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sábado, 10 de março de 2012

O Fim da Inocência - Parte XIV


O Pedro era a paz e o tormento. A ida e o regresso. A casa e o Mundo. O refúgio.

Aninhou-se na carícia dum beijo prolongado e deixou-se desfalecer no cansaço da viagem e na companhia aconchegante daquele abraço apaixonado respirando tranquilo humedecendo-lhe o ombro.

Ao longe, cada vez mais longe, o restolho da feira que se desmontava.

- Ó Laurinda!... Laurinda… Ó Laurinda!...

O pai chamava-a já impaciente estranhando a sua ausência na cozinha nos preparativos da manhã, mas ela não ouvia, e se ouvia esquivava-se, pois o que entendia do chamo era – Ó Laura!... Laura… Ó Laura…

- Diga meu pai, que me quer vossemecê?

- Então filha…ajudas-me a levantar? Onde estavas?

- Ó meu pai…estava para ali a ver por onde começar os arranjos do quintal.

- Tudo vai bem filha. Eu é que nunca mais tomo andadura…

A recuperação que se previa rápida demorava-se, o frio que chegava não ajudava ao passeio diário recomendado pelo dr. Falcão, cada vez mais o pai se sentava na soleira da porta mirando o Sol da manhã e dali não saia até ao almoço. Depois ficava dentro, junto à lareira, segurando o queixo no cajado já sem serventia, por vezes cabeceando razões e memórias até que a filha o chamava para o jantar que ele nem tinha dado conta se preparara.

Laurinda, sem saber porquê, estranhava o tacto ao pousar-lhe a mão no ombro, como se, como se ninguém ali estivesse, nem mesmo ela, embora tudo lhe fosse tão real.

- Vamos à janta meu pai?

- Tu pensas que eu ando para aqui a dormitar mas bem vejo.

- Bem vê o quê, meu pai?

- Bem vejo que não andas bem.

- Ó lá está vossemecê…

- Quando viemos do Porto tu não trazias os olhos neste Mundo, nunca me disseste porque ia a tua vida mudar. Coisa grave te mexia a mioleira Depois veio esse Carrapato, parecias arredia mas estavas sempre de orelha no ar, agora foi-se o tipo, e tens as duas orelhas caídas rapariga. Que te posso fazer que ajude?

Tudo lhe parecia um limbo, tudo distante, tudo mole e ondulante, até a voz do pai não era a mesma.

- Ó ti Anísio!... Ti Anísio…

- Abre a porta Laurinda que é o Marco.

- Boas tardes. Olá Laurinda. Então ti Anísio? vossemecê está mais enfiadote hoje, que se passa homem?

- Ó rapaz, estar aqui dentro, sempre metido comigo, sem poder sair… como vão as ovelhas?

- Na corte. Tudo arranjado como Deus manda e vossemecê gosta.

- Deus te pague rapaz, Deus te pague que eu não sei se vou poder…

- Vou-me; até amanhã!


- Porque não ceias cá rapaz?

O olhar do Marco rabejou com o da Laurinda, ela corou, ele pegou no boné e…

- Não, ti Anísio, obrigado, mas tenho combinado ir às corujas com a rapaziada. Até amanhã.

- Vai com Deus rapaz.

A Laurinda entretida com as panelas disfarçou ver a saída do Marco para não ter que lhe falar, ele agradeceu pois não sabia que lhe dizer.

- Está ali um bom rapaz filha. Nunca te tinha falado nisto, mas já estás moça e tens que pensar em alguma coisa…

- Ó pai; vossemecê hoje não está no seu juízo… Quer ajuda para a deita?

- Não filha; cá me arranjo. Mas pensa no que te disse. Sabes quanto te quero bem.



O Sol lambia a crista da montanha quando saiu do quarto. Sentou-se.

Sentou-se exausta dum dia que ainda nem acabara. O cansaço de tantas novidades, tinham-na extenuado.

Sorumbava naquele fim de tarde como nunca lhe tinha acontecido; estonteava de tanta incerteza.
Sentia-se encurralada perante a maldade do Francisco, a novidade do Miguel, a amizade do Marco e a doença do pai.

A espera que lhe pedia o Joaquim era uma incerteza; já não confiava em ninguém.

Deixou-se amodorrar pasmando no horizonte enquanto o Sol descia, não era bem desânimo, era mais um, não sei que faça. A pedra que lhe servia de banco, uma meia mó sua confidente de infância, boa ouvidora de outros queixumes, via-a agora como só metade, nunca lhe tinha parecido que aquela pedra era só, meia pedra; faltava-lhe a outra metade, estava incompleta. Tal qual ela.

Mas voltava-lhe a estranheza, agora uma inquietação que lhe subia das entranhas ao pescoço,

- Ó Laurinda!... Laurinda… Ó Laurinda!...

Um desconforto, uma angústia, e não reconhecia a voz do pai,

- Laurinda!... Laurinda!... que se passa contigo meu amor?

Como que um sair dum poço onde se diluíra no breu.

- Pronto Laurinda, pronto, foi um pesadelo, o cansaço da viagem. Estou aqui, podes contar comigo.

Ainda estonteada Laurinda agarra-se ao Pedro como quem se prende a uma certeza.


- Se soubesses, Pedro, a angústia que trago emaranhada no coração, o que vivi em tão pouco tempo, o que sofri em catadupa, as incertezas que trago em mim. Deixei tudo para trás embora não tenha nada. Que farei daqui para a frente se não tenho futuro? Que loucura errante é esta que me trouxe até aqui? Quem és tu? Quem sou eu?

José Bessa

4 comentários:

A.Mello-Alter disse...

Obrigado por ter ressuscitado o Carrapato.

Dina Rodrigues disse...

A consciência da Laurinda começa a sentir-se agitada com as saudades de algumas pessoas do seu passado e com as incertezas do futuro.
Gostei bastante, José Bessa!

JoséManuelBarbosa disse...

Com tantos avanços e recuos — é a vida! — que até estou meio perdido, não é só a Laurinda:)

Excelente texto, gostei de toda a trama de uma mistura deliciosas entre vários estados mentais da nossa protagonista. A vêr o que se vai seguir pois já nada aposto no futuro dessa rapariga... sabe-se lá em que novas aventuras se irá meter...

Parabéns, José Bessa!!!

Clementina disse...

Que é que está atormentar Laurinda?
O passado, a vidinha calma e sossegada na aldeia, ou esta nova vida de saltimbanco e cheia de peripecias.
Gostei José Bessa
Parabens