João nasceu numa pequena vila, situada na
margem de um rio que corria para o mar. Certos dias, ao final da tarde, descia
junto à margem até alcançar a foz. Ali chegado, caminhava pelo areal até chegar
a um rochedo para onde subia e se sentava voltado para o mar, deixando que o
seu olhar se estendesse languidamente sobre aquele grande oceano, até ao
horizonte; aquela linha distante e enigmática atraía a sua atenção e comandava
a sua imaginação. Ficava ali sentado durante várias horas. Por vezes,
reclinava-se e adormecia. E quando dormia, embalado pelo som suave das ondas
que se espraiavam na areia aos seus pés, sonhava; sonhava com lugares e gentes
que não sabia sequer se existiam. Mas sonhava à mesma e prometia a si mesmo que
um dia partiria por aquele mar adentro e iria conhecer tudo o que existia no
mundo.
Num desses finais de tarde viu aparecer,
caminhando pelo areal, os pés descalços pisando a linha d’agua, a figura esguia
de uma rapariga. Cabelos castanhos soltos ao vento e o olhar, como o seu,
perdido no horizonte. Sentiu- se invadido por uma forte vontade de saltar do
rochedo e ir ao seu encontro. Esperou que ela olhasse na sua direção, mas o
horizonte exercia nela uma forte atração e a sua atenção não se desviou.
Seguiu-a com o olhar.
Quando ela chegou ao final do areal,
percebeu que parou por alguns minutos, depois, viu que retornava. Ao chegar
mais perto, pareceu-lhe ainda mais bonita, o seu rosto mais luminoso, os seus
cabelos refletiam com intensidade os raios de sol. Então, a vontade de se lhe
dirigir aumentou. Quando ela passou à sua frente, João sentiu um forte impulso
que o fez saltar do rochedo e caminhar na sua direção. Ao aproximar-se dela,
disse de forma quase autómata:
– Olá, sou o João. E tu, como te chamas?
– Maria. – Respondeu-lhe sem parar de
caminhar, e sem desviar o olhar daquele mar imenso.
Depois de uns momentos de hesitação, João
decidiu caminhar ao seu lado. Perguntou-lhe se era dali. Respondeu-lhe que não,
que estava a passar férias em casa da avó materna, numa aldeia ali perto. Após
alguns momentos de caminhada, João foi contando a Maria como gostava daquela
praia, de olhar o mar e de como o horizonte o fascinava e atraía. Falou-lhe da
sua vontade imensa de conhecer o resto do mundo. Maria, aos poucos foi-se
interessando por tudo o que João lhe falava e passou também a confidenciar-lhe
os seus hábitos e sobretudo o seu enorme desejo de, também ela, desejar
atravessar o mar e conhecer o mundo. Riram-se da enorme coincidência de gostos
e, pouco depois, sem quase darem por isso, já caminhavam de mão dada enquanto
contavam acontecimentos hilariantes das suas vidas. Chegados a umas escadinhas
em madeira, perto do extremo da praia, onde o rio encontrava o mar, João
perguntou se podia acompanhá-la a casa. Respondeu que não era necessário, que
ainda tinha de passar pela mercearia, na vila, para comprar umas coisas que a
avó lhe tinha pedido. Depois, sem que João esperasse, perguntou-lhe:
– Amanhã podemos voltar a encontrar-nos
aqui, na praia? Gostei tanto de te conhecer e conversar contigo.
João, radiante, respondeu imediatamente
que sim.
Combinaram a que horas se encontrariam e, para espanto do João, Maria despediu-se dele com um beijo na face, subindo imediatamente a escada, deixando-o meio aturdido, mas imensamente feliz. Aqueles encontros repetiram-se durante quinze dias, durante os quais, a amizade cresceu, acabando por se transformar em algo mais profundo, um sentimento mais forte que ia além da amizade e fazia crescer neles o desejo de se conhecerem mais intimamente. No penúltimo dia das férias de Maria, o tempo mudou, ameaçando chuva. Porém, não deixaram de se encontrar, como de costume. A meio da caminhada pela praia, começou a cair uma chuva miudinha, que em segundos se transformou num verdadeiro dilúvio. Sem pensar, ambos correram de mão dada para o mar, entraram dentro de água, mergulharam e quando voltaram à superfície os seus rostos encontraram-se e os seus lábios tocaram-se, primeiro, como que a provarem-se, mas logo em seguida, como se ambos sofressem de uma fome que era urgente mitigar. Amaram-se dentro daquela água tépida que parecia envolvê-los numa carícia instigadora. O vai e vem das ondas parecia dizer-lhes, amem-se… amem-se… amem-se. No dia seguinte, encontraram-se novamente. Desta vez, somente para se despedirem e prometer voltar a encontrar-se no próximo ano.
…
Depois de quatro décadas juntos, João e Maria, ambos com sessenta anos, enfrentam uma encruzilhada silenciosa. O que começou com promessas de amor eterno e aventuras partilhadas agora parece um caminho desgastado pelo tempo e pela rotina. Os sonhos de juventude, as viagens, os filhos que cresceram e se foram – tudo isso deu lugar a um conforto mudo, um ao lado do outro, mas cada vez mais distantes. A desilusão instalou-se sorrateiramente, fruto de expectativas não ditas, de projetos adiados, de carências não preenchidas. Já não há o riso fácil, as conversas profundas, o toque espontâneo. O amor, agora, parece uma lembrança adormecida. Eles decidem separar-se, não com raiva ou ressentimento, mas com a triste constatação de que a vida de casados não foi o que imaginaram. Com respeito mútuo, escolhem seguir em frente, cada um em busca de um novo capítulo, de um reencontro consigo mesmos, com a esperança de reacender algo perdido pelo caminho.
Bartolomeu
Frederico

Começa muito bem, Bartolomeu! Deixaste uma porta aberta para que os dois, ao irem cada um para o seu lado, percebam o que os uniu. Ou descubram novos caminhos. Gostei!
ResponderEliminarQuando escrevi o texto, pensei na necessidade dessa porta, para dar passagem aos próximos coautores. ;)
ResponderEliminarE agora, Albertina, como te vais desenvencilhar?
ResponderEliminarTenho estado a pensar nisso. E sei que vai ser dificil. Tenho o principio e o fim da história. Será que vamos mesmo aceitar este fim?
ResponderEliminarNão. O que temos, é o princípio da história. A meio, temos um intervalo propositado para que possam escrever e desenvolver sobre o que se passou no espaço de tempo desde que se conheceram, até se casarem. Depois da separação a história não termina. Cada um dos protagonistas vai seguir por caminhos e ter experiências que podem seguir mil rumos possíveis.
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