23/06/19

Variações em Quadrilha - Capítulo 1


Desta vez, o nosso formato de escrita partilhada tem inspiração no texto “A Quadrilha” de Carlos Drumond de Andrade. Numa séria brincadeira que pretendemos homenageadora para o autor, vamos interpretar os personagens deste texto à medida da nossa imaginação.

A Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Mas como o número de participantes é superior ao número de personagens do texto, inventámos alguns.

Variações em Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que era amada por Alberto que também amava Elvira que amava Leonor que amava Pedro que amava Onésimo que amava Amélia que também amava Lili que não amava ninguém, mas namoriscava Ernesto que amava todas as mulheres.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se, Alberto casou secretamente, Elvira perdeu-se no mundo, Leonor fez-se árbitro de futebol feminino, Pedro tornou-se aviador, Onésimo guarda-nocturno, Amélia parteira, Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história e Ernesto, numa tentativa de ludibriar a falta de emprego, fez-se travesti num bar de uma qualquer capital da moda. 




João 

 (“Touching the Sky”, Ciudad Rodrigo)
@Albino Pereira 

Sempre lhe dissera o mesmo: só tens que cumprir três regras. A primeira, nunca ultrapasses, em kg, o peso ditado pelos dois últimos dígitos da tua altura, em cm. A segunda, mal possas, põe de parte o equivalente a três dos teus salários mensais e não lhe toques nunca a não ser em caso de extrema necessidade. A terceira, e a mais importante, nunca entregues todo o teu coração a ninguém.
João continuou, pela vida fora, a tentar seguir estes ensinamentos, confiando na sua bisavó nonagenária. Alguma razão deveria ela ter, afinal não conhecera nunca ninguém que tivesse uma bisavó sequer.
Cumprir a primeira das regras trouxe-lhe um dos prazeres de que já não abdicava. Era assíduo no ginásio da moda, corria pelas manhãs e ia dando uns mergulhos nas praias frias do Norte o que lhe assegurava o equilíbrio necessário para aproveitar o que os dias lhe iam oferecendo além do corpo bem tonificado.
O trabalho como docente convidado num dos Institutos Superiores mais requisitados da zona do Grande Porto satisfazia-o. O contacto com os alunos, muitos deles a viverem os primeiros anos das suas vidas adultas, era desafiante e o facto de lidar com a necessidade de acompanhar o que de mais recente se fazia na sua área de trabalho trazia-o bastante ocupado e apaziguava, de alguma forma, o seu estado permanente de inquietude curiosa. Assegurada a segunda das regras, ainda ia tendo, graças a algumas colaborações como freelancer em revistas especializadas, uma conta bancária que, longe de generosa, pelo menos dir-se-ia suficientemente apetrechada.
O tempo dedicado quer às viagens que fazia, algumas por obrigação profissional outras por puro deleite, quer às aulas e à prática do exercício físico, ia garantindo o cuidado necessário para não infringir a terceira das regras. Estava disponível para relações curtas e intensas. One night stand bastava-lhe e os olhares de desejo que adivinhava em muitas das suas alunas, e em algumas das suas colegas, alimentavam o seu ego quanto baste.
Quando aquela nova colega chegou ao Instituto para lecionar espanhol a uma das suas turmas do curso de Relações Internacionais, João achou-lhe uma certa piada. Era o oposto de Marivi, a anterior professora que deixara o lugar vago ao regressar a Barcelona para acompanhar os tratamentos da mãe, tanto quanto rezava a versão oficial. Entre os colegas, dizia-se que quisera afastar-se de Leonor, uma professora do curso de Educação Física na faculdade que ficava no mesmo campus. As desilusões que cada um carrega são mais esconsas que as ilusões que às vezes partilham com almas próximas.
Teresa, jovial e irrequieta, aparentava estar nos inícios dos seus trinta anos e o facto de trazer uma mochila vermelha às costas em vez da tradicional puída pasta castanha, chamou a atenção de João.
Já em casa, querendo saber mais sobre Teresa, João procurou-a nas redes sociais. Encontrou-a no Instagram e, como a conta era privada, pediu para a seguir. A autorização foi quase imediata e João teve a oportunidade de verificar que Teresa não era daquele tipo de pessoas que o irritavam de sobremaneira. Não era exibicionista (na sua conta não havia apenas fotos da sua pessoa, em poses de diva e bocas de silicone) nem era mais uma daquelas instagrammers que partilham constantemente pensamentos irritantes em inglês ou em português do Brasil com recados sabe-se lá para quem, nem pertencia àquela terceira categoria dos que exibem tudo o que comem em fotos sucessivas de pratos de peixe, de carne, de batatas e verduras, de muitos vinhos e muitas sobremesas. Na sua conta podia-se ver fotos de monumentos visitados, de paisagens captadas, de livros, filmes ou referências a músicas. Tudo muito em torno da cultura espanhola, exceto uma ou outra ligação a alguns clássicos universais. Curioso, procurou algum registo que envolvesse Portugal ou as suas gentes. A única coisa que encontrou, que remetesse para Portugal, foi uma fotografia de um trabalho da Ronda dos Quatro Caminhos, Terra de Abrigo. João desconhecia por completo este grupo. A ausência de fotos suas com amigos ou de fotos de familiares aguçava a curiosidade de João. Revelaria alguém que estava sozinha no mundo ou traduziria alguma forma de ser mais independente?
Buscou informações sobre o disco e descobriu que datava já de 2003. Tratava-se de um disco de cante alentejano, largos anos antes de ser considerado Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, envolvendo oito Grupos Corais do Alentejo, a Orquestra Sinfónica de Córdoba, uma cantora de flamenco, outra marroquina, uma fadista portuguesa e dois virtuosos guitarristas, um português e outro espanhol. Que mistura! 
Procurou o disco no Spotify e ouviu-o. Tinha bom gosto musical a nova professora.
Estes tempos modernos não deixavam de ser algo estranhos. O quanto se poderá saber sobre alguém a partir de alguns posts seus numa rede social? Tinha consciência que só acedia ao que Teresa quis mostrar da sua vida, mas agradava-lhe o que via.
Quando foi atualizar o seu Instagram viu que tinha alguns corações (traduzindo agrados) novos. Estava habituado a que as suas fotos (nunca recorria a vídeos) tivessem muito sucesso. A sua conta era aberta ao público pelo que não precisava de autorizar seguidores e, deste jeito, Teresa pôde mostrar que gostara de algumas das fotos mais recentes que ele disponibilizara nessa conta.
Na manhã seguinte, procurou-a no Instituto tentando encontrar-se, casualmente parecendo, com ela. Mas não a encontrou. Nem nos outros dias dessa semana.
Quando a reviu, reparou que o olhar dela procurava o seu e o sorriso que os lábios retinham, os olhos não conseguiam disfarçar. Assim, habituado a estabelecer primeiros contactos certeiros, João, com o melhor dos sorrisos, apresentou-se e convidou-a para almoçar.
Começou assim o que seria o quebrar da terceira das regras que João aprendera da sua bisavó Maria.
Teresa deu-lhe a conhecer o novo cinema espanhol, muito para além do já seu Almodôvar, e trouxe-lhe o mundo de Albert Espinosa. Em espanhol, dos latino americanos, ele conhecia os mundos encantados do Gabriel Garcia Márquez, do Luís Sepúlveda e da Isabel Allende, mas nunca tinha ouvido falar deste vizinho peninsular nem dos seus amarillos. João falou-lhe de outros mundos encantados, também provenientes dessas latitudes sul americanas mas descritos em português. Foi assim que lhe deu a conhecer Jorge Amado, Monteiro Lobato e José Mauro de Vasconcelos. Mas também lhe falou de Dulce Maria Cardoso e de Manuel António Pina. Ouviu com ela Maria de Medeiros, António Zambujo e Cristina Branco. Levou-a a Serralves e aos jardins do Palácio de Cristal. Foram à Casa da Música e ao Coliseu.
Nem se davam conta de que os meses se passavam tão enlevados estavam nas descobertas múltiplas que iam fazendo juntos.
Assim, desta forma, achou natural aceder ao convite dela para passarem aquele fim de semana a seguir ao feriado de quinta-feira, em Salamanca. Aproveitaram a ponte, e partiram na quarta-feira, ao fim da tarde. Pernoitaram em Belmonte, numa casa de turismo local rural. Antes de chegarem a Salamanca, pararam em Ciudad Rodrigo e visitaram, depois, La Alberca a povoação de onde era natural a avó de Teresa. Tiraram muitas fotografias e Teresa postou, no Instagram, uma foto da rua onde brincava quando era criança e ia visitar a sua avó. João tinha escolhido e postado uma fotografia que tirara quando subiam para visitar o castelo de Ciudad Rodrigo. Na praça principal de La Alberca onde estava estranhamente instalado, no que teria sido em tempos idos uma prisão, o posto de Turismo da povoação, comeram umas tapas de presunto e beberam, cada um uma cerveja bem fresca pois o calor fazia-se sentir e o presunto era “puxadito”, como dizia Teresa.
Quanto mais conviviam, mais João se deixava apaixonar por Teresa.
Teresa levou-o a conhecer os locais onde sempre vivera, antes de se mudar para o Porto. O seu apartamento ficava situado na zona histórica de Salamanca, bem perto da Praça de Colon, numa rua pedonal. Dali à catedral, eram uns minutos a pé. Mostrou-lhe a fachada belíssima da Universidade e desafiou-o a encontrar a rã escondida entre as largas dezenas de esculturas que a adornam. Contou-lhe a lenda antiga segundo a qual se um estudante da Universidade fosse capaz de a encontrar, sem ajuda, seria bem-sucedido nos exames e se não fosse estudante, mas encontrasse a rã, encontraria também o amor da sua vida e seriam felizes. João bem tentou mas era de facto muito difícil… só com as dicas de Teresa conseguiu, por fim, encontrar o bicho. Numa das muitas lojas de Recuerdos que por ali pululavam Teresa comprou uma rã de Salamanca e ofereceu-a ao João.
Desceram até à zona do rio e sentaram-se numa manta para descansarem. Naquele torpor, João deixou-se adormecer. Quando acordou, Teresa estava a uns metros a conversar com alguém. Apresentou-lhe Raimundo como sendo um amigo de longa data e, a Raimundo, disse que João era um colega português que a acolhera no Porto e a quem estava a devolver a simpatia, mostrando-lhe Salamanca.
João esperava que, por esta altura, já fosse um pouco mais que isso. Ele já se via a assumir, pela primeira vez na sua vida, um compromisso com alguém. Estava a sentir-se descartável… Pensando bem, sempre tratara assim as suas conquistas. Seria isto a lei do retorno?
Na verdade, que sabia ele sobre Teresa? Sobre o seu passado e os seus sonhos?
Enquanto regressavam, ao passar por uma das pontes, João quis fazer uma selfie com Teresa, pois o lusco-fusco trazia uma luminosidade a todo aquele entorno realmente digno de registo. No entanto, contrariando todo o comportamento daquela semana, Teresa negou-se com um simples abanar de cabeça e disse-lhe que estava cansada e com pressa. Outro sinal do desconforto causado por aquele reencontro com Raimundo.
No dia seguinte, João levantou-se mais cedo e foi correr pelas ruas estreitas da cidade descendo até ao rio e acompanhando as suas margens. Perdido nas reflexões nem ouvia a música que escolhera para essa corrida. Mais tarde, Teresa levou-o a conhecer a Casa Lis e a sua magnífica coleção de peças Art Nouveau e Art Déco. Deveras impressionante, para João, foram as criselefantinas pela total novidade para ele: a mistura requintada do bronze com o marfim e as impressionantes bases de ónix e mármore faziam daquelas pequenas esculturas umas magníficas obras de arte.
Não foi de somenos importância o chá tomado no café do museu, que o transportou para uma época de glamour e ilusão fazendo-o sentir-se a viajar no tempo.
No entanto, apesar de todo o ambiente de romantismo do local, no rosto de Teresa algo se perdera. Apesar dos sorrisos rasgados, o seu olhar transmitia tristeza.
João não resistiu e começou a fazer perguntas. Por que razão quis Teresa abandonar aquela cidade onde tão bem se sentia e ir ensinar espanhol para o Porto? Afinal o que tanto a transtornara na conversa da tarde anterior com aquele seu amigo?
Teresa não foi capaz de continuar a levar os seus intentos por diante. Disse-lhe que queria mesmo, que tentou muito, conhecer alguém que lhe fizesse esquecer Raimundo. Tinha sido o seu único amor, desde os tempos da adolescência. Raimundo nunca lhe dera qualquer esperança mas Teresa achava que isso se devia ao facto dele ser muito aplicado nos estudos e que tal o impedia de estar disponível para namoros pois, na verdade, nunca lhe conhecera qualquer amor. E citou Albert Espinosa “Si crees en los sueños estos se crearán.” (Se acreditas nos sonhos, estes tornar-se-ão reais). Mas os anos iam esgotando o tempo e a amizade com Raimundo nunca evoluíra para o que ela ansiava. Teresa precisava de sair desse encantamento a uma voz apenas.
Quando Marivi, amiga de infância da sua mãe, lhe falou da oportunidade de Teresa ir para o Porto trabalhar, substituindo-a, ela não hesitou. Mal João lhe estendeu a hipótese de algo mais, Teresa agarrou-se com unhas e dentes e dispôs-se a amar e a deixar-se amar por outro homem que não Raimundo. João era bem-parecido, charmoso e sedutor.
Tudo correu relativamente bem até reencontrar Raimundo, naquela tarde. Tudo nela se reacendeu e ela percebeu que nunca nada nem ninguém lhe faria esquecer aquela insana paixão.
João não insistiu pois o olhar de Teresa dava-lhe acesso ao mais íntimo dela e não negava nada daquilo de que agora se inteirara. Regressou ao Porto, sozinho. Calmamente, recusou-se a voltar pelo mesmo caminho e escolheu outra fronteira para deixar Espanha. Parou em Gismonde e chorou como nunca antes o tinha feito.
No final desse ano letivo, anunciou a sua decisão aos superiores do Instituto: concorrera a uma bolsa de doutoramento nos Estados Unidos e, também ele, sairia do país para tentar esquecer um amor.
Na bolsa, levava uma rã de Salamanca.


                                                                                  Albino Pereira 



10 comentários:

  1. E é assim que se começa a semana em grande!
    Boa semana

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  2. Bela narrativa! Alia provérbios, carateres, amor, história, geografia, escultura e... biologia. Fica ainda esclarecida a razão pela qual o povo cigano abomina batráquios.
    Fora isto, seduziu-me a personagem Elvira, aquela que se "perdeu no mundo"; deixa-me a cismar: quem se perde no mundo, perde-se para o mundo, perde-se com o mundo, ou afinal é um paradoxo e na realidade Elvira encontrou-se, quando se perdeu?! Gostava de poder escrever este trecho.

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  3. Parabéns, Albino Pereira. Gostei muito deste início.
    Mas, eu talvez não fosse para os EUA...

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  4. Magnifico! Eu que, já há meia dúzia de anos, ando crescentemente afastado da leitura literária modo geral, gostei muito, mesmo muito deste "Capitulo 1". Não sei até que ponto terei disponibilidade para ir acompanhando? Mas na medida do possível regressarei, mais tarde ou mais cedo, para continuar a ler, mesmo que à posterior do momento da partilha. "Variações em Quadrilha", fantástico!
    Parabéns e obrigado
    VB

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  5. passando para retribuir a visita e desejar uma noite de quarta-feira encantadora seguida de um lindo amanhecer. vou te seguir e continuar a leitura. beijo enorme!!!

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  6. Belo mote para uma narrativa, que se afigura vir a ser muito engraçada - ainda que um pouco triste, com tantos desconcertos!
    Amei!

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  7. Boa tarde amigo,
    No meu blog antigo que o tio Google deu cabo, eras meu seguidor, voltei com novos pois a insistência e a persistência é mais forte que a borracha do tio Google.

    Gostei da narrativa, pouco importa os desacertos e desencontros.

    Um abraço de paz, deixo!

    https://poetandojuntosemisturados.blogspot.com/2019/07/vamos-brincar-com-chica-num-27.html

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  8. E com o fim da 3.ª regra deu-se início à vida do João. Que bela viagem foi esta leitura.

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