02/03/26

Compatíveis Incompatibilidades - Capítulo 7

 


Maria

Ai, João, João… porquê tanto viver de aparências, porquê tanto malabarismo para que ninguém se desse conta de como era realmente a nossa vida? Inclusive até mesmo para esconder dos nossos filhos. Não teria sido tão mais fácil se tivéssemos tomado esta decisão há mais tempo? – Penso eu, agora, que já não tenho de pensar mais no assunto.

Nunca percebi porque é que ele não aceitava uma separação, se pelo seu ego, se pela sua família ou se, tenho de confessá-lo, pela minha, que sempre foi ainda mais intransigente que a sua. É verdade que eu também devia ter sido mais firme nas minhas convicções. Devia ter lutado por mim, mas o conformismo ou comodismo, sei lá, e outras vezes, determinadas circunstâncias, nunca me deixaram fazê-lo. Foi uma culpa dividida, digamos assim; se é que houve alguma culpa no meio de tudo.

Bem sei porque é que agora aceitou o divórcio de comum acordo e sem complicações, claro que me inteirei dessa tal Laurinda, mas querem saber? Não me interessa para nada! Até digo mais: abençoada Laurinda que veio do Brasil, oxalá tivesse regressado antes.

Sinto-me leve e livre como nunca me senti. Nem mesmo antes de me casar. Nessa altura, era o domínio de uma família extremamente conservadora, regida por imposições não ditas, mas relembradas em todos os instantes, nas conversas e nos comportamentos em cada lugar e ocasião. Como o de me casar virgem, que eu não cumpri, e embora nunca me tivessem dito nada, momentos houve em que senti um certo ar de condenação. Depois, foi o casamento com o João, que nos amarrou numa liberdade condicionada a cada hora e a cada minuto. Tivemos as nossas aventuras extraconjugais, sim, eu tive e sei que ele também teve, mas isso não era liberdade, era mais um escape para algumas horas de êxtase. Liberdade é isto que sinto, sei-o agora.

Quando o divórcio foi concluído, respondi positivamente à mensagem pendente do Artur. Ele ainda me esperava. Primeiro, consolei-o pela morte da mulher, apesar de tudo, achei que era normal; afinal, tinham passado uma vida juntos. E, para surpresa minha, aquilo não me incomodou nem um pouco. Quando ele se recuperou, o que não demorou mais do que uns poucos dias, começámos a sair como casal, mas depressa me apercebi que não era aquilo que eu queria. O nosso momento já tinha passado. Talvez, quando nos encontrámos lá atrás pudéssemos ter caminhado juntos, mas agora já não, agora já estávamos em pontos diferentes do percurso.

Cada vez tinha mais a certeza de que o que eu precisava era de tempo e espaço só para mim. E, agora, aqui onde estou, estou convicta de que tomei a melhor decisão.

Há dias, vendi a casa que herdei dos meus avós, a outra, a que o João tinha comprado com o pai, ficou para ele, nas partilhas do divórcio. Como a casa ainda é grande e fica perto da praia, deram-me um bom dinheiro por ela. Pensei em comprar um pequeno apartamento, só para mim, e com o resto do dinheiro logo pensaria o que fazer.

A solução surgiu na semana passada. Ia pela rua, a caminho de visitar um apartamento, que me tinham dito ser o ideal, quando passei à frente de uma agência de viagens, que me chamou a atenção pela montra colorida a anunciar destinos exóticos. Detive-me a observar as promoções, que as havia para todos os gostos. Porque não? Pensei para com os meus botões.

É claro que os filhos começaram logo a pôr objeções: “sozinha, mãe”, “podias ir com uma amiga”, “não podias ir para mais perto, tinha de ser logo para o outro lado do mundo”, enfim, eu até os compreendo, é a primeira vez que vou viajar sozinha, mas ainda ontem, já com a mala feita e tudo, e continuava a ouvir a mesma ladainha. Principalmente do Emanuel, o mais parecido com o pai, que já hoje, comigo dentro do táxi que me trouxe para o aeroporto, continuava a insistir em que o deixasse vir trazer-me. Claro que com a esperança de conseguir dissuadir-me em cima da hora.

Eu própria cheguei a pensar que no momento da partida me arrependesse e voltasse para trás, mas não, o que é certo é que estou ansiosa por embarcar nesta minha nova experiência.

Ao meu lado, observo um grupo de jovens, ao que parece vão apanhar o mesmo voo que eu. Só não sei se o destino será o mesmo, até chegar lá, para onde vou, ainda vou fazer algumas escalas.

 

                                                                               Luísa Vaz Tavares

 

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