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sábado, 21 de janeiro de 2012

O Fim da Inocência - Parte VII


“Vou voltar, espera por mim, Laura.”

Não voltou. E, lentamente, a sua imagem do homem seco e de olhar perdido para lá do horizonte se foi diluindo no espírito que há bem pouco carregava de ilusões. Por vezes, no queimar de uma giesta ao acender do borralho, quedava-se absorta deixando que os pensamentos crepitassem mais do que o lume. Enfeitiçara-se por um músico que outras mulheres atrairia com o seu piano. Por causa dele conhecera um homem indigno desse nome e, pelo que com ele acontecera, perdera o que mais mostrara querer-lhe. “Perder”. A palavra sempre presente numa memória em construção. Agora, uma vez mais, alguém lhe fizera uma promessa que também não cumprira. Pelo menos do modo como ela acreditou que cumprisse.

Fora pela hora de almoço, lembrava-se bem. As notícias televisivas focavam o concelho de Portalegre, onde agricultores em alvoroço se revoltavam pelas expropriações forçadas que o governo tencionava levar a cabo. Como habitualmente a reportagem era feita de injúrias, gritos, imagens de raiva sob a voz do jornalista. Nada a que Laurinda não estivesse acostumada à hora da refeição se bem que, por ela, se pudesse baixar o som cujo volume apenas agradava ao pai. Mas, subitamente, no servir do caldo, a concha quedou-se no ar, estática, quase à beira de verter antes do prato. Nas cores garridas do televisor desenhavam-se serenas a figura e a voz de Joaquim. Que os agricultores tinham razão, dizia, e eles e uma comissão por si liderada caminhariam dentro de dois dias até Lisboa e, frente à escadaria da Assembleia, fariam ouvir os seus protestos.

— Parece que este nosso Joaquim pastoreia um pouco mais que o que nos disse – observou o pai, de colher na mão aguardando o repasto.

Sem responder, deixou que o cérebro se alimentasse mais que o estômago. Ele ia estar num avisado sítio de um determinado dia e ela, ela, sabendo onde ele estava, lutando por uma causa que lhe parecia justa, ficava naquele esquecimento de mundo, engomando, alimentando galinhas, coelhos e um pai que parecia rejuvenescer. Nunca estivera em Lisboa, não sabia como era uma manifestação, não sabia nada, nada para além dos enganos de que fora vítima. E a vida teria de ter muito mais que enganos. Pesados para quem os vivia, mas insignificantes à luz da própria vida.

Não conseguira adormecer nessa noite. Os sonhos submetiam-se aos pensamentos. E só quando teve a certeza da decisão tomada, conseguiu que o sono se lhe aliasse. No dia seguinte perguntaria ao pai se se sentia bem e comunicar-lhe-ia a sua ausência por uns dias.


E agora ali estava. Chegara com o famoso sol da cidade. As ruas brilhavam aos seus raios e pareciam reflectir-se nos prédios modestos que ladeavam a estação. Num repente, sentiu-se tonta. Tudo corria. Automóveis, pessoas, numa azáfama a que nunca tinha assistido. Quando deu por si também as suas pernas eram ligeiras, absurdamente ligeiras por nem sequer saber para onde ir. Mas perguntou e a gente, mesmo sem parar, indicava-lhe o caminho para a Assembleia. Por vezes não entendia sem saber que não entendia ela, se a mesma língua dita de modo diferente, se a própria indicação. Mas continuou a perguntar, e as pernas a andar e o sentido era só um. Quando lá chegasse teria alguém que a conheceria.

Quando lá chegou, soube que chegara pelo descobrir de pessoas do campo. Faziam daquilo uma festa de risos, de falados altos, de jocosas alusões ao garrafão que alguns transportavam. Até que, subitamente, no dobrar de uma esquina, os seus olhos se abriram perante o magote de gente que, já sem brincar, se enfurecia berrando e empunhando cartazes aos leões e à escadaria que aquele sumptuoso edifício defendiam. Quando deu por isso, estava no meio da multidão que vociferava, que se impunha agressiva e que a empurravam para a frente, sempre para a frente sem já sentir se havia chão sob os seus pés. E, à frente, um cordão de polícias, imponentes, estáticos, protegidos por viseiras e transparentes escudos. E pela primeira vez, sentiu que o medo se misturava com a raiva que, vinda da multidão, se lhe apegava. Reparando que ao seu lado, face a face com a força policial, um velho com a idade do seu pai quase desmembrava os ossos que lhe suportavam os berros e os gestos, ao ouvir o que lhe dizia o polícia “sai daqui, velho. O partido não merece que te mates por ele”. Ao que o velho, com insuspeitadas forças, retorquiu estendendo as mãos:

— Eu não tenho partido. Se ele existe está nestas mãos calejadas da terra que agora me querem tirar. Mas que me dão força para lutar contra quem não me merece.

E, dizendo isto, avançou dois passos, ao que o polícia se opôs empurrando e derrubando-o.

Laurinda não se conteve. Fosse pela visão do pai, pela raiva acumulada, sentiu que uma revolta se apoderava do seu peito e lhe morria na garganta muda. Impulsivamente se debruçou e agarrou uma das pedras do passeio que arremessou na direcção do polícia como se às cabras o fizesse.

Depois, o caos. Os gritos da multidão, os polícias que se abateram sobre si e o murro que ainda sentiu nos lábios. Antes de conseguir fugir, antes de conseguir correr por entre aquela gente que estranhamente lhe abria alas. Não olhou nunca para trás. O objectivo, apenas um: conseguir sair dali.


Subitamente, um carro se lhe atravessou e de dentro uma voz feminina lhe gritou “entra”. E, quando obedeceu, sentiu que o carro acabava de levantar voo. Viu que umas mãos magras se grudavam ao volante mas apenas se preocupou com o líquido quente e viscoso que lhe escorria dos lábios. “Acho que tenho sangue”, disse.

— Tens. Já tratamos disso. Só não conseguiremos tratar das imagens que de ti passarem na televisão – riu alto – A atingir os guardas.

— Quem és? Porque me recolheste? – perguntou Laurinda, perplexa.

— Gabriela. Gaby para os amigos. E recolhi-te porque me chamaste a atenção e porque a tua coragem o merecia. Logo que possa, paramos o carro para tratar essa ferida.

Fizeram-no quando a noite caía. Gabriela pegou num lenço e acercou-se dela. Rosto perto de rosto, lenço embebendo fio de sangue. E lábios que, doces, tocaram lábios. Laurinda retraiu-se. Mas a calma que o corpo recuperava parecia aceitar o que de inédito lhe acontecia. Apenas tremia. “Calma, descontrai-te. Não sei o teu nome. Não quero saber. Quero só que te acalmes porque agora tudo passou”, ouviu sussurrar enquanto umas mãos experientes e sensuais exploravam os seus sentidos adormecidos e, sem pudor, libertos àquele corpo que o seu parecia devorar meigamente. Com suaves beijos, com as mãos femininas sabendo onde lhe tocar por ser mulher também. Confusa, cansada de tudo ou de tudo leve, entregou-se às carícias que não lhe eram indiferentes, que a faziam voar para culpas que agora não queria assumir. Sabia apenas que a ferida tinha sido um pretexto e não imaginava quantas feridas a cura lhe poderia abrir. Sem decisão prévia, permitiu que o seu corpo deixasse de lhe pertencer. No fim, Gabriela afastou-se, o peito denunciando o regresso à respiração normal, e sorrindo. “Sabia que ia gostar de ti. Agora vai. Talvez um dia nos voltemos a encontrar, quem sabe?! Por agora tenta passar despercebida. Não te quero saber numa esquadra. Adeus, amor”

Era um jardim desconhecido, numa cidade onde nunca estivera, numa noite que não era sua. Escura mas amena. Andou alguns passos, sentou-se num banco. E se a viam na televisão? Marco, Joaquim…o pai? Quem era ela que em pouco tempo se conhecia? Que lhe tinham feito? Que deixara que lhe tivessem feito agora? Sentia culpa, sentia um peso no peito que só as lágrimas fizeram soltar. E adormeceu.

Quando acordou, o sol espreguiçava-se atrás de si, bocejando. E cada bocejo iluminava aquele rio que lentamente à sua frente corria. E aquela estátua grande que, do lado de lá, parecia abrir-lhe os braços. Mentalmente, falou-lhe: “quem sou eu? Que está a acontecer-me? Devo acreditar em Ti para que me ajudes?”

Estranhamente, pareceu-lhe que a resposta brotou de dentro de si mesma “Acredita em mim sempre que eu te diga, como agora, que é em ti que tens de acreditar primeiro”.

João J. A. Madeira

7 comentários:

A.Mello-Alter disse...

Muito bonito, João Madeira.
E obrigado por ter dado fim (ou não) ao Joaquim Carrapato.
E ele de verdade é um desalinhado de esquerda, um homem de lutas.

Dina Rodrigues disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Dina Rodrigues disse...

Ai a Laurinda... tantas coisas novas a acontecer na vida dela, mas confesso que este novo encontro me surpreendeu. Gostei muito deste capítulo e ainda gostei mais que ela tivesse vindo para Lisboa. Aqui ela vai se feliz!Já começou... Parabéns João!

Dina

Planeta M (Marlene) disse...

A cada passo dado cada vez mais empolgante. Muito bem João!

Liz disse...

Se gostei? Gostei e muito! Com a qualidade a que já nos habituaste, muito bem escrito e com um desenrolar da história que eu também lhe teria dado. Este lado sensual da Laurinda pode ainda dar pano para mangas. Parabéns, João!

JoséManuelBarbosa disse...

Pois bem, meus amigos, antes de mais espero que o João continue a dormir sossegado, pois, a contra-gosto da nossa Dina (!), a Laurinda está a sair-me bem melhor do que a encomenda.

Brilhantismo na escrita e ousadia q. b. fazem dela uma autêntica mulher, pronta a conhecer mundo, ávida de novas experiências.

Talvez, afinal, em busca de si-própria. Confesso que não vejo nem leio ponta que possa ferir, eventualmente, qualquer sensibilidade.

É uma mulher pronta para o mundo...
Parabéns. João!

Clementina disse...

Parabens João
está cá uma aventureira a nossa Laurinda