Nesta página partilha-se o gosto pela escrita. Escrevemos contos e damos largas à imaginação. Quem quiser participar basta expressar essa vontade aqui, em forma de comentário, e receberá todas as informações que necessitar.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Cidade das Dunas - Capítulo I


Apartamento 501 do Potengi Flat. Vasco olhou pela enésima vez para o relógio, pousado em cima da mesa de cabeceira. Passavam poucos minutos das três da manhã. Deitada a seu lado, Patrícia dormia profundamente, ocultando o seu corpo nu com o lençol. Os longos cabelos negros espalhavam-se na almofada formando uma bizarra figura de aspecto quase geométrico. O silêncio do quarto era apenas interrompido pelo suave zumbido do ar condicionado. Vingança era a única coisa que ecoava, de forma ruidosa, na mente de Vasco.

 
Incapaz de adormecer, levantou-se vagarosamente para não fazer barulho e aproximou-se da janela do quarto. Uma forte luz de néon, anunciando uma tal Drogaria Globo no piso térreo do hotel, feriu-lhe a visão habituada à penumbra do aposento. A cidade estava deserta àquela hora, como que esmagada pelo forte calor que ainda se fazia sentir mesmo de madrugada. Apenas as luzes intermitentes dos semáforos conferiam um toque de vitalidade ao cenário desolador. Na linha do horizonte, ele conseguiu avistar os cumes das enormes dunas que cercavam a área urbana. Aquelas enormes massas de areia ficavam prateadas sob a luz do luar e transmitiam uma estranha sensação de claustrofobia. Podia-se facilmente imaginar que as dunas poderiam engolir a cidade e todos os seus habitantes a qualquer momento. Vasco pegou no maço de tabaco, acendeu um cigarro e aspirou profundamente. Tentou ordenar, mentalmente, a sequência de acontecimentos dos últimos dias.

Duarte, o seu irmão mais novo, residente no Brasil há quatro anos, tinha desaparecido em circunstâncias misteriosas. O seu jipe foi encontrado abandonado, nas imediações do forte dos Reis Magos. Um mês e meio de investigação policial não resultou em nenhuma solução para o caso e as autoridades diplomáticas tinham sido inoperantes até à data. Não tinha sido encontrado nenhum corpo nem havia registo de pedido de resgate.Três semanas após o desaparecimento do irmão, Vasco solicitou uma licença sem vencimento no trabalho, abandonou a pacatez da sua casa em Colares e viajou rumo a Natal, com a esperança de rastrear o paradeiro de Duarte e acalmar a angústia de toda a sua família. Rapidamente Vasco apercebeu-se que tinha mergulhado num labirinto, com imensas bifurcações que não conduziam a lado nenhum. As forças policiais não pareciam muito empenhadas na investigação. Para eles, tornava-se evidente que o desaparecimento do português estava relacionado com os habituais casos de estrangeiros residentes, que muitas vezes se viam envolvidos em problemas relacionados com drogas, turismo sexual ou branqueamento de capitais. A imprensa local alinhava pelo mesmo diapasão, lançando uma vaga de insinuações de teor xenófobo, sobre a recente vaga de estrangeiros que se tinham instalado no nordeste brasileiro durante os últimos anos. Ainda para mais, o seu irmão Duarte era sócio-gerente do Dom Café, uma conhecida casa nocturna da cidade, frequentada sobretudo pelos filhos das elites locais, facto que aumentava ainda mais o número de boatos em seu redor. O sócio do seu irmão era Giuseppe, um italiano natural de Lecce. Um homem de cerca de quarenta anos e com um vago aspecto de hooligan. Era alto, tinha o cabelo rapado e ostentava umas quantas tatuagens nos braços. Sobre a cintura pendia-lhe uma pequena barriga que dava os seus primeiros sinais de flacidez. O queixo quadrado e uns olhos verdes e felinos, encaixavam-se num rosto bronzeado, conferindo um toque de agressividade ao seu perfil. Inicialmente tinha sido apontado como um potencial suspeito, mas não tinha sido possível reunir provas suficientes contra ele. Vasco já tinha tido oportunidade de conversar com ele por duas vezes. Ficou com a ideia de que era um sujeito evasivo, que irradiava uma certa aura de maldade, tentando claramente ocultar factos relacionados com o estilo de vida que Duarte tinha no Brasil e que poderiam estar na base do seu desaparecimento.

Patrícia Dantas, uma jornalista de um canal de televisão regional, parecia ser, até então, a única pessoa disposta a ajudá-lo naquela busca frenética. Poucos dias após a chegada de Vasco a Natal, ela tinha ido procurá-lo no hotel, naquele tórrido início de Fevereiro. Ele tinha feito questão de que a sua estadia não passasse despercebida. Seria forma de atrair maior atenção para o caso, encetar contactos com a comunicação social, pressionar as autoridades competentes e abrir a possibilidade de obter informações de outras fontes. Também ela parecia impressionada com a lentidão da investigação policial em relação a um caso de contornos tão estranhos. Acabaram por se envolver de forma muito rápida e quase selvagem, após alguns dias em que se dedicaram a estudar o caso numa relação de bastante proximidade. A beleza, dinamismo e inteligência de Patrícia tinham seduzido Vasco de modo avassalador. No entanto, aquela noite tinha sido crucial para confirmar as suspeitas de Vasco em relação ao italiano. E uma das variáveis do enigma tinha surgido de forma surpreendente e dolorosa.

 
Vasco saiu da janela e avançou cautelosamente para o guarda-roupa. Procurou o revólver que tinha comprado clandestinamente no problemático bairro de Nazaré, localizado na zona oeste da cidade, para sua protecção e que ele tinha escondido no meio das suas roupas. Com a arma na mão, foi-se aproximando da cama enquanto relembrava os acontecimentos da noite anterior. Durante o jantar, num restaurante na Av. Afonso Pena, Vasco teve a estranha sensação de estar a ser vigiado. Um Ford Fiesta branco, com vidros escurecidos, tinha passado três vezes em frente do restaurante. Patrícia, que o acompanhava, parecia particularmente inquieta e estava pouco faladora. Após a refeição, ela retirou-se para a casa de banho e deixou o seu telemóvel em cima da mesa, após ter atendido um breve telefonema de uma colega da redacção. Erro infantil. Dois minutos depois, ele escutou o sinal sonoro de recepção de uma mensagem escrita. Vasco não resistiu à curiosidade e ao sentimento de desconfiança que o consumia. Com as mãos suadas pelo nervosismo, pegou no telefone e leu o conteúdo da mensagem.

- Já conseguiu descobrir quais as pistas que esse idiota anda seguindo?

Sentiu uma ligeira tontura ao descobrir que Giuseppe era o remetente da mensagem. Instintivamente, apagou a mensagem. Quando ela regressou para a mesa, ele preferiu não lhe dizer nada e optou por sair dali o mais rapidamente possível. Iria sentir-se mais seguro no hotel e necessitava de ganhar tempo para pensar sobre tudo aquilo. Porém, no regresso, ele sentiu falta de coragem para pedir explicações a Patrícia. Sentia um nó na garganta. Precisava de agir com frieza e delinear uma estratégia muito bem calculada.

Com o corpo a tremer, Vasco, subiu para cima da cama e encostou o cano da arma na nuca de Patrícia. A ansiedade e o desespero tinham tomado conta do seu raciocínio. Agora, ela iria ter muita coisa para lhe explicar.
 
Pedro Miguel Ferreira

3 comentários:

Luisa Vaz Tavares disse...

Excelente arranque para uma história que nos vai prender, com toda a certeza. Gostei muito, Pedro.

Américo disse...

Fantástico Pedro! Agora tens que dar continuidade, estou curioso por saber o que passará…

Clementina Barros disse...

E eu que gosto imenso de policiais e a história promete. Parabéns pelo excelente inicio