| Fotografia de Cristina Torrão |
Maria
O
César, dos olhos verdes.
De
quem me fui lembrar, ao fim de tanto tempo!
Aquele ano sozinha, com o Emanuel tão
pequenino… E o João tão longe…
A
tentação foi grande. E, no entanto, segurei-me.
Era
muito nova, ainda muito influenciada pela educação das meninas daquele tempo. E
vigiadíssima pela mãe e pela sogra, duas autênticas polícias, que quase não me
deixavam respirar sozinha!
Porém,
acima de tudo, estava muito apaixonada pelo João. Nunca considerei
verdadeiramente entregar-me ao César.
Fiz
mal? Teria tido uma vida melhor com ele?
Na
verdade, aquilo que começou na praia, com o João, um idílio, uma paixão intensa,
que a separação de um ano fez atingir momentos de saudade insuportáveis,
transformou-se num casamento que depressa se desgastou. As expectativas não se
cumpriram minimamente. Pelo menos, da minha parte.
Eu
tinha ainda muito romantismo na cabeça. Apesar de estarmos casados, gostava de
agir como se ainda namorássemos. Desejava andar pela rua de mão dada com o João,
ou mesmo abraçada, sentir o braço dele sobre o meu ombro. Desejava mostrar a
toda a gente que éramos um casalinho muito apaixonado.
Mas
ele irritava-se, dizia que não gostava de mariquices. Se eu lhe recordava que,
antes de casarmos, andávamos sempre assim, ele enervava-se ainda mais, alegando
“isso é diferente”, embora nunca me explicasse porquê. Ficava muito magoada,
não compreendia de todo. E essa ferida transformava-se em raiva, quando eu
notava que ele, em público, se afastava ainda mais de mim, caso deparasse com
mulheres bonitas.
A
isto se juntava a mania de o João decidir coisas sem me consultar, coisas que
me envolviam diretamente. Também sobre isso tentei, várias vezes, falar com ele,
mas só recebia a habitual incompreensão em troca. E, a partir de certa altura, ele
começou a sair muito sozinho. Ia a bares, encontrar-se com os amigos, dizia
ele.
Não
faço ideia se era sempre verdade. Ocasiões houve, em que desconfiei de alguma
amante. Mas deixei de ligar, porque… eu própria tive dois amantes.
Não
o trai com o César, mas, passado sete anos, conheci um homem simpático. E, como
eu, muito desiludido com a sua vida conjugal.
Chamava-se
Artur. Começámos por conversar sobre os nossos problemas. No início, era apenas
isso: desabafar. Mas o conhecimento cada vez mais aprofundado sobre a vida um
do outro acabou por nos aproximar. E aconteceu.
A
relação durou cinco anos, ao fim dos quais acabou, tão naturalmente como tinha
começado. Não sei se o João desconfiou de algo, nunca me disse nada. Cada vez
falava menos comigo. Quer dizer, falávamos sobre a organização do dia-a-dia, os
encargos com os filhos, as refeições, as compras… Mas não conversávamos.
Passado
seis anos, conheci um outro homem, ou melhor, o João e eu conhecemos um casal,
com o qual nos começámos a dar. E eu iniciei uma relação com o António, assim
se chamava. Era uma situação estranha, nem sei bem explicar como alinhei em tal
esquema. Encontrávamo-nos com eles, os filhos brincavam juntos, tudo se passava
de forma muito convencional. Eu até me dava muito bem com a Elvira, a mulher dele.
Mas depois, na primeira oportunidade, o António e eu íamos para um hotel e
tínhamos o melhor sexo que alguma vez experimentei. Mas mal conversávamos. Nunca
contámos intimidades das nossas vidas, nunca abordámos os nossos problemas. Era
completamente diferente do caso que tive com o Artur.
A
aventura durou quase dez anos, se bem que, nos últimos três ou quatro,
raramente nos encontrássemos. E também os convívios entre os dois casais
acabaram.
Várias
vezes pensei em divorciar-me. Mas, enfim, os filhos foram nascendo, os encargos
foram crescendo, uma pessoa vai-se adaptando, deixa andar, não quer estragar a
família, desiludir as crianças… E também o João nunca abordou esse tema, mesmo
quando começou a passar mais tempo fora do que dentro de casa e de eu ter a
impressão de que o assunto pairava no ar. Seria por comodismo? O João nunca
participou grandemente nas tarefas domésticas, tem o jantar sempre pronto,
quando chega do trabalho, cama e roupa lavada. No fundo, sou a empregada dele.
E,
mesmo assim, continuo casada com ele. Depois de o mais novo dos nossos três filhos
sair de casa, a fim de ir trabalhar numa outra cidade, fiz os sessenta anos e
senti-me velha demais para começar uma vida nova.
Porém,
a ironia entrou na minha vida com estrondo. Nestes últimos três meses, os
acontecimentos precipitaram-se.
O
João e eu estávamos um dia a ver televisão. Como sempre, sentados lado a lado,
sem falarmos, nem para comentar uma ou outra notícia. Nisto, porém, ele começou
a falar, muito calmo: que assim não íamos a lado nenhum, que talvez seria
melhor separarmo-nos, que deveríamos aproveitar os anos que nos restam para
mudar de vida; se tudo fosse de comum acordo, que mal viria ao mundo?
Eu
nem queria acreditar!
Depois
de digerir aquelas palavras, retorqui, cheia de cautelas, que a melhor forma de
nos separarmos era, de facto, de modo amigável. Naquele momento, porém, ficámos
os dois indecisos, como se nenhum de nós soubesse como continuar. Acabámos por
combinar refletir seriamente, durante uns dias, e depois tornar a falar do
assunto.
Foi,
contudo, precisamente nessa altura, que o João teve o enfarte. Ficou internado.
E eu, sozinha em casa, sentia-me completamente atordoada, sem cabeça para
pensar fosse no que fosse.
Dois
dias mais tarde, o alívio: ele já não se encontrava em perigo de vida.
Regressei a casa mais calma, sem adivinhar que outro tipo de agitação me
esperava. Ao pegar no telemóvel, a fim de enviar mensagens aos filhos com a boa
nova, deparei com um pedido de amizade, no Facebook. Era do Artur!
Aceitei
o pedido e, não se tinham passado nem dez minutos, recebo um telefonema dele!
Depois
das habituais saudações, ele foi direto ao assunto: tinha enviuvado e, vendo-se
sozinho, começara a pensar muito em mim, nas conversas que costumávamos ter.
Disse-me que eu era a única pessoa a quem ele tinha contado tanta coisa da sua
vida. E sentia falta dessa intimidade, desse amparo. Sugeriu um encontro.
Porque
tinha de acontecer tudo ao mesmo tempo? pensei. Surgia finalmente uma
oportunidade de mudar de vida! Mas como poderia eu...
Expliquei
ao Artur o que se passava. E disse-lhe que só me encontraria com ele, depois de
o João regressar a casa, a fim de ver como as coisas corriam.
O
regresso do João trocou-me novamente a voltas. Não estava minimamente preparada
para o que aconteceu, depois da conversa tida com ele dez dias antes. O João
vinha mais bronco e fechado do que nunca. Muito agressivo, nas palavras e nos
modos. Dei-lhe algum tempo, afinal, tinha sofrido um choque e estava ainda em
recuperação.
Tem
recuperado bem e, sentindo-se mais forte, começou a sair sozinho, sem dizer
nada. Não faço ideia para onde vai. Quando pergunto, diz que vai à consulta.
Mas
terá assim tantas consultas? Dá-me a impressão de não querer que eu o chateie. E
eu perdi toda a vontade de o ajudar.
Ontem,
passou-me um papel para a mão, disse que era do médico, sem mais explicações.
Constatei que se trata de um psicólogo, especializado em relações conjugais
desavindas, dizendo que seria imprescindível a minha presença nas consultas. Mas
porque não me informou o João de que andava a consultá-lo? Porque não me disse
ter mudado de ideias, quanto à separação? Julgou mesmo que podia resolver o
assunto sozinho? Sobre algo que me diz tanto respeito como a ele?
Essa
sua mania de decidir, sem nada me dizer, exaspera-me! Nem teve a decência de me
perguntar se eu tinha vontade de tentar. Passa-me apenas um papel para a mão,
com uma diretiva médica!
Claro
que me dá logo vontade de recusar. Ainda para mais, com o Artur a oferecer-me
novas perspetivas. Confesso que não tenho a mínima vontade de ir ao psicólogo.
Mas
conseguirei deixar o João, na situação atual, sem sequer tentar salvar o nosso casamento?
Cristina
Torrão
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