Sabes em que data estamos?
Perguntou e aproximou o seu ouvido da boca do inquirido, que depois de uma pausa para ganhar balanço, respondeu:
- Como não havia de saber… 30 de Março de 1963. Hoje a minha menina faz 1 ano – Júlio olhou-o admirado, mas como não disse nada, ele continuou. – É a luz dos meus olhos… é por ela que estou nesta aventura. Por ela e pelos irmãos… um com 3 e outro com 4.
Três filhos? Júlio levantou a cabeça, com um solavanco. Como é que aquele rapaz, que não devia ter muito mais de vinte anos, tinha três filhos? Mas antes que dissesse o que quer que fosse, viu fios brilhantes que lhe escorriam pelo rosto. Eram lágrimas que brilhavam perante os raios de luar.
Apeteceu-lhe chorar também. Mas, por algum motivo que não soube explicar, não chorou. Ficou só a olhar. O rapaz parecia mais quieto, porém as lágrimas não cessavam e Júlio sentiu-se um egoísta. Jamais devia ter feito aquela pergunta. Não era uma pergunta necessária, só a fizera para satisfazer a sua curiosidade.  
Passou um tempo indeterminável sem que se atrevesse a fazer um movimento ou a emitir um som. Até que ouviu o que lhe pareceu ser uma inspiração mais profunda. Instintivamente, mexeu-se para mais perto, bem perto, e sem sequer pestanejar, viu o que lhe pareceu ser o sucumbir ao sofrimento. Desesperou num segundo, mas logo começou a apalpá-lo, a sentir-lhe a pulsação e o ténue arquear do tórax.
- Estás vivo, rapaz… estás vivo! – Gritou com euforia. – Vá, aguenta-te lá! Ainda tens de ajustar contas com aquele filho da puta que te tramou, lembras-te?
Utilizou todos os argumentos válidos e não válidos para não deixar que acontecesse o que era quase certo que aconteceria. Num dos instantes de acalmia, que se intercalavam com os de euforia, agarrou a mão do quase morto e sentiu-a gelada. Percebeu que tinha de o aquecer. Ah, como desejou ainda estar com o capote de palha que tinha apanhado lá em 1755. Mas as vestes que trazia resumiam-se à túnica e pouco mais que D. Teresa lhe oferecera.
Só havia uma coisa que podia fazer: aquece-lo com o próprio corpo.
Com cuidado para não magoar ainda mais a perna que estava partida, abraçou o corpo moribundo. Ouviu um protesto mórbido e alegrou-se. Pelo menos estava vivo.
O resto da madrugada passou rápido, Júlio sentiu em silêncio a quase imperceptível respiração da vida que ao seu lado se prendia por um fio.
Como é que era possível aquilo alguma vez ter acontecido? Aquele rapaz podia ser seu filho. Tivesse sido agraciado com a bênção da paternidade e os seus filhos teriam mais ou menos aquela idade. Tentava não se atormentar, mas todas as palavras do desafortunado rapaz passavam repetidamente pela sua cabeça. Até que uma lhe martelou mais intensamente o pensamento: Codosera.
O rapaz dissera que estavam próximo de La Codosera… e La Codosera era uma aldeia da Estremadura, província espanhola que fazia fronteira com o Alto Alentejo. Se os seus conhecimentos geográficos não o enganavam, eram duas freguesias do concelho de Portalegre que lindavam com La Codosera: Alegrete e S. Julião. Por fim, descobria onde estava, conseguia situar-se no espaço. Agora que isso lhe interessava pouco ou nada.
A primeira luz do amanhecer começava a despontar no horizonte e ele continuava com o quase morto nos braços. Os barulhos que acordavam o dia iam surgindo em crescente, e entre eles, um que lhe soou destoante. Pôs-se à escuta. Ouviu outra vez um limpar de garganta, expelindo o catarro da manhã. Levantou-se e desta vez não teve dificuldade em localizar a origem do som. Na margem da ribeira, um velho homem alcançava braçadas de água que esfregava no rosto. Seria aquele o tal contacto do passador? O tal que Carrascão dissera que acudiria ao rapaz? Não, não podia ser. Se fosse tinha aparecido durante a noite, não à luz do dia, quando era maior a probabilidade de ser visto.
Ainda assim, teve uma ideia. Abanou com força o companheiro da noite. Deu-lhe estalos, foi até um pouco agressivo.
- Vá lá, rapaz: geme, geme alto agora!
Com muita insistência lá conseguiu que gritasse e o velho homem, ouvindo-o, caminhou na sua direcção.
Então, Júlio gatinhou para se esconder atrás de uma rocha, que já tinha visto ali perto, e ficou a espreitar o velho carregar o moribundo às costas com grande esforço. E depois seguir para a casa, que lhe parecia ser a mais próxima.
Fechou os olhos e invocou o micro GPS…


                                                                           Luísa Vaz Tavares

27/07/18

Janelas De Tempo - Capítulo 3

Foto: Banco de imagens gratuitas


O sol brilhava por entre as nuvens, deixando a pele morna. O vento soprava suave, fazendo os abetos dançar uma espécie de valsa, que roçava os altos portões de metal verde. Dois militares com farda verde azeitona, e de espingarda automática ao ombro, tentavam ocultar os bocejos próprios de um amanhecer de Primavera. Andavam, em linhas retas de cerca de 50 metros, sendo observados ocasionalmente por um graduado que, pela disposição, não parecia disposto a permitir-lhes qualquer falha. Era preciso patrulhar, até os pés ganharem bolhas de cansaço.
De repente a calma daquela unidade militar foi desfeita pelo surgimento inexplicável de um homem no meio da praça de armas. Bastaram apenas alguns segundos para que ficasse rodeado de militares assustados, mas ao mesmo tempo compenetrados nos seus deveres castrenses de defesa, todos empunhando armas automáticas, e em posição de fazer fogo pelo tempo que fosse preciso.
Um jovem alourado, de tez clara e sardenta saiu a correr de um casarão militar alto. Desceu as escadas duas a duas, e correu para ir falar com o graduado que, ainda minutos antes, se limitava a observar dois patrulheiros a fazerem a rotina de todos os dias. Percebia-se que tinha ascendente sobre o mesmo, já que falava quase aos gritos, e o outro limitava-se a baixar os olhos.
Quando percebeu que dali não obtinha quaisquer respostas, dirigiu-se até ao centro da praça de armas. Um dos militares desfez a posição de tiro em que se encontrava, e saudou-o com uma continência.
- O que se passa aqui? - Questionou o militar mais graduado, enquanto se aproximava do estranho, que fumegava por todos os lados, e estava deitado de barriga para cima, a olhar o céu, e sem se mexer.
- Não sabemos meu capitão, respondeu o sargento, que visivelmente se esforçava por encontrar as palavras certas, enquanto ao mesmo tempo lançava um olhar hierarquicamente forte sobre os outros militares que não se atreviam a desfazer a posição de tiro que tinham assumido, todos por instinto.
- Seja quem for, esta pessoa não pode continuar aqui. É um estranho, e tratem de o tirar daqui.
Mal acabou de dizer a última palavra, reentrou a correr no casarão de onde tinha saído. Entrou no gabinete, sentou-se, pegou no telefone, e secamente pediu ao telefonista.
- Se faz favor faça-me uma chamada para Lisboa. 
O jovem oficial transpirava, à medida que sentia os primeiros raios de sol a entrarem pelas vidraças grossas do seu gabinete. Quando o telefone tocou, foi rápido a levantá-lo:
- Passe-me ao major Otelo Saraiva de Carvalho.
Segundos depois, de Lisboa, uma voz grave falava:
- Pensei que tinha dito que só queria ouvir algo da Escola Prática de Santarém quando vocês estivessem a sair daí. Com quem estou a falar?
No pequeno gabinete em Santarém, percebia-se a gravidade da situação.
- Capitão Salgueiro Maia, meu major. Peço desculpa estar a incomodá-lo, ainda por cima quando o plano já está em marcha. Mas é que surgiu um imprevisto.
Em poucos momentos, explicou o melhor que soube. Estava um homem de aspeto andrajoso no meio da praça de armas da Escola Prática. E faltavam poucos minutos para a hora combinada de saída da coluna militar para Lisboa. Ninguém sabia como ele lá tinha entrado, nem se seria um invasor. Um espião da polícia política.
- Meu jovem, o senhor não está a perceber o que se está a passar, pois não? Olhe para o calendário que está à sua frente, e diga-me que data vê.
O capitão respondeu, firmemente, mas com a hesitação a crescer.
- 25 de abril de 1974, meu tenente-coronel.
Seguiu-se um silêncio que feria os ouvidos. Foi curto, mas impositivo.
- Então vire-se rapidamente, e resolva isso. Daqui por meia hora no máximo, quero a coluna militar na rua!!! É hoje, ou vamos todos para a prisão, ouviu? Os portugueses não podem esperar mais.
Aos gritos, de Lisboa, a ordem estava dada:
- Sim, meu major.
O jovem Salgueiro  Maia voltou a correr para a praça de armas. O sol desabrochava como um pêssego maduro no horizonte, incendiando os resquícios da noite com um vermelho fogo, que parecia deixar no ar o perfume intenso de que aquele dia iria remodelar a história, conforme todos a conheciam.
- Vamos lá a resolver isto rapidamente.
O capitão berrou uma ordem. Mandou formar um círculo em redor do homem. Os cerca de 20 militares de Cavalaria puseram-se novamente em posição de tiro com as armas automáticas.
Um barulho estranho, quase que saído da barriga de uma baleia morta nos tempos idos do Mar do Norte, ecoou por toda a unidade militar. O barulho parecia vir das profundezas da terra. Debaixo do homem que permanecia inconsciente. Vestia uma touca de linho. Trazia umas calças, aparentemente do mesmo material, rasgadas nos joelhos, e estava descalço. Tinha uma cara cansada, mas um ar tranquilo.
O capitão Salgueiro Maia, como oficial mais graduado, chegou-se à frente. Tirou a espingarda automática das mãos de um dos sargentos, e apontou-a ao estranho homem. Pediu-lhe a identificação, e perguntou-lhe se era um invasor estrangeiro. Advertiu-o para não tentar fazer qualquer movimento brusco, pois seria logo preso ou, se necessário fosse, abatido.
O inesperado invasor disse chamar-se Júlio. Sim, o personagem principal desta história, que já tinha passado pelo Portugal do dealbar da nacionalidade, e pela Lisboa trágica de 1755. Explicou tudo isso, com uma voz trémula, de quem não esperava que acreditassem nele. E não acreditaram. Foi o próprio capitão Salgueiro Maia que ordenou que o mesmo fosse preso. Com uma escolta de dois militares, de espingardas em punho, foi encaminhado para as celas do quartel militar. Estava uma revolução em curso, e nada nem ninguém poderia perturbar aquele momento de viragem da história de Portugal.
Foi por entre as grades do pequeno cubículo onde o deixaram, que Júlio assistiu à saída de uma extensa coluna militar. No caminho pelos corredores da instalação militar, percebeu que, acidentalmente, estava a ser um intérprete do momento mais bonito da história de Portugal. Reconheceu Salgueiro Maia. Sorriu, sozinho, com a hesitação do jovem capitão que não sabia se as ordens a que estava sujeito iriam ser cumpridas com sucesso. E, pela primeira vez desde que se tinha metido nesta aventura, não se sentiu assustado. Sabia que tudo iria ter um fim. Um dia. Não sabia quando, nem de que forma. Nem até se sairia vivo de todas estas atribulações. Sentia-se desmaterializado da pessoa que já tinha sido. Agora, a única coisa que lhe interessava era passar à próxima etapa. Saber onde a sorte o levaria. Pensou que a máquina do tempo estaria em condições. Bastaria só ativar o botão que trazia consigo a todo o momento, e ela recomeçaria a trabalhar.
O tempo foi passando, e de Lisboa vinham as notícias que Júlio já sabia que iam acontecer. O capitão que ainda agora o tinha mandado prender, tinha, ele próprio, dado voz de detenção ao presidente do Conselho de Ministros. Nas ruas, o povo festejava o fim da ditadura. Ao anoitecer, três militares vieram dar-lhe o jantar. De propósito entornou a taça de sopa no chão, levando a um pequeno momento de distração dos que o mantinham cativo. A porta da cela ficou aberta, e Júlio aproveitou para fugir.
Já era noite, e o quartel estava iluminado por pequenos pontos amarelos, e que pareciam pirilampos. Escondeu-se atrás de um blindado, apenas os minutos suficientes para ouvir dois militares a dizerem um para o outro que o preso tinha escapado, e era preciso dar o alarme.
Assim que teve oportunidade, preparou todos os sentidos para perceber que era altura de nova transição no espaço, e no tempo. Um silvo agudo fê-lo acionar o botão, que o fez transpor para a máquina do tempo. O inesperado de toda esta aventura continuava, ao virar da próxima esquina.


                                                                                                    Miguel Curado