23/02/26

Compatíveis Incompatibilidades - Capítulo 6

 

Fotografia de Sónia Ferreira 

João

Hoje, no percurso até ao consultório do Dr. Seixas, psicólogo recomendado pelo meu amigo António e pela sua esposa, a Elvira, pensei cá para mim: “João, já não tens idade para procurares ajuda junto de um psicólogo…” Este pensamento afastou-me do destino que inicialmente me tinha proposto. O meu cérebro sussurrava-me que hoje não era dia de expor os meus tormentos no consultório do Dr. Seixas, apesar de ele ter o dom da escuta ativa e empática.

Segui rua abaixo, observei as montras das lojas e cruzei-me com bastantes pessoas aparentemente muito ocupadas no seu passo acelerado, porém com olhares vazios, sombrios… outros com uma felicidade estampada no rosto, mas efémera.

Dirigi-me ao Parque da Cidade e procurei um banco isolado, verde desmaiado pelo tempo, no meio das árvores e da vegetação vasta que abrigavam aquele espaço. Ali permaneci imóvel, imbuído nos meus pensamentos.

Episódios da minha vida surgiam como flashes, mostrando-me que, após o enfarte que sofri, continuo vivo e autónomo. Os cuidados da Maria foram importantes na minha recuperação. Apesar da nossa breve conversa sobre a hipótese de nos divorciarmos e seguirmos vidas diferentes, este meu problema de saúde suspendeu o plano da separação.

Debaixo daquela árvore centenária, senti-me abraçado pelos seus ramos e folhas. A brisa suave e fresca obrigou-me a inspirar profundamente e a libertar, lentamente, o ar exalado. Por momentos, senti uma paz estranha… parecia que os pensamentos que me sufocavam a alma tinham voado com o vento.

Todavia, voltei a descer à terra e deparei-me com a minha realidade.

Antes de conhecer a Maria, tive um namoro na adolescência, proibido pelos pais da Laurinda devido ao meu estatuto social. Beijávamo-nos longe dos holofotes, num esconderijo de difícil acesso. Momentos de muitos abraços intensos, como se o mundo acabasse ali, porém sempre a respeitei… não avancei para aquele meu desejo ardente de a possuir como menina-mulher.

Laurinda mudou-se para o Brasil. Não houve tempo para despedidas… as nossas juras de amor simplesmente não foram concretizadas.

Ela nunca me escreveu uma carta a dar notícias. Dececionado por ter sido esquecido por este meu amor, amargurado, retirei a linda foto da minha amada da carteira e guardei-a na caixa onde tinha o relógio de bolso do meu avô Manuel, a única recordação sentimental do meu herói, que partira há muito, após um acidente de comboio.

Maria acabou por preencher o vazio que Laurinda deixou… os nascimentos dos nossos filhos empurraram aquele amor de adolescência para a margem da vida.

A minha sogra culpava-me de ter um comportamento frio e distante em relação à sua protegida filha. Nunca tive paciência para lidar com a avó materna dos meus filhos. Honestamente, a sua presença na minha casa causava-me mau humor, expresso numa raiva irónica e afiada para responder a qualquer opinião que manifestava sobre a minha vida conjugal e familiar.

A minha partida para Luanda acabou por contribuir para este meu comportamento frio e distante. O nascimento do meu filho primogénito, Emanuel, exigia muita atenção da parte da mãe… fui ficando em segundo ou terceiro plano na lista da Maria.

De repente, tomei consciência de que o meu confidente nesta minha retrospetiva era o banco, enfeitado com musgo na base, que me sustentava em silêncio.

Sacudi o pólen dos ombros, que circulava no ar, e fui ao bar do Parque para salivar qualquer coisa que preenchesse o som sonoro que vinha do estômago.

Pedi um sumo de laranja natural e uma sandes de queijo. Aproveitei este pequeno prazer, tirei o livrinho de sopa de letras que vivia no bolso do casaco e concentrei-me em descobrir a última palavra daquele quadrado.

— Já está! — afirmei, como se tivesse ganho um troféu.

Bebi o último gole de sumo. Olhei em frente e reparei numa mulher de cabelos grisalhos pelos ombros e rosto delineado por pequenas rugas. Os olhos azuis sobressaíam naquela face esguia. Fiquei hipnotizado ao vê-la. Parecia que a conhecia… estaria a viver um déjà-vu?

Retornei ao mundo concreto e ouvi a voz de uma jovem, aflita, a gritar:

— Tia Laurinda, tia Laurinda… preciso da sua ajuda! O meu pai teve novamente uma crise de epilepsia…

Aquela mulher pousou a chávena de café na mesa e correu até à jovem. Abraçou-a ternamente e disse:

— Calma, minha querida Flor… o meu irmão, onde está?

— Chamei o 112 e ele foi transportado para o hospital. O Martim foi com ele… o meu irmão disse-me que eu estava histérica, sem condições de acompanhar o pai — afirmou Flor, com a voz trémula e os olhos rasos de água.

— Vamos juntas para o hospital. Vem! O carro está ali estacionado, perto da mercearia “D. Quixote” — disse aquela bela mulher, num tom de voz tranquilizante, de mãos dadas com a jovem Flor.

Presenciei todo aquele aparato sem desviar o olhar daquela mulher madura, cujo nome era Laurinda. Seria coincidência que, após tantos anos, o nome Laurinda renascesse do impossível?

 

Sónia Ferreira

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