09/06/18

Voar Sem Asas - Capítulo XV

Foto © Fátima Ferreira 

O barulho da chuva eternizava a trovoada. O chão lá fora parecia rachar, ao passar de cada segundo, debaixo de uma intempérie que se descrevia a si própria com um silêncio difícil de decifrar. Theo refletia sobre o futuro da vida. O futuro do planeta. O que estaria para vir para si, e para os que gostava. Sabia que o Mal estava nos pequenos pormenores de todas as decisões que o homem alguma vez tomou, e das quais se arrependeu. Ou não.
Dar um passo que fazia de si próprio um Deus, tornava a vida de Theo uma alienação. Um pensamento que não poderia caber na cabeça de todos os seres humanos deste planeta, porque cada um deles nunca terá o poder investido em Theo. A certeza de que poderá abrir o chão, para fazer a Terra cuspir fogo e recentrar o foco da criação noutro ponto desta Galáxia, ou no mesmo local onde sempre esteve. Revolver os oceanos, a ponto de destruir tudo, como um sopro de Armagedão.
Amanheceu, com a perspectiva de Theo de que, afinal, era um ser humano. Com um condão de escrever a vida de uma forma mais intensa que o habitual. Por isso, sentou-se à mesa, no único sítio naquele local que permitia fazê-lo, e repensou toda a história de criação de morte da qual tinha sido o projetista.
No livro Terra defendeu a certeza de que os homens são os únicos donos do seu próprio destino, e deu-lhes o dom da ubiquidade. Cada canto teria um respirar humano. Um dote de amor no toque. Nas expetativas. Seria a lua a comandar o girar da Terra, e nunca o contrário. As estrelas desordenadas numa sopa primordial alumiariam as decisões de cada pessoa, para que o Mal fosse gradualmente substituído pela necessidade de lógica na evolução.
Nos eclipses, conhecidos numa nota de rodapé do livro da Terra como assassinos do Sol, as pessoas iriam encontrar um refúgio dos sonhos maus. Os tais que mais não eram do que o Mal que andava à solta nas páginas do livro da Terra, a querer desenhar um rosto no âmago das pessoas que respiravam para estar vivas, e estavam vivas tentando fazer muito mais do que respirar.
Theo sentia que não podia falhar no que debitava com o ritmado compasso da caneta que, hirta, tomava conta da sua mão, deixando-a sozinha a lutar contra o poder desgastante do tempo. E o livro da Terra teria também de ser uma prova do seu poder. Sentia-se o escolhido para, com palavras poderosas e magnéticas, capazes de revirar o sentimento das pessoas transformando a maldade em bondade, alterar o destino de todos os seres humanos.
E por isso criou uma ideia de reconciliação entre todas as pessoas. Apesar de saber que aquele era um espaço que só existia na sua mente, também sabia que se sentia ligado a milhares, milhões de seres semelhantes. E por isso desenhou uma casa comum para todas as pessoas. Teria janelas grandes, amplas, que deixassem abraçar toda a luz solar. E recantos desenhados com a mestria possível, para acolher as vicissitudes de cada uma das pessoas.
Teria de haver espaço para os ambiciosos, os conformados, os desesperados, os fazedores de esperança, e até as pessoas más. Os assassinos, os que se regiam pelo desprezo pela beleza e conceito de vida humana.
Quando chegou ao fim da reconsideração que devotou aquela obra, sentia-se uma pessoa cansada. Capaz de abdicar da criação, do desejo de perpetuar o belo, apenas para se sentar, fechar os olhos, e pensar que o bom da vida era a possibilidade de a maquilhar. Como o rosto da mais linda mulher do universo.

                                                                                         Miguel Curado

18/05/18

Voar Sem Asas - Capítulo XIV

Imagem tirada da net, sem referência ao autor 

É poeira a última vez em que Theo entrou na Biblioteca, mas recorda-se nitidamente de todas, tem memória ilimitada, por isso sabe de cor os títulos dos livros e o conteúdo inteiro de todas as obras, nem um só segundo da universal criação se eclipsou do seu conhecimento. Na Biblioteca guarda toda a História do Cosmos, uma quase infinita coleção de livros, desde o instante em que escreveu a primeira palavra, a milagrosa palavra com que inaugurou a primeira obra, à qual deu o nome de BIG-BANG, e à segunda obra, FIAT LUX.
Entrar na Biblioteca é a ação que mais custa a Theo e que muito o entristece, não pela dificuldade de encontrar qualquer livro, apesar de nela estarem depositadas todas as narrativas do Universo. A Biblioteca é um espaço inconcebível fora da mente de Theo, inacessível a qualquer entidade pensante, pois é na sua mente que a Biblioteca existe, e facilmente ele entra nela, facilmente abre o livro que o chama com urgência, facilmente o manuseia e facilmente encontra o episódio que lhe interessa, mas é sempre no presente da narrativa que age sobre o texto.
Interromper e alterar o curso de uma obra é o ato que mais lhe custa; não por falta de criatividade, pois, sendo autor de tudo o que existe no Cosmos, o grande livro que contém todos os livros, cujo exemplo mais parecido é a Bíblia, é incontestável a sua omnisciência de todos os processos narrativos. O que lhe entristece e magoa, se um motivo infinitamente forte o obriga a entrar na Biblioteca, a fim de abrir um livro e nele escrever, é o facto de as personagens dessa narrativa, por causa do livre-arbítrio que lhes concedeu, protagonizarem ações que põem em perigo a continuidade de um mundo cujo propósito é o Bem, princípio e fim absolutos que presidem a toda a sua criação.
Às vezes arrepende-se de ter criado o livro Terra, o único de todas as obras que o tem obrigado a corrigir o desenvolvimento da ação. Muitas vezes se interroga em que momento preciso e por que motivo se distraiu na conceção das personagens, a única explicação para o facto de o Mal se ter revelado uma personagem invisível desde Caim, para o caso de grande parte das personagens deste livro se aproveitarem do livre-arbítrio para fugirem ao domínio do seu criador e revelarem fascínio pelo Mal, obedecendo a este cegamente, como se o Mal fosse o deus do Paraíso.
A primeira vez que Theo mexeu no livro Terra foi logo nos primeiros capítulos, quando se lhe tornou evidente que o Mal se instalara na obra como personagem invisível, e então teve de exercer a sua omnipotência autoral, não quis que o fim do livro fosse o caos, o retorno ao Nada, resultado da extinção de todos os seres vivos. Por isso, com o Dilúvio e com a Arca de Noé, acabou o primeiro Tomo e iniciou o segundo do mesmo romance, para que as personagens, aprendendo a lição, percebessem que o livre-arbítrio é a dádiva mais valiosa da vida, que não deve ser utilizado para servir o Mal. Infelizmente, em outras ocasiões teve de agir, e novos tomos foram engrossando o volumoso livro da saga Terra.
Agora, decorrido um século desde a sua última intervenção, pondera se entra na Biblioteca, ou se, desta vez, desiste da obra — se a melhor solução é abandonar os humanos ao seu livre-arbítrio e permitir-lhes que percorram o caminho da autodestruição até ao fim, até à última palavra do último Tomo do livro Terra, definitivamente uma narrativa fechada e arquivada para sempre na Biblioteca.
Valerá a pena ajudar Laíssa, Orionte, Thays, Myrio, Thyara e todas as personagens que combatem o Mal?
Valerá a pena encerrar este Tomo do livro Terra e iniciar a escrita de um novo?
Ainda é possível acontecer uma obra perfeita, sabendo que o Mal é a semente que germina em todos os seres vivos da Terra?
Este é o dilema angustioso de Theo.


                                                                      António Breda Carvalho

11/05/18

Voar Sem Asas - Capítulo XIII

Frame do filme  "Metropolis"  - 1927
Caminharam calados, em passo cadenciado, para manter o ritmo... Faziam-no, sempre que possível, entre ervas altas, arvoredo, caminhos ladeados por abundante vegetação. Providenciava-se assim, uma certa segurança. À suave aragem do início da manhã sucedeu um calor tórrido. Aproveitaram para uma breve paragem, em que comeram alguma coisa, reviram mapas, reavaliaram possíveis estratégias. Seguiu-se-lhes um descanso merecido. Sempre que possível, antes do sono decidiam também, por um tempo de meditação, de reflexão.
Chegados, por fim á Grande Cidade!.. Com uma entrada guardada por altos muros de pedra, que Orionte tão bem conhecia. Aproximaram-se um pouco mais do portão, para que, de dentro, lhes fizessem o reconhecimento de imagem, através das câmaras ali instaladas, e lhes abrissem portas.
Então era ali, naquela fortaleza resguardada, que se moviam as Elites Governamentais e seus fiéis colaboradores... Pensava Laíssa.
Cumprido o primeiro obstáculo, sogro e nora propuseram-se calcorrear ruas menos movimentadas (de homens, obviamente) permitindo-lhes um certo à vontade para trocarem impressões.
O edifício principal era sumptuoso, rodeado de jardins bem cuidados, coloridos, com uma larga escadaria que os levou ao salão de entrada.
O olhar atento de ambos conduziu-os a um agente sentado a uma ampla secretária. Este, depois de os ouvir e identificar acompanhou-os ao elevador, não antes de lhes pôr nos casacos um cartão/ficha electrónico.
Saíram no piso indicado e surpreendidos depararam-se, de imediato, com Rafael fardado, formal, sério, que os aguardava. Não reconhecendo de imediato o "jovem rapaz"...
Rafael conduziu-os a uma sala aconchegante e luminosa, cheia de estantes e pastas. Fechou a porta e sentaram-se.
Laíssa e Rafael entreolharam-se algumas vezes, até que Rafael...
- Laíssa, estás muito bem disfarçada. Só te reconheci, pela expressão do teu olhar inconfundível. Por isso, não temas, não serás desmascarada...
Sorriram todos. Mais descontraído agora, o ambiente propiciou a conversa. Orionte e Laíssa, confiantes, expuseram seu plano de acção. Rafael, pela primeira vez, abriu-se-lhes em confidências, também. Para espanto de ambos. Laíssa confortável e mais apaziguada quis saber por Rafael, dos amigos e amores desaparecidos.
- Que aconteceu a Naldan, Sabras, Thays e Miryo, Laygar, Thyara e Iosef? 
- Foram embarcados na nave de reconhecimento que os sobrevoara no dia do desaparecimento. - Respondeu-lhe Rafael. - Estão agora em alas separadas, Thyara, Thays e Miryo, na ala feminina. Os homens numa ala própria…
Rafael informou-os que fora Eduína quem recebera Thays com Miryo e Thyara. Ela era a directora das alas femininas, localizadas num enorme edifício, vigiado do exterior, por soldados governamentais. Aqui se acomodavam as mães, que cumpriam todas as actividades domésticas, e crianças até á adolescência. Também mulheres férteis que, obrigatoriamente eram destinadas á procriação... Administravam-se aulas aos jovens. Logo, havia professoras... As restantes mulheres habitavam outra ala, mais afastada.
Os homens, funcionários do Governo, residiam para lá da ponte que atravessava o rio Auron, nesta altura de grande caudal. Em pequenos e confortáveis apartamentos. Os restantes, moradores em bairros, uns engrossavam as fileiras do exército, outros trabalhavam os campos, de grandes extensões, providenciando o sustento da comunidade. Toda a cidade era diariamente observada por câmaras ópticas e por "soldados vigilantes", além das naves...
Orionte tudo ouvia, cofiando a sua barba grisalha. Laíssa
não despegava os seus olhos de Rafael, bebendo-lhe cada palavra.
Em voz calma, Rafael soltou tudo quanto sabia sobre este burgo-mistério. Os seus visitantes, amigos, mereciam-lhe já toda a sua confiança. Eles, por sua vez, espantavam-se a cada novo relato de Rafael.
A promoção de Rafael fora importante para agilizar o processo. A nave agora posta ao seu serviço, iria ser-lhes de uma grande ajuda! Claro que Rafael não estava só. Seria impossível pensá-lo! Falou-lhes do movimento revolucionário que se vinha firmando há muito, compreendendo mulheres e homens. Além de Eduína, que se movimentava com razoável à vontade, no sector das Mulheres, quer das F.E. quer das M.C., contavam também com o grupo das professoras, das especialistas em artes defensivas, de orientadoras disciplinares... De homens apresentavam-se muitos dos que compunham as filas do exército, em postos graduados - não era de admirar pois que eram filhos e também pais de gente injustiçada! Um enorme grupo de ambos os géneros!
O plano indiscutível era derrubar o Centro nevrálgico do Poder instalado. Rafael cedo se apercebera das aberrações perpetradas pelos seus superiores. A irmã, Thays, era um exemplo disso... Assim, trabalhou capacidades de infiltração em lugares que importava conhecer, estudar, para tentar acabar com tanto descontentamento! Investiu, ao longo de anos, neste propósito, pedindo sempre aos companheiros, muito secretismo e moderação em conversas, em atitudes.
Laíssa ouviu tudo isto, e uma onda de paz, tranquilidade, tomou conta dela. Família e amigos estavam bem. Um sorriso sereno amenizou seu rosto agora transformado e um pouco grotesco. Olhou Orionte que ia questionando Rafael sobre detalhes que achava importantes.
Orionte e Laíssa abandonaram o edifício munidos de credenciais cedidas por Rafael. Com elas iriam mobilizar-se na grande cidade e mais além…
Já bastante afastados da zona de Serviços, pararam um instante. Laíssa e Orionte olharam-se sorrindo. Sem palavras, abraçaram-se felizes e comovidos. A revolta ganhava consistência!
Dava-se a partir de agora, início ao processo de mudança.
Para muitos, humilhados, o sonho tomava forma. Ganhava asas!...


                                                                                       Fernanda Simões