09/02/19

Ecos de Mentes - Capítulo 7

©Tixa Falchetto

Todas estas leituras de cadernos deixam claro que isto era mesmo uma casa de loucos, e já prevejo tragédias ao fim da costura de todas estas histórias. A cada caderno lido, mais atiça-me a curiosidade e assola-me a inquietação por saber a que ponto isto interferiria na minha vida. Ora, apetecia-me mesmo largar tudo e sair dali a correr. Mas a curiosidade não me deixava... vamos pois ao próximo a ver o que vem de lá.


Helena


         Então, eis-me cá a realizar o sonho de toda uma vida! Desde que nos conhecemos à universidade, o querido Ramón havia-me acenando com a possibilidade deste maravilhoso projeto de estudo dos meandros da mente humana. Juntos, desenvolvemos sérios estudos para encontrar uma maneira de devolver a sanidade às pessoas com os mais disparatados transtornos. E vamos conseguir!
Não sei se terei tempo para estar aqui a escrever tudo o que vejo, tal a riqueza de material que me cai às mãos! Já nem sequer ponho data, porque não sei se venha escrever todos os dias. Há dias em que me é necessário estar a acompanhar as pessoas em suas atividades do cotidiano, e se me ponho a andar praí com caderno e caneta à mão, posso assustá-los.
... hoje foi dia de receber uma louca narcisista que nunca teve uma relação sequer, tamanha a adoração que tem por si mesma. Pelo bem dos estudos e do tratamento, preciso dar a cada paciente aquilo do qual ele ou ela é feito, pois a intenção é mesmo aproximar-me deles e pô-los desarmados, a ver se consigo escarafunchar-lhes as mentes...
Não é nada fácil imiscuir-me em seus pensamentos.  Por seu exagerado e doentio amor por si mesma – eu diria mesmo adoração – Cláudia fechava-se em copas e nada deixava escapar de si. Percebi como olhava com desdém para qualquer mulher, mas que precisava ser invejada, cobiçada, mesmo desejada. E aos homens, parecia distribuir migalhas de promessas de luxúria.
... hoje apareceu-me a Amélia, pobrezinha... estava quase a consegui fazê-la externar alguma emoção, mas, depois de tantas conversas em que eu percebia que ia a se sentir mais confortável,  algo aconteceu que a jogou de volta em seu profundo abismo... foi depois da chegada do Gabriel, o vaidoso Adónis...
Já este, vem com mais frequência ao consultório.  Cheio dum obcecado amor por seu corpo, é de todos o mais previsível. Anda sempre a lancar-me olhares lascivos, imbuído que está em seu jogo de conquista. Mal sabe o pobre, meu querido Ramón, que só tenho olhos pra ti. Mas, trabalho é trabalho, e nós sabemos o que fazer para destravar a língua destes pobres... e, principalmente, sabemos o rastro de sangue que este Adónis deixou atrás de si...
Creio que Amélia apaixonou-se por Gabriel. Deve ser por isso que fechou-se outra vez em copas, depois de lhe ter eu conseguido conquistar a confiança. Parece perigosa, mas creio ser apenas um passarinho assustado que nunca teve um ninho. Só precisa encontrar alguém que a ampare, mas não creio que o Gabriel possa prestar-se a isso, antes temo que a perceba e faça mais uma vítima, por isso é que o distraio, fazeendo-o crer que tem a minha atenção da forma que gostaria, mal sabendo ele que estou a prescrever-lhe medicamentos que aos poucos lhe tirem  a força para o mal.
... hoje veio-me novamente a Matilde. Dessa, sim, tenho receio. Dissimulada, esgueira-se pelos cantos com seu voyeurismo, a espreitar todos os pacientes, ou melhor, “ocupantes da Pousada”, como sugeriu o querido Ramón que os chamasse. Impenetrável até mesmo para mim, acostumada que estou a decifrar as mais tresloucadas mentes. Dela, ainda não consegui atinar com o objetivo.
Outro perdido é o David... coitado, nada tem de louco. Talvez nem fique por cá muito tempo, seu problema são antes as carraspanas.  De nada nos vai servir para os estudos, a mim e ao Ramón, a nós só interessam os casos mais extremos de loucuras tidas incuráveis. 
Casal que me incomoda é o Vicente e a Beatriz... ainda não percebo a troca de papéis em que se apoiam. Só percebo o ódio que Beatriz tem por seu estúpido marido. Um frouxo que finge ser o macho da relação, mas não passa de um estorvo. Preciso ainda de algumas entrevistas com a Beatriz a ver se lhe arranco alguma pista para que aceite ser por ele tratada daquela forma, quando claramente percebo que quem o domina é ela. Penso que ela vá dar cabo da vida daquele estafermo em breve tempo.  Não é como o meu Ramón, o gajo. 
Ah, Ramón! Sei que temes a minha proximidade com todos estes homens a olhar-me como um animal a ser abatido, mas hás de convir que, se não lhes der corda, não fizer o jogo de sedução que eles esperam, poucos resultados conseguirei com eles.  O que tu não sabes é que ... deixemos de confissões, que não é para elas que cá estou...    


                                                                                   Tixa Falchetto


10 comentários:

  1. Bela leitura.Gostei de acompanhar! bjs,chica

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  2. Lendo com atenção, chega-se à conclusão que a mente da psicóloga é tão perturbada pelo Rámon, que deseja abater como um animal de estimação.

    Ecos de mentes é um capítulo absolutamente fascinante 🐦

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  3. Segunda-feira continuamos a saga, não é?
    Boa semana

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  4. Cada vez mais interessante!
    Esta psicóloga parece meio louca também, pelo que percebi...
    Boa semana!
    Bjo

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  5. Belo texto.
    Bom restante de semana.
    Gostei do espaço. Estarei por aqui agora.

    Jovem Jornalista
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    O blog está em HIATUS DE VERÃO até o dia 23 de fevereiro, mas tem post novo. Comentarei nos blog amigos nesse período.

    Até mais, Emerson Garcia

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  6. Continua intenso e inquietante. Resta-me aguardar o próximo capítulo! Boa semana, amigos.

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