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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Madalena dos Olhos Cor de Algas - Capítulo 11


- Tira-me daqui Madalena. Preciso de sair daqui!

- O que é que te deu agora? Da última vez que te dignaste falar comigo estavas aí como se estivesses num resort nas Bahamas.

Eram sempre assim, as conversas entre os dois meios-irmãos Eduardo e Madalena. Uma espécie de amor\ódio que os impedia de ter um relacionamento pacífico e ao mesmo tempo os aproximava mutuamente. No início, quando se conheceram, até tinha crescido uma verdadeira amizade de irmãos mas depois tudo se desmoronou.

Quando, no seu leito de morte, o pai a mandara chamar, Madalena chegou a pensar numa possível fortuna secreta que a ascenderia ao topo da escalada social onde trepava os primeiros degraus, mas não, o pai queria apenas expiar os pecados. Como uma redenção visando um lugar no céu, talvez. Assim, à queima-roupa, tinha lançado a bomba ali mesmo na enfermaria do hospital. A traição e a consequente existência daquele meio-irmão, três anos mais novo. << a tua mãe preferiu ficar em áfrica, para se curar da doença, e um homem sente-se sozinho, sabes como é filha… >> Não, não sabia! Era uma justificação tão torpe como todas as outras que já se tinha habituado a ouvir de todos os homens. Afinal o pai tinha feito o mesmo que os outros. O mundo era, todo ele, uma teia de mentiras e traições.

Mas Eduardo parecia diferente. Foi diferente. Foi um estranha-se depois entranha-se. Eduardo começou a admirar a irmã sofisticada e determinada que lhe tinha calhado em sorte e Madalena também passou a gostar cada vez mais daquele rapaz inteligente e altruísta, recém-licenciado, que se preparava para a sua primeira missão em áfrica. Conheceram-se devagar, durante os períodos em que Eduardo permanecia em Portugal e dava aulas de latim na faculdade de letras da universidade de Coimbra. Madalena pensou ter encontrado uma alma gémea, alguém que a apoiava e a quem se podia mostrar sem artefactos. Até que Eduardo começou a censurar o seu estilo de vida, e depois, depois tudo se desmoronou quando ele regressou da sua última missão, absolutamente enlouquecido.

Ainda assim, é Madalena que é chamada de cada vez que Eduardo tem mais um surto psicótico e é internado no psiquiátrico. Como única parente conhecida.

Aguardava-a, impaciente, sentado na pontinha da cama branca do quarto imaculadamente branco. Depois da conversa com Madalena, Eduardo tinha-se barbeado e vestido com a melhor roupa do seu espólio, tinha feito a mala e esperava pelo toque na porta que o devolveria à liberdade. Madalena não o tinha dito mas era sempre assim, ela vinha sempre. Quase se sobressaltou quando a enfermeira o interpelou pronunciando o seu nome com voz clara.

- Sim, senhora enfermeira.

- A sua irmã veio buscá-lo, Dr. Eduardo.

- Agora vê se tomas a medicação que eu tenho mais que fazer do que andar a viajar do Porto até aqui para assinar termos de responsabilidade. – Madalena seguia a enfermeira e como que cumprindo um ritual a que já estava habituada, pegou na mala que entregou a Eduardo indiciando que não tinha tempo a perder.

 
Lado a lado, os dois percorreram o corredor sem que algum pronunciasse uma só palavra. Estavam absortos em pensamentos dos passos que iriam dar a seguir. Eduardo ansiava embrenhar-se nas ruas históricas da sua velha cidade. Se Madalena lhe perguntasse onde ia ou porque ia de certeza não lhe saberia responder, era um apelo inexplicável pelos cheiros, pelas cores, pelos sons, da cidade que era a sua casa. E Madalena desejosa de voltar ao seu Porto de abrigo. Despediram-se com um beijo rápido.

Madalena entra no carro, mira-se no espelho retrovisor e, antes de dar à chave para arrancar, liga o telemóvel que tinha desligado antes da conversa com a enfermeira. Tinha duas chamadas não atendidas e um SMS, de Alexandre. << Onde andas? Preciso ver-te, estou em tua casa >>. Já nem se lembrava que lhe tinha dado uma chave, era a primeira vez que ele a utilizava, e naquele momento sentiu-se invadida no seu espaço interior, como se todo o seu Eu, tivesse sido devassado durante a vida inteira. << Estou em Coimbra, volto amanhã >>, uma resposta quase instintiva com sabor a liberdade. Nem que fosse apenas por uma noite, ia ser ela. Sem os esquemas, sem as desconfianças, sem os subterfúgios de uma vida semi-oculta. Eduardo teria de lhe dar guarida no seu velho apartamento.

Na entrada sul, Eva chegava à sua Atenas portuguesa. Tinha partido sem planear nenhum rumo. A ida para Troia tinha sido um erro. As inquietações tinham viajado com ela, as dúvidas, as incertezas, os sentimentos, tinham ido na sua bagagem. Por isso, tinha fechado a conta no hotel e tinha iniciado o caminho de volta para casa. Sem saber ainda o que fazer, ia ao sabor de cada momento, pernoitando pelo caminho se lhe apetecesse. E ao vislumbrar Coimbra apeteceu-lhe. Coimbra era, para ela, uma cidade de encantos. Primeiro, tinham sido os quatro anos de uma vida académica intensa enquanto frequentava a faculdade de direito e depois os meses tórridos de paixão com Eduardo.

Eduardo tinha sido o seu caso extra-conjugal. Numa das noites em que Alexandre saíra para mais uma das prolongadas reuniões do partido, Eva, enraivecida, entrou num desses chats da internet que vendem sedução ao desbarato e Eduardo foi a surpresa. Uma conversa interessante e inteligente foi apenas o primeiro passo de uma cumplicidade sem limites e sem tempo. Das conversas íntimas pela noite dentro até aos passeios românticos na quinta das lágrimas foi um instante. As cenas de sexo desenfreado testemunhadas pelas pedras rubras da fonte dos amores, as tentativas vãs de disfarce perante os transeuntes, as fantasias onde o limite era a dor, foram uma espiral de emoções que deixou como marca a confiança de uma intimidade, gravada na sala dos poetas do penedo da saudade.

Antes da partida de Eduardo para mais uma missão, despediam-se, sob a melancolia do sol mortazino de um final de tarde, quando Eva se lembrou de gravar aquelas últimas palavras.

 
“Apenas um instante, é o que nos separa”

Eduardo voltou-se devagar. Girando sobre o seu próprio corpo, encarou Eva…

-… um instante que já passou.

Luísa Vaz Tavares

3 comentários:

Carolina disse...

Simplesmente magnifico! Brilhante a conjugação das personagens, o ritmo da história, o enredo... Fantástico fantástico mesmo!!! :) Linda Luisa :)

JoséManuelBarbosa disse...

A vida num instante e, num instante, tudo pode mudar...

O que se esconde por trás de cada rosto, com que máscaras nos artilhamos?

Quem somos, verdadeiramente, por baixo dos artefactos, que vidas escondemos?

Porque complicamos o que, tantas vezes, é tão simples e, outras tantas, enredamo-nos em simplificações traiçoeiras?

Quem somos, cada um de nós, afinal?
Nem preto nem branco...

Adorei o teu texto, Luísa!

Clementina Barros disse...

Acho que gosto deste Eduardo. Porquê? o desenrolar da história nos dirá.....Parabéns Luisa adorei
Parabéns pelas fotos.