12/12/22

Estendais - Capítulo 4

 


Euclides - 8º Esq.

 

Acordou-me o leve e distante ribombar de um trovão. Olhei de soslaio o relógio luminoso sobre a mesa de cabeceira; marcava dez para as onze… dez e cinquenta, que raio…, mas são dez, são onze, ou cinquenta? Ou serão cinquenta mais dez?! Voltei-me para o lado direito e constato que o som do trovão não a acordou.

Deitada de costas, o corpo destapado atá à cintura, a pele morena aveludada, os cabelos livremente soltos sobre os ombros e parte do rosto, os lábios sensuais, fizeram com que a minha libido despertasse e a minha mão esquerda, em modo autómato começasse lenta, suave e delicadamente a deslizar ao longo dos seus seios e ventre, acabando por afastar o lençol e revelar por inteiro o seu belo corpo, morno, hipnotizante… deliciosamente hipnotizante.

Reclinei-me sobre ela, apoiado no antebraço direito, poisei os meus lábios leve e demoradamente nos dela, descaindo depois para o pescoço e ombro. Soltou-se-lhe dos lábios um leve suspiro, um curto e suave ronronar, mas os olhos continuaram cerrados.

Soou de novo o ribombar do trovão, desta vez com réplicas ecoantes; de olhos semicerrados, ela simulava um sono sereno.

Do ombro, os meus lábios deslizaram até ao seio esquerdo, detiveram-se no mamilo, aplicaram uma ligeira pressão, sugaram levemente e de novo os seus lábios deram nota do efeito que lhe estava a causar, deixando que dois estimulantes e instigantes gemidos de prazer se soltassem.

Novo trovão! Desta vez mais forte e acompanhado de maior número de ecos replicantes.

Detive mais um pouco os lábios no seu mamilo e a língua húmida volteando em seu redor. Notei que a respiração dela começou a ficar mais acelerada e que o seu ventre se elevava e baixava num ritmo crescente. Demoradamente, os meus lábios percorreram aquele ventre voluptuoso e ao fazê-lo, senti a sua mão pousar na minha nuca exercendo pressão até que os meus lábios tocassem o recanto mais íntimo e mágico do seu corpo.

O troante ribombar do trovão fez-se ouvir; desta vez com maior intensidade. Pensei; a trovoada deve estar mesmo por cima de nós. Vamos ver se a merda deste barraco velho e decrépito aguenta a valente bátega que deve estar quase a desabar.

Mais desperta, mas mantendo os olhos cerrados, Benevides afastou as pernas permitindo que os meus lábios e a minha língua pudessem explorar livremente a entrada do seu macio, quente e inebriante palácio dos sentidos.

Segurando-me a cabeça, enquanto lhe segurava as nádegas irrequietas e num ritmo alucinante sugava avidamente o seu botão ígneo, foi soltando gemidos de prazer e interjeições exclamativas, que me instigavam a aumentar o ritmo louco e me tornavam absolutamente alheio a qualquer ruído exterior.

 Pouco depois um frémito, uma vibração violenta, acompanhada por uma forte tesoura de pernas fizeram-me pensar que iria acabar ali os meus dias em agoniante asfixia.

Ainda com a cabeça entalada e sem possibilidade de me libertar, voltei a escutar o ribombar do trovão.

Por fim, Benevides aliviou a pressão das pernas permitindo-me que recuperasse o fôlego.

Ainda ofegante e ligeiramente zonzo, ouvi o som forte e repetido do trovão, que desta vez me pareceu mais próximo e vindo dos lados da porta de entrada.

Benevides puxou a almofada para cima recostando o tronco na cabeceira da cama. Pegou o maço de cigarros e o isqueiro que estavam sobre a mesa de cabeceira e retirou um cigarro, acendendo-o.

Em seguida e sem me olhar, perguntou:

- Não vais abrir a porta? Estão há que tempos a bater. Se fosse a ti ia ver, antes que arrombem aquelas tábuas carunchosas.

Sentei-me na cama com os pés no tapete, cotovelos apoiados nos joelhos e os dedos enfiados nos cabelos.

Novo estrondo fez-me levantar de um salto. Inequivocamente, o som vinha da porta de entrada. E não se tratava de porra nenhuma de trovão, mas sim das punhadas demolidoras de alguém que insistentemente chamava.

Corri para a porta e num tom irritado perguntei:

- Quem é!?

A voz de lá respondeu:

- Sou o vizinho do 7º esquerdo, abra a porta rápido!

- Abro já, abro já, só um momento para me ir vestir.

- Ó homem, deixe lá a merda da roupa e abra já a porra da porta, é urgente!

Um tanto hesitante, rodei a chave na fechadura e em seguida a maçaneta. Mal a porta se entreabriu, senti um empurrão e de imediato entrou-me pela casa dentro, comandada pelo vizinho do 7º esquerdo, a horda completa de todos os moradores do prédio, espalhando-se freneticamente pelas divisões da casa.

De súbito, oiço um grito de vitória vindo das bandas da cozinha. A vizinha do 5º direito gritava efusivamente, eureka! Corremos todos para lá, com exceção do vizinho do 8º direito que ao entrar no quarto, tendo dado de caras com a Benevides fumando nua, tinha ficado paralisado sem conseguir despregar o olhar do fruto proibido.

Chegado à cozinha, deparo-me com uma espessa nuvem de fumo que, apesar de a janela estar aberta, persistia em não se dissipar.

Nesse momento, todos os habitantes do prédio se voltaram para mim. Olharam-me de cima a baixo e o seu olhar era de profunda crítica com uma forte componente de desprezo.

Numa atitude inquiridora e acusadora, a vizinha do 3º esquerdo avançou para mim e num tom rude, apontando-me o dedo indicador disse-me:

- Cara! Você tem noção do perigo em que colocou a galera aqui do condomínio? Você é um desastre com pernas e… com essa coisinha mixuruca que tem aí pendurada. Cara! Vê se te enxerga; você ia pegando fogo no prédio todo. Não fora o nosso vizinho do 4º direito, ter ido lévá a cachorra na rua e notár a fumaça saindo da sua janela, por essa altura estaríamos todos sem casa. Vê se na próxima tem mais cuidado e não volta a deixar às cuecas e às peúgas a sécar no forno elétrico, tá?

Sem jeito, balbuciei:

- Foi a minha mulher que se descuidou, chegou tarde e cansada do hospital esqueceu-se de desligar o forno. Desculpem. Felizmente, para além do fumo não houve mais problemas, ao que parece está tudo bem.

Em seguida, foi a vez do vizinho do 4º esquerdo alvitrar:

– Mas porque é que o vizinho não instala um estendal de roupa na parede das traseiras? Dessa forma, pode secar a sua roupa sem colocar em risco os restantes moradores, não lhe parece?

- Claro que sim, tem toda a razão. Ainda não me tinha lembrado dessa hipótese e… como também não temos o hábito de usar muita roupa…

- Isso já nós pudemos constatar!  - Adiantou de imediato a vizinha do 3º direito.

Mas logo a vizinha das águas-furtadas adiantou:

– Tomara eu ter um espaço onde pudesse instalar um estendal. Vejo-me da cor do caraças para conseguir secar a minha roupa. Ali, naquele cubículo, só com cordéis esticados e amarrados aos caibros do telhado.

Como quem não quer a coisa e tentando que os ânimos se apaziguassem, respondi-lhe:

– Deixe estar vizinha, logo que eu tenha o meu estendal colocado, pode sempre vir cá a casa colocar a sua roupa para secar.

Dito isto os ânimos serenaram, mas o meu olhar bateu de frente com o da vizinha do 2º esquerdo que estava mesmo a dizer “o que tu queres sei eu bem, já estás a preparar terreno para a sementeira, se a tua Benevides te topa, estás feito ao bife… pendura-te no estendal”.

Aquele olhar intimidou-me e levou-me a adotar uma postura de introversão de modo a ganhar a pena e compreensão dos meus vizinhos.

Nesse momento e por entre um rol de imprecações lançadas já de forma velada pelos inquilinos ali concentrados, Benevides entrou na cozinha, ainda nua e segurando nos dedos um cigarro acabado de acender. Dirigiu-se à bancada da cozinha, encheu um copo de água e bebeu-o de um trago. Depois, voltando-se para a multidão disse num tom firme e sereno:

- Bom, senhoras e senhores soldados da paz, agora que cumpriram a vossa missão, façam o favor de se retirar para o quartel, que eu e o meu garanhão temos um assunto importante para terminar. Ah! E façam o favor de levar a estátua que deixaram ali especada no quarto.

Um a um, olhando em todas as direções, ainda tementes de que outra anomalia pudesse ser descoberta, lá se foram arrastando até à porta da rua, que voltei a fechar à chave, rezando a todos os santinhos para que nenhum deles se lembrasse de voltar para trás.

Quando regressei ao quarto, ainda tremendo como varas verdes, encontrei Benevides sentada na cama com um ar pensativo, a fumar o seu terceiro cigarro. Atarantado, olhei para o relógio e respondi-lhe:

- Já viste que horas são? Já passa do meio-dia! Está na hora de correr para o emprego, estou mais que atrasado, hoje vou ter de aturar o Fonseca com uma das suas prédicas e avisos de processo disciplinar.

Como se não tivesse ouvido o que lhe disse, respondeu:

- Estranho!

-Estranho? Não sabes que trabalho e que devo cumprir horários?!

Sem dar importância ao que eu disse, repetiu:

- Estranho… aquele vizinho do 4º direito, nunca passeia a cadela a estas horas.

- Como é que tu sabes a que horas passeia ele a cadela?

- Porque sempre que estou de banco e regresso a casa mais tarde, quando passo com a nossa mercedes preta para ir estacionar na garagem das traseiras, encontro-o com a cadela e noto que me olha com um ar meio misterioso. Há uns dias, sem ele ter notado, peguei no telemóvel e fotografei-o, depois mostrei a uma colega cujo marido é investigador da “judite”. Sabes o que ela me revelou pedindo segredo absoluto?

- Que o gajo é um violador! Um serial killer! Um…!

- Cala-te, porra! Nada disso! Aquilo que a minha colega me disse, foi que este figurão já teve muito sucesso na escrita e na televisão, onde conheceu uma cabra que lhe fez a vida negra e o acusou de assédio e violência sexual. Parece que o rapaz gosta de seduzir donzelas à prática de “filmes” do tipo 50 Sombras de Gray.

- Ah, o fulano gosta de aberrações!

- Aberrações o quê? Sabes do que estás a falar? Alguma vez sentiste a intensidade de… bah! Conversar contigo destas coisas é o mesmo que discutir um problema de álgebra com uma galinha. Tomara eu apanhar um gajo assim, capaz de me fazer sair deste marasmo convencional e levar a experienciar dimensões intergalácticas.

- Bom, depois voltamos a falar desse assunto, agora vou ter de voar até ao escritório.

- Vai, vai Euclides e vê se não ficas a fazer serão. Não te esqueças que deixaste um certo trabalhinho a meio e exijo que logo o termines de forma caprichada. Entendes?

- Ok, chefa! Espere-me com uma bela garrafa de vinho a respirar!

 

                                                                            Bartolomeu Frederico

 

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