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quarta-feira, 6 de abril de 2016

Razão de Existir - Capítulo V

Há realidades que não se compreendem e como tal, a única hipótese é fingir que sonhamos. É confortável resguardarmo-nos em pensamentos flutuantes, mesmo que sem nexo, que nos amortecem os sentidos e nos deixam livres para encurralarmos a realidade num local onde ela não nos possa atingir.
Sebastião tentou refugiar-se nesse pensamento mas os anos de vida e a acuidade que os tempos de guerra lhe tinham cravado na alma, tornaram impossível escapar do que tinha ouvido.
Pegou silenciosamente no velho casaco e ensaiou titubeante o caminho para a rua.
Estava um dia quente a despertar os cheiros da serra, das flores campestres abertas num parto sazonal, do céu ainda puro e despido da contundente mão humana. Mas Sebastião apenas se apercebia dos estalidos dos sapatos na terra do caminho. Não acreditava no destino traçado em linha reta. Os seus 90 anos tinham peso suficiente para lhe colocarem a vida, arrumada num fio de prumo sem grandes estridências. No entanto, os pensamentos que agora o atordoavam tinham o seu quê de demencial.
A única criança com quem se relacionara fora Sara. A miúda trazia-lhe a rotina desfeita, o gosto pelo ensino, a partilha da sua vívida experiência. Apesar da matreirice que lhe adivinhava, nunca vira nela qualquer atitude que o fizesse afastar de alguma possível mentira. Era apenas uma criança que fazia a vida recuar e lhe puxava pelos resquícios da memória, a roubá-lo às horas de uma vida de tédio.
Caminhava em passo cadenciado ao lado dos policiais e entretanto todos se tinham remetido a um sinistro silêncio. Avançavam num automatismo desfocado, a absorver o pó do caminho, os sentidos embotados pela mancha de sol.
Sebastião experimentava uma estranha consciência, contudo, sem a lucidez da fala ou de gestos.
Dava voltas à cabeça para perceber o que poderia ter feito de errado no convívio com Sara. É certo que a sua experiência com crianças era nula.

Quando voltara de África e revira Maria da Conceição muitas dúvidas o tinham assolado. Aquela que fora o seu primeiro e grande amor, casara com outro. Também,  que esperava ele após tantos anos sem se verem? O tempo urge e ambos já tinham entrado na casa dos 30. A “sua” Sãozita sempre lhe dissera  com veemência que gostava de ter filhos e Sebastião até achava que essa paixão, era nela maior do que a fome de um aconchego saboreado na sofreguidão da juventude. Como podia pois condenar-lhe a decisão?
Por muito que a mágoa lhe tivesse cartografado a alma demoradamente, Sebastião já tinha demasiadas cicatrizes para não aguentar mais uma. O maior problema fora conhecer Inês.
Deu por si a observar cada traço, as brincadeiras pueris, as cantorias, num esforço para lhe encontrar semelhanças consigo. As palavras da mãe, inocentes ou não, tinham semeado nele a dúvida dilacerante. Fazia consigo mesmo diálogos impertinentes, que se esgotavam em escolhas e bifurcações, mas nunca fora capaz de falar com Maria da Conceição.
A lembrança de uma tarde de Setembro estava presente nele. A cegueira dos enlaces, a doçura das pálpebras fechadas dela, a loucura cega dele, os sussurros enrolados de boca a boca, os dedos como andarilhos a peregrinarem a pele e o cheiro que guardaria com ele, mesmo que agora, a sua pele já não tivesse idade de tão gasta. Não tinha o direito de desfazer a alegria composta de uma família, só para satisfazer o que o roía e aquele silêncio gritado dentro dele.
E assim seguira vida fora sem saber se uma criança lhe traria uma felicidade sustentável. O pouco que sabia de crianças saía-lhe do coração em pequenas vagas imprecisas mas cheias de bondade e todos os seus gestos e palavras, mais não eram que um amontoado de ensinamentos sem sombras nem ardis.

À medida que se aproximavam do local do interrogatório, Sebastião sentia frio e o corpo lambido pelo pálido sol não apaziguava aquele veneno que se começara a infiltrar nele. O indizível e inesperado secava-lhe a boca, mesmo que a razão lhe gritasse calma.
Entrou no posto com a tristeza de quem parte numa última viagem.

Do outro lado da rua, o vento primaveril bordava de uma poeira avermelhada a frontaria das casas, talvez como um prenúncio de uma trama vil e de um inferno por chegar. Encostado à porta do Paladino, de braços cruzados e com uma arrogância vencedora no porte,  Ricardo sorria num esgar canibalesco. O seu plano dera resultado.


                                                                                          Margarida Piloto Garcia


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