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quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Cidade das Dunas - Capítulo II


- Vasco?!? – Que estás a fazer? Larga-me, gritou Patrícia assustada, ao acordar com o toque frio da arma na sua nuca.

- Vá, minha querida, agora é tempo de explicares direitinho mas direitinho mesmo, qual é o teu papel nesta história! Não vim cá para fazer papel de palhaço nem para ser enganado por uma catraia como tu! – Disse vermelho de cólera Vasco, cuspindo as palavras bem perto do ouvido de Patrícia.

Maldito dia em que Duarte tinha tido a ideia de se mudar para o Brasil, pensava Vasco enquanto sacudia a cabeça de Patrícia numa fúria desenfreada. Mas Duarte sempre fora assim. Aventureiro, rebelde e um pouco inconsequente. E curioso, sempre tinha sido Vasco a safá-lo de todos os problemas que Duarte arranjava.

 
 
E novamente, Vasco tinha vindo tentar salvar o irmão…Se não fosse tarde demais já…

- Fala minha cabra, fala de uma vez. Diz-me lá como é que o Giuseppe te paga para lhe dares informações sobre as minhas investigações – vociferou Vasco.

- Não sei de que falas – titubeou Patrícia, debatendo-se contra as mãos pesadas de Vasco. Como podes acusar-me de uma coisa destas, se tudo o que tenho feito é para te ajudar? Eu não dou informações nenhumas ao Giuseppe, pelo contrário… Eu tenho conseguido informações valiosas para te ajudar!

- Sim, sim, não penses que me continuas a enganar. Eu vi a mensagem no teu telemóvel – e dito isto, Vasco encostou com mais força a arma, já carregada, agora bem perto do crânio de Patrícia.

- Não é nada disso. Deixa-me explicar por favor. Eu também quero descobrir o paradeiro do Duarte. Muito mais do que tu podes pensar. Eu estou fazer jogo duplo com o Giuseppe. Eu não te estou a enganar, juro. Juro pela saúde da tua sobrinha Eliana! – Respondeu já a chorar Patrícia.

Ao ouvir isto, Vasco largou-a em cima da cama e virou-a para cima, olhos nos olhos.

- O que é que disseste? Sobrinha? O que é que estás a inventar agora, não penses que te safas assim! – Vociferou novamente Vasco.

- É verdade, a minha filha é tua sobrinha, filha do teu irmão. Tem dois anos e adora o pai. Acima de tudo é por ela que o quero encontrar, porque sei que ele ainda está vivo. Eu sei! – Soluçou Patrícia.

Vasco saiu de cima dela e começou a andar aos círculos no quarto. Uma filha! Duarte tinha uma filha e ninguém sabia. Nem a mãe deles, que Duarte tanto adorava. Mas a verdade é que Duarte pouco falava da vida dele no Brasil e as notícias que dava não eram assim tão frequentes, enviava bastantes encomendas com presentes para a mãe e para as suas irmãs, e por vezes, para o próprio Vasco, mas nunca dizia muito nos telefonemas e emails que trocavam.

Seria possível Patrícia estar a falar a sério? Seria mesmo verdade?

- Explica lá essa história de uma vez mas acho bem que estejas a dizer a verdade, não estou com paciência nem tempo para mais mentiras. Se sei que me estás a enganar, eu juro que te enfio uma bala no meio dessa testa linda – gritou Vasco empunhando a arma bem na direcção da cara de Patrícia.

- Por favor, pousa essa arma. Eu estou do teu lado, acredita. Ou melhor do lado do Duarte, pai da minha filha. Vá, senta-te aqui e eu conto-te tudo. – Suplicou Patrícia.

E Patrícia começou a contar como tinha conhecido Duarte numa festa há três anos e que tinha ficado logo encantada por aquele sotaque tão portuguesinho, como ela dizia. Rapidamente tinham-se envolvido e tinham chegado mesmo a viver juntos. Patrícia nunca aprovara a ambição de Duarte e a vontade dele em ganhar mais e mais dinheiro. Nunca tinha achado bem a ligação dele com Giuseppe mas Duarte tinha-se tornado cego a conselhos mais racionais. A avidez de dinheiro e poder tornaram-no mais frio, mas não apagaram a sensibilidade que Duarte trazia consigo. Quando se separaram e um mês mais tarde Patrícia descobriu que estava grávida, Duarte fez questão de a apoiar em tudo e de acompanhar a sua gravidez o mais perto possível.

- Vasco, havias de ver o olhar doce do teu irmão quando ele pegou na Eliana pela primeira vez. Parecia um anjo deliciado com aquele bebé nos braços.

Vasco sorriu ao lembrar-se desse olhar tão característico do irmão, um olhar a que ninguém conseguia ficar indiferente.

- Não voltamos a ficar juntos – continuou Patrícia – mas ficamos sempre perto um do outro. O Duarte estava sempre com a filha e continuamos amigos. Conversávamos muito mas as conversas sobre o andamento dos negócios começaram a ser cada vez mais escassas. Sempre que eu perguntava como iam as coisas, Duarte desconversava. Comecei a ficar cada vez mais preocupada mas não havia nada que eu pudesse fazer. Com o desaparecimento de Duarte, um pedaço da minha vida ruiu… E eu não quero que a minha filha cresça sem pai. Isso não pode acontecer – e dito isto, Patrícia começou a chorar intensamente.

Vasco estava muito confuso. Aquela que ele pensava ser uma cúmplice de Giuseppe afinal era mãe da sua sobrinha.


 
 
- Leva-me já a ver a miúda. E é bom que ela exista mesmo, senão iremos voltar aqui para continuarmos a nossa conversinha. E dá-me o teu telemóvel, não confio em ti…ainda… - ordenou Vasco.

Vestiram-se rapidamente e saíram do apartamento. Patrícia avisou que tinham de ter cuidado. O Ford Fiesta iria estar à espreita para os seguir. Assim tinham sido as ordens de Giuseppe.

- Ah, afinal sabes muito bem quais são as ordens desse filho da mãe? - Disse Vasco apertando-lhe o braço.

- Tem calma, disse Patrícia. Agora vais ver a tua sobrinha e depois de finalmente acreditares que não te estou a mentir, conto-te o resto!

Patrícia agarrou pelo braço de Vasco e levou-o pela porta dos fundos onde poderiam apanhar um táxi. Não podiam sair no carro de nenhum deles, pois assim iam segui-los e a última coisa que Patrícia queria era que descobrissem que tinha uma filha e onde moravam.

Pouco tempo depois, o táxi seguia pela avenida fora, seguindo as direcções que Patrícia ia dando.

Carolina Lemos

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