12/10/18

Janelas de Tempo - Capítulo 14 - Final

©P. S. Fotografia


Desta vez, a chegada pareceu-lhe diferente: os cheiros, os sons, a leveza do ar, tudo lhe era familiar. Uma sensação de deja vu invadiu-lhe os sentidos, no curto tempo dos poucos segundos que se passaram entre o cessar do silvo metálico e o abrir da porta.  
Whisky saiu disparado, passando-lhe à frente e fazendo-o tropeçar. Que raio de animal, parecia que estava possuído por um qualquer demónio que por ali passara sem se deixar ver! Júlio atabalhoadamente equilibrado correu atrás do cão, que viu atirar-se nos braços de dois desconhecidos. Dois desconhecidos que pareciam esperá-lo, ou pelo menos reconhecê-lo. Só nesse momento, caiu em si. Voltava ao ponto de partida e os dois homens que afagavam Whisky eram Luís e Klaus. Precisou de mais alguns instantes para ver tudo com nitidez, mas não havia dúvidas: aquele era o armazém de onde tinha partido, há… há quanto tempo?
- Deves ter sofrido uma quebra de tensão, é natural… ao longo dos tempos, a densidade atmosférica, também ela, foi tendo oscilações.
Era Luís que se aproximava com uma mão estendida para o cumprimentar.
- Hã?! Mas do que é que ele vinha a falar? – Júlio, ainda com a cabeça à roda, interrogou-se com os botões que não sabia se trazia.
Ah, pois… as transições de época em época que vinha de vivenciar. Luís apresentava-lhe a explicação científica para a tontura que acabara de sentir. Uma recepção fria, pensou. Podia demonstrar, no mínimo, um pouco mais de afectividade, já que o tinha feito cobaia para uma experiência inédita que em muito beneficiaria os estudos científicos de Luís e Klaus. Não é que estivesse arrependido de ter entrado naquela aventura, afinal tinha-lhe permitido ver in loco, e até mesmo sentir na carne, coisas que até então só conhecia da história estudada. Muito diferente da vivida. Mas caramba, o que é que lhe custava demonstrar um pouco mais de humanismo?
Klaus vinha logo atrás, com o seu linguajar de erres carregado:
- Estamos ansiosos pelo teu relatório dos acontecimentos.
Júlio sentiu uma estranha revolta dentro de si próprio. Que se lixassem, aqueles dois. Sem qualquer explicação, saíu do armazém em direcção às ruas da cidade. Whisky correu saltitante a seu lado.
- É isso mesmo, companheiro! Eles sabem lá… as explicações ficam para depois.
Naquele tempo, que ainda não sabia dizer se tinha sido muito ou pouco, tinha percorrido o limbo das emoções de um extremo ao outro. Tinha visto o melhor e o pior da humanidade e tinha, com certeza, desconstruído muito do que até então fora na sua condição de ser supostamente inteligente. Aquilo não podia ser relatado como uma mera experiência científica.
Percorreram as ruas e travessas que os levaram até casa, num tempo que Júlio não soube contar. Aliás, contar o tempo era coisa que certamente tinha desaprendido. Entrou em casa com a sensação que tinha saído dali há poucas horas. Mas como? Se na sua lembrança tinha experiências de viagens entre tempos tão diferentes. Entre séculos. A comprová-lo ali estava o cão, que segundo se lembrava tinha encontrado lá numa Lisboa de outra época.
Correu para o frigorífico. O frigorífico podia ser uma boa prova do tempo que passara. Consoante o estado dos alimentos que ali deixara, saberia se havia passado muito ou pouco tempo. Abriu a porta, estava uma grande bagunça mas não parecia que houvesse alguma coisa em estado de putrefacção avançada. Restos de pizzas, um pacote com leite azedo, uma alface murcha e embalagens, cujas datas de validade também não o elucidavam.
Mas aquilo lembrou-o do desleixo em que vinha sobrevivendo nos últimos tempos. Na verdade, desde que perdera Laura naquele fatídico acidente e logo depois, a mãe. Que por ser mãe, talvez o tivesse conseguido agarrar antes de se precipitar na ravina da depressão psicológica que se tornou física. Lembrou-se da vontade que tinha tido de acabar com a própria vida. Ou talvez a tivesse mesmo acabado, porque aquela condição em que existia já não era vida. Lembrou-se do encontro com Luís e da fuga ao inevitável para a máquina do tempo. E no mesmo instante, dos encontros que tivera com Laura durante aquelas viagens temporais. Nunca chegaram a ver-se ou tocar-se, mas foram vários os momentos em que a sentira dentro de si.
Dava-se conta, agora, da serenidade que tais encontros lhe tinham trazido. Querida Laura, sempre tinha sido o equilíbrio para a sua imaturidade crónica. Ou talvez nem fosse imaturidade, talvez ele fosse uma daquelas almas sonhadoras que estão destinadas a não viver sem outra que as mantenha presas às coisas terrenas. Primeiro a mãe, depois Laura e mais tarde novamente a mãe, sempre haviam feito isso por si. Não admirava que tivesse ficado sem chão, quando perdeu as duas num curto intervalo de tempo.
Foi até ao quarto e abriu o guarda roupa do lado de Laura, coisa que não fazia desde a sua morte. Pegou uma écharpe colorida, que estava logo ali à frente. Provavelmente a última que usara, ainda tinha o seu cheiro. E com a peça de roupa junto ao nariz, deixou-se cair sobre a cama.
De repente, ela estava ali. Com um semblante tão colorido quanto a écharpe que usava. Peça única que lhe cobria o corpo. Aproximava-se sorrateira, enquanto ele fingia que dormia. Jogo íntimo que os dois encenavam como ritual do seu encantamento eterno e que sempre antecedia o êxtase. Era assim a paixão que sentiam e partilhavam no amor que nutriam um pelo outro. Riam às gargalhadas sem saber porquê. Mas também o que é que interessava o porquê, se no segundo seguinte estavam profundamente compenetrados nos braços um do outro, presos pelo olhar.
- Nunca mais me deixes.
- Nunca, eu nunca te deixei.
- Mas eu procurei por ti e não te encontrei. Não estavas aqui e eu fiquei sem saber o que fazer… quis ir para ao pé de ti.
- Não procuraste bem. Quando precisares, procura bem. Estarei sempre aqui… contigo!
Whisky, sentado nas patas traseiras, observava o amigo agitar-se de uma forma que nunca tinha visto. E surpreendentemente, viu-o levantar-se com todo o vigor.
- Vamos, amigão! Vamos lá fazer o relatório àqueles dois.


                                                                           Luísa Vaz Tavares    


Fim

05/10/18

Janelas de Tempo - Capítulo 13

Fotografia: Henrique António Guedes Oliveira


Sempre que Júlio navegava na “cápsula do tempo” sentia um atordoamento, cuja causa não sabia explicar, mas que o deixava enjoado e, simultaneamente, esfomeado.
Naquele momento, sentiu o estômago colado às costas, tal era a fome que sentia, apesar de ainda se recordar do manjar que lhe fora oferecido pelo ancião em Bali. Porém, todo aquele odor dos frutos existentes no mercado que atravessara, mantinha-se intacto nas suas narinas.
Não sabia onde estava, mas sentia um cheiro nauseabundo a mosto e vinho, misturado com um fedor acre, como se alguém tivesse acabado de vomitar a seu lado. Procurou o Whisky. Viu-o encolhido a seus pés. Mas não tinha sido ele.
Percorreu, como olhar, o local onde tinha vindo parar. Pareceu-lhe uma enorme adega, repleta de toneis. Estranho!
A agitação era enorme. Carroças, puxadas por bois, vinham despejar enormes cestos carregados de uvas, no que lhe pareceu ser um lagar.
Na sua consciência fez-se luz! Tinha vindo parar a uma majestosa quinta no Douro, a avaliar pelo sumptuoso palacete que vislumbrava por uma das janelas da adega. No tempo, tinha regredido cerca de dois séculos. No ano, estaria no final de setembro, época das vindimas.
Enquanto as vindimas decorriam, podiam ouvir-se cantares ao desafio, que alegravam aquele que poderia ser considerado um trabalho penoso, perigoso e cansativo, dado o posicionamento das próprias videiras em escarpas por vezes deveras acentuadas.
Os homens que se movimentavam na adega, vestidos, na sua maioria, com umas calças surradas, largas, presas com uns suspensórios, também eles desgastados, deslocavam-se agilmente, num vai e vem, entre as carroças e os lagares, onde despejavam as uvas destinadas a serem pisadas e convertidas nos famosos vinhos do Porto e do Douro.
Quando o lagar atingiu o limite certo, pensou Júlio que era um pouco leigo nesta matéria, uma dúzia deles e algumas mulheres, entraram no mesmo. Abraçaram-se e iniciaram uma dança de pés cadenciada e uniforme, enquanto entoavam canções populares em uníssono, talvez com o intuito de minimizar o esforço que tinham de despender para aquela tarefa, e que soavam até à hora em que o sol se punha.
Ouviu uma voz grossa, mesmo atrás de si:
– Que estás aqui a fazer? Não achas que há muito trabalho a fazer? Continua a trazer as uvas para dentro. Aqui não queremos molengões!
Júlio não esperou segunda ordem, morto que estava por se livrar daquele lugar, cujo cheiro se tornava, com o calor, insuportável. Podiam chamar-lhe o “Néctar de Baco”, mas a sua preparação não tinha nada de divinal.
Já fora da adega, observou melhor a maravilhosa mansão. Era majestosa e soberba.
Júlio recordava-se de ter lido, nalgum livro sobre o “Douro e a sua região” que a maioria dos solares ali existentes tinham sido construídos no Século XVIII, e aquela não era exceção; apesar do seu aspeto austero, como se de um castelo se tratasse, atraía muitas vezes os olhos dos turistas que por ali passavam, deixando-os maravilhados. Toda ela granítica, apresentava uma fachada decorada com grandes arcadas, ornadas por trepadeiras que se tornavam uma delícia para os olhos, quando florescidas.
O portão da entrada, trabalhado, mas sóbrio, era encimado por uma pedra de armas e por um pequeno nicho onde existia cravada uma imagem de Santo António. Ao lado da casa, podia ver-se uma capela, cuja bula datava de 1785 e onde até há bem pouco tempo eram celebradas missas regularmente.
Tratava-se de uma quinta tradicional de onde se pode desfrutar uma das mais belas vistas panorâmicas da região do Douro. As montanhas de xisto que se erguem do rio, as suas escarpas transformadas em socalcos e cobertas de vinha, constituem de “per si”, um dos mais belos cenários do mundo. À noite, do terraço superior da casa, onde naquelas noites quentes se procurava um pouco da frescura que as frondosas árvores que a rodeavam proporcionavam, podia observar-se, em noites de lua cheia, o brilho branco, encantador e mágico que nas águas calmas do Douro se refletia.
O acesso ao universo íntimo da casa era restrito aos familiares, com exceções para poucos amigos, o que tornava a entrada nessa área um privilégio. Aos trabalhadores restava-lhes a admiração do exterior.
Júlio saiu do seu encantamento momentâneo pela mansão, e voltou ao trabalho. Quando a sineta soou, a anunciar um pequeno repasto, deu graças a Deus. Estava exausto e esfomeado, mas ninguém lhe fizera perguntas sobre si, o que o livrara de algumas complicações.
Ao cair do dia, foi enviado, juntamente com mais três homens, encosta abaixo, em cima de uma carroça que transportava alguns barris de vinho. Para onde iriam? Começou a temer, por si e pelo Whisky, que não o largava de vista. Tinha saltado com ele para a carroça. Cada vez mais, Júlio amava e admirava aquele animal, que sabia estar silencioso quando era necessário. Bastava um sinal de olhos. Compreendia-o.
Chegaram a um pequeno cais, onde se encontrava acostado um pequeno barco. Júlio identificou-o como sendo um dos famosos barcos rabelos, que faziam o transporte de mercadorias até ao Porto, pelo rio Douro abaixo. Apesar do perigo que estas pequenas embarcações representavam, estavam isentas de portagens, o que permitia obter preços melhores pelo vinho que se escoava até à cidade do Porto, a partir da qual seguiam, maioritariamente, para Inglaterra.
O barco rabelo era, para a época, uma máquina sofisticada cuja condução exigia coragem, destreza, e um conhecimento íntimo das correntes e das rochas que se espalhavam pelo curso de um rio “de mau navegar”.
De repente, Júlio sentiu um balanço enorme. O barco partira, mas aquela noite estava particularmente ventosa. O rio agitava-se, “rugia” com as rajadas de vento que o açoitavam.
À medida que iam deslizando rio abaixo, ele começou a temer pela sua vida. Naquele momento, voltou a visualizar a imagem de Laura. Viria protegê-lo ou avisá-lo que deveria sair dali o mais rapidamente possível? Sabia que eram frequentes os naufrágios daquelas pequenas embarcações. O rio tinha muitas fragas traiçoeiras e se o rabelo embatesse numa delas, não escapariam com vida, e muito menos com o caudal veloz que o rio levava. Júlio nunca fora um bom nadador.
Mas no que estava a pensar para não ter saído da quinta, quando lhe bastava carregar no comando da “nave do tempo”, em vez de se deixar conduzir até ali? Talvez a curiosidade de conhecer melhor como eram adversas as condições de trabalho daquele tempo, já tão remoto.
Por outro lado, o Porto tinha sido sempre uma das cidades que Laura admirava. Gostavam de ir lá passar férias e, especialmente, usufruir da famosa noite de São João, tão célebre naquela cidade, cheia de luz e cor. Seria por ele se estar a dirigir para lá que Laura comunicara com ele?
A incógnita permaneceria, agora e sempre.
Júlio aconchegou-se no velho blusão que o capataz lhe dera para a viagem. Com ele abrigou ainda o Whisky, para se proteger do frio e do vento, que cada vez era mais forte.
Cansado, acabou por adormecer. Não sabia dizer por quanto tempo. O sol já começava a despontar quando despertou.
Ao olhar à sua volta, ficou apaixonado pela deslumbrante paisagem que vislumbrava. As escarpas do Douro, já todas elas cobertas do maravilhoso tom doirado de Outono, eram uma delícia para os olhos. Fosse ele pintor! Seria, certamente, aquela cena que ele reproduziria numa tela.
Não deu pela passagem das horas. Comeu o naco que pão (já duro), que o mestre lhe ofereceu, dividindo-o com o Whisky.
Já o sol se começava a por de novo e, ao longe, começou a descortinar aquilo que se aparentava com a “cidade grande”, como os marinheiros lhe chamavam e que seria, certamente, o Porto tão ansiado por todos.
Júlio pensou:
– Talvez fosse melhor eu sair daqui, enquanto é tempo. O que me esperará naquela cidade? A prisão pela clandestinidade? Nem documentos tenho!
Assim que o barco acostou, no cais de Gaia, vila para onde se destinava o vinho que levavam, Júlio ainda ajudou os companheiros a descarregar os barris. Dirigiu-se a uma tasca que por ali perto ainda estava aberta e cheia de marinheiros (a cair de bêbados), para “trincar” alguma coisa, e poder, também, lavar-se um pouco. Sentia-se nauseabundo.
Feito isso, chamou o seu fiel companheiro, que, com as suas habituais lambidelas, premiu o botão da “nave” e, depois do silvo a que já se tinha habituado, ei-lo, de novo, a caminho de um outro tempo, de um outro espaço.


          Natália Vale

28/09/18

Janelas de Tempo - Capítulo 12

Imagem\Internet

Júlio descansara um pouco. Dormira? Sonhara? Nem recordava se acontecera durante a viagem no Tempo ou ainda com a nave em repouso, mas rapidamente descobriu, pois acabara de pousar num qualquer lugar e a máquina, ou a ausência dela, emitira um silvo desusado!... Ainda um pouco tonto devido talvez, ao encontro com Laura no torpor do sonho, em que a olhara, linda, sorridente tal como quando viviam a sua felicidade conjunta, e esta lhe dissera num sussurro, que lhe havia preparado uma surpresa... o silvo da cápsula providenciara o afastamento da imagem da sua amada companheira.
Abriu a porta ou esta abriu-se. Por um forte odor a ervas lavadas e o alagamento do terreno avermelhado em que se encontrava, percebera que acabara de acontecer uma forte chuvada. Folhagem variada, árvores desconhecidas embelezavam o quadro agora descoberto. Esta vegetação rica em variadíssimos tons de verde era densamente cerrada. Ouviam-se águas correntes por todo aquele denso e exuberante mato. Piares, chilreios, de aves que, por vezes sobrevoavam este paraíso, livres e coloridas. Aqui e além, frutos polposos e intensamente perfumados, que no seu mundo habitual desconhecia. Acabou parado numa clareira, onde a luz do sol penetrava agora intensamente. Uma cachoeira ouvia-se com alguma intensidade, talvez pelo acréscimo de fluxo acabado de receber... Afastando alguma vegetação rasteira que lhe tolhia a passagem, com braços e mãos, Júlio avistou por fim um casario a curta distância de si. Para lá se dirigiu, curioso. À sua frente, agora, um mercado pejado de vida, ostentava um variado colorido de frutas/legumes. Também pequenos lugares de comes e bebes, de oferta vária. Sentou-se a descansar do calor intenso que se começava a sentir, numa zona central do mercado, onde além de alguma população local, se encontravam, também, militares oriundos de países europeus colonizadores, que se evidenciavam pelas fardas. Os produtos em exposição para venda, eram todos da agricultura local e peças elaboradas, de arte cerâmica, também.
Após beber um chá fresco e perfumado aceitara com agrado um repasto oferecido por um ancião local, pelos vistos dono do local, que percebera nele um forasteiro simpático, algo diferente dos demais, e a quem Júlio agradecera a benesse. O menu era composto de legumes que libertavam odores inebriantes, convidativos, cozinhados com especiarias e arroz. Pela conversa desenrolada pelos militares ali presentes, Júlio percebeu estar em Bali, na Indonésia. O calendário manuscrito, pendurado ao balcão da entrada, marcava o ano de 1898. Júlio olhou para baixo onde sentira um roçar e percebera a companhia de Whisky, que acabara de se aninhar, vindo sabe-se lá de onde, deixando-o mais sossegado. Terminada a pequena e satisfatória refeição, Júlio ergueu-se despedindo-se do seu anfitrião com o simpático agradecimento da terra (que fora ouvindo repetidamente por ali) - "terapia kasih". Toda aquela gente raiava em cores alegres, fortes, vestindo saris (mulheres) e saias lisas por cima de tangas (homens), cruzando-se numa azáfama geral de compra e vende...
Júlio percebera finalmente o "recado" da sua doce Laura, no sonho que ainda há pouco tivera. Era um segredo de ambos, a paixão que Laura nutria por danças exóticas, especificamente as desta zona do globo. Exibia-as, em privado, para encantar e seduzir aquele que se admirava com a leveza dos seus movimentos ondulantes. Ah, fora este o recado de Laura!... Ainda tinha guardado no seu quarto um sari oferecido a Laura e que dera origem ao seu dançar após a curiosidade desta em ver filmes e documentários sobre o assunto… fora deste modo que se interessara pela vida de Matta Hari, famosa bailarina de origem holandesa, que habitara nestas paragens e se tornou uma apaixonada deste exotismo, desempenhando com arte, elegância e sucesso esta forma de bailado.
Talvez esse protagonismo tenha ferido susceptibilidades nuns e gerado inveja noutros, elites europeias, de mente estática, que só sossegaram quando a souberam sentenciada e morta como espia, na 2ª guerra mundial. Quanto a Laura poderia não ser a melhor dançarina, mas que era linda, bailando, era! Com este esvoaçar de recordações, Júlio deu por ele a sorrir feliz e agradecido...
Volteou mais uma vez pelo mercado, ainda inundado de gentes várias. O sol aquecera fortemente o ambiente que fervilhava. Logo depois seguiu uma multidão que se dirigia para o centro cultural Ubud, em Bali, onde no teatro a céu aberto se iriam executar as famosas danças tradicionais. Jovens malaias javanesas com sorrisos enigmáticos e colocadas em posições estudadas davam início ao bailado, acompanhadas por homens que, sentados em círculo, emitiam sons com as bocas. Música e rodopiares cresciam acompanhados pelos sons de pulseiras que buliam com os movimentos dos braços, também mãos, pernas, olhos... enfim todo o corpo ondulava nas dançarinas, numa enorme leveza e harmonia! O baile terminaria com todas as executantes de costas para o público e uma delas, em posição central deixava escorregar o seu sari, exibindo um corpo perfeito. Céus! Seria ela a própria Matta Hari? Pensava Júlio muito feliz mas já com uma névoa de saudade...ah Laura, Laura!
Ordeiramente, acompanhado de Whisky que o aguardava pacientemente á entrada, Júlio afastou-se do recinto, rumando em direcção ao vale densamente arborizado, onde o chão já secara, aquecera. Olhou o céu visivelmente pintado de vermelho alaranjado, acompanhando a enorme bola de fogo que, rápidamente se deslocava para o horizonte. Pensou mais uma vez em Laura que o deixara de coração amaciado. Olhou o seu companheiro de andanças a seu lado. Moveu a língua á volta do dente. Logo Whisky erguera a pata accionando o botão. Rápidamente, quase tanto quanto o sol se escondia no horizonte, a cápsula emitiu um silvo, e emaranhou-se no espaço, rumo, talvez, a um outro século, a uma outra odisseia!


                                                                                       Fernanda Simões


21/09/18

Janelas de Tempo - Capítulo 11

Imagem\Internet
- Mãe, mãe, não me sinto nada bem. – Murmurava Júlio. - Mãe, onde estás tu? – Continuava, enquanto sentia todo o seu corpo embalado por uma força estranha. Parecia que todas as suas entranhas estavam a ser remexidas e era como se tivesse o estômago no lugar do cérebro. Mas que raio estava a acontecer? Só queria a sua mãe. E aquele vento, que trazia uma mistura de cheiros entre maresia, suor, cordames e putrefacção.
- “Hey you! Wake up!” – Ouve, num inglês que parecia saído dos filmes do tempo da Rainha Vitória. De repente, um pontapé nas costas acorda-o do torpor em que estava, sabia lá ele há quanto tempo. Abre os olhos e vê um homem com umas barbas desgrenhadas e meio desdentado, com uns olhos muito arregalados a olhar para ele. Ao seu lado, um mulato muito espantado, olhava também para ele, com um ar surpreso.
- Onde é que estou? – Balbuciou Júlio a muito custo, enquanto um novo solavanco o fez agarrar a barriga, e sem conseguir conter mais, vomitou um líquido esverdeado e ácido aos pés daqueles dois homens. Que enjoo tão grande e ao mesmo tempo uma fome estranha! Bom, realmente já nem se lembrava a última vez que tinha comido.
- “What? What he said?” – Diz o homem andrajoso.
O mulato esboçando um sorriso de alegria, baixa-se e tenta ajudar Júlio.
 – Oh que bom, fala Português! – Num tom açucarado, denotando a sua proveniência do Brasil.
De repente alguém grita lá ao fundo e o desgrenhado responde num grunhido.
– “Yeah, I’ll go in a minute.”
Olha novamente para Júlio e para o mulato que o tenta ajudar a levantar-se e encolhe os ombros, como querendo dizer eles que se entendam.
- Você está bem? – Pergunta o moço a Júlio.
- Sinto-me muito enjoado. Onde é que estou?
- É natural, estamos em alto mar e a corrente hoje está muito forte.
- Alto mar? – Oh meu Deus, ele que tinha tido sempre medo de andar de barco e que enjoava mesmo na travessia de um cacilheiro para a outra margem.
- Sim. Estamos a caminho de umas ilhas quaisquer. Quem é você? E como apareceu aqui no barco? Anda fugido? – Questionou o rapaz.
Fugido? Pois se calhar era um bom termo. Afinal o que é que ele andava a fazer de tempo em tempo? A fugir do seu próprio tempo. Aquele tempo interior que lhe provocava insónias e dores no peito e um vazio maior que o da sua barriga naquele momento.
- Não me lembro como vim aqui parar – optou por responder Júlio. Mas afinal em que ano estamos? E em que barco estamos? – Questionou Júlio, a custo ainda.
- Eu também ando fugido. - Disse o rapaz, sem responder logo às questões de Júlio. - Fugi dos meus senhores, quando o Beagle atracou na Bahia. Já não aguentava mais as chicotadas do capataz. - E nesse instante, a sua face ficou vermelha de um ódio que Júlio percebeu vir de dentro, de algo muito profundo.
- Beagle… esse nome não me é estranho. Já ouvi esse nome. – Diz confuso Júlio.
- É natural. Deve-o ter visto atracado antes de entrar aqui.
Mas Júlio sabia que não podia ser esse o motivo pois tinha aterrado naquele barco vindo directamente doutro tempo. Beagle…
- Quem é o comandante deste navio? – Pergunta.
- Não sei o nome dele porque não percebo a língua deles. Faço apenas o que me mandam, pelos gestos que fazem. – Disse o rapaz. - Mas a pessoa mais importante do barco é aquele senhorzinho ali ao fundo – apontando para um homem, bem-posto, que escrevia algo com muito entusiasmo num caderno.
A muito custo, Júlio olhou em frente e reconheceu uma imagem que já tinha visto num documentário da National Geographic. Aquele não era nem mais nem menos que Charles Darwin, o famoso naturalista, pai da teoria da evolução. Isso significava que tinha ido parar algures em 1800s.
- Em que ano estamos? – Perguntou Júlio.
- Ué, eu é que sei! Só sei quando o Sol se põe, e quando a Lua fica cheia. Não sei nada dessas coisas do senhor-branco. Como o senhorzinho se chama? – Perguntou ele. - O meu nome é Manuel. A minha mãe deu-me o nome do patrãozinho, que é o meu pai, embora sempre me tratou com panca da. Daí eu ter fugido quando este navio parou na Bahia. Escondi-me e só apareci quando vi que estávamos no mar. E tem sido uma vida bem melhor. O senhorzinho Charles embora eu não perceba o que ele diz, é bom para mim. Tenho ajudado a carregar caixotes em cada terra que paramos. Eles andam a trazer coisas e bichos do mato. Não sei para quê mas o senhor Charles passa todo o tempo que está no navio a ver nos caixotes a bichagem e também muita planta.
Nesse momento, e antes que Júlio pudesse responder, o navio Beagle levou mais um solavanco provocado por onda mais intempestiva e tornou a ver tudo a andar à roda.
Manuel segurou-o e amparou-o até a uns caixotes pousados no convés. De repente, Júlio lembrou-se de Whisky. Onde estaria o seu fiel amigo?
- Manuel, viste um cão aqui no navio? – Perguntou ansioso Júlio.
- Cão? Não! Um cão aqui no navio nunca vi. Vi muito bicho estranho mas cão nunca.
- “Manuel, come here!” – Gritou Darwin, lá do fundo.
- Tenho de ir ajudar o senhor Charles, deve querer ver mais algum bicho. Volto já. Não se mexa que o senhor está branco que nem parede de casa.
Júlio sentou-se mais direito encostado a um barril. Sentia ainda o corpo todo virado do avesso e suores frios, cada vez que o navio avançava mais mar adentro.
E agora, o que fazer? Estava preocupado com Whisky. Tinha-se habituado à presença daquele ser tão meigo e que era uma companhia tão fiel. Pensou em chamar a máquina, mas hesitou. Estava num dos navios mais importantes da História. Se continuasse ali podia viajar meio mundo e conhecer terras fantásticas, para além da sua imaginação. Talvez encontrasse um canto numa ilha deserta onde pudesse passar o resto dos seus dias, sem precisar de andar a saltitar mais. Mas e Whisky? Não, tinha de o ir procurar. Não podia ficar ali sem ele, e desejou ardentemente que, fosse lá o tempo onde fosse parar, desta vez os seus pés pisassem terra firme e sentisse de novo a lambidela no nariz do seu amigo.
O desejo foi tão forte que o chip se activou repentinamente e Júlio viu-se novamente dentro da máquina.
Manuel, quando voltou, ficou sem perceber o que tinha acontecido. Aquele homem estranho mas simpático foi-se, tal como veio, dissolvido na espuma do mar.


                                                                                      Carolina Lemos

14/09/18

Janelas de Tempo - Capítulo 10

Portugal-Insular e Ultramarino (1939)

- Mama Sume! Traz aí mais três Cucas!...
- Eu não bebo mais…
- Bebes sim! Mancebo tem de saber beber. E aguentar!
- Ó Américo, diz-me lá então como fostes parar à França…
- Ora Quim, vim do Ultramar e não arranjava emprego de jeito…
- Vieste malandro, ou não te pagavam o que querias?
- E como tinha tirado a carta de pesados lá, falei com o meu cunhado, e ele arranjou-me emprego num camião.
- E agora?... Está melhor lá do que cá? Onde vives?
- É sempre melhor, e talvez arranje qualquer coisa no chantier… Vivo em Champigny-sur-Marne.
- Sozinho?
- Não. Com a minha irmã, o meu cunhado e os quatro filhos.
- Como o tempo passa… Fui para Angola uma semana depois do casamento, volto agora e ela já tem quatro filhos.
- Ela quando deu o salto já ia de cinco meses. Ia sendo uma tragédia… mas lá se safaram.
- E agora o mancebo quer conhecer os sobrinhos não é? Olha lá, ó Eduardo, tu já acabaste o sétimo ano?
- Não vou conseguir fazer todas as cadeiras, sr. Joaquim…
- Vais ser furriel!... Bem bom! Não tens de fuçar tanto o capim como eu. Vais assentar praça onde?
- Vou para o RI5, nas Caldas, fazer o CSM…
- Eu sei bem onde é o RI5…
- Depois, não sei.
- Ó meu menino, e depois, ala! Dou-te três maravilhosas escolhas por crescente de dificuldade, Angola, Moçambique, Guiné. Olha, ali o Abílio Mama Sume esteve na Guiné, e serviu com valentia.
- Ó Mama Sume!... Então as Cucas, menino?...
- Foi lá que ele ficou assim?...
- Então onde querias tu que tivesse sido, aqui, a servir iscas e verdes tintos? Tramou-se pá! Tramou-se e bem! Fomos colegas no CIOE e juramos que vínhamos inteiros; no Niassa fizemos esta tatuagem, vês aqui?! Ele tem uma igual… mas o sacana distraiu-se, aquilo é fodido sabes?...
- Foi acidente?
- Acidente uma porra! Aquilo é uma guerra, não é nenhum rally! Acidente… Não pá, o bom do Abílio ia da Aldeia Formosa para Gadamael numa coluna e saiu do Unimog para fumar um cigarro, quem tinha lumes era o ‘pica-minas’ e, já estás a ver… sítio certo, hora errada… o pobre do feijão verde pulverizou-se na bolanha, andaram depois a apanha-lo com uma pá; o tecnológico “apalpador” de minas era uma cana da Índia com uma ponta de aço, está a ver… a cana parecia um foguete a rodopiar, e a ponteira entrou-lhe pelo olho direito e desfez-lhe a bochecha… olha pá, se não fosse o heli estar perto… não tínhamos ali o Mamma Sume a servir… - Ó Mama Sume!... Porra! Então? - E esteve sempre consciente, sabes? E repetia sem parar… Mama Sume… Mama Sume… Mama Sume…
- Então este é que é o irmão do Américo?
- Obrigadinho, pousa aí… é… então tu não te lembras aqui do franganote? Olha caracóis. Ó Américo!, vem cá que o Abílio foi caçar caracóis à horta! Não sei como ele gosta desta badalhoquice, mas enfim. É como em France… Ó Américo!
- Pois… agora, sim… tu és irmão da Isaura que está lá para Paris… Sabes, eu estive trinta meses no Ultramar, vinte no mato, e a vida aqui continuou, por estranho que nos parecesse. Depois, regressamos com a mesma idade com que fomos, mas muito diferentes… pois… agora me lembro… tu saíste daqui para estudar no liceu…
- Pois foi, sr. Abílio, lembro-me bem do dia em que o senhor, mais o sr. Joaquim, se vieram despedir; os dois muito bem fardados, com as bichas reluzentes, botas muito bem engraxadas, boinas com umas fitinhas…
- Rangers!, Eduardo. Dois rangers!
- Eu sei, sr. Joaquim… toda a gente na rua, cumprimentos e votos de sorte, abraços e lágrimas, a camioneta à espera, o motorista zangado, que a freguesia lhe ralhava pelo atraso, o povo a retardar… vocês a ficarem na memória… e depois lembro-me da Milocas a escrever aerogramas, um atrás do outro…
- Ó rapaz, deixa-te lá dessas mariquices de senhor para cá e senhor para lá que tu já vais para a tropa, és um homem; e hás-de ser também valente!...
- Eu não vou, sr. Joaquim. Quer dizer… Joaquim.
- Eduardo! Isso é conversa entre nós. Ainda há muito que pensar, muito que pensar… Por enquanto não se fala nisso a ninguém. Desculpem amigos, mas o meu irmão parece que não sabe as consequências do que está a dizer. Tens de ter muita cautela Eduardo, as paredes têm ouvidos. Nem sabes no que te metes…
- Tu não quê, rapaz?!
- Joaquim… deixa o rapaz…
- Abílio! Tu sai-me da frente!
- Calma… calma…
- Tu já não és mancebo! Estás alistado! Agora, cumpre!
- Calma Dedo Torto, calma… o rapaz tem estudos, tem outro ver do Mundo…
- Mas qual calma qual porra nenhuma, qual outro ver do Mundo! Tu sabes o que nós passamos para defender aquele torrão português. Então ali o franganote, com os tais estudos não sabe que aquilo é Terra Portuguesa! Que nos querem roubar. Não sabe que os turras estão a ser mandados por essas potências que nos querem mal e não têm respeito pela História. A nossa História! Mas que merda é esta?! « Eu não vou, sr. Joaquim…» Esta agora!...
- Quim… ele é meu irmão… calma… estou a ver se o convenço a fazer a tropa até à mobilização para o Ultramar. No fundo, é essa a ideia dele, servir a Pátria, mas sem combater o que entende ser o direito que os pretos têm à sua terra…
- À sua terra, Américo?! Nossa terra, Américo! Nossa terra!
- De construírem os seus países, quem sabe, acredito nisso, serem nossos amigos. Falamos a mesma língua, Quim… têm muitos costumes nossos… muitos anos de convívio…
- Mas tu não vês que tudo isso cairá no esquecimento com o tempo e com a raiva que lhes vão meter naquelas cabeças… Aquilo é muito rico Mérico… se alguém vier a seguir vai dizer mal de nós, alimentar ódios, fazer cair no esquecimento tudo o que fizemos naquelas terras… com o tempo, e o tempo são duas gerações!, só restará a vil memória dos interesseiros…
- Talvez, Quim, talvez… Mas já lá vão dez anos de guerra… aquilo nunca mais acaba… e a juventude tem o direito a recusar combater numa guerra sem fim à vista…
- Foda-se Mérico! Tu também la andaste. Quanto tempo estiveste no AB5?
- Vinte e dois meses…
- Viveste em Nacala, conheceste Lourenço Marques, a Beira, Quelimane, Cabora Bassa… vocês na Força Aérea tinham uma ideia geral do panorama, largueza de vistas, tudo lá de cima; e então? Fica tudo para o turra?! É isso que tu queres?! Que tudo aquilo que o branco fez fique para os turras, é isso?!
- Não penses em “turras”, Quim. Feita a paz, não são mais turras, são quase “dos nossos”.
- Ora porra Mérico! Porra! Tu és mas é comunista! Comunista! Não me provoques!...
- Tenho que pensar como tu? Que conheces tu além destas berças e duma guerra particular? Quando foste mobilizado nunca tinhas saído daqui; depois, conheceste o Niassa, depois a tua guerra, e cá estás, de volta ao mesmo. Não lês, não viajas, não sabes. Por um acaso sabes o que foi o Maio de 68? Nem ouviste falar, pois não? Pois não. Essas notícias não chegavam a África… E falar, podes falar aqui, sem olhar sobre o ombro? Ou só sussurras não vá um bufo ouvir?... Vem comigo Quim, vem ver um Mundo novo. Tens o serviço militar cumprido, arranjo-te uma carta de chamada, não tens de ir a salto… Não te posso oferecer muito, aquilo é um bairro de lata, o maior da Europa, sabes? Europa… mas tu sabes lá o que é a, Europa… Chamam-lhe bidonville lá, é vida dura, mas havemos de lá sair, de conseguir vida. E ninguém vai preso por falar alto, sabes?... Ninguém vai preso por pensar.
- Olha, eu vou ali verter águas. Diz ao Abílio para se sentar aqui com a gente e chama o teu irmão que isto tem de ficar esclarecido hoje e aqui. Vou tentar ter calma, mas não me moam a cabeça.
- Que se passa com o Quim, entornou?
- Foi lá fora arejar as cervejas, está furioso por o meu irmão não querer ir para o Ultramar…
- Mérico… o Quim é bom moço, amigo do seu amigo e qualquer um de nós lhe pode confiar a vida… mas veio muito transtornado de lá. A mim, chama-me submisso… talvez seja… Sabes porque lhe chamavam o Dedo Torto?
- Falaram-me duma emboscada…
- Pois foi… nós éramos como unha e carne, mas depois, fomos cada um para seu lado. O Quim esteve em Zala, vinte meses… aquilo era a ante câmara do Inferno sabes? Um dia foram escoltar uma coluna de reabastecimentos que ia para Nambuangongo… numa parte da picada que fazia um “S”, era sempre quando fazia um “S”… foram emboscados. A flagelação foi tal, que muitos não saíram das berliets… ele, que já tinha saltado, acartou uma Breda às costas, berrou para o lado e pediu que o municiassem. Um cabo seguiu-o até uma elevaçãozita, e de lá seguraram a posição até gastarem os pentes todos. Consta-se que pediam para urinar no cano sempre que ele incandescia… Quando tudo terminou, o Quim desmaiou com o indicador no gatilho. Nunca mais o endireitou… Morreram ali uma dúzia, mas o Dedo Torto salvou meia centena…
- Mas ele não vê que é uma guerra que não se ganha?
- Não, Mérico. O ponto dele é outro. Como honrar quem tombou? Como manter o edificado? Como glorificar o trabalho feito? O ponto dele é que, quando sairmos, vão andar todos à bofetada e a destruir o que deixamos. Na ideia dele, isso sim, é um crime. E eu tenho de concordar com ele…
- Está ali fora um tipo sentado, alguém conhece?
- Um tipo?... Que tipo?...
- Sim; um gajo com um cão. É de cá? Espreita aí.
- Não. Não conheço…
- Se não é de cá, não é bufo. Será PIDE?
- Chut! Abílio!, vai chamar o Eduardo, rápido…
- Estará ali há muito?
- Deve estar… quando lhe apareci, tentou disfarçar… mas era tarde. Fez uma festa ao cão para me virar a cara. Deve ter ouvido a conversa toda…
Júlio conhecia aquelas verdades todas e o fim da história.
E também sabia o quanto a Metrópole desconhecia o Ultramar, e o quanto este a desdenhava. E que a única ligação entre o puto e as colónias, era a escola primária nas figuras dum mapa agarrado à parede e dum professor austero. A narrativa heróica!... Portugal do Minho a Timor… a História… «Uma treta… Para lá, só “a pedido”. E quem lá chega esquece rapidamente a miséria que deixou.
- Muitas Micas se transformaram em Donas Marias com uma viagem de barco -, disseram um dia. É mais difícil do que emigrar para França. Aconteceu com o meu pai. Imagine-se um indígena de Lisboa necessitar duma carta de chamada para ir viver para o Alentejo… tendo alguém de se responsabilizar pelo seu trabalho, pela sua estada, pela sua alimentação, pelo seu bom comportamento… Quase como quem se responsabiliza por um vadio… Do Minho a Timor… Uma treta…»
- Ó Eduardo, quando saíste aquele tipo já ali estava?
- Já, e o cão dormia. Salvamo-nos, ele sorriu, e eu segui.
Ainda pensou meter-se na discussão. Se a coisa corresse mal, tinha a defesa imediata do Whisky, e por último a da máquina. Quem sabe não, e ficaria.
Estava a ficar farto de desaparecimentos na sua vida. Depois de Laura e da sua fuga oferecida, tudo lhe aparecia agora em efémeros episódios como se vivesse de retrato em retrato. E nenhum era o dele.
Queria ir embora daquela aventura para que tinha sido empurrado. «E se eu ficasse?...»
Queria aparecer, estar, e ficar, num mundo que sentisse seu, mesmo não sendo. Era essa, agora, a sua contradição vital. «E se eu ficasse?...»
- Vamos falar com ele?
- E se for da PIDE?
- Ficamos a saber…
- Mas, e o Eduardo?
- Ora, que tem o Eduardo?! O Eduardo vai para a tropa, e acabou a conversa.
- E se ele ouviu a intenção? E se faz queixa? E se o leva já? E se ele nunca mais aparece?
- Isto é que está aqui uma porra, companheiros… Deixem-me pensar…
- É melhor ir falar com o gajo, se se puser com coisas leva duas bordoadas. Com a gente ninguém se mete!
- Ó Abílio, vai lá chamar o tipo se fazes o favor.
- Fugiram!... Nem homem, nem cão! Fui ali ao cabeço e só vi uma poeirita, como um rabo de vento…


       José Bessa                 


11/09/18

Janelas de Tempo - Capítulo 9

Montagem fotográfica feita por Mario Jorge Martins Paraiso, a partir de imagens extraídas, respectivamente
, de um vídeo sobre o incêndio no Museu Nacional e do site do Paço Imperial de São Cristóvão


Ao sentir as lambidas do fiel Whisky em seu nariz e testa, Júlio acordou de um estranho pesadelo, em que via grandes labaredas de fogo e uma imensa nuvem de fumaça negra. Sentou-se, olhou em volta, viu uma linda floresta tropical. Não imaginava onde estava. Ao longe, ouvia barulho de construção, marteladas, ferros, pedras... curiosamente não ouvia barulho de máquinas. Ainda sentado, coçou a cabeça e sentiu uma pontada na parte de trás do crânio. Passou a mão, sentiu os cabelos úmidos e grossos. Havia sangue em seus dedos. Sacudiu a cabeça, devagar, e sentiu um leve tontear... será que a máquina se havia avariado ainda mais? Onde será que havia caído agora? Ainda sentia o cheiro de carne queimada...
Sentiu uma súbita tontura, fechou os olhos, e, ao abri-los, viu novamente as labaredas a consumir um belíssimo palácio. Não fazia ideia de que lugar era aquele... e não compreendia por que, mas antes da tontura, era dia claro, via a linda floresta, ouvia barulho de carros de bois, bigornas, machados, e agora, diante das labaredas a lamber as paredes internas do tal palácio, estava noite. Que diacho teria acontecido à máquina? Remotamente, lembrava-se de ter visto soldados a atearem fogo a um amontoado de pessoas e de ter fugido com Whisky. Haviam-no visto? Haviam disparado contra ele e talvez atingido sua cabeça de raspão? Jamais saberia.
O que sabia era que estava a ter alucinações, fechava os olhos e via um palácio em chamas, abria-os novamente e via a linda floresta. Onde estava? Não sabia. Resolveu tentar andar, chamou Whisky para junto de si e foram a arrastar-se para detrás de um arbusto. Precisava descobrir onde estava.  Detrás de si era protegido pela floresta, e adiante, através do denso arbusto, via carros de bois a puxar madeira e pedras, muitos escravos puxados por grossas cordas, feitores em seus cavalos, com chicotes nas mãos. Mais adiante, um portentoso palácio em obras, quase acabado. Lembrou-se de ter lido nos livros de história sobre o Palácio Imperial, nas terras d’além-mar. Era isso! Estava no Brasil, ex-colônia de Portugal, diante de mais uma das muitas reformas que recebeu o casarão da antiga “Chácara do Elias” na Quinta da Boa Vista. O casarão pertencera a um rico comerciante português, de nome Elias António Lopes, que o construíra em 1803, num lote adquirido de uma antiga fazenda de Jesuítas. Estava a testemunhar à construção do Palácio de São Cristóvão, que seria um dia a residência oficial da família Imperial, e, futuramente, o Museu Nacional. Deveria estar então no ano de 1808, quando, em virtude do Tratado de Fontainebleau, o Príncipe Regente D. João, em grande comitiva (aproximadamente 15.000 pessoas, numa esquadra composta por 31 transportes mercantes e 23 navios de guerra), foi para o Brasil, disposto a transferir para o Brasil a sede da Monarquia Portuguesa, e a família real portuguesa passou a residir no então chamado Paço Real. Se não lhe falhava a memória, a família real ali residira até 1821, e de 1822 a 1889, passou a abrigar a família imperial brasileira. Somente com a proclamação da República Brasileira é que o Palácio passou a sediar o Museu Nacional de História Natural.  
Absorto que estava em suas deduções, demorou a perceber que Whisky farejava algo a poucos metros do arbusto, logo mais à frente. O cão deveria estar faminto, o que o fez lembrar-se de que também não punha nada no estômago há dias! Como não parecia haver ninguém muito próximo de seu esconderijo, chamou Whisky e enveredou por uma trilha entre as árvores a ver se encontrava algo para si e para o cão. Havia dado apenas alguns passos, quando foi surpreendido por dois homens fardados, armados com espingardas estriadas Baker de 15,9mm. Assustado, pôs as mão à cabeça, em sinal de rendição. Os soldados indagaram quem era, de onde vinha, e que diabos de trajes eram aqueles. Quando tentava balbuciar uma resposta, sem saber o que dizer além de seu nome, Julio Verde teve outra tontura e desabou ao solo. No mesmo instante, viu novamente as labaredas a consumir o Palácio, e gritou:
- Fogo, fogo! O palácio está a arder em chamas! – Ao que os dois soldados entreolharam-se e sussurraram entre si:
- Deixemos para aí este miserável! Está a dizer sandices, não se vê fogo algum!
- Sim! Não passa de um louco maltrapilho, sem eira nem beira. Nem traz consigo armas, tem cara de quem não sabe sequer onde está.
E chutaram o flanco de Júlio, que delirava com a fome e as imagens do castelo em chamas. Lá ficou ele, estirado no chão poeirento, enquanto os soldados se afastavam, a tentar descobrir que visões seriam aquelas, de um grande palácio em chamas, numa noite enfumaçada, se sabia estar um dia de sol. Não conseguia entender, por mais que se esforçasse. Parecia o mesmo palácio, mas maior, mais completo, mais moderno. Só podia imaginar que algo atingira a máquina antes de chegar onde estava. De repente, Whisky estava novamente ao seu lado, e era noite escura. Ouviu barulho de carros de bombeiros... Mas, como? Carros de bombeiros em 1808? Ouviu gritos, viu que estava no mesmo local onde os soldados o surpreenderam, mas a vegetação estava diferente, percebera-o, mesmo estando escuro.
Via luzes, carros, ouvia sirenes, gritos! Alguém passou perto de si e perguntou, em sotaque brasileiro:
- Koé, mermão, tu tá aí de bobeira? Tu viu o fogo começar? Sinistro, Meu, cabô! Museu já era!
Julio já não se deu ao trabalho de buscar uma resposta. Como iria o gajo entender se lhe dissesse que acabava de ver o palácio em construção? Sua preocupação agora era com possíveis – e prováveis – avarias à máquina. Não pode ter sido na última viagem, da qual só se lembrava do forte odor de carne queimada. Pois não lhe havia dito Luís que a máquina não se deslocava de seu lugar? Ainda tonto, lembrou-se do zunido no ouvido quando Whisky o acordou com suas lambidas... parecia-lhe ter ouvido um estrondo ensurdecedor antes de despertar. O que poderia explicar essa viagem conturbada, dupla, em anos diferentes? Quando aceitara viajar na máquina, nada havia acontecido ao Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro. Nada que tivesse ouvido ou lido. Não havia como saber em que ano estava. Teria alguma coisa acontecido ao armazém de Luís e Klaus? Precisava voltar à máquina para descobrir! Resmungando palavras desconexas em resposta ao brasileiro, agarrou Whisky e calcou mais uma vez no botão vermelho.  


                                                                                                    Tixa Falchetto



03/09/18

Janelas de Tempo - Capítulo 8

Imagem\Internet

Ainda abraçado a Whisky, Júlio deu por si numa pequena clareira. Sentiu imediatamente o calor e os cheiros intensos e desconhecidos ainda antes de se conseguir focar no local onde “aterrara” desta vez. Olhando em volta só viu mato cerrado e umas árvores com troncos largos, enormes, com os ramos no alto, estranhas e invulgares, quase lhe pareceram alienígenas. Por momentos sentiu medo de que a máquina além de o ter transportado no tempo o tivesse transportado para um outro planeta. Mas, de repente, fez-se luz:
- Júlio, estás em Africa! São embondeiros.
– Whisky, meu amigo, estamos em África. - Quase gritou.
Firmando-se melhor nas pernas pensou que talvez fosse melhor agir com cautela e manter-se silencioso, não sabia em que época estava, mas fosse qual fosse, perigos não deviam faltar.
- Whisky vamos avançar com cuidado e caladinhos.
Homem e cão começaram a andar, avançando a custo no mato, ao fim de algum tempo, Júlio avistou o que lhe pareceu uma vereda, resolveu avançar e seguir aquele caminho, mas sempre vigilante. O calor era abrasador e sufocante. Em que zona de África estaria? Em que época? Talvez que explorando mais um pouco chegasse a alguma conclusão.
A Vereda era longa e começou a ver pegadas humanas, pelo menos ficou com a certeza de que o lugar era habitado e que mais cedo ou mais tarde encontraria uma aldeia ou vila. Caminhou silenciosamente durante o que lhe pareceu uma hora. De repente ouviu um barulho muito familiar, mas que lhe pareceu completamente deslocado naquele local, olhando para cima viu um caça e logo a seguir outro, começou a ouvir estrondos. Um atrás do outro. Estavam a bombardear algo, Júlio correu na direcção do som das explosões. Estas pararam e Júlio começou a avistar fumo e quase de imediato avistou uma pequena aldeia.
Decidiu desviar-se da vereda e esconder-se no mato e fez sinal a Whisky para se manter calado e quieto. Viu as pequenas casas de barro e telhados de colmo, em que algumas já ardiam e ouvia os gritos de aflição. Logo em seguida começou a ouvir o barulho de helicópteros, vi-os chegar, cinco, todos com a Cruz de Cristo, carregados de militares portugueses armados de G3 que saltavam dos helicópteros e seguiam em formação de ataque para a aldeia, sabia agora que tinha caído em plena guerra Colonial.
Viu os soldados irem de palhota em palhota e retirarem homens, mulheres, crianças e velhos para as reunirem no centro da aldeia. Ouviu o comandante português perguntar pelos turras: “Ou dizem onde estão os turras ou morrem todos aqui hoje! Um ancião, certamente o chefe da aldeia, disse:
- Não há turras aqui patrão, só nós.
O militar português insistiu:
- Há turras aqui e ou dizem quem são ou morrem todos aqui!
Júlio, apesar do calor, gelou. Abarcou aquele cenário: Mulheres choravam baixinho, as crianças choravam alto com o medo, os homens sem acreditarem que os fossem matar. Via os militares nervosos, com o dedo no gatilho da G3, os rostos tensos, as bocas cerradas, a raiva surda na cara de alguns.
O comandante falou mais uma vez, enquanto tirava a arma do coldre:
- É a última vez que pergunto: onde estão os turras? Vou contar até 3. 1… 2… - fez um silêncio por segundos que pareceram uma eternidade -… 3!
E disparou matando o ancião e gritou para os seus homens:
- Fogo à vontade. Matem todos!
Júlio queria fechar os olhos, mas não conseguia, viu tudo. Viu as crianças a morrer no colo das mães, viu as mães a caírem, ouviu os gritos de agonia e desespero, viu até alguns adolescentes a fugir, uns a caírem parados por balas e um ou dois que lhe pareceu que tinham conseguido fugir. Viu aquele massacre, seriam o quê? Talvez 100 pessoas, talvez mais. Viu o sangue vermelho a manchar o chão cor de pó. Ouviu os gemidos altos dos moribundos.
Viu, ouviu e sentiu todo aquele massacre de pessoas inocentes, estava paralisado de horror sem conseguir raciocinar.
Ouviu as ordens do comandante, viu os corpos a serem amontoados, a serem regados com gasolina, pegaram fogo a tudo, a pessoas e às palhotas.
Quando o cheiro a carne queimada chegou a Júlio, ele não aguentou mais, sem largar Whisky, pensou que queria sair dali e imediatamente se encontram os dois na máquina. Ainda horrorizado com as imagens que vira, carregou no botão.


                                                                                             Fátima Ferreira