12/10/18

Janelas de Tempo - Capítulo 14 - Final

©P. S. Fotografia


Desta vez, a chegada pareceu-lhe diferente: os cheiros, os sons, a leveza do ar, tudo lhe era familiar. Uma sensação de deja vu invadiu-lhe os sentidos, no curto tempo dos poucos segundos que se passaram entre o cessar do silvo metálico e o abrir da porta.  
Whisky saiu disparado, passando-lhe à frente e fazendo-o tropeçar. Que raio de animal, parecia que estava possuído por um qualquer demónio que por ali passara sem se deixar ver! Júlio atabalhoadamente equilibrado correu atrás do cão, que viu atirar-se nos braços de dois desconhecidos. Dois desconhecidos que pareciam esperá-lo, ou pelo menos reconhecê-lo. Só nesse momento, caiu em si. Voltava ao ponto de partida e os dois homens que afagavam Whisky eram Luís e Klaus. Precisou de mais alguns instantes para ver tudo com nitidez, mas não havia dúvidas: aquele era o armazém de onde tinha partido, há… há quanto tempo?
- Deves ter sofrido uma quebra de tensão, é natural… ao longo dos tempos, a densidade atmosférica, também ela, foi tendo oscilações.
Era Luís que se aproximava com uma mão estendida para o cumprimentar.
- Hã?! Mas do que é que ele vinha a falar? – Júlio, ainda com a cabeça à roda, interrogou-se com os botões que não sabia se trazia.
Ah, pois… as transições de época em época que vinha de vivenciar. Luís apresentava-lhe a explicação científica para a tontura que acabara de sentir. Uma recepção fria, pensou. Podia demonstrar, no mínimo, um pouco mais de afectividade, já que o tinha feito cobaia para uma experiência inédita que em muito beneficiaria os estudos científicos de Luís e Klaus. Não é que estivesse arrependido de ter entrado naquela aventura, afinal tinha-lhe permitido ver in loco, e até mesmo sentir na carne, coisas que até então só conhecia da história estudada. Muito diferente da vivida. Mas caramba, o que é que lhe custava demonstrar um pouco mais de humanismo?
Klaus vinha logo atrás, com o seu linguajar de erres carregado:
- Estamos ansiosos pelo teu relatório dos acontecimentos.
Júlio sentiu uma estranha revolta dentro de si próprio. Que se lixassem, aqueles dois. Sem qualquer explicação, saíu do armazém em direcção às ruas da cidade. Whisky correu saltitante a seu lado.
- É isso mesmo, companheiro! Eles sabem lá… as explicações ficam para depois.
Naquele tempo, que ainda não sabia dizer se tinha sido muito ou pouco, tinha percorrido o limbo das emoções de um extremo ao outro. Tinha visto o melhor e o pior da humanidade e tinha, com certeza, desconstruído muito do que até então fora na sua condição de ser supostamente inteligente. Aquilo não podia ser relatado como uma mera experiência científica.
Percorreram as ruas e travessas que os levaram até casa, num tempo que Júlio não soube contar. Aliás, contar o tempo era coisa que certamente tinha desaprendido. Entrou em casa com a sensação que tinha saído dali há poucas horas. Mas como? Se na sua lembrança tinha experiências de viagens entre tempos tão diferentes. Entre séculos. A comprová-lo ali estava o cão, que segundo se lembrava tinha encontrado lá numa Lisboa de outra época.
Correu para o frigorífico. O frigorífico podia ser uma boa prova do tempo que passara. Consoante o estado dos alimentos que ali deixara, saberia se havia passado muito ou pouco tempo. Abriu a porta, estava uma grande bagunça mas não parecia que houvesse alguma coisa em estado de putrefacção avançada. Restos de pizzas, um pacote com leite azedo, uma alface murcha e embalagens, cujas datas de validade também não o elucidavam.
Mas aquilo lembrou-o do desleixo em que vinha sobrevivendo nos últimos tempos. Na verdade, desde que perdera Laura naquele fatídico acidente e logo depois, a mãe. Que por ser mãe, talvez o tivesse conseguido agarrar antes de se precipitar na ravina da depressão psicológica que se tornou física. Lembrou-se da vontade que tinha tido de acabar com a própria vida. Ou talvez a tivesse mesmo acabado, porque aquela condição em que existia já não era vida. Lembrou-se do encontro com Luís e da fuga ao inevitável para a máquina do tempo. E no mesmo instante, dos encontros que tivera com Laura durante aquelas viagens temporais. Nunca chegaram a ver-se ou tocar-se, mas foram vários os momentos em que a sentira dentro de si.
Dava-se conta, agora, da serenidade que tais encontros lhe tinham trazido. Querida Laura, sempre tinha sido o equilíbrio para a sua imaturidade crónica. Ou talvez nem fosse imaturidade, talvez ele fosse uma daquelas almas sonhadoras que estão destinadas a não viver sem outra que as mantenha presas às coisas terrenas. Primeiro a mãe, depois Laura e mais tarde novamente a mãe, sempre haviam feito isso por si. Não admirava que tivesse ficado sem chão, quando perdeu as duas num curto intervalo de tempo.
Foi até ao quarto e abriu o guarda roupa do lado de Laura, coisa que não fazia desde a sua morte. Pegou uma écharpe colorida, que estava logo ali à frente. Provavelmente a última que usara, ainda tinha o seu cheiro. E com a peça de roupa junto ao nariz, deixou-se cair sobre a cama.
De repente, ela estava ali. Com um semblante tão colorido quanto a écharpe que usava. Peça única que lhe cobria o corpo. Aproximava-se sorrateira, enquanto ele fingia que dormia. Jogo íntimo que os dois encenavam como ritual do seu encantamento eterno e que sempre antecedia o êxtase. Era assim a paixão que sentiam e partilhavam no amor que nutriam um pelo outro. Riam às gargalhadas sem saber porquê. Mas também o que é que interessava o porquê, se no segundo seguinte estavam profundamente compenetrados nos braços um do outro, presos pelo olhar.
- Nunca mais me deixes.
- Nunca, eu nunca te deixei.
- Mas eu procurei por ti e não te encontrei. Não estavas aqui e eu fiquei sem saber o que fazer… quis ir para ao pé de ti.
- Não procuraste bem. Quando precisares, procura bem. Estarei sempre aqui… contigo!
Whisky, sentado nas patas traseiras, observava o amigo agitar-se de uma forma que nunca tinha visto. E surpreendentemente, viu-o levantar-se com todo o vigor.
- Vamos, amigão! Vamos lá fazer o relatório àqueles dois.


                                                                           Luísa Vaz Tavares    


Fim

27 comentários:

  1. Parabéns Luisa Tavares. Excelente, como já era de esperar. Adorei este final. Depois de tantas "andanças" pelo tempo, não era muito fácil, mas interpretou-o de uma forma que me deixou presa até à palavra "FIM".
    Beijinhos

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    1. Obrigada, Natália. De facto, poderia enveredar por vários caminhos, mas como a beleza das coisas está muitas vezes na simplicidade optei por aí. Beijinhos

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    1. Obrigada, Francisco.
      Outro abraço e continuação de bom fim-de-semana.

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  3. Nessas de navegar sem rumo pelos mares da internet, acabei chegando aqui, boa descoberta, acompanharei. Um abraço.

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    1. Que bom que nos encontrou!
      Espero que encontre por aqui bons momentos de leitura.
      Abraço

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  4. Sensacional! Não conhecia o blogue, descobri-o hoje e li, li e li, a história toda. Parabéns!!
    Fico à espera da próxima ;)
    Obrigada
    Beijinho

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    1. Muito obrigada, Quase Cinderela!
      Espero que a próxima história lhe agrade tanto quanto esta. Está quase a começar.
      Beijinhos

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  5. Mina querida Luisamiga

    Acabado de regressar de um cruzeiro encantador vim logo ler o epílogo lindo desta empolgante viagem pelo tempo. Muitos parabéns! Fico em lista de espera da minha vez de escrevinhar...
    Muitos qjs deste teu amigo e admirador
    Henrique, o Leãozão

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    1. Meu querido amigo Ferreira

      Fico muito feliz que o cruzeiro tenha sido encantador. Será com certeza breve a sua vez de escrevinhar e será muito agradável tenho a certeza também.
      Muito obrigada!
      Retribuo os qjs, assim como a amizade e a admiração

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  6. Alguns capítulos que peguei gostei muito. Só não volto ao 1º capítulo porque estou doente, a dor é muito forte e não tem cura. Então durmo muito, enquanto a vida passa.
    Perdão
    Beijos
    Lua Singular

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  7. Uma leitura de fácil compreensão ... nada maçadora ... que nos transporta além do imaginário e que eu gostei de ler!!!bj

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  8. Adorei...

    Você escreve muito bem, parabéns.

    Beijos
    Ani

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  9. Gostei muito.
    Espero que continuem.
    Já pensaram editar os contos em livro?

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  10. Muito bom, Luísa, parabéns!!!
    Um beijinho

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  11. Excelente, gostei muito de ler.
    Um abraço, um sorriso e um excelente mês de novembro.
    Escrevinhados da Vida

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