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Fotografia de Paulo Emanuel |
Não tinha outro remédio
que não deixar aquela população no limite da dúvida. Premir ou não o gatilho?
Sabê-lo-iam apenas quando um eco seco os violentasse na noite adormecida.
Sebastião de Menezes, o homem de quem nada sabiam e ao qual se limitavam a
mostrar indiferença, acordá-los-ia de rompante, e o seu nome soaria no tempo
por aqueles vales e montes.
As primeiras crónicas no Paladino
não surtiram o efeito desejado. Tinha mais impacto a necrologia do que aquela
coluna que ele passara a assinar, além de que não lhe revolvera as entranhas do
modo por que ele tanto suspirava. O pensamento havia voltado às cavernas, as
luzes queriam-se agora no espalhafato de cegarem no imediato.
Estaria sempre um passo à frente
deles, não foi à toa que se aventurou por outras terras, conheceu outros
mundos. Não que esse facto fizesse de si uma melhor pessoa, pelo contrário.
Corroía-lhe o sangue nas veias. Era isso que precisava que soubessem – um homem
acontece de não regressar. Quis voltar a fim de recuperar o que deixara para
trás, mas nem chegou a encontrar-se. Tudo o que fez a partir de então foi tão
só a fuga do que poderia ter sido. As consequências perdurariam o corpo, como
as manchas nas paredes prevalecem sobre os inquilinos que as habitam.
Preparou tudo. Embarcaria na
expedição última sem deixar nada ao acaso. Nenhuma ponta ficaria solta. Havia
tratado de todas as diligências legais, inclusive o dinheiro amealhado de forma
ilegal. Não aspirava a qualquer justiça pós-morte, a qualquer acerto de contas,
muito menos silenciar o passado com um tiro certeiro. Era apenas uma espécie de
redenção a sós, consigo mesmo. E para isso escreveu estas páginas, o legado
possível da sua existência, e do que a mesma provocou.
Bateu a última letra na respectiva
tecla da máquina de escrever e reuniu as folhas dactilografadas, enfiando-as
num envelope. Lacrou-o de imediato, não fosse dar-lhe um arrependimento de
última hora. A influência devida ao cargo que ocupara no serviço dos correios tinha-o
levado a conseguir que na manhã seguinte fosse distribuído pelas casas de Vale
da Serra um exemplar daquele testemunho escrito. Que o condenassem!
Deu
o derradeiro gole no copo de uísque de malte – ainda sorriu com a memória da
canção do Jorge Palma, mas esta noite seria frágil. O
fumo do cigarro extinguia-se numa auréola por sobre si. Agora, a caixa
craniana. Ergueu o revólver e apontou. Coube à única bala no interior da câmara
fazer justiça. Depois, o silêncio.
Helder Magalhães
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