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sábado, 8 de setembro de 2012

Os Segredos de Sobreiro Aparado - Capítulo 18

- Ó Ti Manel, olhe que eu não sei. Se o gajo telefonou lá para a Aldina é porque alguma tem em mente. Aquele não dá ponto sem nó.
 
 
Talvez o Leocádio tivesse razão, mas isso era o que menos importava àquele amanhecer de Manel dos recados. A mota e o carro que tinham partido ao mesmo tempo que chegavam, chiando travões, esses sim, é que não lhe saiam da ideia. Que diachos faziam ali duas viaturas, àquela hora? Teriam vindo trazer ou buscar alguém, ou alguma coisa? Ainda se fosse só o carro, até podia ser o do costume, o Morais. Sim, que ele sabia que o dr. Morais se perdia por ali, em dias certos da semana, àquela hora. Nunca entendera muito bem porquê, pois se era ele quem mexia os cordelinhos bem podia encomendar o serviço a qualquer um que estivesse em carência. E nem sequer precisava de lhe pagar, bastava satisfazer-lhe as necessidades. Mas preferia fazê-lo com as próprias mãos. Ele lá saberia porquê.
 
- Ó Ti Manel, que está para aí a matutar homem? Estou para aqui, há que tempo, a falar pró boneco…
 
- O que é que tu queres, Etelvina?
 
- Dizia eu que se formos até à mercearia somos capazes de apanhar qualquer coisa.
 
- Pois então vai lá, anda despacha-te!
 
- E o Ti Manel não vem?
 
- Eu tenho de ir a Lisboa, mas volto logo. Espera por mim que temos de falar.
 
- Falar, Ti Manel? Eu espero mas olhe que vossemecê não faz o meu género.
 
- Diabo do fedelho sempre feito mariconço. Vai-te lá, anda!
 
A batida da porta de um carro interrompeu a conversa. Àquela hora, em que o sol ainda mal se desenrolara do novelo que o fizera levantar no horizonte, quem é que já andava por ali a bater portas de carros? Ah, era Morgado. Aquele sim, aquele fazia o seu género. Ai se ele quisesse, seriam tão felizes. Ele é que não queria. Não queria, ainda. Mas quando, finalmente, parecesse aquilo que na realidade era, aí é que não resistiria. “Quando lhe aparecer, linda e escultural Anabela, vai ser uma intensa e tórrida paixão.” Mas que estava para ali a divagar? Tinha era de despachar o assunto, o quanto antes, para, finalmente, se livrar daquela prisão em corpo masculino.
 
- Ti Manel?... Oh, já se foi…

Encolheu os ombros e, dando meia volta sobre si próprio, encaminhou-se para a mercearia. Já estava aberta, pois claro, a Aldina madrugava. Ou se calhar nem voltava a deitar-se depois das alucinações que sempre lhe antecediam a alvorada. Estava aberta e alguém de mau feitio gritava, lá dentro.
 
- Vai chamar a outra, já disse! Quero falar com as duas.
 
- E eu já disse que ela não está.
 
Ai, não podia, que deus lhe acudisse! Acabara de apaixonar mais um bocadinho. O seu homem tinha mau feitio, que excitação. Se pudesse mesmo agora dava largas à fera que prendia dentro de si. Mas ainda não era hora. Ele que a aguardasse, que veria o que era bom. Para já que ficasse para ali aos gritos com a velha. Quem não se ia lá meter, era ele. E depois se o corpo o atraiçoasse? O melhor era ir-se dali, não fosse o diabo tecê-las e o seu corpo, que era de homem mas sentia como se de mulher se tratasse, se rebelasse contra a sua vontade. A igreja, na igreja sempre se ouvia muita coisa, e dali a bocado era hora da missa da manhã, se já houvesse novidades do padre ou da Albertina mais do Seguro, algum zum-zum por lá se ouviria.
 
O padre que substituía o Joaquim chegava cedo, ainda faltava uma hora e a porta já estava escancarada. Só podia ter sido ele a abrir a porta daquela maneira, desde que o Octávio fora desta para melhor que mais ninguém se tinha chegado à frente para desempenhar as funções de sacristão. Quer dizer, chegar até tinha chegado mas não interessava ao padre Joaquim. O Octávio estava, tanto quanto ele, enredado nos meandros do negócio. Podia fazer tudo à vontade. E com outro qualquer já não seria assim. Bem, mas já que a porta estava aberta e, assim como assim, sempre tinha que esperar, aproveitava e metia conversa com o novo padre. Ainda não tinha tido esse prazer, quem sabe não seria algum jeitoso que até o deixasse com a vista lavada. O Joaquim não estava nada mal, não fosse ter-se deixado enfeitiçar por aquela cabra da Albertina e podiam ter dado umas boas voltinhas.
 
Mas não tinham dado e, voltinhas, dava ele, agora, à porta da sacristia, enquanto, com um bandear de ancas, que não lhe apeteceu reprimir, se preparava para bater. Mas, alertado pelo barulho de uma porta que se abriu e fechou, na outra ala da igreja, em frente da sacristia, só teve tempo de se esconder dentro do confessionário, que foi o que encontrou mais a jeito. “Porra, que esta igreja tem mais buracos que a magana da minha avó”. Outro sobressalto daqueles e ainda lhe dava uma coisinha má. Não é que fosse assustadiça mas pairava ali qualquer coisa no ar. Deitou a cabeça de fora para se certificar que já podia sair do esconderijo e o sobressalto foi ainda maior.
 
Cruzes, credo, que estava a ficar com o miolo mole. Então não é que tinha acabado de deixar a Aldina aos gritos com o Morgado, lá na mercearia, e agora estava a vê-la sair à porta da igreja, depois de ter saído daquele compartimento que nunca tinha visto em frente da sacristia, na outra nave da igreja? Mas que raio guardava aquela porta? Mais um dos segredos de Sobreiro Aparado? E ele que estava convicto de já ter desvendado todos os segredos daquele maldito lugar. Assim não, assim nunca mais cumpriria a missão que tinha herdado em testamento, e nunca mais ficaria com o tesouro e nunca mais se transformaria naquilo que sempre tinha sido. Bolas, que derrubou o missal atrás do altar. Era melhor despachar-se, antes que começassem a chegar as pessoas para a missa. Esgueirou-se para traz de uma coluna e, já bem perto da tal porta, ouviu vozes. Havia pessoas lá dentro, e eram mais que uma mas Leucádio não conseguia perceber o que diziam. Só quando chegou junto à porta…
 
- Cabra, por tua causa, estamos nesta situação.
 
- Foste tu que me mandaste meter com ele, lembras-te?
 
- Para o distraíres, não para viveres uma paixão arrebatadora.
 
Dizia o Manel dos recados que o gajo não voltava…
 
Luisa Vaz Tavares

2 comentários:

Dina Rodrigues disse...

Esta história está a ficar complicada... mais personagens novas?

Clementina Barros disse...

Vamos lá ver, quem vai por ordem, nesta gente toda.
Gostei muito Luisa.