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sábado, 14 de janeiro de 2012

O Fim da Inocência - Parte VI


Depois do que disse ao pai, ficou silenciosa com o rosto colado ao vidro do autocarro pensando em como a sua vida tinha mudado nestes poucos dias. O pai conversava com outros passageiros, contando a sua curta estada no hospital, coisa que nunca lhe tinha acontecido, mas ela nem o ouvia, com os olhos fixos na estrada, não conseguia esquecer o Francisco e o nojo que lhe subia pelo corpo todo até à garganta.

À tardinha chegaram à aldeia e mal se desengalfinharam dos cumprimentos e desejos de melhoras, foram para casa. Estava tudo em ordem, as ovelhas no cercado, com ar de bem comidas, certamente os vizinhos teriam cuidado delas, ou quem sabe o Marco.

Laurinda fez uma sopa com verduras da horta, feijão e algumas carnes que comprou na aldeia, comeram em silêncio e sentaram-se ao lume, cada um fazendo o balanço dos últimos dias. O pai contente por estar de volta ao seu mundo, ela ainda com um gosto amargo na boca, mas com um misto de curiosidade pelo que anteviu do mundo.

Alguns dias depois de ter chegado, Laurinda encontrou Marco nos campos onde apascentava as ovelhas. Cumprimentaram-se timidamente e ela convidou-o a sentar-se, que lhe queria contar uma história. Sentaram-se lado a lado e Laurinda contou sem o olhar, tudo o que lhe tinha acontecido desde que Anísio adoecera na praça.

O rapaz, ficou de cabeça baixa, num longo silêncio. Passado um tempo que a ela pareceu interminável, levantou-se e foi embora sem dizer palavra. Laurinda quando chegou a casa, pediu ao pai o dinheiro que Marco lhe tinha emprestado, foi devolver-lho, agradeceu e nunca mais se falaram.

Duas semanas depois do ocorrido, quando Laurinda estava a estender roupa frente à sua casa, viu aproximar-se um estranho conjunto. Um homem montando um cavalo baio, com uma mula de carga pela rédea e ao lado um enorme cão. Enquanto se aproximavam, Laurinda ficou a olha-los intrigada. Era um quadro inimaginável para ela.

O homem chegou frente a ela, deu as boas tardes e pediu para falar com o dono da casa. Laurinda foi às traseiras da casa chamar o pai, enquanto o estranho sem se apear, esperava. Quando Anísio chegou, o homem apresentou-se:

- O meu nome é Joaquim Carrapato, venho do sul e há dois meses que viajo com os meus animais a conhecer Portugal.

Contou que era pastor de profissão, possuía um rebanho de mais de mil ovelhas e tinha um pequeno pedaço de terra no Alto Alentejo, distrito de Portalegre. Tomava pastagens de aluguer e vivia do que o gado lhe dava. Estava em viagem para conhecer pessoas e lugares diferentes. Costumava acampar onde houvesse água e alguém por perto. Passava uma semana, conhecia as redondezas e voltava a partir. Pediu para montar ali o acampamento.



Anísio gostou do ar sério do viajante, autorizou e pediu que logo que estivesse instalado que se dirigisse a sua casa, para jantar e conversarem. Não era frequente ele ter um parceiro de conversa ao serão.

O estranho esticou uma grande corda a meia altura entre dois carvalhos, estendeu uma enorme lona por cima e amarrou-a ao chão com quatro estacas de madeira. Depois, tirou arreios e carga dos animais e meteu tudo debaixo da lona. Feito isto, tratou deles, dirigiu-se ao poço para se lavar, foi bater à porta.

Laurinda espreitou tudo da janela. Era um homem alto e seco, na casa dos trinta anos, rosto curtido do sol e olhos claros. Reparou que o olhar dele não era saltitante como o dos rapazes da aldeia, nem frio como o do Francisco. Este viajante trazia lonjura no olhar, (mais tarde, veio a saber que na terra dele não havia serras, os homens podiam esticar o olhar até quase ao fim do mundo), daí a amplitude.

Anísio mandou-o entrar e ele fê-lo respeitosamente de chapéu na mão. Pediu que se sentasse à mesa e ficaram a jantar e depois a conversar por largas horas. Falaram da vida, dos usos e costumes das suas terras e o viajante falou dos lugares e pessoas que tinha conhecido. Laurinda, tratou da lida da casa, mas nenhuma palavra lhe escapou.

O homem tinha uma rotina, saía todos os dias antes de nascer o sol com o cavalo e o cão, (que era um rafeiro alentejano muito manso chamado Faísca) e voltava com duas horas de sol. No segundo dia, Laurinda quando estava sozinha, aventurou-se a ir meter o nariz debaixo da lona. A única coisa que lhe chamou a atenção, foi um bloco de notas onde o viu escrever. Tinha impressões dos lugares e das pessoas que tinha conhecido e muita poesia. Copiou esta que lhe chamou a atenção:



Aguarela Rural


                 Bem noite ainda, de um escuro imaculado
                 Vou para os campos de maresias e geadas
                 Ao som de chocalhos e balires por todo o prado
                 Abro o redil, escancaro todas as portadas


                 É um regalo ver as pressas dos carreiros
                 De ovelhas espalhando-se p’la ladeira
                 Procurando landes, sementes dos sobreiros
                 P’ra matar a fome duma noite inteira


                 Acolá a mãe que as recentes crias
                 Amamenta com um olhar de tal amor
                 Mal elas se distanciam em correrias
                 Lança um balido de cuidado e dor


                 Mais ao longe um casal enamorado
                 Investem no futuro do rebanho
                 É a natureza no seu jeito acostumado
                 De cuidar do meu pão e do meu ganho


                 Tanta alegria me dá este labor
                 De mourejar meus dias p’lo montado
                 Que sempre graças dou ao Criador
                 Por me fazer alentejano e guardar gado


                  (Joaquim Carrapato, pastor)



A rotina daqueles dias prosseguiu. Joaquim voltava à tardinha, tratava dos animais, jantava e era convidado por Anísio para conversar. Quando ele ia para a cama recuperar do cansaço, os dois jovens ficavam ainda à conversa. Ele contava-lhe histórias, lia o que escrevia e foi falando de como era a terra dele, a ponto de Laurinda, (que ele tratava por Laura), desejar conhecê-la.

Uma semana depois de chegar, Joaquim bateu à porta pela primeira vez sem ser convidado. Vinha agradecer a hospitalidade e despedir-se, tinha a sua viagem para continuar. Laurinda nessa noite chorou e quando ele de manhã estava para partir, veio despedir-se.

Ele deu-lhe um pequeno bilhete, um beijo no rosto, montou a cavalo e com os claros olhos marejados partiu a galope.

Dizia:


                 Sou um pastor sem rebanho,
                 A que há muito perdi o rasto.
                 Sem o cajado nos braços,
                 Só posso guardar os sonhos,
                 Que há dias trazes grudados,
                 Nas pontas dos teus cabelos.


Vou voltar, espera por mim, Laura.


Joaquim António Godinho / A.Mello-Alter

4 comentários:

Liz disse...

Pois é, Joaquim, não sei porquê tanto receio. Trouxeste um novo amigo à Laurinda e abriste novos caminhos possiveis para o João seguir, ou não, conforme a imaginação lhe ditar. Gostei, parabéns!

Mikashi disse...

Caro Joaquim, adorei a continuação desta nossa história. Está fantástica!!! e ainda por cima misturando poesia...que excelente combinação!!! Cada vez mais orgulhosa de estar no meio de vocês meus amigos!!! :) A nossa Laurinda vai ainda ter muito para viver!!! :)

JoséManuelBarbosa disse...

Amargurado e impreparado para entender a história portuense de Laurinda, Marco desaparecendo abre portas, como quem diz, espaço para que um tal cavaleiro andante, aventureiro das planícies, Carrapato, suba às montanhas do Norte e, surgindo de horizontes nebulosos, envoltos em mistério e poesia deixe uma qualquer marca no coração despedaçado de Laurinda... A ver o que o João Madeira nos traz. Acho fantástica esta achega do Joaquim, inesperada e prometedora.Parabéns!

Dina Rodrigues disse...

Muito bem Joaquim, gostei da continuação, apesar de que a Laurinda ainda não se apercebeu bem do que lhe aconteceu, portanto a inocência dela continua... Um príncipe a cavalo, só falta mesmo o cavalo ser branco.Parabéns!