13/07/18

Janelas De Tempo - Capítulo 1


Imagem retirada da net sem indicação do autor 

            Por dentro, com a língua, e por fora com os dedos da mão direita, assegurou-se que o dente munido com o chip se mantinha firme. A medo, e ainda tonto pela tensão psicológica daquela estranha “viagem”, aventurou-se a sair da acanhada máquina.
Ainda sem ter qualquer noção de espaço ou tempo que lhe permitissem perceber onde estava, e em que ano, passado ou futuro, movimentou os braços e as pernas para desentorpecer o corpo. Apeteceu-lhe gritar, gritar bem alto a alegria, de para já, ainda estar vivo. Viam-se azuis por entre as nuvens, e a chuva, apesar de forte, dava sinais de querer abrandar. Estava totalmente encharcado, mas queria acreditar que no “pacote” da viagem no tempo também se incluía imunidade gripal. Não teria graça alguma que apanhasse um resfriado e precisasse de cuidados médicos, principalmente se estivesse, algures no passado…
Era hora de tentar perceber onde estava, de se situar. O sol, bem escondido atrás das nuvens, ainda estava fraco, mas indicava estar a aumentar de intensidade pelo que deveria ter acabado de amanhecer. Estava no campo, num sítio alto, suficientemente alto para que, lá em baixo à sua direita, circulasse um forte nevoeiro que pouco mais o deixava ver além dos montes por onde circulava.
O campo estava cheio de oliveiras, e enquanto tentava situar-se melhor, Júlio usava-as para se proteger dos últimos pingos de chuva que teimavam em cair. Não muito longe dali avistou uma casa, não parecia mais do que um abrigo com as suas paredes em pedra empilhada e telhado de canas e giestas, mas representava uma oportunidade de se secar. Conforme se aproximou, viu que próximo estava uma habitação, também ela singela e humilde e simples, mas que a chaminé a fumegar sugeria ser habitada.
Impunham-se cautelas, continuava a não ter qualquer ideia de onde estava nem em que século, e aquela gente poderia não ser amigável. Aproximou-se do abrigo e viu que estava ocupado por animais, duas vacas e algumas cabras. Lentamente, para não gerar alarido entrou, e depois de os animais se acalmarem, encostou-se num canto a desfrutar do calor existente. Por uma fresta, de entre as pedras sobrepostas da parede, conseguia ver a casa e tinha esperança de, mais tarde ou mais cedo, conseguir ver os habitantes e dessa forma conseguir ter a noção de onde se encontrava.
Não demorou muito. Da casa saiu um casal de adultos acompanhados por duas crianças que não deveriam ter ainda dez anos de idade vestidos com roupa que associou a tempos passados, e a forma como saíram, quase em simultâneo, indiciava que iriam a algum lado. Não conseguia escutar o que diziam mas a conversa era parca.
Apesar de desapontado por não ter conseguido perceber, através da linguagem, em que país se encontrava, Júlio ficou aliviado por ter mais tempo de secagem para depois, mais confortável, fazer o reconhecimento da situação.
Pendurado junto da entrada do abrigo estava um capote de palha, aos socalcos, que vestiu de molde a que até as 501´s ficavam quase escondidas. Agora sim, o sol fazia-se notar e teve pena de não ter consigo a sua Nikon que sempre o acompanhava nas viagens, a luz estava magnífica!
Aproximou-se da zona onde vira o nevoeiro a seus pés e que começava a dar lugar a um vale cavado com um rio a correr, bem lá em baixo. As nuvens iam cedendo, mas ainda não permitiam vislumbrar pontos de referência se bem que a paisagem não era totalmente desconhecida a Júlio. Sem nada que fazer e disposto a tirar a limpo aquela sensação de “dejá vu”, sentou-se num muro de pedra e por ali se quedou a ver o espetáculo da abertura do nevoeiro, e de repente deu um salto e ficou boquiaberto de surpresa. Já sabia onde estava, o rio era cada vez mais visível, e da outra margem o casario fazia-se notar com o esplendor do Mosteiro dos Jerónimos e a sua guarda avançada, a Torre de Belém, a marcar a diferença. Estava algures na margem sul do Tejo, entre onde haveria de estar a ponte 25 de Abril e a Trafaria!
E por ali ficou, deslumbrado. O rio, também era azul nos intervalos de tantas cores que as velas dos inúmeros barcos em movimento, e de tantos outros, fundeados. Se no seu tempo o congestionamento era na marginal, agora era-o dentro de água. O Tejo fervilhava de movimento e Júlio Verde deliciou-se em comparações, entre o que via e aquilo que conhecia. As horas passaram e o amanhecer já passara, talvez fossem umas nove ou dez horas, e o dia adivinhava-se prazenteiro. Em minha honra, pensou ele.
Foi sol de pouca dura, vindo do nada, das entranhas da terra, um ronco ensurdecedor acompanhou o tremor que o fez cair do muro abaixo. Levantou-se de pronto, e assistiu, quase de bancada, ao cair das cartas que compunham os castelos, do outro lado. De tantos momentos e lugares, aterrara quase em Lisboa (felizmente na margem sul) e pelo que antevia, deveria correr o dia 1 de Novembro de 1755.
Os estremecimentos da terra continuavam e já se viam colunas de fumo por toda a cidade, mas o mais impressionante foi ver o Tejo quase desaparecer para parte incerta, para não demorar a reaparecer, furioso e bestial. O cenário era de tal forma dantesco, a cena decorria a um ritmo tal que Júlio nem se lembrou de ter medo, de fugir ou mexer, que fosse. Os acontecimentos corriam a seus pés, do rio que minutos antes era um espelho pontilhado de cor, agora era uma corrente cinzenta alterada e violenta, onde as cores se vislumbravam a afundar.
Por ali, perto de si, uma fenda se abriu aquando um dos tremores, e de repente Júlio acordou: E se a máquina caiu, desapareceu nalgum buraco? Como saio daqui? Sabia que caminhara pouco, e que o fizera sempre com o rio do lado direito, por isso empreendeu o regresso, confiando no dente, mas nunca deixando de ver como a sua cidade ardia, do outro lado. Luis, não o enganara, lá estava o zingarelho com a porta aberta que se esquecera de fechar, tenho de ter mais cuidado na próxima vez…
 De pernas a tremer, cheio de vontade de ver mais, mas ciente que os tempos próximos não iriam ser agradáveis, entrou e carregou no vermelhinho…


                                                                                                             Joaquim Henriques


14 comentários:

  1. Um conto bem à moda antiga, por tanto!
    :)
    Deambulando, no meu silêncio.

    Beijos e um excelente fim de semana!

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  2. Excelente começo!

    r: É verdade, é o meu número favorito, o que acabou por dar origem à semana temática das 7 coisas :)

    Obrigada e igualmente*

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  3. Uma narrativa cheia de interesse que me prendeu do princípio ao fim. Está a começar muito bem… Fico à espera da continuação.
    Um bom fim de semana.
    Beijo.

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  4. Ora aqui vamos nós para acompanhar mais uma história e esta pelo começo, promete.
    Um abraço e bom fim-de-semana.

    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    Livros-Autografados

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  5. O tempo passa inexorável
    no relógio de pêndulo

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  6. Hoje é só para dizer que já estou de volta.
    Amanhã já haverá comentários.

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  7. Agradam-me por demais os textos de autores portugueses.
    Abraço

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  8. Hola me ha encantado tu blog
    Buen finde.

    Besos

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  9. Está muito bem! Ja fico curiosa com os próximos capítulos! Parabéns, Joaquim!

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  10. Um capítulo interessante que nos recorda um momento trágico, mas de alguma aprendizagem, da história de Portugal.

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  11. Bem desenvolvida a ansiedade da “primeira chegada”, que o levou ao melhor local para assistir, num fugaz momento, à colossal tragédia.
    Parabéns, Joaquim Henriques

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