09/02/19

Ecos de Mentes - Capítulo 7

©Tixa Falchetto

Todas estas leituras de cadernos deixam claro que isto era mesmo uma casa de loucos, e já prevejo tragédias ao fim da costura de todas estas histórias. A cada caderno lido, mais atiça-me a curiosidade e assola-me a inquietação por saber a que ponto isto interferiria na minha vida. Ora, apetecia-me mesmo largar tudo e sair dali a correr. Mas a curiosidade não me deixava... vamos pois ao próximo a ver o que vem de lá.


Helena


         Então, eis-me cá a realizar o sonho de toda uma vida! Desde que nos conhecemos à universidade, o querido Ramón havia-me acenando com a possibilidade deste maravilhoso projeto de estudo dos meandros da mente humana. Juntos, desenvolvemos sérios estudos para encontrar uma maneira de devolver a sanidade às pessoas com os mais disparatados transtornos. E vamos conseguir!
Não sei se terei tempo para estar aqui a escrever tudo o que vejo, tal a riqueza de material que me cai às mãos! Já nem sequer ponho data, porque não sei se venha escrever todos os dias. Há dias em que me é necessário estar a acompanhar as pessoas em suas atividades do cotidiano, e se me ponho a andar praí com caderno e caneta à mão, posso assustá-los.
... hoje foi dia de receber uma louca narcisista que nunca teve uma relação sequer, tamanha a adoração que tem por si mesma. Pelo bem dos estudos e do tratamento, preciso dar a cada paciente aquilo do qual ele ou ela é feito, pois a intenção é mesmo aproximar-me deles e pô-los desarmados, a ver se consigo escarafunchar-lhes as mentes...
Não é nada fácil imiscuir-me em seus pensamentos.  Por seu exagerado e doentio amor por si mesma – eu diria mesmo adoração – Cláudia fechava-se em copas e nada deixava escapar de si. Percebi como olhava com desdém para qualquer mulher, mas que precisava ser invejada, cobiçada, mesmo desejada. E aos homens, parecia distribuir migalhas de promessas de luxúria.
... hoje apareceu-me a Amélia, pobrezinha... estava quase a consegui fazê-la externar alguma emoção, mas, depois de tantas conversas em que eu percebia que ia a se sentir mais confortável,  algo aconteceu que a jogou de volta em seu profundo abismo... foi depois da chegada do Gabriel, o vaidoso Adónis...
Já este, vem com mais frequência ao consultório.  Cheio dum obcecado amor por seu corpo, é de todos o mais previsível. Anda sempre a lancar-me olhares lascivos, imbuído que está em seu jogo de conquista. Mal sabe o pobre, meu querido Ramón, que só tenho olhos pra ti. Mas, trabalho é trabalho, e nós sabemos o que fazer para destravar a língua destes pobres... e, principalmente, sabemos o rastro de sangue que este Adónis deixou atrás de si...
Creio que Amélia apaixonou-se por Gabriel. Deve ser por isso que fechou-se outra vez em copas, depois de lhe ter eu conseguido conquistar a confiança. Parece perigosa, mas creio ser apenas um passarinho assustado que nunca teve um ninho. Só precisa encontrar alguém que a ampare, mas não creio que o Gabriel possa prestar-se a isso, antes temo que a perceba e faça mais uma vítima, por isso é que o distraio, fazeendo-o crer que tem a minha atenção da forma que gostaria, mal sabendo ele que estou a prescrever-lhe medicamentos que aos poucos lhe tirem  a força para o mal.
... hoje veio-me novamente a Matilde. Dessa, sim, tenho receio. Dissimulada, esgueira-se pelos cantos com seu voyeurismo, a espreitar todos os pacientes, ou melhor, “ocupantes da Pousada”, como sugeriu o querido Ramón que os chamasse. Impenetrável até mesmo para mim, acostumada que estou a decifrar as mais tresloucadas mentes. Dela, ainda não consegui atinar com o objetivo.
Outro perdido é o David... coitado, nada tem de louco. Talvez nem fique por cá muito tempo, seu problema são antes as carraspanas.  De nada nos vai servir para os estudos, a mim e ao Ramón, a nós só interessam os casos mais extremos de loucuras tidas incuráveis. 
Casal que me incomoda é o Vicente e a Beatriz... ainda não percebo a troca de papéis em que se apoiam. Só percebo o ódio que Beatriz tem por seu estúpido marido. Um frouxo que finge ser o macho da relação, mas não passa de um estorvo. Preciso ainda de algumas entrevistas com a Beatriz a ver se lhe arranco alguma pista para que aceite ser por ele tratada daquela forma, quando claramente percebo que quem o domina é ela. Penso que ela vá dar cabo da vida daquele estafermo em breve tempo.  Não é como o meu Ramón, o gajo. 
Ah, Ramón! Sei que temes a minha proximidade com todos estes homens a olhar-me como um animal a ser abatido, mas hás de convir que, se não lhes der corda, não fizer o jogo de sedução que eles esperam, poucos resultados conseguirei com eles.  O que tu não sabes é que ... deixemos de confissões, que não é para elas que cá estou...    


                                                                                   Tixa Falchetto


25/01/19

Ecos de Mentes - Capítulo 6

©Cristina Torrão

Que pensar de tudo isto? Quanto mais leio, mais inquieta fico. Casa de Repouso? Mas que se passava dentro destas quatro paredes? Algo me diz que não devo continuar a ler estes cadernos. Cheiram a tragédia. Mas a curiosidade pelo abismo é forte e escolho outro, determinada a ler mais uma mulher, na crença de que somos mais sensíveis, entendemos melhor os outros, o que nos torna menos propensas a atos violentos.
Deparo com uma Amélia… Lembra-me aquela cantiga: «Amélia, dos olhos doces»… parece-me um bom prenúncio.


Amélia


Ai, Gabriel, quando vais reparar em mim? Se soubesses o quanto te amo! Se soubesses o quanto sofro com a tua indiferença! Se soubesses, quanta angústia sinto, ao ver-te a passar por mim, sem um olhar, nem sequer um «bom-dia» ou «boa tarde», como se eu fosse apenas um dos vasos espalhados pelos corredores desta casa.
Enfim, eu sei que sou feia, desajeitada, não me sei vestir, nem arranjar, nem conversar… não passo de uma sombra. Pior ainda: sou invisível. Não só para ti, para todos os outros residentes. Até para os meus pais.
O meu pai nunca me ligou. Aliás, não liga a crianças, não as considera gente. E ainda hoje passa o dia fora, no trabalho. Chega à noite a casa, janta, enfia-se no escritório, onde tem também uma televisão, e só sai de lá para ir dormir. Raramente troca uma palavra comigo, não diz sequer «olá», nunca se interessou pela minha vida escolar, nada.
A minha mãe nunca precisou de trabalhar, o que aliás não quer dizer que se ocupe comigo. Passa a vida a arranjar-se, a perfumar-se, a ir ao cabeleireiro, ao ginásio, a encontrar-se com amigas. Sempre me deixou ao cuidado de empregadas, nunca se preocupou com a minha aparência, ao contrário das mães das minhas colegas, que se esmeram com as filhas.
Compra as suas roupas nas melhores boutiques, mas, para mim, trazia qualquer coisa do hipermercado. Não quero dizer que não haja coisas bonitas nos hipermercados. Para mim, porém, ela escolhia algo sem graça, do mais barato. «Combina melhor com o teu estilo de moça simples». Nunca me levou ao cabeleireiro com ela, deixava o meu cabelo crescer e, quando ficava comprido demais, dizia à empregada que me cortasse as pontas. O único penteado que aprendi a fazer foi o rabo de cavalo.
A minha mãe passava a vida a chamar-me «patinho feio», «mosquinha morta», «moçoila sem-jeito» e outros mimos do género. Queixava-se às amigas (na minha presença), que não sabia o que fazer comigo, que era calada, introvertida, desajeitada, trapalhona. Olhavam-me com piedade maldosa e eu baixava os olhos envergonhada, num grande esforço para evitar as lágrimas que ameaçavam rebentar.
Os seus ataques verbais cresciam à medida do meu tamanho. Um dia, compreendi tudo. Tinha dezasseis anos, as minhas formas de mulher completas. Estávamos na pastelaria de um Centro Comercial. A minha mãe, com trinta e oito anos, apresentava-se soberba, de longos cabelos loiros, bem maquilhada, silhueta elegante. De repente, disse-me:
- Já reparaste, Amélia? Os rapazes novos olham mais para mim do que para ti.
Deu uma grande gargalhada de satisfação. A minha garganta fechou-se-me, impedindo-me de engolir o pedaço de bolo que mastigava. Fiquei como parva, o bolo na mão, a boca cheia. A minha mãe acrescentou:
- Também não admira, nem sequer sabes comer! Ainda não notaste que estás toda besuntada de açúcar?
Deu nova gargalhada.
Passei a odiá-la. Educara-me de maneira a que eu não chegasse aos calcanhares da sua beleza. Dava-lhe prazer ser mais atraente do que eu. E humilhar-me por esse motivo.
A minha vida passou a ter um único objetivo: vingar-me.
Comecei por me desleixar nos estudos e reprovei, nesse ano. Fixou-me estupefacta. Eu nunca tinha sido uma aluna brilhante, mas também nunca havia dado azo a preocupação. Os seus olhos muito abertos, pousados em mim, revelaram-me toda a sua estupidez, todo o seu vazio de alma. Apeteceu-me rir na cara dela, mas permaneci impassível, nem respondi à sua pergunta:
- Que se passa contigo?
O meu pai limitou-se a um grunhido incomodado, sem me encarar, como de costume. E o episódio depressa foi esquecido, desejosos os dois de continuarem a sua vidinha. Estavam juntos apenas por conveniência. A minha mãe precisava de dinheiro para roupas, salões de beleza e ginásios; o meu pai colecionava amantes de ocasião, sem se comprometer, descartando-se com as suas responsabilidades de chefe de família.
Constatei ser viciante aquela minha vida sem preocupação de notas, afastando-me das coleguinhas estúpidas, todas com namorados, ou admiradores, aos quais se davam o luxo de rejeitar, de nariz empinado. Desleixava-me e isolava-me cada vez mais, o que aliás dava azo a novas críticas da minha mãe:
- Agora, nem para os estudos serves, valha-me Deus!
A fim de lidar com a situação, fui desenvolvendo a capacidade de não permitir emoções, fechada no meu mundo, como que anestesiada. Comecei por notar que não reagia a notícias de catástrofes, o que, confesso, me assustou um pouco. Dava comigo indiferente perante vítimas de cheias ou de incêndios, crianças subnutridas e animais maltratados. Era como se algo no meu cérebro tivesse sido desligado, a fim de aguentar os ataques verbais da minha mãe e a indiferença do meu pai, enquanto criava um ódio infinito por aquela gente que me tinha gerado.
Quando reprovei pela segunda vez, a minha mãe teve um ataque histérico:
- Não me digas que vou ter de te sustentar toda a minha vida. Não me digas que nunca me livrarei de ti!
Enervado com os guinchos, o meu pai esteve quatro dias sem aparecer em casa. Pela primeira vez, desejei que algo de mal lhe acontecesse. Ele, porém, regressou e a vida continuou, como se nada tivesse sucedido.
Comecei a matutar: se nada lhes acontecesse, talvez tivesse eu de fazer alguma coisa para me livrar deles. Perdia-me em pensamentos mórbidos. Podia envenená-los, por exemplo. Ou deitá-los pelas escadas abaixo do prédio. Ou atirar-lhes algo pesado à cabeça. Ou espetá-los com uma faca da cozinha…
Com o tempo, os meus delírios tornavam-se cada vez mais sanguinários. Durante a noite, entre o sono e a vigília, como que tomada por uma febre, via-me a ir buscar uma faca e a atacá-los na cama, espetando-os várias vezes, numa orgia de sangue que me provocava orgasmos sem ter de me masturbar.
Estive muito perto de entrar em vias de facto, não fosse uma resolução do meu pai que acabou por os salvar. Era domingo, estávamos a almoçar. Completados os vinte anos, eu não tinha ainda acabado o liceu e a minha mãe começou com mais um ataque:
- Não sei o que havemos de fazer dela! Sem estudos, nunca será ninguém na vida. Se ainda tivesse corpinho e carinha para arranjar um marido rico…
O meu pai mirou-a visivelmente incomodado, mas nada disse, tornando a concentrar-se na comida.
A minha mãe não se intimidou (nunca lhe faltou lata, graças a Deus) e acrescentou:
- Bem podemos esperar sentados! Nem o mono mais ranhoso se interessará por ela.
Deu uma das suas famosas gargalhadas. Estive quase para lhe quebrar a garrafa do vinho na cabeça, mas o meu pai, depois de respirar fundo, dignou-se a falar, embora sem tirar os olhos do bife que cortava:
- Deve precisar de tratamento psiquiátrico. Hei de falar com um conhecido meu.
Passados dias, vi-me no consultório de um tal Dr. Ramon Saavedra, um homem com ares de cangalheiro tirado de um filme de terror. Examinou-me com o seu olhar sinistro, provocando-me um misto de susto e excitação sexual. Afinal, nunca um homem me tinha olhado com tanto interesse.
Os meus pais acertaram com ele o meu internamento na sua «Casa de Repouso». E assim cheguei a este casarão.
Fui feliz nos primeiros dois meses. O destino encarregara-se de me livrar dos meus pais, das aulas e das coleguinhas estúpidas, sem que eu tivesse de tomar uma atitude drástica. Anda por aqui gente esquisita, mas, como não me ligam nenhuma, não me apoquentam. Todos parecem incomodar-se muito com o mau génio da Ilda. Eu, porém, que já sofri ofensas bem piores vindas da minha própria mãe, até fico com vontade de me rir das suas fúrias. E as consultas com a Dra. Helena, nesses primeiros tempos, punham-me muito bem-disposta.
Quando a vi pela primeira vez, não gostei dela, por ser bonita. Apeteceu-me matá-la! Mas, ao contrário da minha mãe, a Dra. Helena sorria muito, falava num tom calmo e amistoso e, o que mais me surpreendeu, nunca me criticou, ou acusou de nada. Nunca me disse que era feia e desajeitada, ou que não tinha maneiras, ou que não sabia escolher roupas, ou que nunca arranjaria homem. Recebia-me sempre amável e ouvia-me cheia de paciência.
Perante tanta recetividade, comecei a abrir-me com ela. Contei-lhe muita coisa da minha infância, da minha vida de estudante, das minhas dificuldades. Verdade seja dita: a Dra. Helena nunca propôs solução nenhuma para os meus problemas e há quem diga que é viciada em drogas. Mas aguentava os meus desabafos sem me despachar, o que, para mim, já era muito. Além disso, dava-me uns calmantes que me punham muito relaxada durante dia e a dormir bem de noite, sem tempo nem disposição para delírios sanguinários.
Tudo parecia esquecido: os meus pais, a minha vingança, a minha sede de sangue…
Mas eis que chegaste, Gabriel! Exibindo a pele bronzeada e o corpo de Adónis… Um homem de sonho! Quando te vi pela primeira vez, soube que nunca mais seria a mesma.
Por uns dias, vivi embriagada com a descoberta da paixão. Bastava-me ver-te, deleitar-me na tua figura, ouvir a tua voz. Porém, cedo se manifestaram outro tipo de desejos, como falar-te, tocar-te e sentir-me tocada por ti. Acordavas-me as emoções, o que me fazia sofrer perante a tua indiferença. Nem mesmo os calmantes da Dra. Helena conseguiam apaziguar-me.
Dra. Helena, essa cabra, essa puta! Tinha uma paixoneta pelo David, o poeta, e eu divertia-me a observar os olhares que trocavam. Mas soçobrou aos teus encantos, Gabriel! Bem, eu até poderia aguentar isso. O que eu não aguento é que tu também encontraste agrado nela, meu amor!
Sinto que me pertences, mas não sei como te atrair, como te chamar a atenção, dizer-te que existo. A única solução seria… eu tornar-me na única mulher existente nesta casa! Aí, sim, sem escolha, acabarias por me aceitar. Só nós os dois, Gabriel, neste casarão! Tu e eu!
Tornou-se-me claro que me teria de livrar de todos os outros residentes, incluindo a Ilda e as papagaias “no podemos hablar”. Regressaram os meus tormentos noturnos, as minhas fantasias sanguinárias. Ao contrário de em minha casa, porém, eu não podia ir com uma faca da cozinha atacar todos, um por um, aos seus quartos. Não chegava a despachar meia dúzia até que alguém desse o alarme. Uma bomba mataria todos de uma vez, mas onde iria eu desencantar o engenho? E como evitar que tu e eu fôssemos igualmente pelos ares? E a casa? Não, a casa tem de ficar intacta! Será o nosso paraíso. Oh, sonho doce!
 Lembrei-me da hipótese do veneno, podia deitá-lo num panelão de feijoada, ou de rancho.
Mas onde arranjar a peçonha? A solução veio-me na sala de consulta da puta da Helena. Não faltam ali calmantes e soporíferos de todos os tamanhos e feitios. Claro que estão guardados em armários, mas madame só os fecha à chave depois das consultas, encerrando igualmente o consultório.
Há alturas em que ela me manda entrar e me deixa por momentos sozinha. Diz que vai à casa de banho, ou que tem de fazer fotocópias, ou dar um recado a alguém. Será que eu lhe inspiro confiança, por ser calada e sossegada? Ou será que ela, na sua cabeça enevoada, não se rala e facilita também com todos os outros?
É-me indiferente. Aproveito essas ocasiões para ir aos armários e subtrair um ou outro blister de comprimidos. As caixas lá armazenadas são grandes, têm dez ou mais blisters, quem vai reparar se falta um ou outro? Além disso, algumas caixas já não estão completas e não me parece que a Dra. Helena seja pessoa para anotar com precisão matemática quantos blisters estão em cada caixa.
Vai demorar a arranjar os comprimidos necessários, mas eu tenho tempo. Os meus pais não têm pressa nenhuma em me ter em casa. Nunca me visitam. A minha mãe telefona-me, quando lhe dá na mona, por vezes, está mais de um mês sem me ligar. Eu garanto-lhe que adoro estar aqui e que as consultas com a Dra. Helena me fazem muito bem.
- Ai que bom, minha filha! Então vai ficando, que a gente só te quer ver bem. Já sabes que não olhamos a custos…
Cabra!
- Pois sim, mãezinha.
Quando tiver comprimidos suficientes, é só desfazê-los em pó e deitá-los no panelão. Vou começar a oferecer à Ilda a minha ajuda na cozinha, a fim de ganhar a sua confiança. Enganar as duas cozinheiras que lá trabalham não será difícil, são burras que nem portas.
Até acho que já encontrei solução para o problema que me restava: como evitar que Gabriel não jante, nesse dia?
Chegou há pouco tempo uma moça, a Matilde, que me chamou a atenção. Parece reservada, como eu, e pouco dada a enfeites femininos. Mesmo assim, hesitei em meter conversa com ela e quase desisti, quando a vi tocar piano. Fiquei com tanta inveja, que me apeteceu esganá-la.
Por algum motivo que me escapa, acabei, porém, por abordá-la. Foi hoje à tarde. Uma excelente ideia! Como eu, e apesar de ser mais nova, a Matilde abomina adolescentes patetas. Divertimo-nos a recordar cenas de mocinhas histéricas, mas também trocámos impressões sobre os outros residentes. Quando mencionei o desaparecimento de Dinis, Matilde acabou por revelar que poderia tentar descobrir alguma pista no seu quarto, pois possui uma chave-mestra.
A ideia surgiu-me como um relâmpago: usar essa chave para entrar no quarto de Gabriel e lhe deitar na água uma dose de soporífero um pouco mais forte do que o normal, evitando que ele, num certo dia, desça para o jantar.
Fiquei tão feliz que, apesar de já ter desejado esganar a Matilde, estou agora com pena de ter de a matar. Mas não há outra hipótese. Não posso arriscar que Gabriel tenha outra mulher à sua escolha, seja ela qual for.
A noite vai adiantada e já me dói a mão de escrever. Terá sido boa ideia passar isto tudo para o papel? Não o consegui evitar. Estes planos provocam-me tanta euforia, que rebentava, se não desabafasse. É óbvio que não o podia fazer com a vaca da Helena e estes cadernos estavam por aí, à mão de semear…
Esconderei este bem escondido, ninguém o descobrirá.
Sou capaz de tudo por ti, Gabriel! Quero-te tanto, tanto…
Gabriel, meu amor.


                                                                                                     Cristina Torrão



18/01/19

Ecos de Mentes - Capítulo 5

©Albino Pereira


Matilde 


Tenho alguma dificuldade em entender as pessoas. Não um certo tipo de pessoas mas todas em geral.
Acho que sou o que se poderia chamar um espírito antigo num corpo jovem. Tenho 17 anos, feitos no dia de Natal que acabou de acontecer. O velho ano ainda não se despediu, as azáfamas ainda se sentem na casa e, no entanto, nada de relevante se passou. Estou mais velha (será possível?), o Cristo voltou a nascer, o Pai Natal da Coca-Cola ressurgiu nas chaminés e varandas (exceto o da do segundo esquerdo, lá do meu prédio, que já descolorou dados os meses que leva na mesma posição, num ridicularizar inexplicável e insistente. Dizem que o senhor ficou assim mais descuidado desde que uma filha caiu na vida fácil e deixou de lhe ligar), os sinos ouviram-se de forma repetida e, para mim, irritante. Alguém sonhará o que é ter, em cada aniversário, este ataque de loucura coletiva, estes sorrisos falsos à conta de uma felicidade imposta pelo calendário?
Já não estou em casa desde o dia 27 de dezembro. Desde as 10h desse dia, mais precisamente. A carrinha lá estava à porta, à hora combinada, e trouxe-me para este centro de tratamento,
Este meu jeito de ser e de estar não me facilita a vida. Isto de ser a única ovelha negra entre centos de ovelhas imaculadamente brancas tem custos. Todos os olhares estão fixados em mim. A maior parte dos demais internados nesta “Casa de Repouso” têm a idade dos meus avós mais velhos, os paternos. Não consigo falar com eles, não há conversas possíveis. A única altura em que se poderia falar de alguma comunicação é quando me sento ao piano e deixo os sons saírem do meu íntimo para se espalharem pelo salão.
Não deixa de ser curioso observar os que me rodeiam. Poderia falar das espanholas mudas – acho que são espanholas pois só as ouço dizer “no podemos hablar”. Como o Diretor desta Comunidade Terapêutica é um tal Ramon Saavedra, que nunca vi, faz algum sentido. A psiquiatra que me prescreve as drogas, mal me ouvindo, chama-se Helena. Diria que se autorreceita e que abusa das drogas. Mas sobre isso poderia falar melhor o Gabriel – aquele culto do físico está bem sustentado em químicos e já o vi, mais do que uma vez, a sair do gabinete da doutora com ar muito suspeito. Não me parece que a relação seja meramente clínica. A mim não me enganam.
Uma residente bem gira é a Cláudia. Entradota na idade, é certo mas com um corpinho de fazer inveja a muitas que podiam ser suas filhas. No outro dia, pela esquina da porta entreaberta, apanhei-a a ver-se ao espelho, admirando-se, revirando-se… quase dava por mim, especada, não fosse eu tão ligeira a fechar a porta.
 Será que também teve diretivas para escrever um diário? Fará como eu, uns escritos para mostra à dra. Helena, a falar bem da vida, e outro para esconder, só para si? Terei que procurar, quando ela sair do quarto. Afinal darei bom uso à chave-mestra roubada à fogosa espanhola distraída nos seus rituais de higiene íntima prolongados.
Fico por aqui, hoje. Está a tardar o sono e não entendo “este meu cansaço” – dizia-me a tia avó Severina que algum dia me seria cobrada a afronta da minha mãe que me quis prantear Matilde, contra a insistência dela que falava de lendas antigas e que, sendo eu a quinta das suas filhas (não tenho irmãos) me deveria chamar Eva. Tenho que saber mais sobre isso. A quem poderei perguntar se a titi Severina já não está entre nós há mais de 5 anos?

                                                                                            Albino Pereira


09/01/19

Ecos de Mentes - Capítulo 4

©Joaquim Henriques


E pronto, a noite já caiu e eu já descansei das palavras da Beatriz. Tive que fazer uma pausa depois daquelas revelações. Aquilo mexeu comigo, o que é que hei-de fazer?
Remexo nos cadernos e escolho outro. O do David, pode ser. Ah, olha temos poeta.


David

Caí, sim. Essa é a melhor definição!

Aterrei nesta casa, sem saber como…
Alguém fez as apresentações
E eu lá vim, à procura de uma refeição
           É tudo muito estranho, um virote
A maioria pavoneia-se
Estão aqui para ver, e serem vistos
Tal como os quartos, a mesa é enorme
E todos, elas e eles, se mostram
Estranho, ou talvez não
Eu, que não os conheço de lado algum,
Desfruto do repasto
À laia de ressaca, boa!
Da excelente noite que tive
Dos tetos madeirados que mirei
E dos ruídos dos bichos
Que por lá se alimentavam
Ralado para os “pozes” que caíam
Ilustrativos da decadência do sítio
Claro, não há casa antiga, ilustre e brasonada
Que não tenha uma farta colónia de caruncho
Respira-se história por aqui
As madeiras abundam
E os linhos dizem presente
Mas, para mim, recrutado meio alcoólico
E muito mais que esfomeado
Isto é o paraíso
Todos se apresentaram
Mas eu nada fixei
Nomes, apelidos e famílias
Que se lixem todos eles
Para mim é simples, convidaram-me!
Entendo, foi depois de uma noite bem bebida
Depois de muitas conversas
Em que eu devo ter dito enormidades
Daquelas que ninguém diz
Porque têm medo, presos pelas convenções
Mas vá-se lá saber porquê
Aqui estou eu, no meio de todos eles
Ressacado, a ouvir vozes
Sem conseguir nem tão pouco a tentar
Escutar as conversas
No topo da mesa, esbelta e linda
Ela, Helena, sorri
A única a quem fixei o nome
Não liga a ninguém
Parece mais só que eu
Repleta de mesuras e cumprimentos
Mas sem o brilho nos olhos
Aquele, o tal
Que nos dá vida e nos alimenta
Eu posso estar esquelético
De muitos dias passados sem comer
E nenhum sem beber
Mas foda-se, no meu olhar
Sempre que me vejo ao espelho
Reflete-se uma cara, rugosa
Envelhecida pelos excessos
Mas sempre com o olhar a brilhar
Sabe-se lá de onde ele vem
Talvez toda a energia que consumi
Para ele tivesse sido encaminhada
Pois, se os motivos há
Eles devem estar mortiços
Baços como o nevoeiro
Aquele que talvez um dia
De vez, anuncie D. Sebastião
Gargalha-se e as mesuras abundam
O primeiro repasto do dia é farto
E eu desfruto, reponho energias
Pelo meio vejo os olhares dela
Separa-nos a mesa, enorme e farta
Sinto, sei que ela me vê
Que estranha o meu silêncio
Contrastante com o que já foi
Afinal, com o motivo de estar presente
Mas os nossos olhos brincam
Quem é o gato, ou o rato
Ninguém se importa
Sabemos, depois de tanta pompa
Palavreado e circunstância
O silêncio será nosso
Só nosso!


Joaquim Henriques

14/12/18

Ecos de Mentes - Capítulo 3

©José Manuel Barbosa 

Acordei encostada à parede da velha sala, onde me tinha sentado para ler com calma mais um pedaço destes cadernos misteriosos. Que mais segredos albergariam aquelas páginas? Mas o cansaço da viagem dos dias anteriores, mais a constante atenção que tinha de dar aos homens para que os trabalhos decorressem como eu queria e o repasto da moça que me veio ajudar nestes primeiros tempos, tinham-me deixado com aquela moleza pós-almoço. Onde é que eu ia mesmo? Ah, sim, apesar da letra meia torta, percebi que desta vez quem escrevia era a famosa Beatriz. Tinha ficado curiosa depois de ler os pormenores sórdidos da sua vida conjugal com Vicente.


Beatriz

Ai Vicente, Vicente. Se soubesses como te odeio. É por tua causa que estamos aqui, neste lugar longe do mundo que amo, à mercê de doidos e lunáticos. Sim, porque eu sou a mais sóbria deste lugar, por muito que outros pensem o contrário. Ao menos eu sei o que sou e não tenho vergonha de nada do que fiz ao longo da minha vida. Odeio-te mesmo, Vicente. Desde o dia em que me tiraste daquele bordel. Lá eu era feliz. Estava no meio de gente como eu que não tem vergonha do prazer e da luxúria. Do desejo. Se senti algum dia desejo por ti? Acho que não. Ai como te odeio, Vicente. Porque acreditei em ti. E aceitei que me colocasses este maldito anel no dedo. Por ele, por este anel, sinto-me agora presa e asfixiada como se metida num espartilho. Fingimos que somos os dois de uma família de bem, que sou uma mulher submissa e tu um ditador. Oh sim, mas que farsa de ditador, que se borra com o latido de um cão ou com um berro meu. Estou farta, farta. Estou farta do teatro todas as noites, contigo sordidamente agarrado a mim. Prometeste-me o mundo e fechaste-me aqui, para te tentares curar. Não tens cura, meu fraco. Achaste que por eu ser da vida, ia ser mais fácil, mas eu sou mulher como qualquer outra. Como qualquer outra, não. Isso seria se ainda fosse livre, não agora que me sinto amarrada. E deste-me este nome de princesa. Ah, como te odeio. Tenho saudades do meu nome. Por vezes, quase não recordo já o meu verdadeiro nome, de tanto repetires insistentemente esta aberração que me arranjaste para a tua mãezinha não desconfiar. Pobre senhora, que morreu sem saber a verdade, ao menos isso! Por outro lado, que saudades que tenho da minha. Nasci e cresci com ela naquela casa onde a luz era vermelha dia e noite e onde o fumo dos cigarros era o incenso de outrora. Acho que ainda sinto esse cheiro a cigarro na minha pele. Hum, que arrepio bom. Tenho saudades de sentir esse odor bruto na boca dos homens que me devoravam. Sim, porque tu nem usufruis de mim como aperitivo. Mas tenho de aceitar este meu destino já que casei contigo. Acho que nesse dia enlouqueci e só me apercebi tarde demais para voltar atrás. Se eu pudesse… Mas o meu irmão precisava dos estudos pagos, ele não tinha culpa da vida que eu e a nossa mãe levávamos. Não, o meu irmão merecia melhor. Muito melhor. Ao menos agora é médico. Saudades do meu irmão, de um homem a sério e não de um verme como tu. Mas estou cansada de escrever sobre ti. Já passo os dias e noites contigo, enfiados neste lugar asqueroso. Mais limpo que o bordel mas mais sujo de almas.
Pobre Cláudia, se acha que aquele bilhete vai convencer o meu marido de alguma coisa. Estamos ligados, minha querida, até que o Inferno nos separe. Nem esse teu corpo de bonequinha ia mudar isso. Ele só tem olhos para mim, apesar de não ter mais sentido nenhum a funcionar. Pobre diaba que deves ser, para achares que eu não percebi o teu esquema. Deve dar-te prazer a adrenalina de te meteres com os maridos das outras. Mas olha bem que podias ficar com ele. Libertavas-me. Nem que tivesse de voltar para o bordel. Ai raios que sinto mesmo falta de um cigarro. Mas parece mal, diz ele. Não fica bem à Beatriz. Que saudades do meu verdadeiro nome.
Como vou aguentar ficar aqui? Dançando aquela música estúpida todas as noites, só porque ele adora. Farta, já terei dito que estou farta? Também que interessa, estou a escrever isto escondida na casa da banho, enquanto o deixo pensar que me arranjo para mais uma paródia lá em baixo. Antes de me ir embora, deito tudo isto pela sanita abaixo. Ai quando será esse bendito dia? Tenho é de esconder isto muito bem, ele é demasiado obsessivo com tudo o que escrevo, mania de me controlar, como se me controlasse alguma vez. Mas se ele se atrever a ler estes meus desabafos, vai levar com aquele berro que o põe a tremer da cabeça aos pés. O pior é que ele gosta. Maldito sejas.
O dia hoje só teve uma coisa boa, aquela visão de músculos que tive antes de subir para me arranjar para o jantar. Suado, com a toalha ao pescoço e aqueles calções. Ouvi cochicharem que era PT. Esse deve dar gosto levar para a cama. Deve dar para os dois lados, cheira-me, embora tente armar-se em machão com aquela Helena. Reconheço-os. Passaram muitos por mim. Mas que é jeitoso, é. E cheira bem. A homem, apesar de tudo.
Mas já nem sei se sou ainda capaz de todas as acrobacias que aprendi com a minha mãe. A minha mãe era perita na cama e ensinou-me tudo. Até me aconselhou a nunca deixar que me pusessem o anel no dedo. Mas muitas vezes não ouvimos as mães. Oh raios. Já pensei tantas vezes em cometer uma loucura. Ninguém ia dar pela falta dele. Ninguém lhe liga ou vem visitá-lo. E porque não? Libertava-me. Mesmo que fosse parar à prisão, tudo seria melhor que este teatro. Adoro ser a dominadora, sim, mas de um leão selvagem, não de um gato sem unhas. Que digo eu? Devo estar a ficar alucinada com o que nos dão a beber. Loucura já fiz eu ao casar com ele, chega! E se eu virar este jogo? E me começar a divertir um pouco, já que aqui estou? Se ninguém sabe o que sou, ninguém sabe do que sou capaz. Pronto, já me está a bater à porta da casa de banho, raios de impaciente. O jantar espera. Todos esperam. Afinal somos Beatriz e Vicente. O casal mais chique e fino desta espelunca.


                                                                                 Carolina Lemos


30/11/18

Ecos de Mentes - Capítulo 2


©Fátima Ribeiro
- D. Laura?...
- Ai que susto, homem! Não se aproxime tão silenciosamente, que ainda me mata do coração.
- Desculpe, D. Laura, desculpe. Mas é que preciso de indicações.
- Indicações sobre quê?
- Então, sobre… isso. Paramos a obra?
- Não paramos nada a obra. Então agora íamos parar a obra por causa de uns cadernos velhos? Leve-os todos lá para baixo, que eu vou lê-los, e continuem o vosso trabalho.



Gabriel

Trouxe o caderno para o jardim. Não sei se é permitido, mas ninguém disse nada e olha: aproveitei que chegaram as “No Podemos Hablar” para fazer a limpeza do quarto e pirei-me com ele dentro da sweatshirt. O que, provavelmente, foi cuidado desnecessário, já que não encontrei nenhum dos outros pelo caminho. Apesar de ao pequeno-almoço a sala estar cheia, não sei onde se meteram todos, que nunca mais os vi. Não que isso me incomode. Não, não incomoda nada. Sou bicho solitário e pressinto que vou dar-me bem, aqui entre os recantos da natureza. Aliás, já andei por aqui de madrugada, àquela hora que ninguém desconfia. Estava ansioso e não conseguia dormir. Saltei pela janela.
Estava a ver que ía ter que me arranjar lá no quarto. Não ía ser fácil, mas sem malhar é que eu não ficava. Ah, pois não! Já basta não ter os aparelhos que tanta falta me fazem. Nem que tivesse de desmontar a mobília, pendurar-me do tecto, sei lá… agora que atingi o ponto que pretendia não posso regredir. E é que não é só o corpo é também a mente, a minha mente não consegue suportar as endorfinas que estão sempre a acumular-se. Só o ginásio é que as liberta e na falta de um, teria que me desenrascar. Ainda que fosse saltando pela janela. Que sou obcecado pelo culto do corpo, dizem. Tretas, só tretas. Eu sei perfeitamente que não caí no exagero, apenas não me sinto bem se… não quero um corpo flácido, ponto. Se esfumaçasse que nem uma chaminé, como alguns que já aí vi, isso é que era de preocupar. Agora fazer exercício físico, que mal há nisso? Que mal há em querer ser saudável?
Mas pronto, pelo menos por enquanto já arranjei solução. Durante a escapadela madrugadora, andei a vasculhar o jardim e encontrei uns sítios que vão dar para fazer bons esquemas com sequências alternadas. Assim vai ser mais fácil não perder massa muscular. O pior é a alimentação. Pela amostra que me foi dada a conhecer, é só gorduras poli-saturadas, hidratos processados e açucares. Proteínas, nada de nada. Trouxe – e isto ninguém sabe – um grande stock de suplementos. Não resistiria sem eles. Mas mesmo assim, não posso, não devo abdicar do meu plano nutricional. E a isso é que vai ser mais difícil dar a volta. A não ser que – surgiu-me agora uma ideia – engate a gaja da cozinha. Aposto que não daria trabalho nenhum, elas não resistem a este corpo de Adónis. Falo por experiência: são sempre aos montes a ver quem ganha o pedaço. E não são só elas, eles também; mas esses, enfim… não me interessam para nada. Voltando à da cozinha, acho que se chama Ilda, será que já reparou aqui nestes esplendidos bíceps? Hum… se calhar não. Com aquele aspecto badalhoco, nem deve saber o que é um corpo bem cuidado. Pensando melhor, talvez não seja uma boa ideia. Pois, não; quem teria estomago para aguentar o cheiro a fritos ou tocar aquela pele peganhenta de suor e gordura? Não, essa também não é uma hipótese.
“Olá, boa tarde!” Espera… estava eu a dizer que não sabia onde se tinham metido todos, pois aqui está um. – Boa tarde! – Respondo, sem ênfase. – Não vê que agora estou ocupado? – Apetece-me dizer. Mas não digo, fico à espera que o gajo continue a conversa. E continua: “chamo-me Amadeu”. Sim e o que é que eu tenho a ver com isso? Vêm-me à mente a resposta pronta, mas em vez de a verbalizar solto um amistoso - Sou o Gabriel. “Muito prazer, Gabriel. Tens um cigarro?” Ah, é isso que ele quer? Não vou ser nem sequer cordial: - Claro que não, não fumo! “Ah, está bem. Achas que podemos ver a bola, logo à noite? Quer dizer, haverá cá algum plasma ou pelo menos um bom aparelho de televisão?” Olha-me este… deve ser daqueles que se empanturram de petiscos a babar gordura, enquanto chamam nomes ao árbitro. “O que é que escreves aí nesse caderno?” Mas o gajo é parvo ou quê? Então não estamos aqui todos para o mesmo? - É para a posteridade, não foi o que nos disseram? Não te deram um? “Acho que vi um lá no quarto… até logo, talvez a malta se encontre para ver a bola.”
Estão a ver porque é que eu digo que sou bicho solitário? Esta foi a conversa mais longa que tive com alguém, desde que entrei neste lugar, e para dizer a verdade já estava com vontade de enfiar a caneta nos olhos do tipo. Ou naquela barriga inchada, a ver se rebentava como um balão… eheheh, havia de ser giro aquela porcaria toda a saltar cá para fora. Que nojo! Não sei como é que são capaz de andar com aqueles corpos nojentos a exibir-se por aí. Comigo não, comigo não contem para ver a bola a ingerir petiscadas ao ritmo dos gritos de gooooloo! Não gosto dessas socializações. Mas também não vim para aqui para socializar. Vim para aqui para… para que foi mesmo? Bem, talvez um dia saiba.

O jantar de hoje não me correu mal de todo. A comida foi uma mixórdia parecida com a de ontem e de anteontem, mas estive à conversa com a Helena. Aquela é que é uma gaja que me enche as medidas. Assim que a vi percebi logo… longos cabelos negros, olhos verdes, corpo bem torneado. Mas até agora só dava conversa ao David. O gajo até me parece boa pessoa, talvez o único com quem me identifique um pouco, mas desculpem lá: os meus interesses são os meus interesses e os teus interesses são os teus interesses. E os teus não podem nunca sobrepor-se aos meus.
Porém agora que ela sabe que sou PT, adeus David. Amanhã, já vamos ter uma aula. Eu sabia que aquele corpinho não se fazia assim do nada. A propósito, será que devo fazer um esquema para ela? Ah, não… não sei em que forma está. É melhor esperar por amanhã e assim observo-lhe o nível e tiro-lhe as medidas. Não é que não lhas tivesse tirado já, mas isso é outra história.  
Raios! Estão a bater à porta. Quem será agora? Que não me venham cá com mais saraus. Já me bastou o outro, onde tive que aturar aqueles dois malucos a dançar sem música. E a histérica da Cláudia ainda a dar-lhe trela, que nunca mais nos abriam a porta. Não estou para isso…
Novamente, vários toques com força, na porta do quarto. Quem quer que seja está com pressa, bate tão insistentemente. “Boa noite! É o Gabriel, não é?” Este não sei de onde é que apareceu. Nunca o tinha visto, nem ao pequeno-almoço onde achei que estava toda a gente – sou o Gabriel, sim – confirmo. “O meu nome é Dionísio, já nos cruzámos por aí.“ Já? Quem diria… eu não disse que não eram só elas a disputar o pedaço? Já deve ter andado a catrapiscar-me à socapa. “Posso entrar?” Entre, entre, sinta-se à vontade – o meu pensamentos é irónico, pois a criatura vai logo invadindo o meu espaço sem o meu assentimento. “Sabe Gabriel, soou-me que é PT”. Soou-lhe? Será que a Helena lhe contou? “Blábláblá, blábláblá… e então resolvi vir procurar os seus serviços.” Ah, então é isso que o gajo quer: um personal trainar: “faço qualquer coisa para manter esta maravilhosa forma. Estou muito bem, não acha?” Talvez, talvez esteja mas terá de arranjar outro. Eu já estou ocupado. – Dionísio, eu não sei se posso fazer isso aqui. Não sei se as regras o permitem, entende? Acho melhor não arriscar. – Tento esquivar-me, mas… “acha melhor não arriscar, é? Mas com a sua amiguinha Helena não se importa, com ela não faz mal de infringir a regras?” P… da bicha, esteve a ouvir a conversa. Ai que ganas de a esganar! “Pensavas que eu não sabia, era? Não te enganes, sei tudo o que se passa aqui. Amanhã, encontramo-nos os três à hora combinada.” Mas… “Bons sonhos, darling!” 
Nem esperou qualquer resposta. Saiu, batendo a porta na minha cara, sem cerimónia. Parece-me que vou ter problemas com este. Logo eu que sempre achei piada em vê-los a cobiçar o meu corpo. Muitas vezes, tentavam algo mais, claro, mas eu era explícito a mostrar as minhas tendências e tudo ficava por ali. Agora este, este quer armar confusão. De certeza.

                                                                             Luísa Vaz Tavares


23/11/18

Ecos de Mentes - Capítulo 1

©João J. A. Madeira


Cláudia

Estou farta, cansada, extenuada. Tremem-me as mãos em cada coisa que pego, arranha-se-me a garganta nas raras vezes em que a minha boca se abre, quase definha asfixiado todo o meu interior que tanto me pede para gritar sem que possa fazê-lo. Que faz aqui este meu corpo? Que fazes tu aqui, Cláudia? Ah! Pudesse eu fugir, tivesse eu coragem de sair porta fora e rasgar esta pele em ervas bravias, em espinhos sangrentos, entre bichos de asco e de medo. Como deixei que para aqui me trouxessem? Como? Pára de roer as unhas, Cláudia, pára! Já sabes quanto isso te desfeia as mãos, por mais jóias que uses nelas. E, sobretudo, não chores. Já viste o resultado das lágrimas na porosidade do teu rosto quando, ainda por cima, os cremes estão a acabar? Sim, os cremes estão a acabar. Acreditarias nisto, mãe, se cá estivesses ainda e pudesses ler o que escrevo? A tua filha, a menina que se fez a mulher mais bela do bairro (da cidade até, como bem ouvimos um dia dizerem-me na rua) a tua flor, como me chamavas, a deixar acabar os cremes de beleza? A usar roupas mal engomadas, estragadas e debotadas por uma lavagem mal cuidada? Imaginas a tua Cláudia, a refilona, a quedar-se calada perante tamanha ofensa? De nada serve ser respondona aqui, ou mesmo malcriada. São muito mais agressivas e grosseiras que nós as cabras das espanholas que nos tratam da roupa e limpam o quarto. “No te entiendo”, “no podemos hablar”, “no podemos hablar”. Ninguém aqui “habla” coisa alguma. Ninguém. O silêncio e um apressado desviar de olhares derrotam todas as perguntas quase antes de serem proferidas. Mas pior, bem pior, é a pu… não, não posso conspurcar este caderno, não devo marcar estas folhas com obscenidades que contrariariam a senhora que sou, educada, simpática, culta e, acima de tudo, extremamente bela, se acaso algum dia estas páginas forem lidas. Mas aquela… aquela Ilda, encho-me de comichões ao escrever esse nome – não coces, Cláudia, resiste, não te coces com essas unhas roídas. Recorda-te de como te ficaram as pernas marcadas quando uma vez, distraidamente, o fizeste – Não, não coço. Mas aquela mulher, aquela vadia, não é espanhola, é bem portuguesa, uma minorca, uma caga-tacos que cresce nas ofensas a qualquer residente. Tresanda a suor e, à semelhança do buço descuidado, devem crescer-lhe nos sovacos autênticas barbas negras que nem um pirata ousaria escanhoar. E é dessa fealdade descuidada, aliada às mais ordinárias expressões, que se serve para nos calar as perguntas, rindo e imitando as mulheres da manutenção: “no podemos hablar”. E nós calamo-nos, amochamos, resignamo-nos àquela chantagem camuflada. Porque aquela ordinária era capaz de tudo, tenho a certeza. De nos cuspir nos bifes, de nos urinar na sopa. Mas estou a adiantar-me, a falar-vos de gente sem educação à qual entregaram a cozinha. Tem-nos na mão, como nos tem na mão quem para aqui nos trouxe. Não sei como me iludi com isto. Não sabemos onde estamos, receamos aprofundar, entre os residentes, quem somos e, muito menos, por que razão estamos aqui. Mas é melhor começar pelo princípio. Já o devia ter feito. Ou corro o risco de nada entender quem um dia encontrar este caderno.
Acalma-te, Cláudia. Levanta-te por momentos e descontrai. A varanda. Ao menos tens uma varanda. Sim, ao menos tenho uma varanda. Dela aprecio o verde das árvores. Não sei que árvores são, nada entendo do campo, mas estivesse eu noutras condições e desejaria correr entre elas sem receios de ser maltratada. Mas as condições são estas, que eu aceitei, e não quero, não consigo sequer imaginar o meu corpo invadido por mãos que toda aquela verdura esconderia. Ou aquele trecho de rio do qual somente vislumbro uma curva. Quem me reconheceria se nessa curva me achassem enleada em prováveis cobras que – oh horror - me roeriam a pele? Esta minha pele que admiro no espelho, esta pele que todos os homens desejam e as mulheres invejam. Apetece-me despir-me. Ver-me nua e, melhor ainda, saber que alguém me vê. Gosto que me vejam. E me desejem. E comigo fantasiem. A única coisa que os homens levam de mim, a fantasia que lhes concedo. Eles não me merecem. Eles e aquelas mãos peludas e nojentas com nascentes de suor, aquele resfolegar obsceno, eles, por quem me enojo, satisfaçam-se pela vista, que pelo toque do meu corpo nunca. Sim, apetece-me olhar-me nua, apaixonar-me por mim e saber que só eu serei sempre minha, sem os medos que, desde que aqui estou, me invadem. Mas há um caderno à minha espera, o único confessionário que encontrei quando descobri não poder falar com ninguém porque ninguém falava comigo. Aqui, nestas folhas, restará para o futuro esta letra que já foi redondamente bela e agora nada mais mostra que um traçado incoerente de linhas que se embrulham como rolos de arame carregados de farpas. Mas há uma história, a minha, por contar.
Eu tinha, tenho, um problema. Perdoem, mas não vou escrever aqui aquilo de que sofro. Escrever é perpetuar e o meu mal é somente uma falha, um pequeno erro na minha concepção e não gostaria, no futuro, de ser avaliada por ele. Procurei-os por esse mal e por constar serem bons. E caros. Mas dinheiro nunca me faltou, felizmente, e depois de testes invasivos ao meu cérebro, ao meu coração, falaram-me de uma técnica inovadora ainda em desenvolvimento. Acreditei, aceitei. E um dia vi-me entre eles numa noite feita de estradas sem luz com rumo ao que me pareceu o fim do mundo, o final dos tempos. Não percebi, nem me foi explicado, que terras cruzei para aqui chegar. Durante a viagem, os meus haveres a meu lado completaram-se com os seus conselhos. Nunca entabular conversas com o staff da casa que, aliás, era estrangeiro e nada compreendia. Conviver com outros residentes, mas evitar qualquer cumplicidade com  eles de um modo que pudesse ameaçar o projecto e, nunca por nunca, porque essa seria a chave do sucesso, considerar que os outros me eram superiores física ou intelectualmente. E eu sorri. Entendi de imediato que, na sua posição, não quiseram dizer-me que a minha beleza não teria ali adversários e que, apesar dos ciúmes que criaria, deveria aceitar o facto com humildade. E concluíram: se porventura alguma espécie de fiscalização existisse por parte de entidades oficiais, deveria responder ser parte interessada de um projecto inovador na saúde para o qual se tinha ocupado aquela casa. Que não me preocupasse com isso. Eles tratariam depois dos processos burocráticos. Nestes tempos pós-revolucionários todas as ideias vanguardistas eram bem aceites.
Fui literalmente despejada no largo fronteiriço. Estava em boas mãos, disseram antes de fazerem inversão de marcha e partirem. As boas mãos eram as de Ilda que, carrancuda, sem qualquer tipo de cumprimento, deixou que, sozinha, eu carregasse a minha própria bagagem. A noite, fria e ventosa, assombrada por longínquos grunhidos, zumbidos indecifráveis e os assobios dos ramos sobre o silêncio, assustava-me e só descansei quando me vi no quarto cuja porta Ilda abriu, entregando-me a chave. Depois, ainda que apreensiva, num instante adormeci.
No dia seguinte pensei conhecer a casa, deambular por ela e visitar os jardins, evitando, porém, o denso arvoredo que a partir deles de algum modo me assustavam. Fá-lo-ia após o pequeno-almoço. Sem saber ainda que nessa pequena refeição se daria início à minha asfixia, à minha sensação de clausura.
Uns chamar-lhe-iam restaurante, outros, refeitório. Para mim era simplesmente uma cozinha com sala de refeições, daquelas antigas, enormes e frias, onde a mesma mulher que me havia recebido na noite anterior nos despachava – a palavra é essa “despachar” – com leite e pães com manteiga. Pedi um sumo. E aquela maldita mulher correu-me com os olhos o corpo até onde podia vê-lo por detrás do balcão. Interiormente, rejubilei. Era a costumeira inveja a nascer. E a tornar-se ódio no olhar e na voz de quem não esconde os ciúmes. “Vossa Excelência”, respondeu-me ela com desdém, “deve pensar que está num hotel. Ande sente-se e coma o que lhe dão e, se não gostar, corre muita água lá em baixo no rio”. Como devem calcular, desatei a tremer, pensei descer ao nível dela, mas contive-me. Virei-me e sentei-me a uma das quatro mesas para quatro pessoas. Sozinho, numa outra, encontrava-se um homem. Estranho, muito estranho nem para mim olhar, mas, por outro lado, mover o pescoço, o corpo, como fazem certos pássaros em jeitos continuadamente mecanizados, bruscos. Olhava para todo o lado, para a janela, para a porta, para trás de si, como se receasse ser atacado pelas costas. Inventei um sorriso e disse-lhe “bom-dia” ao que ele respondeu com o mugido de uma vaca. Apesar da tensão em que me encontrava, quis mostrar a minha simpatia, causar boa impressão. Da minha mesa para a dele, insisti. “Como se chama?”. E o homem pareceu quase saltar da cadeira antes de, num dos seus repentes, se virar para o balcão e depois olhar o pão à sua frente e, de cabeça baixa, proferir um audível, mas sussurrado “Dinis”. Bom, era um começo. Arrisquei. “Só nós aqui estamos?”. Negou com a cabeça. “Onde andam os outros, então?”. A olhar o tampo da mesa, fez um gesto circular com o braço, “ Por aí”. E, nesse instante, vinda do balcão, ouvimos a voz esganiçada da Ilda, qual peixeira apregoando o produto. Advertiu-nos para a proibição de nos interessarmos pelo que não nos dizia respeito e, de imediato, o homem redobrou os tiques com um claro, mas tímido “Perdoe, Ilda”. Nervosa, comi em silêncio o meu pão a seco por evitar o leite (não gosto). Quando saí da cozinha, deparei com um papel escrito à mão, afixado num pequeno placard, onde uns gatafunhos quase ilegíveis anunciavam o almoço: bife ao grelo. Furiosa, voltei atrás.
— Dona Ilda, desculpe, mas detesto grelos. Qual é o prato alternativo?
A mulher limpava copos com um pano encardido. Atirou-o para a bancada abaixo do balcão e pousou nela as mãos virando o corpo para mim.
— Vossa Excelência deve ter uma mona de galinha. Você acha que isto é o Ritz? Com pratinhos à escolha de Sua Senhoria? E que é isso de grelos? É só nisso que pensa, com esse corpo de… de… ai, cala-te boca!
Penso ter corado dos pés ao cabelo. Mas quem pensava ela que era? Senti-me alterada e, dessa vez, não me contive.
— Mas por que raio me fala assim? Fiz-lhe algum mal? É o que está ali escrito. “Bife ao Grelo”!
— Eu falo-lhe mal porque me apetece e porque Vossa Excelência é estúpida. Se não fosse, saberia ler. Bife ao grego! Bife ao grego!
Virei-lhe as costas e pela primeira vez – quantas mais vezes iria desejar o mesmo – quis ir-me embora dali. Mas tinha acabado de chegar. Nem as instalações ou o jardim conhecia. Dispus-me a sair, mas, à porta, lembrei-me de não ter comigo a minha bolsa, os meus cosméticos. Assim, recuei e subi as escadas. Foi então que as vi. Mulheres de batas negras afadigavam-se em limpezas. Recordei-me das instruções, mas achei-as tão absurdas que me aproximei de uma e perguntei quem geria aquilo, quem lhes pagava. “No te entiendo” disse-me afastando-me com os braços gordos “No podemos hablar, no te entiendo”. Acerquei-me de outra e questionei-a sobre a Ilda e a sua má educação e, no entanto, a resposta foi a mesma, tal como a das seguintes “No podemos hablar, no podemos hablar”. Subitamente, puxam-me por trás os cabelos. Virei-me. E senti nesse instante uma bofetada, leve, mas uma bofetada, que me fez corar e levar a mão à face. Era Ilda. Os olhos raiados de raiva, o rosto transfigurado num horripilante monstro.
— Desce deste piso imediatamente – ordenou-me, fazendo com que lágrimas de vergonha se soltassem de mim.
— Tenho de voltar ao meu quarto. Preciso da minha bolsa.
— Voltas no fim da limpeza. Às 10:30. E ai de ti que volte a encontrar-te a perguntar o que não te diz respeito. Sai. Desce!
Deambulei como sonâmbula pelo jardim. Que era aquilo? Que fazia eu ali? Que tratamento existiria naquele local para o meu problema?
Só pude regressar ao quarto pela hora de almoço. Conhecia apenas um residente. Dinis. Um homem. Tinha de conquistá-lo do único modo que sabia. Vesti a minha mais curta saia e uma blusa cujo decote evidenciava quase indecentemente a beleza dos meus seios. E desci. Sem palavras, recolhi o meu almoço que mal provei, ainda que, ao menos isso, estivesse bem confeccionado. Ostensivamente, sentara-me de frente para o tal Dinis e puxara ainda mais para baixo o decote. Pela primeira vez na minha vida, os olhos do homem, um homem, nem para eles olhou. Porém, num rasgo de tempo em que Ilda saiu da cozinha, levantou-se e veio até mim, fazendo-me crer que, finalmente, me iria deitar um piropo, obsceno, como sempre. Sorri-lhe antes que o dissesse e ajeitei o sutiã através da blusa. Naquela travessia de mesas, o homem parecia louco e tive medo, reconheço, mas quando estava a curta distância, disse e repetiu uma frase que eu nunca esperaria. “Eles querem matar-nos. Eles querem matar-nos” e, de um salto, devolveu-se à sua mesa no preciso instante em que Ilda regressava.
Toda a tarde cismei naquela frase. De frente para a janela, comecei a pensar numa fuga. Que não levei avante pelo já referido no início deste caderno. Um dos muitos que havia empilhados e vazios no corredor e que só hoje me dispus começar a escrever. Mas foi frente à janela que pude ver a entrada de uma pequena camioneta de onde saíram várias pessoas. Os restantes residentes, pensei acertadamente. Vinham como se de uma espécie de excursão, embora calados e com passos robotizados. Situação vulgar em qualquer estância, reconheci. Talvez, afinal, o Dinis fosse maluco e a Ilda tivesse simplesmente mau feitio. E a este pensamento posso agradecer algum do alento recuperado.
Ao jantar, a sala de refeições tinha as cadeiras ocupadas quase na totalidade. Em jeito de “buffet” as pessoas traziam para as mesas a sua refeição cuja ementa eu evitava agora ler. Tratava-se de um prato leve à base de peixe que todos, em silêncio, mastigavam, libertando no ar unicamente o som tilintado de copos e talheres. No fim, todos, de uma vez só, se levantaram. Disposta a assimilar as regras da casa, também eu me levantei, seguindo-os para onde quer que fossem. Desceram então à cave, que eu desconhecia. Despercebidamente, acerquei-me do Dinis que, olhando em frente, respondeu rápido e conciso “Café, baile”. Finalmente alguma diversão, pensei. Mas pensei mal. Ali em baixo, as mesas estavam dispostas de modo a libertarem um recinto de dança. Sentei-me junto de um casal que, percebi posteriormente, eram de facto um casal. Beatriz e Vicente. Ele, altivo, arrogante e prepotente, tratando, perante os outros, a mulher pior que a um cão. E que, por coincidência, verifiquei serem meus vizinhos de quarto. Bebeu-se o café, mas, música, era coisa que não existia. Ouviam-se apenas sussurros, como se num funeral. Eis senão quando Vicente se levanta, Beatriz atrás dele e, na pista, encetam uma dança solitária. Aquilo era ridículo. Uma dança feita de passos medidos ao som do silêncio. Onde estava eu? Seria toda aquela gente um singular grupo de doidos? Nesse caso, que fazia eu ali? Então, quando se sentaram, não resisti.
— Desculpe, como conseguem dançar sem música?
Beatriz – naquele momento ainda não sabia os seus nomes – abriu muito os olhos e olhou o marido. Este, com a sua pose autoritária, respondeu:
— A senhora deve estar muito mal. Muito mal, mesmo. Não ouviu a música?
— Calma, Vicente. Tem calma – disse a mulher, dando-lhe uma palmadinha na mão – Eu explico à senhora. E, virando-se para mim: a senhora deve estar aqui para um tratamento intensivo, certamente. A música está na cabeça do meu marido. Todos a ouvimos quando ele assim o pretende. Depois, basta seguir o ritmo com os passos adequados.
Fiquei sem palavras, totalmente bloqueada por instantes. Quando consegui raciocinar disse à mulher não estar ainda adaptada a nada, visto ter chegado nesse dia. E reparei, ao dizê-lo, que o homem, indiferente ao que pensasse a esposa, não parava de, com alguma sobranceria, me percorrer com os olhos o corpo. Interiormente, sorri. Ele que guardasse a sua música inaudível. Eu faria dele gato-sapato.
Contei já o modo como tratava a mulher, o modo superior com que a todos olhava e falava. Mantenho o que disse. Era assim em público, de facto. Mas nada disso na intimidade. Logo nessa primeira noite, mercê das janelas abertas e de um colar de ouvidos à parede comum, verifiquei que a situação ali se invertia. Era ela quem levantava a voz para ele, acusando-o por certas atitudes do dia e também de coisas antigas. E a potente voz masculina exibida sem cessar perante todos com a complacência da esposa, era ali, entre as quatro paredes do seu quarto, submissa e carregada de lamurientos pedidos de perdão. Pior que isso, ela negava-lhe, com uma constância inusitada, os prazeres do cumprimento conjugal e, que me recorde, só uma vez o autorizou a que os cumprisse. Repito o que já antes aqui escrevi: não quero tornar obscenos os meus textos, mas, em silêncio, encostada à parede, chamei-lhes porcos, depravados, ao perceber que na cama era ela o macho e ele coisa nenhuma. Enojavam-me os grunhidos, os gritos, as ordinarices. Porque uma qualidade guardo em mim. A beleza de uma mulher, a minha beleza, é a arte suprema da criação, ao contrário do sexo, o acto mais vil, desumano e asqueroso pelo qual só merece castigo quem o pratica. E eu sei castigar. Durante o dia de ontem consegui o que há muito venho tentando. Deixar cair no bolso do casaco dele um papel anónimo com um convite para ir para a cama. Se bem os conheço, será ela quem o descobrirá.
Termino, por agora, esta história. Esconderei este caderno a que brevemente voltarei. Mas concluo com duas enigmáticas situações: ontem, preocupada com o que esta situação poderá andar a fazer ao meu corpo, vi-me nua ao espelho. E os meus olhos, já de si belos e persuasivos, brilharam como estrelas ao ver que a beleza, tão minha, dificilmente deixará de o ser. Propositadamente, tinha deixado a porta semi-aberta e, pelo reflexo, vi uma mão a largar a maçaneta. Alguém me tinha estado a espreitar e vocês já sabem como isso me faz feliz.
A segunda é simples de contar. Hoje, notei que algum segredo era passado em surdina por bocas nitidamente preocupadas. Sem fazer qualquer pergunta, consegui perceber. O Dinis desapareceu. Descobriremos nós o que realmente aconteceu? Se no podemos hablar?

                                                                                           João J. A. Madeira