05/10/18

Janelas de Tempo - Capítulo 13

Fotografia: Henrique António Guedes Oliveira


Sempre que Júlio navegava na “cápsula do tempo” sentia um atordoamento, cuja causa não sabia explicar, mas que o deixava enjoado e, simultaneamente, esfomeado.
Naquele momento, sentiu o estômago colado às costas, tal era a fome que sentia, apesar de ainda se recordar do manjar que lhe fora oferecido pelo ancião em Bali. Porém, todo aquele odor dos frutos existentes no mercado que atravessara, mantinha-se intacto nas suas narinas.
Não sabia onde estava, mas sentia um cheiro nauseabundo a mosto e vinho, misturado com um fedor acre, como se alguém tivesse acabado de vomitar a seu lado. Procurou o Whisky. Viu-o encolhido a seus pés. Mas não tinha sido ele.
Percorreu, como olhar, o local onde tinha vindo parar. Pareceu-lhe uma enorme adega, repleta de toneis. Estranho!
A agitação era enorme. Carroças, puxadas por bois, vinham despejar enormes cestos carregados de uvas, no que lhe pareceu ser um lagar.
Na sua consciência fez-se luz! Tinha vindo parar a uma majestosa quinta no Douro, a avaliar pelo sumptuoso palacete que vislumbrava por uma das janelas da adega. No tempo, tinha regredido cerca de dois séculos. No ano, estaria no final de setembro, época das vindimas.
Enquanto as vindimas decorriam, podiam ouvir-se cantares ao desafio, que alegravam aquele que poderia ser considerado um trabalho penoso, perigoso e cansativo, dado o posicionamento das próprias videiras em escarpas por vezes deveras acentuadas.
Os homens que se movimentavam na adega, vestidos, na sua maioria, com umas calças surradas, largas, presas com uns suspensórios, também eles desgastados, deslocavam-se agilmente, num vai e vem, entre as carroças e os lagares, onde despejavam as uvas destinadas a serem pisadas e convertidas nos famosos vinhos do Porto e do Douro.
Quando o lagar atingiu o limite certo, pensou Júlio que era um pouco leigo nesta matéria, uma dúzia deles e algumas mulheres, entraram no mesmo. Abraçaram-se e iniciaram uma dança de pés cadenciada e uniforme, enquanto entoavam canções populares em uníssono, talvez com o intuito de minimizar o esforço que tinham de despender para aquela tarefa, e que soavam até à hora em que o sol se punha.
Ouviu uma voz grossa, mesmo atrás de si:
– Que estás aqui a fazer? Não achas que há muito trabalho a fazer? Continua a trazer as uvas para dentro. Aqui não queremos molengões!
Júlio não esperou segunda ordem, morto que estava por se livrar daquele lugar, cujo cheiro se tornava, com o calor, insuportável. Podiam chamar-lhe o “Néctar de Baco”, mas a sua preparação não tinha nada de divinal.
Já fora da adega, observou melhor a maravilhosa mansão. Era majestosa e soberba.
Júlio recordava-se de ter lido, nalgum livro sobre o “Douro e a sua região” que a maioria dos solares ali existentes tinham sido construídos no Século XVIII, e aquela não era exceção; apesar do seu aspeto austero, como se de um castelo se tratasse, atraía muitas vezes os olhos dos turistas que por ali passavam, deixando-os maravilhados. Toda ela granítica, apresentava uma fachada decorada com grandes arcadas, ornadas por trepadeiras que se tornavam uma delícia para os olhos, quando florescidas.
O portão da entrada, trabalhado, mas sóbrio, era encimado por uma pedra de armas e por um pequeno nicho onde existia cravada uma imagem de Santo António. Ao lado da casa, podia ver-se uma capela, cuja bula datava de 1785 e onde até há bem pouco tempo eram celebradas missas regularmente.
Tratava-se de uma quinta tradicional de onde se pode desfrutar uma das mais belas vistas panorâmicas da região do Douro. As montanhas de xisto que se erguem do rio, as suas escarpas transformadas em socalcos e cobertas de vinha, constituem de “per si”, um dos mais belos cenários do mundo. À noite, do terraço superior da casa, onde naquelas noites quentes se procurava um pouco da frescura que as frondosas árvores que a rodeavam proporcionavam, podia observar-se, em noites de lua cheia, o brilho branco, encantador e mágico que nas águas calmas do Douro se refletia.
O acesso ao universo íntimo da casa era restrito aos familiares, com exceções para poucos amigos, o que tornava a entrada nessa área um privilégio. Aos trabalhadores restava-lhes a admiração do exterior.
Júlio saiu do seu encantamento momentâneo pela mansão, e voltou ao trabalho. Quando a sineta soou, a anunciar um pequeno repasto, deu graças a Deus. Estava exausto e esfomeado, mas ninguém lhe fizera perguntas sobre si, o que o livrara de algumas complicações.
Ao cair do dia, foi enviado, juntamente com mais três homens, encosta abaixo, em cima de uma carroça que transportava alguns barris de vinho. Para onde iriam? Começou a temer, por si e pelo Whisky, que não o largava de vista. Tinha saltado com ele para a carroça. Cada vez mais, Júlio amava e admirava aquele animal, que sabia estar silencioso quando era necessário. Bastava um sinal de olhos. Compreendia-o.
Chegaram a um pequeno cais, onde se encontrava acostado um pequeno barco. Júlio identificou-o como sendo um dos famosos barcos rabelos, que faziam o transporte de mercadorias até ao Porto, pelo rio Douro abaixo. Apesar do perigo que estas pequenas embarcações representavam, estavam isentas de portagens, o que permitia obter preços melhores pelo vinho que se escoava até à cidade do Porto, a partir da qual seguiam, maioritariamente, para Inglaterra.
O barco rabelo era, para a época, uma máquina sofisticada cuja condução exigia coragem, destreza, e um conhecimento íntimo das correntes e das rochas que se espalhavam pelo curso de um rio “de mau navegar”.
De repente, Júlio sentiu um balanço enorme. O barco partira, mas aquela noite estava particularmente ventosa. O rio agitava-se, “rugia” com as rajadas de vento que o açoitavam.
À medida que iam deslizando rio abaixo, ele começou a temer pela sua vida. Naquele momento, voltou a visualizar a imagem de Laura. Viria protegê-lo ou avisá-lo que deveria sair dali o mais rapidamente possível? Sabia que eram frequentes os naufrágios daquelas pequenas embarcações. O rio tinha muitas fragas traiçoeiras e se o rabelo embatesse numa delas, não escapariam com vida, e muito menos com o caudal veloz que o rio levava. Júlio nunca fora um bom nadador.
Mas no que estava a pensar para não ter saído da quinta, quando lhe bastava carregar no comando da “nave do tempo”, em vez de se deixar conduzir até ali? Talvez a curiosidade de conhecer melhor como eram adversas as condições de trabalho daquele tempo, já tão remoto.
Por outro lado, o Porto tinha sido sempre uma das cidades que Laura admirava. Gostavam de ir lá passar férias e, especialmente, usufruir da famosa noite de São João, tão célebre naquela cidade, cheia de luz e cor. Seria por ele se estar a dirigir para lá que Laura comunicara com ele?
A incógnita permaneceria, agora e sempre.
Júlio aconchegou-se no velho blusão que o capataz lhe dera para a viagem. Com ele abrigou ainda o Whisky, para se proteger do frio e do vento, que cada vez era mais forte.
Cansado, acabou por adormecer. Não sabia dizer por quanto tempo. O sol já começava a despontar quando despertou.
Ao olhar à sua volta, ficou apaixonado pela deslumbrante paisagem que vislumbrava. As escarpas do Douro, já todas elas cobertas do maravilhoso tom doirado de Outono, eram uma delícia para os olhos. Fosse ele pintor! Seria, certamente, aquela cena que ele reproduziria numa tela.
Não deu pela passagem das horas. Comeu o naco que pão (já duro), que o mestre lhe ofereceu, dividindo-o com o Whisky.
Já o sol se começava a por de novo e, ao longe, começou a descortinar aquilo que se aparentava com a “cidade grande”, como os marinheiros lhe chamavam e que seria, certamente, o Porto tão ansiado por todos.
Júlio pensou:
– Talvez fosse melhor eu sair daqui, enquanto é tempo. O que me esperará naquela cidade? A prisão pela clandestinidade? Nem documentos tenho!
Assim que o barco acostou, no cais de Gaia, vila para onde se destinava o vinho que levavam, Júlio ainda ajudou os companheiros a descarregar os barris. Dirigiu-se a uma tasca que por ali perto ainda estava aberta e cheia de marinheiros (a cair de bêbados), para “trincar” alguma coisa, e poder, também, lavar-se um pouco. Sentia-se nauseabundo.
Feito isso, chamou o seu fiel companheiro, que, com as suas habituais lambidelas, premiu o botão da “nave” e, depois do silvo a que já se tinha habituado, ei-lo, de novo, a caminho de um outro tempo, de um outro espaço.


          Natália Vale

6 comentários:

  1. adorei esta viagem e respetivo passeio ! e que bem assenta no tempo!!! estamos na época das festa das colheitas e das vindimas :)
    muito bom!
    existe este filme já com uns aninhos mas muito comovente !

    abraço
    Angela
    https://www.youtube.com/watch?v=wmCpEu3m1Po

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  2. Obg pela visita

    Adicionei o seu blog ao meu "outros caminhos"

    Kique

    https://caminhos-percorridos2017.blogspot.com/

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  3. E nós somos também transportados a um outro tempo, um outro espaço.
    Boa semana

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  4. Por falta de tempo não tenho passado por aqui.
    Mas, num instante li todos os capítulos.
    Nunca desiludem. Parabéns

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