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sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Em Busca da Verdade - Capítulo XIII - Final

Fotografia © João J. A. Madeira 

Tudo parecia ao contrário. Tudo era uma mentira. Até o pisar da areia era sentido como se a areia a pisasse. Um peso nunca experimentado sobre si, uma sofreguidão de ar que parecia não existir senão no braço da mulher polícia que a encaminhava por entre gente ávida de dramas, sedenta de tragédias que à noite pudesse narrar à mulher e aos filhos. E ela. Ela que não comandava sequer os passos obedientes que em frente, frágeis, titubeantes, se ordenavam um após outro, sem que fosse essa a vontade de quem os seus pés deveria comandar. Haviam-lhe pedido que identificasse um corpo. Mas ela sabia bem qual o corpo que reconheceria. Só não entendia a razão.
Ainda distante viu aquele vulto deitado coberto por um pano branco. O espaço de metros à sua volta delimitado por uma fita amarela que para si se abriria. Os polícias mantendo à distância uma multidão que não cessava de se avolumar. Nos altifalantes da praia alguém teria feito calar uma despretensiosa música de convite à dança e ao abandono dos corpos. Talvez porque não exista maior abandono num corpo que a sua própria partida.
Os sapatos a enterrarem-se na areia antes de a mulher polícia lhe pedir coragem, a ela que vacilava, a ela cujo peito nem da brisa do mar se enchia, a ela que se pudesse nem olhos teria para ver a agente ajoelhar a farda e, lentamente, muito lentamente, demasiado lentamente, pegar numa ponta do pano e deslizá-lo sobre o rosto que se ia descobrindo. O coração a bater, a pulsar, cobarde como se também ele dali quisesse fugir.
E Sofia gritou. Um grito perdido e sem eco por não ter onde ricochetear, mas um grito de lâminas a ferir a gente, a ferir os guardas, a ferir os seus próprios ouvidos que a forçaram bruscamente a voltar as costas àquele homem sem vida que, num repente, parecia roubar-lhe a sua. De costas voltadas, sentiu o abraço leve e fardado que, carinhosamente, lhe perguntava se sim, se aquele ser inanimado era o corpo do homem a quem poucas horas antes amara e dera amor. E ela, revendo mentalmente a imagem que há instantes guardara, voltou-se e enfrentou de novo o corpo de cor macilenta que formigas famintas invadiam já. Viu-lhe o boné verde, os pelos de barba que há muito não desfaria. E disse que não. Aquele homem era-lhe totalmente desconhecido.
— Tem a certeza? Mas temos uma testemunha que diz tê-lo visto sair de sua casa… - e de imediato se interrompeu perante a chamada de um colega que em sussurro lhe falou aos ouvidos.
Sofia ficou presa àquele rosto que nunca vira, àquele boné que nunca João usaria e às perguntas que, como cascatas, não paravam de estrondear na sua mente. Até de novo ouvir os lábios da autoridade que, agora também desconfortáveis, lhe diziam que, lá mais à frente, ainda nas dunas, um outro corpo tinha sido localizado. Teria de fazer um último esforço e identificá-lo, pediu.
E os joelhos de Sofia cederam, as lágrimas da impotência e da certeza antes somente adiada, rebentaram em água, em sal, como se de ondas feitas e caídas sobre a areia. Não tinha coragem.
Mas a sua guardiã de mansas palavras, entrelaçando de novo o braço no seu, conduziu-a sobre as pequenas elevações cujos cactos lhe fustigavam as pernas anestesiadas de qualquer dor, para além da dor que, já sem reacção, dela se havia apossado.
Perante a reprodução da mesma cena, como se o tempo rodopiasse agora em invisíveis espirais que não mais teriam fim, Sofia sucumbiu ao cansaço, à derrota que aquele segundo corpo já vislumbrado à distância, sem pano que o cobrisse, lhe infringiria sem dó. Mas o destino, travesso como criança e sob a forma de um qualquer deus ou diabo, quis projectar-lhe nos olhos, à luz fugidia do entardecer, um rosto que ela conhecia, um rosto que há muito se enraizara em família mal florida. Um rosto a denunciar um esgar de dor que só a morte suspendera, um rosto também ele macilento, talvez também ele invadido pelas formigas, mas um rosto que não lamentava, que a acalmava até, porque um outro, mais seu, se perspectivava como único no seu peito e único no desvendar do novelo em que se transformara o seu cérebro. Onde estaria João? Por que estava ali, morto, o seu tio Carlos?
Ajoelhou-se perante o velho. Não chorou. Talvez porque as lágrimas necessitem de justificação e ela nada compreendesse. Identificou o homem. E de imediato lhe foi perguntado onde estava o seu marido, mas, a pergunta, somente provocou que os seus olhos dessem vida à nascente que ela pensara já seca. E num choro mudo, lambendo cada gota, murmurou “não sei” ao mesmo tempo que todo o discernimento restante se focava no horizonte imediato, na linha divisória entre a areia e o passadiço da praia.
E os seus olhos, o seu peito, as suas forças como que ganharam vida. Conhecia aquele jeito de andar, aquela roupa, aquele vulto na distância, tão bem como a si se conhecia.
E, de um salto, surpreendendo a polícia, a multidão, deu às pernas a firmeza que antes lhe havia faltado, o querer que pensava perdido, e correu pisando covas e montes de areia, deixando que voasse um sapato e libertando-se do outro e ignorando os gritos que atrás de si se manifestavam “apanhem-na, não a deixem fugir”. Ela não fugia, ela nadava nas ondas do ar em busca da sua ilha, da sua jangada, do seu náufrago sendo ela náufraga também. Que agora lhe batia no peito, destilando a sua raiva, a sua impotência, a sua frustração naquele corpo que tanto desejara presente e que, finalmente, lhe segurava os braços, lhe procurava os lábios, lhe pedia perdão. Contar-lhe-ia tudo, disse ele.
Em poucos segundos se viram rodeados pelos guardas. João, prendendo na sua carne a carne que sempre soubera querer, olhou firmemente a mulher polícia.
— Esclarecer-vos-ei de tudo. Somente vos peço uns instantes para que o explique a quem mais necessita de explicações. Vocês são muitos. Não conseguiria fugir e não pretendo fazê-lo.
— Tudo bem – respondeu a mulher fardada da qual recebia masculina pose – Tem o tempo necessário até à chegada do agente da Judiciária. Nem mais um minuto.
E então João contou-lhe. Contou-lhe que depois da saída dela, saíra também e, ao fazê-lo, se deparara com aquele homem de chapéu verde que, tudo o indicava, acabava de sair do jardim. Intrigado, resolveu segui-lo até se esconder atrás de uma duna, muito próximo do local onde ele se deteve. Conseguiu perceber que o sujeito se preparava para se drogar, como infelizmente era usual naquela praia. E então decidiu falar com ele antes que levasse a cabo os seus propósitos. Questioná-lo pela razão de por duas vezes se acercar da sua casa. Mas no momento em que se erguia por detrás do seu esconderijo, sentiu que outra pessoa se aproximava.
— Era o teu tio, Sofia. O Carlos.
— O meu tio? Mas ele…por favor, continua.
“Ouvi o teu tio perguntar ao homem se já tinha feito hoje o que haviam combinado. Ao que o outro respondeu que tinha lá ido – a nossa casa, depreendi – mas não tinha feito nada e não iria lá mais. Que aquilo não era trabalho para ele. Roubava quando tinha de ser, por necessidade, mas andar a pregar sustos às pessoas, além de considerar ser uma coisa estúpida, não era para o seu feitio. Ele – o teu tio – que lhe pagasse conforme combinado e tratasse de arranjar outra pessoa.”
“Estavam muito próximos um do outro, eu conseguia vê-los por uma nesga entre dunas. O teu tio numa pose arrogante, mãos enfiadas nos bolsos de um casaco de verão, lançou ao ar uma gargalhada que até a mim magoou pelo desdém, pela humilhação ao mais novo. Respondeu-lhe a rir num tom jocoso, trocista, de pessoa que se sente acima de todos, que o homem devia ser doido varrido se pensava que ele alguma vez pagaria um cêntimo a um ladrão, a um drogado, a um vagabundo de merda que mais não fazia que transformar em merda este mundo”
“Depois, quase não vi os gestos por nem eu contar com eles. Um movimento brusco, o fugaz brilho de uma lâmina que no corpo do teu tio se enterrava fazendo-o vergar-se, ao mesmo tempo que um grito lancinante se misturava com o som de uma bala disparada do bolso do casaco, fazendo tombar o homem”
Sofia era a máscara do terror. Eram muitas as perguntas ainda caladas, mas o importante era o seu marido, o homem que sabia amar. E ele estava ali.
“E eu tive medo, Sofia. Instintivamente pensei fugir. Algumas pessoas tinham-me visto discutir com o teu tio e facilmente me incriminariam…
— Discutiste com o meu tio? Quando?
— Espera que a polícia me ouça. Depois contar-te-ei. Toda a verdade que tanto buscaste e que, afinal, te chegará através de mim.
— E depois?
— Fugi. Sorrateiramente, consegui esgueirar-me pelo lado contrário. Nada soube de como ficaram…
— Morreram ambos.
… mas não queria saber. Queria somente fugir para bem longe, como se isso fosse possível a pé. Acalmei, tentei recuperar toda a minha lucidez e dei por mim a pensar quanto estava a ser absurdo. Nada fizera, tu estarias certamente a ser incomodada e doía-me imaginar-te entre inquéritos e desconfianças policiais. Eu amo-te muito, Sofia, tive essa certeza durante o tempo de fuga e, para to provar, tinha de voltar.
Ficaram em silêncio por instantes. Ao longe o sol preparava a sua cama e o mar parecia recebê-lo na rotina diária da natureza. Que, ainda que por vezes não pareça, nunca se confunde, nunca se troca, relegando para os homens a tarefa do caos.
— Mas por que razão quereria o meu tio assustar-nos? – Perguntou Sofia.
— Para que saíssemos daqui. Que mudássemos de local, de terra, de país, de modo a esquecê-lo e nunca o julgar em praça pública. As mentes conspurcadas nada temem senão a vergonha. Mesmo essa não as derrota, mas obriga-as a ficarem quietas no escuro como uma criança de castigo. 
            Olhou-o intrigada, mas sabia que o tempo lhe esclareceria todas as dúvidas. Encostou a cabeça ao peito dele e, baixinho, num sussurro só audível entre duas pessoas que se entendem, disse-lhe as palavras que ele mais desejava ouvir.
— Amo-te tanto, João. Tenho agora a certeza de termos derrotado aquela mala. Criada para nos separar, foi ela que, afinal, nos juntou. Mas fico agora satisfeita por me ter desfeito dela.
— Olha, amor. Eu não teria tanta certeza disso.
Sofia abriu os olhos de espanto.
— Como? Que dizes tu?
— Volta-te e olha o mar.
Voltou-se e serviu-se da mão contra o brilho avermelhado do sol
— Que queres que veja?
Ele deu-lhe a mão e conduziu-a à areia molhada que domesticadas ondas iam lambendo. Os polícias tiveram um movimento brusco, de imediato suspendido por desnecessário. Numa rocha, a mala agarrada com a tenacidade de uma lapa, resistia resoluta pela tampa que, por força das dobradiças, salvava a caixa sem conteúdo.
— Como é isto possível se eu mesma a depositei nas águas? E as cartas?
— Vês esta estrada feita pelo sol? O mar é um carteiro como há poucos. Não encontrando quem as deveria receber, levou-as e devolveu-as ao remetente.
E no mesmo instante em que Sofia sorriu, a rocha, para seu espanto, libertou-se da mala e um homem chamou-lhes a atenção. Olharam-no e riram por aquele fato cinzento, aquele braço esticado ostentando uma carteira aberta e uma gravata que badalava a cada salto dado na fuga às pequenas ondas.
— Filipe Merlim, Polícia Judiciária. Vamos conversar?
E João olhou os olhos de Sofia. A sorrir, perguntou-lhe:
— Vamos conversar?
Ela devolveu-lhe o sorriso.
— Não é preciso. Basta que me beijes.
— Mas depressa. Tenho os sapatos alagados de água.


                                                                                              João J. A. Madeira


5 comentários:

Teresa Madeira disse...

Vitória Vitória acabou-se a história! Por momentos tive medo de termos perdido o João, mas felizmente o João salvou o João! Muitos parabéns a todos os que neste caminho participaram. Uns com mais experiência, outros com pouca ou nenhuma como eu. Foi um prazer e louvo esta iniciativa que nos desafia a todos na construção de uma história em grupo. Não é mesmo nada fácil mas vale muito a pena.

Luisa Vaz Tavares disse...

Um final que convida o leitor a pensar... na verdade, um final já anunciado.
Não gosto muito dessa coisa de "a história repete-se", mas a verdade é que acontece. Acontece na vida e aqui aconteceu também. Felizmente que com Sofia parece que se acabou o desígnio.
Um excelente final. Parabéns, João!

Cristina Torrão disse...

Também achei o final excelente, gostei muito de ler. E também adorei que o João fosse salvo :-)

Parabéns, João!

Jose Bessa disse...

Terminar, é sempre uma “acção” difícil.
Pôr fim, neste caso, a uma história, é sintetizar a teia, a trama, algumas malhas caídas e outras para esquecer; numa palavra: Fim.
E as nossas histórias, não são fáceis.
O facto de não termos um roteiro faz de nós, de cada um e a cada capítulo, o in-decisor do percurso. Quase que, e perdoem-me a imagem; como se as agulhas da rede ferroviária agissem por moto-próprio. Desconhecemos o destino por completo, e as estações em que nos apeamos são uma aventura renovada em cada autor. Por vezes uma agradável surpresa, outras, um valado a vencer. São assim as viagens memoráveis.
E as nossas histórias, são distintas por isso. E memoráveis.
Terminar uma história das nossas não é, por isso, tarefa fácil.
Os meus parabéns ao João J. A. Madeira, por o ter conseguido tão bem.

João Madeira disse...

Muito obrigado a todos. Tinha algumas hipóteses em mente. Optei por esta, talvez por não me agradar ver morrer o meu homónimo. De qualquer modo, em qualquer uma das possibilidades, teria de ter um texto justificativo de pontas ainda soltas. Preferi assim cingir-me ao presente porque, afinal e no meu entender, é disso que esta história trata. A de não prejudicarmos quem nos rodeia por culpa de erros que outros terão cometido no passado. Quanto à escrita, e sem querer sacudir a água do capote, foi o que saiu da ponta de uma caneta (teclado) que às vezes quase parece pensar por ela. Terei decepcionado alguns dos meus companheiros? Terei agradado a outros? O normal, acho eu. A literatura sempre assim foi. E será, felizmente. Um abraço para todos vós. Gostei muito desta Nossa participação.