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domingo, 30 de setembro de 2012

Os Segredos de Sobreiro Aparado - Capítulo 20 - Final

Mortes, mortes e mais mortes. O ar, em Sobreiro Aparado, estava saturado de um cheiro a morte que se espalhava lentamente e entrava pelas frestas das janelas mal calafetadas. Os sinos não pareciam ter sossego de há uns tempos para cá. Cumpriam a sua função nefasta de avisar que mais uma alma se tinha finado. E lá tocavam eles hoje, por Leocádio, que não tinha conseguido ao longo da sua curta vida, ser alguma vez chamado de Anabela.
 
 
Poucos apareceram no funeral de Leocádio. Tinha sido sempre uma pessoa estranha para a maior parte das gentes de Sobreiro, que não compreendiam muito bem a dualidade que habitava naquela alma condenada por uma herança familiar. O novo padre executou os rituais fúnebres com alguma celeridade. Estava a começar a sentir-se inquieto com o ambiente em Sobreiro. Tinha sido mandado para aquela terra, despachado da sua cidade do coração, Lisboa, onde tinha encontrado a sua fé. No meio daquele lugar, o padre começava a duvidar que a fé e a luz se encontrassem por ali.
 
Ti Manel olhava de longe o funeral – Raios, o rapaz até nem era má rés, só meio maluco. Não merecia uma morte assim. E enganado por aquela história inventada do tesouro, tinha vivido uma vida de ilusão. Estava era na hora de partir para outras bandas, antes que tivesse o mesmo destino que o Leocádio e que aquele espanhol que agora tinha aparecido esventrado nas ruas de Sobreiro. Olhou para um lado e para o outro e deu meia volta, indo em direção à saída daquela terra maldita. Não queria saber mais do Dr. Morais, de mais regalias em troca do tráfico de droga e claro do contrabando que era enterrado ali mesmo à beirinha de Sobreiro. Porque o tesouro de que tanto falavam não era mais que contrabando que ia e vinha nas noites escuras. Aquele Sobreiro Aparado era o sinal entre os contrabandistas. E Leocádio apenas um sujeito inocente deslumbrado por uma treta de história de tesouro. Tinha sido usado pela família para continuar a tradição de contrabandistas que perdurava na família. E aproveitando o contrabando, tinha começado a nascer também o negócio da droga, que tinha resultado em mais mortandade. E que parecia resultar numa maldição para todos os envolvidos.
 
De um minuto para o outro, a sombra do Ti Manel deixou de ser vista no horizonte e nunca mais ouviram falar desta personagem, que ficou esquecida nos livros de história da terra.
 
-Seguro, Segurinho, vamos embora daqui – suplicava ardilosa Albertina, a mulher demónio desta história. Vamos viver juntos bem longe daqui, viver do desejo que os une. Aqueço-te as noites e alimento os teus dias de comida e de mim.
 
- Cala-te mulher. Mais uma vez deixei-me levar por uma mulher, ferramenta do Diabo. Se estraguei uma vez a minha vida, não vou estragar uma segunda! – e dito isto Seguro saiu porta fora, decidido a mudar o rumo desta história. Continuava confuso, sem perceber muito bem onde estava a ponta do novelo que ia desenrolar esta história toda mas que não ia acabar expulso da PJ não ia. Tinha de conseguir que Morgado confiasse nele e que terminassem juntos aquele caso maldito.
 
Morgado ouviu uma pancada forte na porta do seu quarto naquela pensão mal-amanhada que lhe tinham arranjado. Suspirou e pousou a caneca onde bebia o café morno e queimado que lhe tinham dado ao balcão daquela tasca enterrada bem no meio da terra.
 
- Entre! – gritou mal humorado. Tinha estado a noite toda a dar voltas à cabeça a tentar deslindar aqueles mistérios que se enredavam uns nos outros. Já tinha algumas teorias e umas quantas certezas.
 
- Que é que queres? Não me venhas com tretas que não estou com disposição para te aturar. Sabes perfeitamente que vais ser no mínimo suspenso quando chegares à sede. – e dito isto, Morgado olhou com desprezo para Seguro.
 
- Quero ajudá-lo a terminar esta história de forma limpa. Até posso sair da PJ depois disto mas quero terminar esta história de forma correta – Seguro olhou com atitude os olhos de Morgado, que compreendeu que ali até podia ter uma ajuda suplementar para terminar aquela história maldita. Não era a melhor ajuda que desejara mas à falta de melhor, servia. E podia ser um trunfo importante para apanhar a víbora da Albertina.
 
- Senta-te! E ouve-me. Se queres mesmo sair desta história o mais limpo possível, ouve com atenção e não faças perguntas, ok! – afirmou categoricamente Morgado.
 
Seguro saiu do quarto de Morgado meio tonto com tanta coisa que este lhe tinha contado mas decidido a cumprir a sua função. Era um bom polícia, sabia que era, só precisava da oportunidade certa. Morgado telefonou ao colega da polícia espanhola com quem tinha falado de manhã por causa do individuo espanhol que tinha aparecido morto e que pelos vistos também era porcurado por tráfico de droga e pediu para ele ir até aquela localidade o mais depressa possível. Precisava de todos os reforços possíveis. Tinha de atacar em três frentes – apanhar o padre Joaquim juntamente com a amante Albertina, prender as irmãs por envolvimento em contrabando e morte de Octávio e acima de tudo, apanhar o Dr. Morais. Se Seguro se portasse bem, ia ser fácil apanhar os dois primeiros. O Dr. Morais já tinha provas suficientes, das folhas do caderno do Ti Manel (que por sinal, nunca mais ninguém o vira, mas também era a personagem menos importante daquela geometria de crimes, era apenas um homem de recados). Ti Manel, embora fugitivo, já tinha cumprido a sua redenção ao deixar para trás o caderno onde guardava a troca de mensagens, cartas e esquemas encomendados pelo Dr. Morais e da sua ligação com os traficantes espanhóis com nomes e tudo. Com a ajuda do colega espanhol, seria bem fácil apanhar o Dr. Morais.
 
As únicas peças que continuavam a revelar-se complicadas de resolver eram aquelas duas almas. Velhas astutas, tinham um esquema perfeito de contrabando que durava há décadas, com a cumplicidade da família de Leocádio.
 
Seguro cumpriu direitinho a sua função. Depois de ter saciado Albertina uma vez mais, fazendo-a percorrer os seus lençóis com gritos de um prazer que lhe percorria as entranhas, passou-lhe ao de leve as mãos pelas costas, e aproveitando o estado de torpor provocado pelo êxtase, começou a puxar por ela.
 
- Vamo-nos daqui, mulher minha. Não vou conseguir voltar para a polícia e não. Vamo-nos perder por este mundo fora. Dou-te todo o prazer que desejes e dou-te uma vida de princesa. Tenho um dinheiro amealhado que ganhei dos meus avós e mais algum dinheiro que ganhei por uns serviços extra e posso manter-te por muitos bons e anos. Esquece o padre Joaquim e o dinheiro da droga. Tens –me a mim, que mais queres? – sussurrou Seguro no ouvido de Albertina.
 
E Albertina, que por mais esperta que fosse, tinha no sexo o seu ponto fraco, riu-se desdenhosamente e no meio da gargalhada disse em alto e bom som: Ahahah, meu querido, nunca me poderás dar tanto dinheiro nem prazer como meu padre Joaquim!
 
Dito isto, ela só viu três polícias a entrarem pelo quarto dentro, a afastarem Seguro para o lado e a agarrarem os seus braços com força, arrastando-a nua para o chão do quarto onde foi algemada e levada para a carrinha da polícia, apenas coberta com o roupão já velho de Seguro.
 
O padre Joaquim foi preso na fronteira entre França e Espanha onde tinha procurado abrigo num mosteiro, depois de ter morto Leocádio, por este ter ouvido demais na sacristia…… Disse duas ou três blasfémias e foi levado para os calabouços da PJ, donde só saiu diretamente para a prisão, por umas boas décadas. Foi Seguro que o meteu na carrinha e olhou-o com ar triunfante. - Apanhei-te, oh grande escumalha!
 
Seguro continuou na PJ, tendo sofrido mais uma repreensão na folha de serviço. Mas a paz para aquela alma durou pouco. Apaixonou-se por uma prostituta e foi morto pelo chulo dessa mulher de má vida. E assim, o destino não teve compaixão pelo desejo animal que incendiava Seguro por mulheres perdidas.
 
O Dr. Morais foi preso na sua casa de férias no Sul de Espanha. Os cadernos de Ti Manel e a investigação cuidadosa de Morgado tinham fornecido provas suficientes para afastar aquele homem e parar com um dos braços da corrupção que se instalara em diversos sectores.
 
Mas Morgado ainda tinha uma missão, prender aquelas duas irmãs sinistras. E acabar com a tradição de contrabando que reinava em Sobreiro.
 
Dirigiu-se à mercearia num fim de tarde e só se voltou a saber de Morgado quando este foi encontrado a balouçar num dos ramos que Leocádio não tinha aparado convenientemente.
 
 
Reza a história atual que sempre que os ramos do Sobreiro crescem demais, alguém morre. Ninguém tem coragem de se aproximar daquela árvore maldita mas o certo é que a árvore continua a ser aparada, em noites em que se vê uma alma de mulher em corpo de homem a rondar a árvore. O contrabando continua a trilhar aqueles caminhos e as duas irmãs continuam a beber as suas garrafinhas, rindo de todos aqueles que tentam meter-se nos seus caminhos. E volta meia volta, lá tem o padre de rezar mais uma missa fúnebre. O único consolo deste padre é o licor que lhe vai aquecendo as noites frias daquela terra esquecida por Deus.
 
Carolina Lemos

5 comentários:

Clementina Barros disse...

Um final, muito bem escrito, que desde logo nos prende. Um final, bem engendrado,em que alguns maus da fita, têm a justiça que merecem, outros, bem outros,continuam sempre na berlinda, tal qual, na vida real.
Gostei muito
Parabéns Carolina

Paulo Melo Lopes disse...

Ninguém diria que Sobreiro Aparado tivesse tantos segredos. Excelente final.

Bia Didi disse...

Este fim tem implicito a aplicação de justiça que sempre se quer, uma justiça na verdadeira acepção da palavra, que paguem todos pelo que fizeram...Aqui a justiça funcionou porque quem deu vida ao final foste tu Carolina... fossem outros " escritores", noutros campos, noutras batalhas e a malta ter-se-ía pirado... Tenho que voltar aqui para ler tudo com calma, porque perdi um ou outro capitulo e agora acabadinho gosto mais porque leio tudo de carreirinha!!!

Luisa Vaz Tavares disse...

Gostei deste final. Os maus (alguns) foram devidamente penalizados e o sobreiro, que no fundo não tinha culpa nenhuma, lá ficou, assim, assim. Tal como na vida, sempre há aqueles que vão ficando assim assim. Parabéns, Carol!
Esperamos pelos novos ventos, instigados pela Estela.

Dina Rodrigues disse...

Esta história,(que eu também ajudei a escreve) não é o meu género de leitura, mas teve um bom final. Morrem quase todos, mas o sobreiro consegue escapar!...