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quarta-feira, 23 de março de 2016

Razão de Existir - Capítulo III

A vida dá muitas voltas e os médicos, por vezes, também se enganam. Aos poucos, Sebastião foi recuperando a visão do olho direito e as cicatrizes físicas, também foram desaparecendo. Agora, começava a pensar – seriamente – em voltar à Metrópole. 
Já tinha muitas saudades de casa, da família, dos amigos e sobretudo, da Maria da Conceição, que já não via, havia seis anos. Tinha-se esquecido dela: primeiro, foi a guerra a afastá-la do seu pensamento; depois, foi aquela maldita emboscada que quase lhe ceifou a visão e a vida.
Teve uma vontade repentina de regressar, tinha muitas saudades de tudo o que deixara na Metrópole. Aquela terra estava a sufocá-lo com acontecimentos, tão violentos: minas; armadilhas; explosões; corpos mutilados. Estava arrasado, sentia-se mal, psicologicamente.
Como estaria a Maria da Conceição?
- Será que ela ainda se lembra de mim, ou já me esqueceu? – E a dúvida ficou a pairar, como uma nuvem escura, no seu ansioso coração.
Estava na hora de voltar a Vale da Serra, à pequena aldeia que o viu nascer – situada num vale soalheiro, entre montes verdejantes, na Primavera e cobertos por um manto branco, no Inverno.
A última vez que lá tinha ido, tinha sido há seis anos. Já tinha passado bastante tempo, mas parecia muito mais… tanta coisa tinha acontecido, nestes últimos anos.
Lá, foi feliz! A vida corria lentamente, nesse tempo de infância.
Depois da escola, algumas tardes, eram passadas com o seu melhor amigo, o José Ramiro – colega de carteira da escola primária e também colega de muitas aventuras, pela aldeia e pelos montes, em redor. Só não gostava dele, quando ele colhia flores, no campo, para oferecer à Maria da Conceição. Nesse momento, os dois sorriam um para o outro e Sebastião só tinha vontade de esmurrar o nariz ao Zé Ramiro.
Quando subia ao monte, já mais crescido – enquanto via a imponente Serra da Estrela, lá no alto e o vale cá em baixo -, olhava o horizonte e sonhava com o dia em que partiria à descoberta do mundo desconhecido, que existia para lá desses montes.
Nessa noite, adormeceu tranquilamente, embalado pelas doces recordações da infância e juventude, passada em Vale da Serra.

Uns dias depois, regressou à Metrópole.
Ficou alguns dias em Lisboa, para tratar de uns assuntos relacionados com o exército e aproveitou para beber uns copos com os amigos, que por lá tinha deixado e matar saudades da Capital.
Os traumas da guerra e as mazelas que esta lhe tinha provocado, ainda o obrigavam a passar muitas noites em branco; noutras em que adormecia, tinha pesadelos terríveis, mas aos poucos, as cicatrizes da guerra foram-se desvanecendo.
Estava na hora de enterrar os fantasmas do Ultramar. Ia visitar o seu refúgio e, quem sabe, talvez lá ficasse, durante algum tempo.
Tinha trinta e seis anos e ainda tinha muita vida para viver.

Depois de passar a tarde em viagem, chegou à aldeia, à hora de jantar. Sentiu logo aquele aroma a campo e a flores silvestres, que recordava, ainda, da infância.
Não encontrou ninguém na rua e dirigiu-se logo para casa, mas também nesta, não estava ninguém. Bateu à porta, mas ninguém abriu. Foi procurar a chave, no sítio do costume – debaixo do vaso da planta, no fundo das escadas – e entrou. Pousou o saco e voltou a sair para a rua deserta.
Quando ia a passar no largo, da aldeia, ouve música e vai até lá. Tinha-se esquecido de que aquele dia, era o dia da festa da terra. Aproxima-se e qual não é o espanto… a Maria da Conceição estava a dançar com o Zé Ramiro. Havia muita gente, mas não prestou atenção em mais ninguém, só reparou naquele par. Ela continuava linda!
Estava perplexo. Não esperava encontrar nada disto. No seu pensamento, enquanto ia na viagem, era como se a vida tivesse parado no dia no dia em que ele tinha partido e estivesse tudo como ele tinha deixado, mas talvez fosse apenas o desejo dele a falar mais alto.
“A Maria da Conceição podia estar a dançar com qualquer um, menos com o Zé Ramiro” – pensava ele.
A música acabou e a Maria da Conceição e Zé Ramiro, encostaram-se ao muro.
- Inês, vem para aqui, vem para ao pé da mãe – chamou Maria da Conceição.
Inês correu logo a abraçá-la.
Nas cartas que trocara com ela, quando estava no Ultramar, ela nunca lhe tinha falado do Zé Ramiro, nem de que já tinha uma filha.
Aquela garota, devia ter por volta de cinco anos. Não sabia explicar, mas sentia uma certa ternura por ela. Era uma menina traquina e de cabelos louros. Gostava do nome dela.
“Não, não pode ser…” – matutava ele.
Nem sabia o que pensar, estava completamente paralisado, à entrada do recinto do baile. Ainda bem que ninguém tinha dado por ele, ali.
- Uma filha! Uma filha! – Não parava de repetir para si próprio.
- Casou com o Zé Ramiro – diz-lhe a mãe que, entretanto, apareceu ao lado dele.
- …
- A Inês é parecida contigo, não sei porquê! O rosto e o cabelo, fazem-me lembrar de ti, quando eras pequeno.
- Mãe!
- Vamos embora, precisas de descansar – sugere ela.
Entre sorrisos, abraços e muitas lágrimas de felicidade, os dois, lá seguiram para casa.

Finalmente, sentia-se em casa. O aconchego de um abraço familiar, era algo indiscritível.
A vida, no Ultramar, tinha sido muito dura com ele e com tantos outros colegas de armas. Depois de alguns anos tão difíceis, Sebastião, agora só queria paz: será que a iria encontrar em Vale da Serra?


Dina Rodrigues 

1 comentário:

Clementina Barros disse...

O conto começa a tomar forma enredo e com eles alguns mistérios?
Muito bom Dina Rodrigues.