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| Fotografia de José Bessa |
João
-… e depois do treco
fiquei além do mais, manco. E assim me tenho mantido. Não é muito, é só um
jeito na perna direita “é só um jeitinho no andar sr. João, quase não se
nota…”, disse a enfermeira baixinha ao dar-me alta. A partir daí passei a vida
a treinar-me na rua, a olhar-me nas montras, primeiro devagar, depois já com
alguma desenvoltura. Um dia um miúdo, as crianças são adoráveis, disparou de
cima da bicicleta habitual «lá vai o calcó-risco!...», mas isso foi muito no
princípio. Agora, que me apresento mais estável, entrei no bar que fica entre
as duas montras-espelho minhas preferidas. A porta gritou à minha passagem e eu
sentei-me no balcão sozinho mesmo à vista do empregado que por acaso era um
pouco marreco. Assim não gozas, pensei cá para mim. Olhei para a torneira da
belga e pisquei-lhe o olho. Nos bares de rua não há desses mal-entendidos. A
caneca transpirada de alegria chegou pronta, atarracada, rotunda, com a asa
orientada para a minha mão dextra e com uns baixos-relevos muito catitas. Umas
mossinhas a toda a volta, não sei se me faço entender. Aterrou mesmo ao lado um
deslizante pratinho de tremoços siamês de outro para as cascas. Um conjunto feito
num oito. Olhei-me em frente no meio das garrafas e brindei de mim para comigo
à minha primeira saída – andas muito saído ó João!, diziam-me sempre que
entrava num bar antes do treco. Pintado um venerando bigode de espuma belga,
permiti-me a um ah!... de satisfação que motivou o barista a tirar os olhos dos
casos-do-dia que lhe ensanguentavam o pensamento. Via-se na cara dele. Barista,
porque o estabelecimento em questão não era de primeira, onde os seus colegas
de ofício se dizem barman(s). É mais chique. Acto imediato, puxei dum cigarro e
dei duas retemperadoras passas para me fazer ao ambiente. Estava nisto, a
ver-me nublado no espelho em frente, coisa catita, quando se me aproxima à
ilharga direita uma senhora a explodir dum vestido perfumado decorado a fazer
pendant com a bola de espelhos rotativa que abrilhantava o Marante deixando o
amor na pequena pista de dança. Muitas coisas juntas a considerar num só momento.
«O cavalheiro oferece-me um copo?» perguntou-me a sereia a transbordar. «Não.»,
disse-lhe eu; até um bocado mal-educadamente após ter sido baptizado de
cavalheiro. «Ó, não seja mauzinho. Não oferece porquê?...». «Porque estou
triste. E quando estou triste quero ficar sozinho. Como pode ver, estou num bar
vazio, num balcão vazio, com um empregado ausente». «Mas estou cá eu. Não lhe
basta?». «E sobra, como poderá concluir com que que acabei de enunciar».
«Pronto, assim sendo, voltarei em melhor maré, boa tarde.». «Boa tarde e
obrigado.» O obrigado foi porque me estava a sentir mal com a minha pouca
urbanidade. Ela não merecia, realmente. Para mais marinheira. Mas eu estava
mesmo triste. Para rematar, deixei-lhe um sorriso, que muito me custou e que
ela deve ter entendido como de desprezo. Mas não era. Salvou-me do
inconveniente novo grito da mola da porta para deixar entrar um cavalheiro
arreado em três peças de fazenda riscada camisa aberta e sapatos de verniz, que
vinha muito feliz – estes ambientes deixam-me sempre poeta –, estacionando debaixo
da bola de espelhos com os braços abertos, como quem: vem a mim, convidando o
vestido ondulante para o tango que começava a gemer vindo da cabine de som. Isto
é demais para mim. Pedi a conta ao marreco e saí para vir para aqui.
– A sua esposa, não veio?...
Porquê?
– Eu disse-lhe. Olha que
hoje tenho consulta. Mas ela respondeu-me logo «já és crescidinho e não sou eu
que estou doente.» Pensava que eu vinha ao cardiologista por causa do enfarte.
Se soubesse que era aqui vinha logo, que ela anda muito curiosa; e como sabe
que estas consultas são para desabafos arranjava logo vontade de vir. Mas ainda
bem. Cada vez estamos pior. Ou melhor, enfim. Cada um para seu lado, para não
causar estorvo. Pensar que houve uma época há muitos anos, há muitos anos
mesmo… nem queira saber… que só queria andar de mãos dadas comigo. Eu na altura
não queria. Era uma mariquice. Agora que dava um certo jeito, arreda-se. Tenho
de levar isto para a piada. Quando tento falar com ela, grunhe. E eu grunho
também, que é para ela ver. Só à frente dos filhos é que disfarçamos. Até ver.
Qualquer dia, falta-me ao respeito à frente deles. Que não são burros. Já
notaram que os tempos já foram outros. Mais familiares, mais amigos. Mas não
dizem nada. Entreolham-se cabisbaixos com vontade de dizer alguma coisa, meter
água na fervura – até parece que a coisa anda quente -, e depois vai cada um
para seu canto até o desinteresse regressar. E a paz tomar conta do lugar. Só
falta pôr-me fora de casa. Já faltou mais. Aqui há dias disse-lhe: «quando o
viço e o vigor se vão, ou fica o respeito ou não resta nada». Perguntou-me de
que é que eu estava a falar, onde é que eu tinha lido tamanha inteligência.
Como é que um homem fica perante isto?
– Na próxima consulta a
sua esposa tem de vir. Já devia ter vindo a esta primeira
– Talvez seja melhor
passar uma receita para essa medicação.
José “João” Bessa

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