29/06/19

Variações em Quadrilha - Capítulo 2


Teresa
@Joaquim Henriques 

Sim, sabia-se complicada. Sempre de cabeça no ar, cheia de ilusões artísticas, frustrações de quem adorava arte e não pintava uma árvore ou escrevia duas folhas de texto. Refugiava-se num pretenso conhecimento artístico, conhecia os museus todos e até muitas das obras que por lá ganhavam bolor e em segredo suspirava vontade de criar algo semelhante, infinitamente semelhante, no mínimo.
Por outro lado, sempre presente estava a sua educação católica, profunda, imensamente castradora, que não parava de lhe segredar o que não devia fazer, os eternos pecados… Raimundo era do seu mundo, criado e educado da mesma forma, crente e casto, sincero nas suas convicções, sem mentiras ou hipocrisias, parecia…
Todos de boas famílias, cumpridoras dos castos deveres, missas dominicais e outros ais. Cresceram juntos, viu-o crescer, era o seu ídolo. Raimundo estava sempre entre os preferidos, ajudava na missa, na catequese ou nos campos de férias, até se falava que seria padre, tão aplicado era na mensagem. Ajudava em tudo mas nunca se envolvia com ninguém do grupo, estava noutra dimensão: perfeito, inatingível, como as peças de arte que aprendeu a adorar.
O amor, ou o que ela pensava ser tal sensação, cresceu assim, descontrolado. Teresa tudo fazia para estar perto, ser a primeira das ajudantes, e ele gabava-a, dizia que era uma excelente rapariga, bonita até, mas nada mais do que isso…
Durante anos, apesar de tudo, bastou-lhe. Afinal ele não abdicava da sua presença, da sua ajuda, e também assim, ela estava no centro das atenções. As beatas, principalmente, as mais velhas e encarquilhadas, tantas vezes desenganadas pelos seus, também castos maridos, incentivavam-na, transferiam para ela as suas frustrações, alinhavam com o santo padre, na mensagem: “a virtude, e a esperança, são as últimas coisas a perder…”
Houve algumas tentativas, alguns esfreganços, até. Uns beijos e mexidas em sítios inconfessáveis sempre travados à última hora por ele, sempre por ele! Por ela, por muitas avéns Marias ou padre nossos que tivesse de dizer depois, há muito que se lhe teria entregado toda, sem limitações, sem se ralar se era pecado ou não!
E assim continuou a sua vidinha; suspirando pelos cantos, certinha e adorada por todos, bolorentos… até que um evento mudou a sua vida. Raimundo, o exemplo a seguir, aquele que todas as suas amigas também disputavam, afinal tinha duas faces: um hipócrita! Não se sabe se sempre fora assim ou se tal começara quando saíra para estudar na capital, mas pelos vistos descobrira o prazer da carne, e pouco lhe importava se era tenra ou rija. Foi um marido enganado que, inventivo e destemido, o desmascarou. Foi em plena missa em que o “santo” participava, que lhe deu uns abanões vigorosos.
Estranhamente, ou talvez não, depois da surpresa, vieram as desculpas, as confissões e contrições. A família influente e abastada pagou a bula e rapidamente tudo caiu no esquecimento de todos, menos no dela…
Não importava que ele tivesse tido mulheres, poucas ou muitas, era-lhe indiferente, até o tornava mais humano e apetecível. Mas o que não aceitava, de forma alguma, era o facto de todas as coisas de que o acusavam não terem acontecido, consigo também!
Os primeiros dias foram complicados. Mirava-se ao espelho, nua ou vestida, de costas ou de frente, maquilhada ou desgrenhada, e só conseguia ver um excelente espécime feminino. Aliás, os homens na rua, de forma mais ou menos elegante, todos os dias a lembravam disso.
Depois do desgosto, veio a revolta, a raiva por se sentir preterida! Caramba, era adulta, tinha pretendentes e algo que estava constantemente sonhado, sempre só com ele, guardado e intacto, de repente tornou-se um fardo, exemplo da sua incompetência…
Lembrava-se da cara dele, até do nome, mas do resto, nem por isso. O sonho, na sua forma platónica, deu lugar primeiro a alguma dor fugaz e depois a imenso prazer. Mas, depois do depois, veio a malvada da consciência, bem lavada por anos e anos de doutrina, que acordou e não parava de lhe cobrar.
O Porto foi a sua fuga; não do Raimundo, de si própria. Tinha de sair dali e encontrar-se, perceber onde estaria o equilíbrio entre o que a sua condição de humana sentia e queria e o que lhe impunham os ensinamentos.
O João, homem culto e interessante, apareceu-lhe no meio de todas estas cogitações, mas para algo acontecer com ele, tinha de exorcizar o seu demónio: Raimundo! Esperava ver-lhe na cara uma expressão arrependida, mas o que encontrou foi alguém de curso terminado, cada vez mais inserido na sociedade, a sorrir cinicamente e a desejar-lhe felicidades. No regresso ao Porto, no Instituto ainda tentou falar com o João, mas ele, despeitado, não lhe deu qualquer hipótese, não lutou!
Uma manhã, qual bruxa má, quando se olhava pela milionésima vez ao espelho, disse:
“Que se lixe, para hipócrita, hipócrita e meio! O meu espírito precisa da igreja, mas o meu corpo também. Vou para um convento e de certeza que também há padres que são homens… cuidem-se!”


                                                                                              Joaquim Henriques


23/06/19

Variações em Quadrilha - Capítulo 1


Desta vez, o nosso formato de escrita partilhada tem inspiração no texto “A Quadrilha” de Carlos Drumond de Andrade. Numa séria brincadeira que pretendemos homenageadora para o autor, vamos interpretar os personagens deste texto à medida da nossa imaginação.

A Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Mas como o número de participantes é superior ao número de personagens do texto, inventámos alguns.

Variações em Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que era amada por Alberto que também amava Elvira que amava Leonor que amava Pedro que amava Onésimo que amava Amélia que também amava Lili que não amava ninguém, mas namoriscava Ernesto que amava todas as mulheres.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se, Alberto casou secretamente, Elvira perdeu-se no mundo, Leonor fez-se árbitro de futebol feminino, Pedro tornou-se aviador, Onésimo guarda-nocturno, Amélia parteira, Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história e Ernesto, numa tentativa de ludibriar a falta de emprego, fez-se travesti num bar de uma qualquer capital da moda. 




João 

 (“Touching the Sky”, Ciudad Rodrigo)
@Albino Pereira 

Sempre lhe dissera o mesmo: só tens que cumprir três regras. A primeira, nunca ultrapasses, em kg, o peso ditado pelos dois últimos dígitos da tua altura, em cm. A segunda, mal possas, põe de parte o equivalente a três dos teus salários mensais e não lhe toques nunca a não ser em caso de extrema necessidade. A terceira, e a mais importante, nunca entregues todo o teu coração a ninguém.
João continuou, pela vida fora, a tentar seguir estes ensinamentos, confiando na sua bisavó nonagenária. Alguma razão deveria ela ter, afinal não conhecera nunca ninguém que tivesse uma bisavó sequer.
Cumprir a primeira das regras trouxe-lhe um dos prazeres de que já não abdicava. Era assíduo no ginásio da moda, corria pelas manhãs e ia dando uns mergulhos nas praias frias do Norte o que lhe assegurava o equilíbrio necessário para aproveitar o que os dias lhe iam oferecendo além do corpo bem tonificado.
O trabalho como docente convidado num dos Institutos Superiores mais requisitados da zona do Grande Porto satisfazia-o. O contacto com os alunos, muitos deles a viverem os primeiros anos das suas vidas adultas, era desafiante e o facto de lidar com a necessidade de acompanhar o que de mais recente se fazia na sua área de trabalho trazia-o bastante ocupado e apaziguava, de alguma forma, o seu estado permanente de inquietude curiosa. Assegurada a segunda das regras, ainda ia tendo, graças a algumas colaborações como freelancer em revistas especializadas, uma conta bancária que, longe de generosa, pelo menos dir-se-ia suficientemente apetrechada.
O tempo dedicado quer às viagens que fazia, algumas por obrigação profissional outras por puro deleite, quer às aulas e à prática do exercício físico, ia garantindo o cuidado necessário para não infringir a terceira das regras. Estava disponível para relações curtas e intensas. One night stand bastava-lhe e os olhares de desejo que adivinhava em muitas das suas alunas, e em algumas das suas colegas, alimentavam o seu ego quanto baste.
Quando aquela nova colega chegou ao Instituto para lecionar espanhol a uma das suas turmas do curso de Relações Internacionais, João achou-lhe uma certa piada. Era o oposto de Marivi, a anterior professora que deixara o lugar vago ao regressar a Barcelona para acompanhar os tratamentos da mãe, tanto quanto rezava a versão oficial. Entre os colegas, dizia-se que quisera afastar-se de Leonor, uma professora do curso de Educação Física na faculdade que ficava no mesmo campus. As desilusões que cada um carrega são mais esconsas que as ilusões que às vezes partilham com almas próximas.
Teresa, jovial e irrequieta, aparentava estar nos inícios dos seus trinta anos e o facto de trazer uma mochila vermelha às costas em vez da tradicional puída pasta castanha, chamou a atenção de João.
Já em casa, querendo saber mais sobre Teresa, João procurou-a nas redes sociais. Encontrou-a no Instagram e, como a conta era privada, pediu para a seguir. A autorização foi quase imediata e João teve a oportunidade de verificar que Teresa não era daquele tipo de pessoas que o irritavam de sobremaneira. Não era exibicionista (na sua conta não havia apenas fotos da sua pessoa, em poses de diva e bocas de silicone) nem era mais uma daquelas instagrammers que partilham constantemente pensamentos irritantes em inglês ou em português do Brasil com recados sabe-se lá para quem, nem pertencia àquela terceira categoria dos que exibem tudo o que comem em fotos sucessivas de pratos de peixe, de carne, de batatas e verduras, de muitos vinhos e muitas sobremesas. Na sua conta podia-se ver fotos de monumentos visitados, de paisagens captadas, de livros, filmes ou referências a músicas. Tudo muito em torno da cultura espanhola, exceto uma ou outra ligação a alguns clássicos universais. Curioso, procurou algum registo que envolvesse Portugal ou as suas gentes. A única coisa que encontrou, que remetesse para Portugal, foi uma fotografia de um trabalho da Ronda dos Quatro Caminhos, Terra de Abrigo. João desconhecia por completo este grupo. A ausência de fotos suas com amigos ou de fotos de familiares aguçava a curiosidade de João. Revelaria alguém que estava sozinha no mundo ou traduziria alguma forma de ser mais independente?
Buscou informações sobre o disco e descobriu que datava já de 2003. Tratava-se de um disco de cante alentejano, largos anos antes de ser considerado Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, envolvendo oito Grupos Corais do Alentejo, a Orquestra Sinfónica de Córdoba, uma cantora de flamenco, outra marroquina, uma fadista portuguesa e dois virtuosos guitarristas, um português e outro espanhol. Que mistura! 
Procurou o disco no Spotify e ouviu-o. Tinha bom gosto musical a nova professora.
Estes tempos modernos não deixavam de ser algo estranhos. O quanto se poderá saber sobre alguém a partir de alguns posts seus numa rede social? Tinha consciência que só acedia ao que Teresa quis mostrar da sua vida, mas agradava-lhe o que via.
Quando foi atualizar o seu Instagram viu que tinha alguns corações (traduzindo agrados) novos. Estava habituado a que as suas fotos (nunca recorria a vídeos) tivessem muito sucesso. A sua conta era aberta ao público pelo que não precisava de autorizar seguidores e, deste jeito, Teresa pôde mostrar que gostara de algumas das fotos mais recentes que ele disponibilizara nessa conta.
Na manhã seguinte, procurou-a no Instituto tentando encontrar-se, casualmente parecendo, com ela. Mas não a encontrou. Nem nos outros dias dessa semana.
Quando a reviu, reparou que o olhar dela procurava o seu e o sorriso que os lábios retinham, os olhos não conseguiam disfarçar. Assim, habituado a estabelecer primeiros contactos certeiros, João, com o melhor dos sorrisos, apresentou-se e convidou-a para almoçar.
Começou assim o que seria o quebrar da terceira das regras que João aprendera da sua bisavó Maria.
Teresa deu-lhe a conhecer o novo cinema espanhol, muito para além do já seu Almodôvar, e trouxe-lhe o mundo de Albert Espinosa. Em espanhol, dos latino americanos, ele conhecia os mundos encantados do Gabriel Garcia Márquez, do Luís Sepúlveda e da Isabel Allende, mas nunca tinha ouvido falar deste vizinho peninsular nem dos seus amarillos. João falou-lhe de outros mundos encantados, também provenientes dessas latitudes sul americanas mas descritos em português. Foi assim que lhe deu a conhecer Jorge Amado, Monteiro Lobato e José Mauro de Vasconcelos. Mas também lhe falou de Dulce Maria Cardoso e de Manuel António Pina. Ouviu com ela Maria de Medeiros, António Zambujo e Cristina Branco. Levou-a a Serralves e aos jardins do Palácio de Cristal. Foram à Casa da Música e ao Coliseu.
Nem se davam conta de que os meses se passavam tão enlevados estavam nas descobertas múltiplas que iam fazendo juntos.
Assim, desta forma, achou natural aceder ao convite dela para passarem aquele fim de semana a seguir ao feriado de quinta-feira, em Salamanca. Aproveitaram a ponte, e partiram na quarta-feira, ao fim da tarde. Pernoitaram em Belmonte, numa casa de turismo local rural. Antes de chegarem a Salamanca, pararam em Ciudad Rodrigo e visitaram, depois, La Alberca a povoação de onde era natural a avó de Teresa. Tiraram muitas fotografias e Teresa postou, no Instagram, uma foto da rua onde brincava quando era criança e ia visitar a sua avó. João tinha escolhido e postado uma fotografia que tirara quando subiam para visitar o castelo de Ciudad Rodrigo. Na praça principal de La Alberca onde estava estranhamente instalado, no que teria sido em tempos idos uma prisão, o posto de Turismo da povoação, comeram umas tapas de presunto e beberam, cada um uma cerveja bem fresca pois o calor fazia-se sentir e o presunto era “puxadito”, como dizia Teresa.
Quanto mais conviviam, mais João se deixava apaixonar por Teresa.
Teresa levou-o a conhecer os locais onde sempre vivera, antes de se mudar para o Porto. O seu apartamento ficava situado na zona histórica de Salamanca, bem perto da Praça de Colon, numa rua pedonal. Dali à catedral, eram uns minutos a pé. Mostrou-lhe a fachada belíssima da Universidade e desafiou-o a encontrar a rã escondida entre as largas dezenas de esculturas que a adornam. Contou-lhe a lenda antiga segundo a qual se um estudante da Universidade fosse capaz de a encontrar, sem ajuda, seria bem-sucedido nos exames e se não fosse estudante, mas encontrasse a rã, encontraria também o amor da sua vida e seriam felizes. João bem tentou mas era de facto muito difícil… só com as dicas de Teresa conseguiu, por fim, encontrar o bicho. Numa das muitas lojas de Recuerdos que por ali pululavam Teresa comprou uma rã de Salamanca e ofereceu-a ao João.
Desceram até à zona do rio e sentaram-se numa manta para descansarem. Naquele torpor, João deixou-se adormecer. Quando acordou, Teresa estava a uns metros a conversar com alguém. Apresentou-lhe Raimundo como sendo um amigo de longa data e, a Raimundo, disse que João era um colega português que a acolhera no Porto e a quem estava a devolver a simpatia, mostrando-lhe Salamanca.
João esperava que, por esta altura, já fosse um pouco mais que isso. Ele já se via a assumir, pela primeira vez na sua vida, um compromisso com alguém. Estava a sentir-se descartável… Pensando bem, sempre tratara assim as suas conquistas. Seria isto a lei do retorno?
Na verdade, que sabia ele sobre Teresa? Sobre o seu passado e os seus sonhos?
Enquanto regressavam, ao passar por uma das pontes, João quis fazer uma selfie com Teresa, pois o lusco-fusco trazia uma luminosidade a todo aquele entorno realmente digno de registo. No entanto, contrariando todo o comportamento daquela semana, Teresa negou-se com um simples abanar de cabeça e disse-lhe que estava cansada e com pressa. Outro sinal do desconforto causado por aquele reencontro com Raimundo.
No dia seguinte, João levantou-se mais cedo e foi correr pelas ruas estreitas da cidade descendo até ao rio e acompanhando as suas margens. Perdido nas reflexões nem ouvia a música que escolhera para essa corrida. Mais tarde, Teresa levou-o a conhecer a Casa Lis e a sua magnífica coleção de peças Art Nouveau e Art Déco. Deveras impressionante, para João, foram as criselefantinas pela total novidade para ele: a mistura requintada do bronze com o marfim e as impressionantes bases de ónix e mármore faziam daquelas pequenas esculturas umas magníficas obras de arte.
Não foi de somenos importância o chá tomado no café do museu, que o transportou para uma época de glamour e ilusão fazendo-o sentir-se a viajar no tempo.
No entanto, apesar de todo o ambiente de romantismo do local, no rosto de Teresa algo se perdera. Apesar dos sorrisos rasgados, o seu olhar transmitia tristeza.
João não resistiu e começou a fazer perguntas. Por que razão quis Teresa abandonar aquela cidade onde tão bem se sentia e ir ensinar espanhol para o Porto? Afinal o que tanto a transtornara na conversa da tarde anterior com aquele seu amigo?
Teresa não foi capaz de continuar a levar os seus intentos por diante. Disse-lhe que queria mesmo, que tentou muito, conhecer alguém que lhe fizesse esquecer Raimundo. Tinha sido o seu único amor, desde os tempos da adolescência. Raimundo nunca lhe dera qualquer esperança mas Teresa achava que isso se devia ao facto dele ser muito aplicado nos estudos e que tal o impedia de estar disponível para namoros pois, na verdade, nunca lhe conhecera qualquer amor. E citou Albert Espinosa “Si crees en los sueños estos se crearán.” (Se acreditas nos sonhos, estes tornar-se-ão reais). Mas os anos iam esgotando o tempo e a amizade com Raimundo nunca evoluíra para o que ela ansiava. Teresa precisava de sair desse encantamento a uma voz apenas.
Quando Marivi, amiga de infância da sua mãe, lhe falou da oportunidade de Teresa ir para o Porto trabalhar, substituindo-a, ela não hesitou. Mal João lhe estendeu a hipótese de algo mais, Teresa agarrou-se com unhas e dentes e dispôs-se a amar e a deixar-se amar por outro homem que não Raimundo. João era bem-parecido, charmoso e sedutor.
Tudo correu relativamente bem até reencontrar Raimundo, naquela tarde. Tudo nela se reacendeu e ela percebeu que nunca nada nem ninguém lhe faria esquecer aquela insana paixão.
João não insistiu pois o olhar de Teresa dava-lhe acesso ao mais íntimo dela e não negava nada daquilo de que agora se inteirara. Regressou ao Porto, sozinho. Calmamente, recusou-se a voltar pelo mesmo caminho e escolheu outra fronteira para deixar Espanha. Parou em Gismonde e chorou como nunca antes o tinha feito.
No final desse ano letivo, anunciou a sua decisão aos superiores do Instituto: concorrera a uma bolsa de doutoramento nos Estados Unidos e, também ele, sairia do país para tentar esquecer um amor.
Na bolsa, levava uma rã de Salamanca.


                                                                                  Albino Pereira 



14/05/19

Ecos de Mentes - Capítulo 14 - Final

Foto: Olímpia Mairos/RR


Meus dias passam como águas mansas do Rio Tejo em um dia de calmaria. A casa está sendo reformada aos poucos e, tenho que confessar, já me sinto bem afeiçoada a ela. Gosto especialmente das varandas grandes e do jardim extenso com buganvílias e outras espécies. Mas ela também me assusta, acho que isso é consequência de ler todos aqueles cadernos. Por vezes quando estou só, sentada na cadeira de balanço que coloquei de fronte para o jardim, sinto a estranha sensação de que olhos misteriosos e inquisidores me observam de algum lugar, escondidos na escuridão dos ciprestes antigos que ainda crescem por aqui.
Às vezes me indago se tinha o direito de violar, com minha curiosidade impetuosa, as memórias de todas aquelas pessoas que deixaram um tanto de suas vidas nesse lugar e naqueles cadernos enegrecidos pelo tempo e esquecimento. Compartilhei de suas fraquezas e medos, sem ter dado nada em troca. Fico imaginando como seriam de fato essas pessoas e que fim a vida lhes deu. Teria o destino, por descuido ou benevolência, se apenado de alguma delas? Não há como saber. Tudo que conheço delas é um emaranhado de letras e tintas, que possivelmente não deram conta de refletir como eram de verdade. As pessoas são sempre mais complexas ao vivo.
Ultimamente, tento não pensar muito nisso. Recentemente guardei os cadernos em um baú e lá as pretendo deixar até ao fim de minha consciência nesse mundo. Quanto a mim, também tenho escrito com frequência. Era para ser um diário, mas não tem acontecido nada de muito emocionante em meus dias que mereçam registro. Por isso escrevo qualquer coisa que me acuda à mente. Acredito que um dia vou reunir tudo que tenho escrito e colocar também no baú, juntamente com os cadernos. Seria uma estranha forma de cumplicidade entre todos os envolvidos nesse devaneio. Até lá junto meu tédio e minha solidão, enquanto tento deixar essa casa um lugar melhor.

***

            Preciso registrar o que aconteceu e preciso fazer isso agora. Passaram-se meses (perdi a conta) desde que enclausurei os cadernos no baú e os deixei lá para adormecerem em paz. Mal sabia eu que ainda faltava mais coisa. Muita coisa! Um caderno extraviado. Melhor dizendo, escondido! Sim! Apesar de tecnicamente ter sido eu que o encontrei, acredito que era ele que me procurava. Me caçando como um predador em silêncio, aguardando o melhor momento para o ataque final e misericordioso.
          Isso aconteceu hoje. O sol dissolvia-se sobre a grama seca do jardim e não havia uma nuvem no manto azul do céu. Resolvi então plantar novas flores no quintal, como tenho feito nos últimos dias. Semana passada foram azaléas, hoje eram orquídeas brancas. Resolvi que iria plantá-las perto da janela de meu quarto, onde a grama estava mais verde e saudável. Enfiei as mãos na terra e comecei a cavoucar. Além de uma minhoca se mexendo entre meus dedos, senti também que encostei em mais alguma coisa. Continuei enterrando minha mão até enxergar a madeira envelhecida de uma pequena caixa. Senti um frio na espinha e um arrepio correr por entre minhas articulações. Fui o mais rápido que meu corpo permitia até meu quarto. Tirei toda terra que cobria a caixa e a abri. Dentro havia um caderno deveras velho. Estava com diversas páginas arrancadas e algumas soltas. Estava tão acabado e destruído que parecia ter acompanhado um soldado em campo de batalha. Por sorte ou pura maldição, algumas páginas ainda estavam legíveis. Respirei fundo para me recompor. Olhei para o baú no canto do quarto e sussurrei-lhe com os pensamentos:
- Lá vamos nós de novo...


Dr. Saavedra

            Gabriel entrou aqui portando um facilmente identificado complexo narcisista. Obsessivo por seu corpo e sua beleza, passava horas trabalhando seus músculos. No começo achei que esse seria um bom lugar para recuperá-lo, mas acho que mais atrapalhámos sua mente do que realmente ajudámos. Cheguei à conclusão forçada que esse nunca foi o lugar certo para ele e que a terapia convencional poderia ter dado conta de seu transtorno. Ademais, a presença dele causou alvoroço entre as mulheres daqui. E quando digo isso não me refiro apenas às suas colegas de terapia. Sim, essa é uma revelação a ser feita apenas nessas páginas a que o tempo dará fim. Dra. Helena tem se envolvido com ele e isso só tem agravado o complexo de Gabriel.
         Pois bem, fiquei sabendo isso na semana passada. Na verdade, apenas confirmei minhas suspeitas. Menti para nossa psiquiatra que estaria fora para resolver problemas particulares e que não viria para cá durante o período diurno. Foi assim que peguei os dois no flagra, na sala de terapia. É uma lástima ver uma profissional como ela se deixar levar por um desejo tão baixo e artificial. Pouparei os detalhes sórdidos daquele ato pernicioso. Isso me deixou em situação delicada. Pelo bem de todos, alguém teria que deixar a casa de repousou e eu não estava inclinado a abrir mão de nossa dedicada Doutora.
            Por isso, assinei ontem a alta do querido paciente Gabriel. Fiz questão de acompanhá-lo até o portão de saída. Ele não parecia surpreso. Muito pelo contrário. Acho que Gabriel é mais esperto do que julguei. Talvez tenha planejado tudo isso com um único intento: sair daqui pela porta da frente.

***

            A porta bateu com força, trepidou as paredes e me fez saltar da cadeira. Dra. Helena entrou como um furacão pela sala. Estava branca como uma geleira do Ártico. A órbita dos seus olhos parecia querer saltar do rosto.
            - Doutor, aconteceu uma coisa terrível - Disse ela, com a voz claudicante.
            - Sente-se mulher, ou vai ter um desmaio. – Respondi, apontando para a poltrona de fronte à minha mesa. Ela se afundou no assento e respirou fundo.
            - Agora me conte que diabos aconteceu?
            Tão rápido como havia sentado, Helena se levantou, saltitando sobre os pés.
            - Acho melhor você vir comigo, Dr. Ramon. Vai querer saber disso pelos olhos e não pelos ouvidos.
            Saímos da sala e Amélia – aquela de quem já falei noutras folhas anteriores – estava com as mãos unidas e trêmulas. Lançou sobre mim um olhar de misericórdia, com um misto de incredulidade. Tentou me falar algo, mas a força da voz parecia ter abandonado a pobrezinha.
            - Não precisa dizer nada. O Dr. virá conosco. – Disse a Dr. Helena, de forma inquisidora. Amélia só se limitou a fazer um sinal afirmativo com a cabeça.
            Fomos em silêncio até a parte externa, onde os pacientes costumavam sentar para escrever em seus cadernos ou desfrutar um pouco de ar puro. Ainda era muito cedo e o sol começava a despontar para o dia. Descemos as escadas e a Dra. Helena me levou até além dos ciprestes, onde a vegetação estava densa e crescida. Ela afastou alguns arbustos grossos e pude ver o corpo de Dinis esticado, de costas para o chão e com uma das mãos no pescoço.
            - Foi Amélia que o encontrou. Seu sangue ainda parece fresco. Deve ter acontecido há poucas horas. Ontem mesmo vi Dinis no quarto antes de amanhecer. Quem poderia imaginar?
            As palavras de Helena foram se dissipando em minha cabeça e a figura de Dinis, sem vida e alma, fez meu estomago se remexer dentro do ventre e uma vontade de vomitar veio à baila. Respirei fundo e tentei me acalmar o máximo que se é possível diante de um cadáver. Amélia parecia em choque e a Dra. Helena, incrédula, olhava para o defunto como se nunca tivesse sentido o cheiro da morte tão perto de suas narinas.
            - Mas que diabos você fazia aqui fora a umas horas dessas, Amélia? – A pergunta saiu de minha boca quase que involuntariamente.
            - Eu...eu... – Amélia soluçava. – Eu estava tendo pesadelos. Acordei e fiquei com medo de continuar em meu quarto.  Abri a porta com uma chave-mestra que consegui com Matilde em troca de algumas caixas de cigarro e uma garrafa de Gin que surrupiei de um serviçal e vim correndo para cá. Precisava respirar ar puro, o cheiro das paredes estava me sufocando. Então andando por entre os ciprestes vi um sapato e então.... então encontrei Dinis já assim. Mas eu juro, não tenho nada a ver com isso. Não faria mal a uma mosca. Nunca deveria ter fugido do quarto. Me desculpa. Preciso me comportar. Eu...
            Antes que Amélia continuasse mandei-a fechar a boca e ficar calada. Cheguei mais perto do corpo. Estava ensanguentado e todo o sangue vinha do pescoço. Havia sido um golpe preciso na jugular. Uma mão ainda estava no pescoço e a outra segurava um caco de vidro pontiagudo.
            - A janela do banheiro da ala feminina. – Disse Helena.
            - Como? - Perguntei sem entender.
            - Uma das janelas do banheiro das pacientes femininas estava quebrado, ontem à tarde. Mas não me dei conta do que poderia ter acontecido. Simplesmente ignorei.
            Amélia se agachou e apoiou os cotovelos nos próprios joelhos e começou a chorar.
            - Leve-a daqui Dra. Helena e certifique-se que irá ficar bem, e principalmente, calada! Não podemos ter um surto de pânico aqui.
            Helena saiu de mãos dadas com Amélia e rapidamente desapareceram dentro do saguão enquanto eu pensava o que faria diante daquele grave incidente. Não demorou muito para Helena voltar.
            - Dei um sonífero a ela. Vai dormir com os anjos.
            - Ou com os demônios. – Completei.
            - De qualquer forma, o que faremos agora? Acha que foi suicídio?
             - Pode ser. Dinis era extremamente deprimido e já não falava coisa com coisa.    De qualquer sorte, diga aos pacientes que ele ganhou alta e foi embora.
            - Com todo respeito Dr. Ramon, mas Dinis andava espalhando para alguns pacientes que era a própria reencarnação de D. Sebastião. Acho que não acreditarão muito nessa história de alta.
            - Você tem razão. Se demos alta para alguém como ele todos se sentirão no direito de sair.
            - O que diremos então?
            - Nada. Faremos de conta que sabemos tanto quanto eles sobre o que aconteceu. Para todos os efeitos ele deve ter conseguido fugir de alguma forma.
            - Então assim será feito. Contudo, temos um cadáver em nosso jardim e não tardará teremos pacientes deambulando por aqui.
            - Então não temos tempo a perder. Eu carrego ele daqui e você limpa o sangue. Corte esses arbustos se for preciso. Não deixe nenhum sinal. Nenhuma gota.
            - É claro! Mas o que o Dr. fará com o corpo?
            - Não sei. Vou tirar ele daqui e depois penso numa solução. Sem policiais entendeu? Não queremos ninguém bisbilhotando por aqui. Temos muitas irregularidades aqui que as autoridades não gostariam de ver. Fui claro?
            - Com certeza Dr. Ramon.
            A essa altura as coisas estavam complicadas e tive que tomar uma decisão rápida e que melhor solucionasse o problema. Que isso fique registrado apenas aqui e em lugar mais algum. Coloquei o corpo na ambulância e com ajuda de um enfermeiro que preservarei o nome aqui, enterramos o cadáver em um terreno baldio que havia perto da casa de repouso. Enterramos de fronte para um pé de oliveira que crescia em meio a um matagal. Tomara que ninguém resolva construir por aqui. Para todos os efeitos Dinis havia conseguido fugir. Se alguém por ventura encontrar o corpo dele no futuro, já não será mais minha responsabilidade. “Fazemos de tudo para mantê-lo seguro, mas erros podem acontecer nas melhores instituições, não somos infalíveis e, infelizmente não temos orçamento suficiente para vigiá-los com maior eficiência. Mesmo assim, esse é um caso isolado, que jamais acontecera antes e nunca mais se repetirá”. Essas seriam minhas palavras para os jornalistas se um dia encontrassem o corpo moribundo desse amaldiçoado homem.
Hoje o dia foi pesado. Não tenho força para colocar mais nada no papel. Minha cabeça dói. Que noite infernal terei.

***
           
Estou com o tempo escasso e as costas castigadas. Por isso hoje serei breve. David ganhou alta. Méritos dele. Não irei me ater aos seus comportamentos, pois já o fiz em diversas páginas anteriores. Em outras circunstâncias manteria ele por mais tempo, porém, temos que estar com o foco voltado aos problemas reais que nos cercam cada vez mais. Ele recebeu a notícia com um silêncio que lhe era peculiar. Depois, estranhamente, abriu um sorriso de canto de boca e um brilho que nunca tinha visto nele ganhou seus olhos, enquanto fez um sinal positivo lentamente com a cabeça.
            Observei pela janela ele indo embora. Antes de sair pelo portão, lançou um olhar por todo o casarão, como se para contemplá-lo pela última vez. Respirou fundo e com passos firmes e decididos seguiu em direção a saída. Uma mulher de pele morena e cabelos negros e escorridos até os ombros lhe esperava do lado de fora. Se encararam por alguns segundos, como alguém que encara um fantasma que conhece bem e já não assusta mais. Depois, deram um abraço que demorou mais de um minuto, até finalmente darem as mãos e desaparecerem subindo a avenida que leva para o centro da cidade.
            Sinceramente, para o bem de nós dois, espero nunca mais vê-lo por aqui.

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            Hoje é um dia complexamente triste. Ilda morreu. Eu sei que muitos aqui vão comemorar em silêncio e depois pediram perdão para sua própria consciência por pensamento tão vil e mesquinho. Ela era rude e autoritária com os pacientes, mas não podemos julgá-la, não é fácil estar na situação dela. Quem a conhecia como eu sabe que ela tinha tanto medo dos pacientes como eles o tinham dela. Além do mais, quando estávamos a sós, não raras vezes ela deixava transparecer alguma fraqueza em sua alma. Aquela mulher de ferro também tinha certa ternura escondida debaixo da armadura.
          Há quem diga que nem sempre foi assim. Conheci um pouco da história dela. Em parte, pela boca da própria e, em outra, por mérito de minha capacidade investigativa. Soube que nascera na região conhecida como A Raia, na fronteira entre Portugal e Espanha e que, por mais difícil que fosse de acreditar nisso no presente, havia sido uma jovem muito bonita, de longos cabelos castanhos e seios de Pêra. Também era muito inteligente e leitora assídua de grandes clássicos. Seu pai achava nela um prodígio a quem depositava toda a fé paternal. “Terá um futuro brilhante” dizia aos quatro cantos. Mas algo irrompeu em seu destino, como uma força inafastável e incontrolável: uma paixão. Há quem diga que o conheceu na fila do teatro, mas ninguém sabe ao certo. O que se sabe é que, antes de atingir a maioridade, fugiu com ele, um toureiro oriundo de Pamplona que sabe-se lá o que fazia por aquelas bandas, para viverem um amor sórdido e caliente, como em alguns livros proibidos que lia escondida. Dizem que seu pai morreu de desgosto no mês seguinte e sua mãe declarou para quem se interessasse que sua filha, para todos os efeitos, havia morrido. Entretanto, por crueldade de alguém que ocupava o lugar de Deus naquele momento, o que era para ser uma história de amor e desejo acabou se findando antes do tempo. O toureiro (que nunca descobri o nome) morreu de tifo um dia depois de casarem escondidos em um vilarejo perto de Sevilha. Daí em diante a vida de Ilda correu ladeira abaixo. Antes tivesse ido junto com o marido para o crepúsculo da eternidade. Pelo pouco que soube, Ilda passou a peregrinar de lugar em lugar, e ganhando dinheiro de todas as formas que se apresentavam ao alcance. Esteve em bordeis de quinta categoria e em vários estabelecimentos especializados em transmitir doenças venéreas.  Em uma altura da vida, chegou a ir para o circo, quando se envolveu com um malabarista francês.  Só não sabia que esse trocava de mulher como se troca de roupa. O romance durou um ou dois meses, até esse conhecer uma cigana a quem jurou amor eterno.  Dele não se sabe mais nada.
Quanto a Ilda, a esquizofrenia acabou com o que restara daquela moça ávida e bonita. Já não me recordo com precisão há quanto tempo ela cá se encontrava. A verdade é que ela estava piorando cada vez mais. Em especial depois do incidente com Dinis, com quem mantinha um estranho caso.
            Ilda morreu de madrugada. Infarto fulminante foi o que me pareceu. Os serviçais só notaram de manhã, quando estranharam o silêncio nos saguões. Por mais que neguem, Ilda fará falta por aqui. Tinha-a como de extrema confiança. Que sua alma encontre a paz que o mundo lhe tirou...

***

            Tomei um belo susto hoje pela tarde. Um dos pacientes me disse com a voz trêmula e dissonante que haviam encontrado o corpo de Dinis! Isso mesmo. Imagine como ficou meu estado de consciência ao ouvir essas palavras que me atravessaram como facas.
            - Como assim? - Me fiz de desentendido.
            - Pois é exatamente isso. Encontraram seu corpo boiando no rio aqui perto. Mortinho!
            “Boiando no rio”. Quando escutei isso, um alívio percorreu meu corpo. Estava claro. Alguém desconfiado do sumiço de Dinis inventou essa história com o intuito de descobrir alguma coisa. Tentar fazer eu dar com a língua nos dentes. Porém, sou vacinado contra esse tipo de artimanha e quem morderia a língua não seria eu.
            - E quem espalhou uma sandice dessas?
            - E o que ganho com isso?
            - Uma carteira de cigarro.
            - Vicente! Ele sempre sabe de coisas que ninguém mais sabe!
            Então fora esse maldito espertinho que espalhara tal boato. Já era de se desconfiar. O sabichão sabia mesmo como contar uma história convincente. Mas qual seria o interesse de Vicente em saber o que realmente acontecera com Dinis? É no mínimo estranho e curioso. Vicente não dá ponto sem nó. Todas as suas atitudes são dirigidas para um fim e eu precisava estar à frente dele para não ser enganado.
            - Não conte para ninguém que teve essa conversa comigo. Compartilharei só com você. Dinis conseguiu fugir, mas ao contrário dos rumores, não foi encontrado em lugar algum. A essas horas deve estar longe daqui, quiçá estará na Itália. Sabia você que ele tem parentes por lá? (resposta negativa com a cabeça).
           - Pois então homem, Dinis não é problema mais nosso. Tome suas medicações e pare de bisbilhotar a vida alheia. Isso não ajudará ninguém aqui.
            Entreguei uma carteira de cigarro para ele e saiu pelo corredor em completo silêncio.
           
***

            É claro que sabia que meu querido confidente iria, mais cedo ou mais tarde, abrir nossa conversa para Vicente. Foi Dra. Helena que presenciou, escondida atrás de umas buganvílias, a cena dos dois conversando. Segundo ela me relatou, Vicente pareceu contente em saber que eu, o grande Dr. Ramon Saavedra, acreditava que Dinis havia conseguido êxito em sua empreitada fugitiva e estava agora longe daqui. Mas o que Vicente tem a ver com isso?
            Quando voltava para minha sala, encontrei a paciente Anabela parada em frente à porta.
            - Preciso falar com você a sós, Dr. Saavedra.
            - Não tenho tempo.
            - É sobre Dinis e Vicente.
            - Dinis e Vicente?  - Inquiri, incrédulo.
            - Eu sei tudo o que aconteceu.
            Olhei para os lados para perscrutar se algum outro paciente ou alguma daquelas criadas com sotaque castelhano estavam por perto. Por sorte não havia ninguém. Abri a porta e fiz sinal para ela entrar. Depois tranquei a porta.
            - Seja direta! – Ordenei.
            - Como deve saber, eu e a Amélia desenvolvemos um grau de amizade e ela é a única pessoa em quem confio aqui nesse lugar e acredito que seja recíproco. Tanto que ela me confidenciou algo que não contaria a ninguém mais. Acho que você sabe o que é. Dinis, o defunto inconveniente.
            - Onde você quer chegar?
            - Não me interessa saber o que disse para os pacientes. Essa história de fuga e tudo mais. Vim aqui apenas para dizer que acho que quem fez isso foi Vicente.
            - Vicente? E por qual motivo lanças tamanha acusação?
            - Porque o vi na noite em que Dinis morreu. Mas não foi só isso. Escutei um grito abafado de dor uns minutos antes. Na hora achei que estivesse alucinando. Mas, depois que Amélia me contou, as coisas ficaram claras na minha cabeça. Era real. Vicente saiu das sombras dos ciprestes e correu para os corredores. Sempre desconfiei dele! Só pode ter sido ele.
            - Dinis se matou e tudo indica isso. Estava deprimido e com um caco de vidro nas mãos. Você tem tomado seus remédios corretamente, Anabela?
            - Sabia que não acreditaria em mim. Pois saiba que cumpri com meu dever de consciência, contando-lhe a verdade.
            - Agradeço sua preocupação, mas está tudo sob controle. Preocupe-se com sua medicação, quem não se comporta bem aqui demora mais para sair, se é que você me entende?
            - Perfeitamente!
            Abri a porta e Anabela saiu me encarando com olhos enegrecidos de raiva. É melhor assim. Precisa saber os limites desse lugar. Quanto a Vicente, minhas suspeitas estão se concretizando. Anabela veio para cá apresentando um quadro que incluía alucinações, em especial do pai já falecido. Entretanto, dessa vez pode ter sido real. Vicente não é apenas um espertalhão. Há algo de podre nessa história e ele fede a cadáver. De qualquer modo, para o próprio bem de Anabela, é melhor ela achar que tudo foi uma alucinação. Preciso ter uma conversa com a Dra. Helena.

***

            Estava saindo do consultório quando Dra. Helena entrou de supetão.
            - Reputo que não seja o melhor momento, mas precisa saber de uma coisa. Não tenho mais ninguém para contar.
            - Sou todo ouvidos.
            - Estou grávida!
            - Meu Deus! – Respirei fundo, olhei dentro dos olhos de Dra. Helena e vi o quanto estava confusa.
            - Não me diga que...
            - Gabriel! Só pode ser dele.
            - E o que vai fazer?
            - Criá-lo sozinha! Ninguém pode saber quem é o pai, ouviu?
            Fiz que sim com a cabeça e Dra. Helena saiu da sala sem olhar para trás. O que mais precisa acontecer nesse lugar?
           
***

             As coisas estão saindo do controle. Sinto que já não tenho mais a autoridade de outrora. Ilda morreu, Dra. Helena engravidou de um paciente, Dinis foi assassinado por outro paciente e há boatos e rumores cada vez mais criativos correndo pelas bocas dos internos. “Somos cobaias de experiências do governo”, foi o que ouvi esses dias pelos corredores. Estão cada vez mais inquietos. Pressinto que outra tragédia acontecerá, debaixo de nossos narizes.
            Preciso dar um jeito em Vicente. Mas ainda não tenho provas para colocá-lo contra a parede, a não ser uma testemunha ocular que sofre de alucinações. Dra. Helena conversou com ela ontem. Anabela disse, durante a conversa, que não lembra se viu Vicente ou seu próprio pai saindo das sombras, naquela maldita noite. 
            Talvez o caderno de Vicente diga alguma coisa. Não aquele que me entregou na semana passada, com relatos triviais e histórias artificiais inventadas por ele. Dra. Helena me contou que já o viu escrevendo em outro tipo de caderno, de capa menor. Confissões de um assassino? Preciso descobrir com meus próprios olhos...

***

            Revistei todo o quarto desse infeliz, mas nada encontrei. Se esse outro caderno existe está guardado em outro lugar. Procurei no quarto de Beatriz também, sem sucesso. Preciso vigiá-lo de perto. Não lhe darei sossego até descobrir a verdade.
Nesse momento enxergo-o pela janela, está sentado debaixo de uma buganvília enquanto toca um piano imaginário. Logo nota que estou observando-o. O patife me encara com um sorriso no rosto e acena em minha direção com a mão direita. Ignoro. Deve estar achando que me contornou direitinho, que está anos luz à minha frente. Não consegui chegar aqui à toa. Vai descobrir da pior maneira quem é o Dr. Ramon Saavedra.

***

            O telefone interrompeu meu sono em uma noite em que esse custou para chegar. Estava na minha casa. Ao contrário do que muitos pensam, eu não moro naquela maldita casa de repouso, apesar de passar muito mais tempo lá. Onde eu moro é segredo até para essas páginas. Voltando ao telefone, levantei zonzo para atendê-lo.
            - Alô!
        - Dr. Ramon, é Helena. Vicente e Beatriz sumiram. Eu e as serviçais já procurámos em toda parte. Nem sinal dos dois.
            - Malditos! Vou para aí agora mesmo.
            - Não é só isso, Dr. Ramon. Tem outra coisa. Anabela...ela morreu!
            - Morta? Como assim? Meu Deus do céu!
           - Os vidros do quarto estão quebrados. Parece que se jogou pela janela. Já estava morta quando a encontramos no chão. Desculpe.
            - O desgraçado deve ter a jogado pela janela antes de fugir. Estou saindo daqui agora.
            - Desculpe. – Disse Dra. Helena novamente antes de desligar.
            Assim que coloquei o aparelho de volta no gancho, escutei um barulho vindo da parte debaixo da casa. Parecia vidro quebrando. Em seguida, o som de passos sincronizados rompia o silêncio. Pisavam sobre meu tapete da sala. Em seguida escutei-os, calmamente, subindo as escadas de madeira. Olhei para a porta de meu quarto e notei que não estava trancada. Uma gota de suor começou a escorrer de minha testa enquanto os passos ficavam mais próximos. Cinco metros e meio. Era a distância de onde estava até a minha porta. Levantei correndo da cadeira e como um relâmpago cheguei até ela. O som da chave girando e trancando a porta foi como uma música para meus ouvidos. Ofegante, me debrucei contra a porta. Podia escutar a respiração de quem estava no outro lado. Fosse quem fosse, percebeu que eu a trancara e desistiu da investida. Seus passos recuaram e os ouvi saindo. Corri para janela que dá para a rua lateral da casa. Só me restou ver uma silhueta toda vestida de preto desaparecendo na escuridão.

***

            Estou enlouquecendo com todos os acontecimentos dos últimos dias, em especial o da noite passada. Dra. Helena estava em prantos. Enterrámos Anabela ao lado de Dinis, com a enorme oliveira como única testemunha. Não demorariam muito para descobrirem as mortes e tudo estaria acabado. O projeto de curar as diversas perturbações que afligiam a mente humana estaria fadado ao fracasso total e a casa de repouso seria fechada para sempre. Meu único alento era encontrar o maldito que fizera tudo isso: Vicente. E isso não tardaria a acontecer.
            Os pacientes foram impedidos de deixar seus aposentos até segunda ordem. Ministrámos calmantes pesados para que as ordens fossem obedecidas sem resistência. Um silêncio sepulcral se arrastava pelos corredores e salões. Até mesmo Dra. Helena se encontrava em repouso completo.
            Eu tentava entender como chegámos nesse ponto. Onde havíamos errado? Talvez devesse ter seguido os conselhos de meu pai e entrado para o exército quando atingira a maioridade. Tudo poderia ter sido muito diferente. Coloco as duas mãos sobre os olhos. Queria dormir e não acordar mais. Acho que é hora de testar um desses medicamentos que entorpecem até a alma. Que bálsamo seria simplesmente esquecer tudo isso.
            Porém, essa história ainda não está terminada e existem limites que, uma vez ultrapassados, não há mais volta. E eu estava metido em um deles. Não havia fuga possível para mim.
            Nesse momento, uma batida forte em minha porta. Uma das serviçais me chamava ofegante. “Necesita verlo”. Era a única coisa que falava. Então me agarrou pelo braço e me fez acompanhá-la. Chegámos até a cozinha e ela abriu uma geladeira antiga que acompanháva o lugar desde a sua construção, fechando os olhos em seguida. O que vi espantaria qualquer um com as faculdades mentais intactas, mas não a mim. Podia dizer que estáva talhado o suficiente para não me impressionar com mais nada. Por isso, conto aqui sem rodeios o que vi: Vicente morto e congelado geladeira a dentro. “Dios mio” disse a criada fazendo o sinal da cruz mais desordenado que já havia visto. A mim apenas uma única palavra vinha a mente: Beatriz!

***

            Fazia um calor escaldante quando Helena deu à luz uma linda menina de olhos verdes. O céu estava imerso num oceano azul e límpido e uma brisa fresca nos tocava o rosto quando o primeiro choro daquela divina criaturinha ganhou os ares. Estava disposto a criá-la como se fosse minha filha. Filha de Ramon Saavedra, ou melhor, Raul Sampierri. Esse é o nome falso que se tornou o meu desde o dia em que Helena – agora Eleonor - e eu partimos da casa de repouso com documentos falsos rumo a Itália (não era bem Dinis que tinha parentes por aqui). Vivemos hoje no Vale da Sicília, bem longe das paredes e corredores cheirando a produtos químicos daquele lugar amaldiçoado. Fugimos na mesma madrugada em que encontrei Vicente congelado na geladeira. Na época, eu e Helena fugimos juntos por comodidade. Tínhamos apenas um ao outro e segredos inconfessáveis que somente entre nós poderíamos falar. Ninguém mais entenderia. A morte nos uniu e agradeço a ela por isso, às vezes ela acerta em alguma coisa.
            Quanto a Beatriz, não tenho ideia o que aconteceu com ela. Tenho minhas teorias. Acredito que Vicente tenha matado Dinis. Com ajuda dela? Talvez. Fato é que ela era tão fria como ele e quando teve oportunidade o golpeou pelas costas (havia sinais de ferimento na parte de trás da cabeça) e o deixou naquela geladeira para congelar como um animal após o abate. Deve ter fugido com a maldita chave-mestra que havia sumido do quarto de Amélia no dia em que encontrámos Dinis morto. Só Deus e o Diabo sabem onde Beatriz está agora.
            Nada disso importa mais. Arranquei várias páginas desse caderno e as atirei de cima de um dos montes Peloritanos. Faria isso com todas as páginas, mas Helena me impediu. Pegou o que sobrou do caderno e guardou em uma caixa de madeira. Disse que antes de morrer vai enterrá-lo em algum lugar, no quintal da casa de repouso ou do que sobrar dela. “Só assim essas recordações encontrarão a paz”. Disse olhando para mim, antes de me dar um beijo quente. Concordei com ela, enquanto olhava para a cadeia de montes e vales que me cercavam e, pela primeira vez na vida me senti feliz de verdade.


Senti minha alma sair e voltar do corpo várias vezes lendo essas últimas páginas perdidas que vieram até a mim por força do acaso. Ou será do destino? Nunca acreditei muito nele. Todas essas histórias não me saem da cabeça. Fico pensando o que terá acontecido com os que sobreviveram a tudo aquilo. Terão tido uma segunda chance? Assim como Helena e Ramon? Ou assim como David e Gabriel. E o que terá acontecido com Beatriz? Alguma vez terá sido descoberta pelo que fez? E Anabela, terá mesmo se jogado pelo vidro da janela num salto ao desconhecido além da vida? Nunca saberei essas respostas. Já não tenho idade para isso. Quem as tem? Também não sei dizer.
Resolvi enterrar todos os cadernos que encontrei, em frente a uma enorme e envelhecida buganvília. Depois resolvi arejar a cabeça. Lembrei que hoje vão inaugurar uma nova praça aqui perto. Será um bom lugar para me distrair. Caminho até lá sem pensar em nada. O dia está tão bonito quanto Ramon descreve na última página. A praça está cheia de pessoas. Crianças correndo. Sento em um banco de madeira e aprecio uma enorme árvore à minha frente. É uma oliveira e parece estar aqui há muito tempo. Enquanto olho para ela dois passarinhos param em meus ombros. Eles olham para mim como se me conhecessem há muito tempo e depois de uns minutos me encarando, voam livres até um galho da árvore. Só então me dou conta que Anabela e Dinis foram enterrados perto de uma oliveira. Todavia, é tarde demais para divagações. Dou adeus para os dois passarinhos e eles parecem me entender. Compro algodão doce de um jovem simpático e sigo meu caminho.


                                                                         Grégor Carlos Marcondes