12/01/26

Compatíveis Incompatibilidades - Capítulo 1

 


Maria

Maria, Maria, tantos sonhos investidos no teu despertar para o amor! Eras uma menina, de quase vinte anos, é certo, mas uma ‘menina’, quando tudo começou. Olhando para trás, posso dizer isso mesmo: eras uma menina, o ai-jesus da tua avó, que rejuvenescia sempre que ias ter com ela, nos dias moles de Verão; a avó, com a idade que hoje tens, continuava a acreditar no poder encantatório do Amor e na consumação desse Amor pelo casamento, abençoado por Deus e, como tal, ninguém com o direito de destruir. E tu, Maria, eras assim como ela, como a tua avó nefelibata, que sempre te falava da sua imensa felicidade ao lado do único homem que conhecera o seu corpo e que a respeitava acima de todas as coisas.

Agora que o seu casamento se esboroara, ao que parece, pelo desgaste, Maria dava por si, sentada no velho sofá, ao canto da lareira a remexer na trajectória da sua vida, afinal uma amálgama de areia e ondas, de montanhas e escarpas, de música a rasgar o horizonte, de ingenuidade e de pureza, que a educação em colégio de freiras tinha ajudado a desenhar.

Aquele primeiro contacto, quase sem pensar, no seio das águas, foi o baptismo do enamoramento, a celebração do amor, que despontava e lhe afogueava as maçãs do rosto e lhe enfraquecia as pernas.

Os encontros seguintes foram a descoberta dos pequenos prazeres do seu corpo, que ninguém antes tinha acariciado. Ainda sente as mãos de João, avançando suavemente, com delicadeza e conhecimento, activando os seus pontos mais sensíveis. João sabia parar e ela aceitava, confiante, no seu caminhar pelas sendas do amor e da sensualidade. João sabia como respeitar as fronteiras estipuladas pelas regras castradoras daquela época. Um dia, casariam – estava escrito no Destino – mas Maria iria virgem, vestida de branco e com ramo de flor de laranjeira, virgem, aos olhos de Deus e da sociedade. Assim pensavam os dois, assim havia de ser. Eram oficialmente namorados. A avó rejubilava ao acompanhar a felicidade da sua única neta. A mãe temia pela intimidade que a relação de Maria com João poderia alcançar. E inquietava-se, sondava, quem era, na verdade, aquele rapaz que prendera o coração da sua filha, de que família provinha, o que faria depois de cumprido o seu serviço militar. Como todos os mancebos da sua idade, iria, com certeza, ser enviado para uma das colónias portuguesas, forçado a ser útil à Pátria salazarista de então. E depois? Voltaria vivo, saudável ainda, ou com traumas daquela guerra, de contornos quase secretos e apologéticos, que ceifava jovens indefesos e ignorantes e semeava, pela aldeias e vilas de Portugal, espectros carregados de luto e de dor? A mãe inquietava-se de verdade, mas Maria trazia a sua imensa felicidade estampada no rosto. O Amor atenuava-lhe a perspectiva do perigo que espreitava em todos os lares. Maria não sabia nada das traições da vida; amava, entregava-se ao deleite de beijos doces e quentes e de pequenas excitações, que não afectavam a sua virgindade, cuidadosamente preservada, guardada para a primeira noite de núpcias, legítima sacralização dos corpos.

E o que todos temiam chegou, um dia: João partiu para Angola, ao som do hino “Angola é nossa!”, do bailado de lenços a acenar, no barco, e dos dramas da despedida no cais de embarque.

Nos dias que precederam esta partida, Maria foi com a madrinha à praia, aquela mesma praia onde tudo começara. Estendida na areia, relaxada, a receber os benefícios do Sol, Maria pensava nas carícias do seu amor. Boa observadora, a madrinha deteve o olhar na barriguinha ligeiramente arredondada de Maria. Um pensamento aflorou-lhe de repente. E questionou de chofre:

– Maria, estou a ver mal, ou estás mais gordinha?

– Não sei, Madrinha, mas eu até nem tenho mais apetite... devo sair à minha mãe, que, sendo magra, também tinha – e tem – uma barriguinha. Ou, então, pode ter a ver com a falta do período, que já não vem talvez há uns três meses...

– Ó filha, tu não estarás grávida?

– Ai que disparate, Madrinha nem pensar! Só por milagre!

– Olha, meu amor, pelo sim, pelo não, logo, vamos passar pela farmácia e vais fazer um teste.

– Pode ser, não tenho nada a perder. Mas garanto-lhe que isso seria impossível. Só por obra e graça do Espírito Santo – disse, em tom de brincadeira.

E o Espírito Santo, compôs, de facto, a sua obra divina. Maria estava grávida. E o seu mundo parecia desabar! Que vergonha! Como dizer à avó e à mãe? Interrogava-se, perplexa: como se engravida assim, apenas com umas ‘brincadeiras’?

Maria, na sua ingenuidade de convento nunca tinha ouvido falar dessa possibilidade. As freiras nunca abordavam temas desta natureza, acentuavam sempre a ideia de pecado e de Inferno em tudo que se relacionasse com sexo, e a mãe, por pudor ou ignorância, também não. Maria, a grávida virgem! Pensou na analogia com a origem do Cristianismo, com a história que a Igreja encontrou para explicar como Cristo veio ao mundo para nos salvar. Maria, a sempre virgem, dando à luz o seu filho redentor, misteriosamente, sem sabermos se teve dores de parto, se o seu velho marido, São José, participou desse acto de amor, se alguma vez teria sentido ciúmes do Espírito Santo... Isso fê-la sorrir. Mas um sobressalto veio cortar-lhe a subtileza desse sorriso: como dar a notícia ao João?

– Não te preocupes. Isso não é o fim do mundo, minha querida. Sossega. Eu vou contigo ao quartel.

Passado o choque do inusitado – afinal a sua técnica sexual tinha-o atraiçoado – urgia tomar medidas. Ia ser pai!

– Não estejas triste, Maria. O nosso amor é grande. Isso é que importa. Vamos casar e pronto. Não vais de véu e grinalda, mas levas o nosso filho dentro de ti. É um fruto precioso. Nós sempre falámos de casamento. Só vamos antecipar esse projecto.

O abraço caloroso do jovem militar serenou a jovem Maria, virgem e mãe, como a mãe de Jesus.

Emanuel nasceu, de cesariana; vinha loirinho e cheio de energia. O novo Menino Jesus. Que vida linda a de Maria e João!

Depois, João, tão longe, na incerteza diária de se manter vivo, mas tão envolvido emocionalmente no crescimento do seu Menino Jesus!

E tantas memórias a preencher os pensamentos de Maria! O que aconteceu depois, meu amor maior? O que foi que em nós se apagou e me deixou aqui, ao calor da lareira, a desfiar o rosário das nossas vidas? Será que tudo se deve mesmo ao desgaste? O Amor também se apaga, João, não é para sempre como pensamos quando nos apaixonamos? Ou... Alguém teria vindo agitar a serenidade cinzenta do nosso mar e eu nunca descobri?

 

                                                                     Albertina Fernandes

 

 

 

 

 

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