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domingo, 19 de agosto de 2012

Os Segredos de Sobreiro Aparado - Capítulo 15

A noite mostra-se escura como breu. As árvores em sombras disformes sugerem corpos fantasmagóricos a erguerem braços de raiva ou vingança. Pelos campos em redor, uma sinfonia de sons faz-se banda sonora de um filme de terror feita de coaxar de rãs, de estridentes grilos e de toda aquela chinfrineira própria de bichos sem nome. Na torre da igreja, tivesse o sino electrónico as baterias que lhe retiraram para que não incomodasse os sonos, bateriam as quatro da manhã. Tudo dorme. As pessoas, as casas, as almas, os sexos. E no silêncio naturalmente instalado, a vida somente respira pelas narinas do que à morte se assemelha e por aquele vulto, de andar estranho, que pelas vestes mais negras que o negro da noite, só uns olhos especiais conseguiriam ver.
 
 

Traz na mão uma tesoura de poda e meneia as ancas num andar amaricado – que tenta conter de dia mas que liberta aliviado à noite – até se deter nos ramos já muito despontados do sobreiro. Esta noite terá cuidado. Da última vez partiu uma unha e na vez anterior esqueceu-se de tirar o dedo do sítio onde a lâmina cortaria. E o que mais o magoou não foi a dor que sentiu nem o sangue, que horror!, que jorrou. Foi ficar com o dedo entrapado e ter de ouvir disparates como “oh Etelvina, meteste o dedo no cu?” quando, como é sabido, o cu não tem dentes e ele não se chamava Etelvina mas sim Leocádio. Compreendia que Leocádio não era de pronúncia fácil mas…Etelvina! Ao menos que lhe tivessem chamado Anabela porque Anabela, sim, era um nome que o encantava, a denunciar ao seu imaginário uns louros cabelos compridos como gostaria de ter.

Mas não tinha. Tinha antes um cabelo preto encrespado sabe-se lá se por cruzamentos ancestrais de negros de sexo caído e negras de mamas tão flácidas como os anteriores. Mas não ia agora pensar nisso. Queria lá saber da família. Já lhe bastava a praga que lhe fora transmitida na obrigação de podar aquele sobreiro em que o avô se enforcara, o pai cortara, e, mal morto, lhe coubera a ele em sorte ter de o aparar às escondidas. E esta era a parte estúpida, quase absurda. Para quê aparar um sobreiro? Para fazer justiça à placa toponímica? Não seria mais fácil mudar-se a placa e chamar à terra sobreiro espigado? Mas o testamento tinha sido bem explícito. “Condições Fundamentais” lera o advogado – por sinal bem jeitoso – no escuro escritório de mogno: “para receber o tesouro referido, deve o herdeiro fomentar a intriga e o ciúme no lugar designado como “Sobreiro Aparado” de modo a que a diminuta população se extermine a si própria. Só nessa altura o sobreiro, ininterruptamente aparado nas alturas convenientes, será finalmente arrancado de modo a que o tesouro fique em condições de ser entregue.”

E pronto. Por causa de um testamento ridículo, ali andava ele noite dentro a cortar a guedelha à estúpida árvore. Porque esta era em definitivo a missão mais difícil. A outra…oh, não fosse ele mulher em corpo de homem, tinha sido como quem limpa o cu a meninos, salvo seja, porque não era dado à pedofilia. Bastara-lhe arranjar um traficante de droga, um padre que a consumia, uma putéfia, grande vaca, chamada Albertina e um polícia com tomates nos miolos, para que todos em segredo se fossem matando.

Só uma coisa não estava a funcionar no destino por ele engendrado. Aquele agente, o Morgado, não estava nos seus planos. Aquilo não era um pão, era uma padaria inteira. E ele estava prestes a apaixonar-se. Deveria declarar-lhe o seu amor? Não, não podia. A sua missão era a de criar conflitos mas manter-se fora deles. Insinuar-se, então, com ele? Mas, e se, por acaso, também o Morgado era uma aberração com desejo de mulheres? Não, era impossível porque até lhe dava vómitos. Pois, mas e se era? Pensara, dormira e acordara a pensar, até que de tanto o fazer descobriu a resposta mais óbvia:

Quando todos tivessem morrido, receberia finalmente o tão desejado tesouro que supostamente estaria enterrado sob aquele monte de cortiça. E nessa altura, rico e a merecer respeito, faria a almejada operação. Ficaria linda no seu corpo novo que nunca o seu apaixonado poderia rejeitar. Depois, saradas e disfarçadas as feridas em previdente retiro, aparecer-lhe-ia sensual e irrecusável, e diria: estou aqui, meu amor. Chama-me Anabela.

Ah, porra que já cortei outro dedo.

   João J. A. Madeira

4 comentários:

Luisa Vaz Tavares disse...

Este sobreiro cada vez mais surpreendente. Fantástico, João. Com a escrita de excelência a que já nos habituaste.

Dina Rodrigues disse...

Realmente, só cá faltava um transexual e um tesouro no grande enredo da nossa história... Como de costume, a tua escrita cativa. Gostei muito João!

Planeta M (Marlene) disse...

Muito bom mesmo. Uma escrita que se entranha e da qual não desgrudei enquanto não terminei a leitura.

Clementina Barros disse...

Gostei imenso João, Como sempre uma escrita excelente.
Leocádio ou Anabela boa sorte com o
Morgado. Quem sabe?