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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A Década De Todas As Suspeições - Parte 15

A eternidade daquele abraço em que Susana tremendo emudecida num será que estou a endoidecer? foi interrompida pelo sussurro de Isabel junto do ouvido da amiga num vamos sair daqui que este lugar não é para nós, vamos... conto-te tudo pelo caminho.

Sorrateiramente esgueirando-se pelo jardim enquanto, de soslaio, repara no tal carro policial à porta, Isabel segue-lhe os passos. Susana deve uma explicação à velhota que lhe alugara a casa e vai pedir-lhe autorização no sentido de poder deixar a sua BMW guardada na sua garagem uma vez que, de momento, a casa parece estar interdita e a última coisa que lhe apetece é responder a um inquérito policial sobre indícios de um qualquer possível crime. Apenas por uns dias, virá buscá-la mais tarde. Entrou no pequeno todo-o-terreno de Isabel e lá partiram rumo a norte.

O faro jornalístico e a inabalável vontade em descobrir toda a verdade desta incrível trama em que estava metida da cabeça aos pés, atormentando-a até essência da sua alma, foram imperativos para meter os pés ao caminho, como quem diz, as rodas no asfalto. E percorrer uma hora e tal numa boa estrada que lhe é familiar, em que o fundo se afunilando e as árvores das bermas lhes passando tão rápidas e demasiado próximas em sentido contrário que até se sente algo zonza. Um ímpeto visceral em descobrir quem é o tal monstro, seu anjo salvador, de feições demoníacas e de olhar tão doce. Susana desfia comovida os últimos acontecimentos. Isabel sente-se agora com coragem para lhe contar o que fazia a polícia, e ela mesma, na casa que ficara para trás há uma porrada de quilómetros. Intrigada com a sua aparente indiferença ostentada por um silêncio perturbador, como se nada tivesse, afinal, acontecido, naquela casa algarvia, dispara-lhe um e agora, qual é a tua ideia? Susana tão estranha e sem perder tempo responde um quero descobrir quem é o monstro! Secamente, peremptória, que Isabel abrandando o ritmo em que ambas se cruzam com as árvores das bermas da estrada, aliviando o pé direito, solta um longo suspiro...

Susana havia sido resgatada pela polícia. Melhor, pela GNR de Vila Nova de Milfontes, através da localização do número de telefone daquela estranha casa perdida num estranho e desconhecido lugar, número esse que ela, advertidamente, anotara no seu bloco-notas. Pelo que, através do telemóvel da Isabel, havia de ligar para o serviço informativo nacional e colher a morada daquela casa que não havia de ficar longe daquela vila alentejana. Conseguiu a vaga informação de Pousadas Velhas. Muito pouco, convenhamos. À entrada de Milfontes, estacionaram junto de um ciber-cafe ali existente e, a pretexto de um café com natas, meteram conversa com o empregado no sentido de localizarem o lugar de Pousadas Velhas. O complicado lá chegar para quem não conhece a zona não a demoveu pelo que resolveu-se por um rápido acesso à internet e, através do GoogleMaps, a sorte haveria de lhe sorrir. Digo a sorte mas, em boa verdade, era a perspicácia, a inteligência e a persistência na persecução dos seus intentos que lhe trariam sucesso na pesquisa. Lá estava o lugar no mapa, rodeado por dunas, pinhal, caminhos, provavelmente de areia ou terra batida e o mar. Isabel puxa do seu telemóvel e, como quem não quer a coisa, fotografa o ecrã por várias vezes, enquanto Susana vai alterando progressivamente a escala do mapa. Uma visita ao GoogleEarth permitiu consolidar a informação acabada de colher pelo que se apressaram a pagar e a sair.

Isabel conduzindo, Susana olhando as fotografias e cruzando mentalmente a parca informação do empregado do café, chegaram a uma rua, no lado mais a norte da Vila. Acabado o asfalto o jipe de Isabel não teve qualquer dificuldade em transpor os buracos do caminho – ora mole de areia, ora lamacento de terra – que se seguia à estrada. Susana retinha obsessivamente na sua mente o rosto daquele monstro, cativada pela sua ternura no olhar, esquecida do grotesco das suas feições. Passaram talvez vinte e tal minutos até que o Pára! de Susana desperta Isabel, concentrada num sucessivo e hipnotizante salta-pocinhas. Numa bifurcação, apostando no caminho mais estreito, um correr de sebes composto de pinheiros-silvestres prende-lhe a atenção e, aproximando-se, conta três degraus que antecedem um portão de entrada e entrevê o azul turquês de uma qualquer piscina. Mas, agora tem a certeza, aquela não é uma qualquer piscina, aquela não é uma qualquer casa caiada de branco com remates de amarelo, aqueles não são uns três vulgares degraus, caro leitor. Nem aqueles uns quaisquer pinheiros-silvestres. Esta é a casa do sequestro, absolutamente! Aparentemente vazia, sem movimento de pessoas ou veículos nas redondezas. Um nó no estômago não a desvia do seu objectivo: esta é a zona onde teve o encontro de primeiro grau com o seu Quasimodo, não havia dúvidas e, para confirmar, haviam de apear-se e reconhecer dunas e praia por onde tinha deambulado e fugido, anteriormente. Estacionaram debaixo de umas austrálias enormes, a cerca de um quilómetro daquela casa, e aventuraram-se por uma vereda que, subindo ligeiramente, as havia de levar a uma ampla planície de areia e vegetação rasteira, cheia de incontáveis caminhos paralelos e perpendiculares entre si, numa teia ou quadrícula imensa a perder de vista para norte e para sul. Um cordão de magníficas e majestosas dunas lembrando o deserto – até pela sua cor apimentada – separariam esta vasta planície ondulada da planura do mar. A praia seria por ali. Neste lugar isolado de invulgar beleza nada faria supor que, à noite, pudessem aparecer monstros e homens maus armados de pistolas. Inverosímil que tal pudesse acontecer aqui. Mas, a verdade de Susana era que tal tinha mesmo acontecido com ela, horas antes. Nem sinais de mostrengos ou casas, apenas gaivotas gritando – não sei se de aviso ou tentando indicar caminho –, sardões que tropeçavam nos pés daquelas duas criaturas meio perdidas naquele deserto e as cegonhas de pescoço esticado, completamente alheadas da presença humana.

Não se sabe ao certo quanto tempo passou, mas Isabel e Susana tinham-se embrenhado num pequeno bosque de pinheiros junto a uma duna muito alta, por um caminho não de areia mas de terra batida, quando se confrontam com pegadas frescas, talvez de botas montanheiras, avaliando os sulcos do piso do calçado deixados no enlameado. Susana imediatamente pressente o que ali adiante haveria de confirmar. Olhando as fotografias do mapa no telemóvel acreditam estar já bastante a norte de Milfontes e de Pousadas Velhas, bem próximo do Porto das Barcas. Ela conhece bem este portinho marítimo com algumas poucas casas de pescadores e uma ou outra casa de veraneio e um restaurante com vistas espectaculares sobre a pequena enseada de inúmeros barcos ancorados, aguardando a faina. Este não é um lugar para monstros, não senhor; este é um lugar de refúgio, de paz e de serenidade. Enquanto Susana se entorpecia nestes devaneios eis que algo lhe chama a atenção: um imenso aglomerado de figueiras da índia – cactos gigantescos ao correr da base de uma altíssima duna – formando um estranho rectângulo. Tinham para cima de dois metros e formavam uma cercadura, lugar perfeito para se ter uma casa de campo com vistas para os picos. Mas aquela não era uma casa de campo, era uma simples cabana construída em madeira de onde saía para leste um caminho de terra, perdendo-se num fantasmagórico emaranhado de pinheiros marítimos, perfeitamente alinhados e inclinados na direcção de sudoeste pelos ventos dominantes.

Aqui e neste momento, caro leitor, uma desconfortável constatação assenta no cérebro de Susana. Perturbador o facto de a sua casa se situar no monte da Fonte de Mouro, na cercania de Porto Côvo; a poucos quilómetros para sul, Porto das Barcas e esta cabana, quiçá, pertença de Quasimodo; continuando mais para sul, nestas redondezas, Pousadas Velhas e a casa do sequestro; e, ainda mais a sul, a casa de férias naquele maldito Algarve… Coincidência e, se o era, bem estranha e suspeita, não?! Tudo tão perto…

Susana sentia o coração nas veias, a respiração algo ofegante. Isabel, apertando-lhe a mão, puxou-a para si e apressaram a passada, redobrando cuidados até chegarem junto dos enormes cactos. Descobriram uma entrada por entre os picos medonhos e ameaçadores e estacaram de imediato no sentido de, apurando a visão e a audição, certificarem-se que não havia ninguém por perto. Dois passos mais e passaram a entrada, ficando a descoberto entre aquela inóspita cercadura e a pequena e velha cabana.

Será que é aqui que vive o meu Quasimodo?, questiona-se Susana.

Rodearam-na, tentando vislumbrar o seu interior através das quatro janelas e, quedando-se hesitantes junto à única porta de entrada, empurraram-na por estar entreaberta. Uns segundos mais e, não sentindo qualquer movimento, aventuram-se no interior naquela que era uma cozinha e sala numa única divisão. Olhando à volta demoradamente, completamente imóveis, reparam que atrás da porta existe um armário alto e estreito, com duas portas de alto a baixo em que uma delas se encontra aberta e uma luva preta no chão. Isabel, enchendo-se de coragem nesta devassa de propriedade alheia, abre totalmente as portas, de par em par. Ficam ambas estarrecidas com o que descobrem: além de um par de luvas – o que em si mesmo nada tem de especial – encontram pendurados num cabide um fato inteiriço preto, uma cabeleira postiça quase completamente calva e uma caixa, também preta, o que também não tem nada do outro mundo. O que tem quase do outro mundo é o que guarda a caixa: uma máscara de silicone da cor de pele que provoca em Susana um grito e um arredar incontidos. A sua perplexidade assenta como uma luva naquela máscara. Só lhe faltam, no sítio dos buracos, uns olhos doces para que aquele seja o rosto do seu anjo protector. Isabel percebe tudo o que vai na cabeça de Susana, abraça-a sem trocar uma palavra e pega cuidadosamente naquela máscara grotesca tão perfeita, tão verdadeiro este invólucro simulacro, tão humano…!

Olhando novamente ao redor, os olhos de Isabel detêm-se por baixo da mesa corroída da sala. Na saliência redonda e proeminente do velho soalho desbotado, por baixo de um velho tapete árabe, ainda com migalhas de pão. Susana, ajoelhando-se e levantando a ponta do tapete, descobre uma argola como sendo o puxador de um alçapão. Olhando-se cúmplices nem foi necessário combinarem estratégias. Havia que descobrir o que havia escondido debaixo daquele chão e, para isso, com todo o cuidado, arrastaram um pouco a mesa e, enquanto Isabel enrolava uma ponta do tapete, Susana pega na argola e puxa. Puxa e nada. Isabel ajuda até que, muito lentamente e evitando ruídos, conseguem levantar e pousar aberto aquele pesado alçapão. Percebem uma escada estreita, íngreme e a escuridão total lá em baixo. Ficam alguns segundos como que recuperando forças para a descida que se impunha. Susana foi a primeira a escorregar para aquele abismo, procurando, debalde, um interruptor de luz. Não teve outro remédio que usar o isqueiro da Isabel. Descem cuidadosamente, pé ante pé, degrau a degrau que eram sete e chegam a uma porta fechada apenas com o trinco. Cuidadosamente empurram-na, rangendo, completamente para trás. A chama impotente para alumiar o que quer que fosse apenas serviu para que descobrissem, finalmente, um interruptor na parede. Isabel, tomando a dianteira, aventura-se naquele gesto trivial mas agora ousado de acender a luz da cave sombria.

Várias luzes brancas, muito brancas, se acendem no tecto e ambas ficam paralisadas com o que aquela claridade lhes revela. Perante um novo mistério, tomam consciência do lugar onde se encontram: sala ampla constituída por uma única divisão e um grande biombo a dividir o espaço que deveria ser maior do que a própria cabana, prolongando-se muito para além da área da casa, portanto. As paredes, o chão e o tecto pintados de um branco irrepreensível e, apesar de não existir qualquer janela, aquele espaço era luminoso e agradável, contrastando com o piso superior. À direita, a toda a largura da cave, existem três monitores, sendo que um deles ligado. Aproximaram-se e reparam que aquela que parecia ser uma imagem de um quarto de dormir era – nada mais, nada menos – a imagem do quarto de dormir… de Susana! Sem perceber o que estava a passar naquele canal de TV não lhe subsistia qualquer dúvida que aquele era o seu próprio quarto, a sua própria cama, a sua própria colcha e, em tempo real, avaliando as 13:33h do seu despertador. Estarrecida, olhando Isabel nos olhos e neles vendo a sua própria indignação reflectida, permaneceu imóvel sem perceber patavina de tudo aquilo. A cabeça rodava por dentro a velocidade vertiginosa tentando alinhar pensamentos mas, qual quê, nada conseguia fazer sentido naquela pobre cabecinha.

Nas paredes lisas apenas havia umas prateleiras cheias de livros de medicina e anatomia. Uma banca comprida repleta de ampolas cheias e vazias, frascos e tubos, instrumentação cirúrgica, etc. E um armário enorme cheio de mais frascos e caixas de medicamentos, ladeado por um pequeno frigorífico e uma arca congeladora. Pensaram mas não lhes sobrou tempo de se atreveram a abrir a arca… Um barulho de batimentos secos e ritmados vindo do outro lado do biombo suscitou-lhes maior interesse e curiosidade. E medo! Enquanto se dirigiam ao lado oculto da sala, Isabel aproveitou para fechar a porta e redobrar a acuidade auditiva enquanto Susana, avançando um pouco mais e, deitando mão à cortina branca plastificada, intenta fazê-la correr ao longo do varão preso no tecto. À medida que vagarosamente a vai fazendo deslizar, depara-se com vários aparelhos de que não sabe os nomes, utilizados nas enfermarias dos hospitais. Mais, a pouco e pouco, todo aquele cenário lhe vai dando a sensação de que se encontra numa qualquer UCI de um qualquer hospital de uma qualquer cidade. Até pelo odor que paira naquele lugar subterrâneo envolto em éter e mistério. Luzinhas da instrumentação que piscam; abrindo mais o biombo, monitores que diante dos seus olhos incrédulos lhes mostram gráficos e curvas sinusoidais esverdeadas; números que acrescentam e diminuem noutro monitor, abrindo ainda mais o biombo.

Esta é a parte em que as intrusas teriam preferido, talvez, nunca terem entrado naquela casa, vasculhando e devassando o que lhes não pertence e correndo riscos, sabe-se lá, de morte!

Lado a lado, duas marquesas. À cabeceira de cada uma delas, tripés com frascos de soro ou outra qualquer droga pingando. Duas máquinas de respiração assistida e vários tubos e fios percorrem pendentes o espaço que medeia entre os aparelhos e o debaixo de ambos os lençóis de um branco irrepreensível que cobrem dos pés – se é que são pés – à cabeça – se é que é cabeça – dois corpos – se é que são corpos.

Afigura-se-lhes – pelo tamanho, volume e contorno – que ali alguém jaz. Até porque, reparando com atenção, há um ritmado oscilar para cima e para baixo daquilo que parece ser um corpo, um peito.

Toda aquela panóplia de tubos e fios se esconde por baixo dos lençóis. Debaixo dos lençóis há uma panóplia de mistérios que se escondem dos nossos olhos e entendimento.

Susana olha Isabel ao seu lado, não se sabe se pedindo ou incutindo coragem para o que, agora e com urgência, se impõe. Está-se mesmo a ver, Susana não descarta, e aproximando-se receosas de cada uma das marquesas até ao lugar das cabeças – se é que são cabeças – e, agarrando sincronizadas nas pontas de cada um dos lençóis… zás, para trás! Os lençóis… e elas.

Ambas recuam, um grito abafado se solta da garganta de Isabel enquanto a atónita Susana não quer acreditar no que vê. Começa a chorar convulsivamente, abraçando-se com força a Isabel, sem desviar o olhar daquilo. Dois corpos que jazem lado a lado, nus, apenas encobertos por um lençol de um branco irrepreensível, cheios de tubos no nariz, na boca, eléctrodos no tronco, pés e cabeça e máscaras de respiração artificial para além do líquido que lhes entra pelas veias.

Como é medonha esta cave às 13:40 da tarde…

As duas amigas estão em estado de choque e leva algum tempo até que recuperem. Petrificadas, permanecem abraçadas e Isabel não sabe o que dizer, apenas não consegue dizer…

Olhando aqueles dois corpos vivos, um homem e uma mulher. Que fazem ali? A que experiências sujeitos?

Porque vêem naqueles rostos os rostos de Paulo e Susana?

Porque são aqueles corpos os corpos de Paulo e Susana?

Dois rostos de olhos abertos – autênticas máscaras chinesas – inertes, sem expressão ou emoção, invocam e suscitam misteriosos desígnios, sabe-se lá de quem e para quê.

Soluçando, com o ranho deslizando pelos lábios, Susana – como se vendo ao espelho e não se reconhecendo – sente-se uma estranha dentro do seu próprio corpo, sente a alma no cérebro…

Quem sou eu, meu deus?




José Manuel Barbosa

4 comentários:

Mikashi disse...

Meu deus...que texto fantástico...a história entrou num ritmo alucinante... :) Boa Zé :) Excelente produção! :)

Dina Rodrigues disse...

Mais dois clones... mas que imaginação, Zé!

Liz disse...

Parabéns, Zé! Este desenvolvimento está fantástico e deixa a possibilidade de vários caminhos.

odili@ disse...

Voltei aqui a ver as novidades, reli e fico extasiada perante tal imaginação!!! O que vira a seguir?!... Agora tudo pode acontecer... e eu a pensar que o conto estava perto do fim.O que parecia ser uma historia de amor é agora um policial de gabarito!!! Parabéns, Zé. Bem digo eu que a imaginação não tem limites...e os contos são infindáveis, basta querer...
Quem se segue? Aguardo...