Maria
Maria,
Maria, tantos sonhos investidos no teu despertar para o amor! Eras uma menina,
de quase vinte anos, é certo, mas uma ‘menina’, quando tudo começou. Olhando
para trás, posso dizer isso mesmo: eras uma menina, o ai-jesus da tua avó, que
rejuvenescia sempre que ias ter com ela, nos dias moles de Verão; a avó, com a
idade que hoje tens, continuava a acreditar no poder encantatório do Amor e na
consumação desse Amor pelo casamento, abençoado por Deus e, como tal, ninguém com
o direito de destruir. E tu, Maria, eras assim como ela, como a tua avó
nefelibata, que sempre te falava da sua imensa felicidade ao lado do único
homem que conhecera o seu corpo e que a respeitava acima de todas as coisas.
Agora
que o seu casamento se esboroara, ao que parece, pelo desgaste, Maria dava por
si, sentada no velho sofá, ao canto da lareira a remexer na trajectória da sua
vida, afinal uma amálgama de areia e ondas, de montanhas e escarpas, de música
a rasgar o horizonte, de ingenuidade e de pureza, que a educação em colégio de
freiras tinha ajudado a desenhar.
Aquele
primeiro contacto, quase sem pensar, no seio das águas, foi o baptismo do
enamoramento, a celebração do amor, que despontava e lhe afogueava as maçãs do
rosto e lhe enfraquecia as pernas.
Os
encontros seguintes foram a descoberta dos pequenos prazeres do seu corpo, que
ninguém antes tinha acariciado. Ainda sente as mãos de João, avançando
suavemente, com delicadeza e conhecimento, activando os seus pontos mais
sensíveis. João sabia parar e ela aceitava, confiante, no seu caminhar pelas
sendas do amor e da sensualidade. João sabia como respeitar as fronteiras
estipuladas pelas regras castradoras daquela época. Um dia, casariam – estava
escrito no Destino – mas Maria iria virgem, vestida de branco e com ramo de
flor de laranjeira, virgem, aos olhos de Deus e da sociedade. Assim pensavam os
dois, assim havia de ser. Eram oficialmente namorados. A avó rejubilava ao
acompanhar a felicidade da sua única neta. A mãe temia pela intimidade que a
relação de Maria com João poderia alcançar. E inquietava-se, sondava, quem era,
na verdade, aquele rapaz que prendera o coração da sua filha, de que família
provinha, o que faria depois de cumprido o seu serviço militar. Como todos os
mancebos da sua idade, iria, com certeza, ser enviado para uma das colónias
portuguesas, forçado a ser útil à Pátria salazarista de então. E depois?
Voltaria vivo, saudável ainda, ou com traumas daquela guerra, de contornos
quase secretos e apologéticos, que ceifava jovens indefesos e ignorantes e
semeava, pela aldeias e vilas de Portugal, espectros carregados de luto e de
dor? A mãe inquietava-se de verdade, mas Maria trazia a sua imensa felicidade
estampada no rosto. O Amor atenuava-lhe a perspectiva do perigo que espreitava
em todos os lares. Maria não sabia nada das traições da vida; amava,
entregava-se ao deleite de beijos doces e quentes e de pequenas excitações, que
não afectavam a sua virgindade, cuidadosamente preservada, guardada para a
primeira noite de núpcias, legítima sacralização dos corpos.
E
o que todos temiam chegou, um dia: João partiu para Angola, ao som do hino
“Angola é nossa!”, do bailado de lenços a acenar, no barco, e dos dramas da
despedida no cais de embarque.
Nos
dias que precederam esta partida, Maria foi com a madrinha à praia, aquela
mesma praia onde tudo começara. Estendida na areia, relaxada, a receber os
benefícios do Sol, Maria pensava nas carícias do seu amor. Boa observadora, a
madrinha deteve o olhar na barriguinha ligeiramente arredondada de Maria. Um
pensamento aflorou-lhe de repente. E questionou de chofre:
–
Maria, estou a ver mal, ou estás mais gordinha?
–
Não sei, Madrinha, mas eu até nem tenho mais apetite... devo sair à minha mãe,
que, sendo magra, também tinha – e tem – uma barriguinha. Ou, então, pode ter a
ver com a falta do período, que já não vem talvez há uns três meses...
–
Ó filha, tu não estarás grávida?
–
Ai que disparate, Madrinha nem pensar! Só por milagre!
–
Olha, meu amor, pelo sim, pelo não, logo, vamos passar pela farmácia e vais
fazer um teste.
–
Pode ser, não tenho nada a perder. Mas garanto-lhe que isso seria impossível.
Só por obra e graça do Espírito Santo – disse, em tom de brincadeira.
E
o Espírito Santo, compôs, de facto, a sua obra divina. Maria estava grávida. E
o seu mundo parecia desabar! Que vergonha! Como dizer à avó e à mãe?
Interrogava-se, perplexa: como se engravida assim, apenas com umas
‘brincadeiras’?
Maria,
na sua ingenuidade de convento nunca tinha ouvido falar dessa possibilidade. As
freiras nunca abordavam temas desta natureza, acentuavam sempre a ideia de
pecado e de Inferno em tudo que se relacionasse com sexo, e a mãe, por pudor ou
ignorância, também não. Maria, a grávida virgem! Pensou na analogia com a
origem do Cristianismo, com a história que a Igreja encontrou para explicar
como Cristo veio ao mundo para nos salvar. Maria, a sempre virgem, dando à luz
o seu filho redentor, misteriosamente, sem sabermos se teve dores de parto, se
o seu velho marido, São José, participou desse acto de amor, se alguma vez
teria sentido ciúmes do Espírito Santo... Isso fê-la sorrir. Mas um sobressalto
veio cortar-lhe a subtileza desse sorriso: como dar a notícia ao João?
–
Não te preocupes. Isso não é o fim do mundo, minha querida. Sossega. Eu vou
contigo ao quartel.
Passado
o choque do inusitado – afinal a sua técnica sexual tinha-o atraiçoado – urgia
tomar medidas. Ia ser pai!
–
Não estejas triste, Maria. O nosso amor é grande. Isso é que importa. Vamos
casar e pronto. Não vais de véu e grinalda, mas levas o nosso filho dentro de
ti. É um fruto precioso. Nós sempre falámos de casamento. Só vamos antecipar
esse projecto.
O
abraço caloroso do jovem militar serenou a jovem Maria, virgem e mãe, como a
mãe de Jesus.
Emanuel
nasceu, de cesariana; vinha loirinho e cheio de energia. O novo Menino Jesus.
Que vida linda a de Maria e João!
Depois,
João, tão longe, na incerteza diária de se manter vivo, mas tão envolvido
emocionalmente no crescimento do seu Menino Jesus!
E
tantas memórias a preencher os pensamentos de Maria! O que aconteceu depois,
meu amor maior? O que foi que em nós se apagou e me deixou aqui, ao calor da
lareira, a desfiar o rosário das nossas vidas? Será que tudo se deve mesmo ao
desgaste? O Amor também se apaga, João, não é para sempre como pensamos quando
nos apaixonamos? Ou... Alguém teria vindo agitar a serenidade cinzenta do nosso
mar e eu nunca descobri?
Albertina
Fernandes

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