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segunda-feira, 27 de maio de 2013

A Morte dos Cipriotas - Capítulo VIII

- Não tenho ninguém. Ninguém se importa comigo.
- Com certeza que terá alguém…
Carlinda insistia com Rafael. Tinha de haver alguém a quem ela pudesse informar sobre o acontecido. De manhã tinha-o deixado partir sozinho, tinha chamado a ambulância e isso bastava. Tinha feito a sua obrigação de prestar socorro a quem dele necessitava. Mas ao longo do dia, no trabalho, não deixara de pensar no episódio que tinha abalado a sua rotina matinal. Os gemidos aflitivos, a descoberta daquele homem estatelado no meio das rochas e, aqueles olhos brilhantes de dor mas ainda assim capazes de lhe dizer palavras que nunca ninguém lhe havia dito, inquietavam-na de uma forma estranha. Devia tê-lo acompanhado ao hospital.
 
Não tinha aguentado a ansiedade e ainda faltavam uns bons quarenta e cinco minutos para a hora de saída quando pegara na mala e, perante a indignação do chefe, dissera até amanhã. Sem qualquer explicação, tinha deixado o trabalho e, a passos largos, tinha ido até à paragem do autocarro. Não para ir para casa, mas para ir ao hospital. Nunca tinha feito aquilo, sempre fora demasiado cumpridora, mas naquele momento sentiu que estava a fazer a coisa mais correcta do mundo. Quando, na recepção, perguntara pelo acidentado que tinha dado entrada pela manhã, logo a informaram do seu estado como se aguardassem para dar aquela informação há tempo demais. Ninguém tinha perguntado por ele e ele também não tinha dado qualquer indicação de que houvesse alguém a ser informado. E agora, ele próprio, lhe dizia que não tinha ninguém.
Instintivamente, Carlinda agarrou-lhe a mão entrapada com compressas e tubos pendentes que lhe infundiam líquidos anestesiantes nas veias. Estava sonolento mas aquele gesto fê-lo olhá-la com profundidade. Carlinda sorriu tímida, mas não desviou o olhar. Reparou que tinha os olhos cor de mel, transparentes como um lago de areias calmas, e mesmo atordoados pela sonolência transmitiam um imenso conhecimento da vida. Não disseram mais palavras. Ela ficou ali, segurando-lhe a mão até ele adormecer e despediu-se com uma com uma carícia no rosto.
Liberto esperava-a à entrada do jardim e assim que a avistou, ainda lá distante, correu ao seu encontro, abraçando-a, com os olhos marejados em lágrimas e o coração aos saltos.
- Mãe… mãezinha, que bom que voltaste!
- Claro que voltei. Volto sempre, porquê essa ansiedade?
- O pai… o pai partiu de manhã. Eu não o vi partir mas quando cheguei da escola ele não estava e o avô disse que ele tinha partido de manhã… nem me deu um abraço antes de ir embora. Ficou tão pouco tempo desta vez…
Carlinda sossegou o coração do filho. Era assim, o trabalho do pai. A vida não estava fácil e o pai tinha de trabalhar muito para que todos tivessem uma vida confortável. No entanto, a ela não lhe suscitava qualquer estranheza a partida súbita do marido. Sentia-se, de certa forma, aliviada. Não o queria encarar depois da noite anterior. A intimidade tinha sido forçada e até dolorosa. A indiferença era um fosso que se cavava cada vez mais intransponível, entre os dois.
Arturo observava-os. Filha e neto aproximavam-se num gesto simples que pode mudar uma vida. Um abraço! A vida já não teria muito mais para lhe dar, contudo, já lhe dera o suficiente. E tornou a recostar-se no aconchego da sua ténue lucidez. Amanhã seria um novo dia e o destino marcar-lhe-ia a hora mas para já a única coisa que tinha para fazer era aguardar que Carlinda o chamasse para jantar.
Notara que ela tinha chegado mais tarde do emprego e agora cantarolava enquanto ultimava a refeição. Não fizera nenhum reparo relativo ao facto de Libânio ter partido de forma tão precipitada. Decerto, era aquele o futuro há muito anunciado. E Liberto parecia ter esquecido a partida do pai, pelo menos por enquanto.
Avô, fala-me do livro que estavas a ler hoje à tarde. Mais uma vez, voltaram a embrenhar-se no mundo das histórias só dos dois e Carlinda deixou o pensamento resvalar para os acontecimentos do dia. Para Rafael. Os traços marcados do rosto incutiam-lhe um certo ar de experiência, de quem já tinha passado por muito nesta vida. Não que fosse velho, teria mais ou menos a idade dela, mas, com certeza, teria tido uma vida muito mais vivida. Dissera que não tinha ninguém, algo que ela não entendia. Nunca tinha conhecido alguém que não tivesse ninguém. Toda a gente tinha alguém, nem que fosse um parente afastado.
Acordou cedo, na manhã seguinte. Sentiu necessidade de caprichar na aparência e levou quase uma hora para decidir o que vestir. Precisava de ir às compras, pensou. Decidiu-se pelo vestido azul-marinho que lhe realçava as formas e a pele morena, o único que tinha. Comprara-o por insistência da prima Isabela, na altura da celebração do baptizado do neto. Olhou-se ao espelho e gostou do que viu, e, principalmente, do que não viu. Ruborizou ao pensar na sua ousadia. Por baixo do vestido tinha um dos conjuntos de lingerie que guardava no fundo da gaveta dos seus pecados. O seu segredo mais bem guardado era aquela gaveta, nela guardava várias peças de roupa intima, arrojada e provocante, que nunca tinha tido a coragem de usar. Comportava-se como se se preparasse para ser admirada. Seduzida. Despida por mãos quentes e apaixonadas.
Tinha prometido a Rafael, enviar-lhe as cuecas do dia anterior. Deixou-as de parte para depois fazer um embrulho perfumado e saiu.
 
Já no trabalho, o tempo arrastava-se devagar. Programara ir ao hospital, apenas, durante a hora de almoço. Temia mostrar-se demasiado ansiosa, por um lado, e, por outro, sabia que o senhor presidente estaria ausente durante a manhã, o que lhe poupava as explicações sobre a saída intempestiva do dia anterior.
Rafael esperava-a. Ela não tinha dito que iria mas ele sabia, sentia que Carlinda voltaria. Um mar de azul irradiou-lhe o olhar quando a viu deslizar até si. Como uma brisa marítima a inebriar-lhe os sentidos.
- Seja bem-vinda, refrescante brisa marítima!
- Ora, ora, vejo que já está melhor. Já recuperou o sentido de humor.
- Recusei o bilhete de ida para o céu… é que na terra também há anjos. E além disso, ainda tenho um presente para receber…
Os gestos, os olhares e as palavras fluíram naturais como se a cumplicidade fosse um estado inato das suas duas almas… e quando Carlinda saiu, o olhar de Rafael pronunciava ternamente:  
- Espero-te…
Luísa Vaz Tavares

2 comentários:

Luis Reina disse...


Gostei muito. Vamos lá ver como vai acabar todo este trama.
Parabéns.

Clementina Barros disse...

Apaixonante!
Parabéns Luisa