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quarta-feira, 4 de maio de 2016

Razão de Existir - Capítulo VIII


Fotografia do Pedro Miguel Ferreira 

Afundo-me no sofá da sala com as mãos trémulas a segurar a carta de intimação que me convocava para uma audiência no Palácio da Justiça de Gouveia, num prazo de quinze dias. Respiro fundo durante breves momentos, atiro a carta para cima da pequena mesa de centro, levanto-me com dificuldade e avanço para o bar que estava situado num canto da sala. Pego num copo, sirvo-me de uma dose generosa de whisky de malte irlandês e procuro o maço de cigarros amarrotado que estava escondido no meio das garrafas. Já tinha abandonado o vício do tabaco há mais de vinte anos e este era apenas mais um sintoma de que estava num eminente colapso nervoso. Nos momentos de maior nervosismo ainda me socorria dos cigarros, que me apaziguavam momentâneamente o espírito. Uma mera muleta psicológica das fraquezas humanas. Acendo o cigarro e aspiro lentamente, escutando o leve crepitar do papel e do tabaco a queimar entre os meus dedos. Sinto uma ligeira tontura e dou um valente gole no copo que tinha enchido até meio. Tento ordenar os pensamentos que me inundavam o cérebro a uma velocidade vertiginosa e chego à conclusão que tinha chegado a hora de despir a falsa pele de cordeiro que eu tinha tentado vestir durante os últimos anos. Se eu fosse verdadeiramente honesto comigo mesmo chegaria rapidamente à conclusão que, na realidade, não possuía a tal integridade impoluta que tanto proclamava. Afinal de contas, eu tinha sido integrante da PIDE e tinha feito uso dos poderes que a instituição me conferia para prejudicar profundamente a vida de algumas pessoas. Isto para não mencionar um passado mais recente em que a vida me conduziu para algumas vielas do submundo, às quais me via obrigado a regressar dado o cenário em que me encontrava neste momento.
Dou um trago demorado no meu cigarro e observo o fumo a dissipar-se langorosamente pela sala, pego no telefone e digito o número de telefone do meu médico de longa data, o Manuel Gonzaga, filho do Carlos Gonzaga, também ele médico e um dos meus poucos amigos de longa data, que tinha falecido recentemente. Ele atendeu a chamada após quatro toques e pelo ruído de fundo deduzi que ainda estaria a finalizar o almoço num restaurante qualquer.
- Estou? - Atendeu ele, elevando o tom de voz.
- Boa tarde Manuel - eu nunca tinha tratado o meu médico por doutor já que o conhecia desde miúdo - Como estás?
- Hum? Quem está a falar? - Interrogou com desconfiança.
- Sebastião Menezes...
- Ah...em que posso ajudá-lo? O Sr. Menezes encontra-se doente?
- Pelo que deves ter lido nos jornais nestes últimos tempos, poderás imaginar que o que menos me preocupa neste momento são as minhas maleitas do corpo.
- Acredito... - respondeu hesitante.
- Preciso que me faças um grande favor. Necessito que vás até Seia, ao Alabama Club, para entregar um envelope com uma mensagem que irei escrever para a Júlia. Há muitos anos que não tenho contacto com aquele pessoal e já nem tenho o número de telefone de ninguém de lá.
- Ir até ao Alabama? Júlia? Desculpe, mas não estou a entender o que me está a tentar dizer...
- Não te armes em sonso comigo, meu rapaz! - Respondo de forma ríspida - Pensas que eu não sei que vais lá quase todas as sextas feiras? Não te censuro por isso e sei muito bem que herdaste os genes do teu falecido pai, que também era apreciador de uns copos e da companhia de belas mulheres.
- Lamento...mas ainda assim não sei se lhe poderei fazer esse favor.
- Ai não? - Questiono com um ligeiro toque de ironia na voz - Costumo encontrar a tua belíssima esposa quase todos os dias, pela manhã, na pastelaria. Poderá muito bem acontecer, um dia destes, eu meter conversa com ela e ter de lhe explicar um pouco melhor como funcionam as tuas noites de póquer com os teus amigos nas sextas à noite. Seria um pouco aborrecido, não achas?
- Não será muito correcto, um senhor da sua idade estar-me a ameaçar - respondeu o Manuel, elevando ligeiramente o tom de voz.
- Neste momento e dada a minha situação, tenho de fazer uso de todos os meios ao meu alcance para me safar desta embrulhada em que me meteram e penso que não te estou a pedir nada de especial. Já agora... conheces uma tal de Inês Ramiro, juíza do tribunal de Gouveia? O meu processo está nas mãos dela...
- Sim. Trata-se de uma juíza que foi colocada aqui na comarca muito recentemente. Mas só me cruzei com ela por uma ou duas vezes. Pelo que sei, mora fora da cidade, na aldeia de Nespereira. Dizem que comprou um velho solar por uma ninharia e que o reconstruiu de raiz, pouco antes de se instalar aqui no concelho.
- Muito bem. E no que diz respeito à nossa conversa? Posso contar com a tua ajuda ou não?
- Sinceramente, não sei o que lhe dizer...
- Tens uma tarde inteira pela frente para pensares sobre o assunto. Como será fácil deduzir, o tempo não corre a meu favor e tenho de colocar o meu plano de acção em marcha. Passa aqui na minha casa, ainda hoje, depois do jantar. Ofereço-te o café e um digestivo à tua escolha. Entretanto, irei tratar de escrever a mensagem que preciso que me entregues à Júlia o mais rapidamente possível. Obviamente que ela já não trabalha no bar, mas a Kika, a sua filha, saberá levar-te até ela.
- Caramba! O senhor está-me a colocar numa situação bastante delicada. Mas também sei que, de certo modo, tenho a obrigação moral de o ajudar dada a longa amizade que teve com o meu pai. Após o jantar, passarei por sua casa. Até logo...
- Muito obrigado. Até logo, Manuel.
Desliguei a chamada e senti um ânimo redobrado a pulsar no meu peito. Pego no copo, ligo a aparelhagem sonora onde coloco a tocar o CD da banda sonora de Wild at Heart e desloco-me para o escritório com o intuito de escrever a mensagem para a Júlia. Esse nome remetia-me novamente para o meu passado. Um passado obscuro e de contornos nebulosos que eu tinha tentado esquecer. O já distante ano de 1982 tinha sido marcado por uma nova etapa na minha vida profissional. Poucos anos tinham sido suficientes para eu entender que o emprego que me tinham arranjado nos Correios era extremamente monótono, burocrático e de horizontes bastante limitados. Nessa época e por uma conversa que tinha apanhado no balcão de atendimento, tive conhecimento de que o Teatro-Cine de Gouveia estava em vias de ficar sem sessões de cinema. O rapaz que desempenhava as funções de projeccionista estava prestes a ingressar na Universidade de Coimbra e ainda não tinha sido encontrado nenhum substituto para as suas funções. Eu era um apaixonado pela sétima arte desde os tempos da tropa, época em que o cinema funcionava como uma das nossas raras distracções e tinha aprofundado os meus conhecimentos sobre o assunto ao longo dos anos. Uma boa parte da minha biblioteca era ocupada por livros sobre cinema e as paredes de minha casa eram decoradas por diversos cartazes de filmes emblemáticos que eu tinha resgatado desse mesmo cinema, após o seu período de exibição. Rapidamente, tratei de mexer os meus cordelinhos de forma a ocupar o único posto na cidade que me permitiria ter um contacto mais directo com uma das minhas pouquíssimas paixões na vida. Após um breve período de formação dado pelo jovem projeccionista, abandonei o emprego nos Correios e o meu quotidiano passou a ser ocupado pelo tratamento das fitas de 34mm que projectavam as mais diversas histórias e sonhos no grande ecrã. Aproveitava boa parte do tempo das sessões para ler os meus livros e escrever. Perdi a conta dos guiões que escrevi para filmes que eu sabia que nunca viriam a ser lidos por nenhum cineasta.
Foi a partir deste momento que comecei a desenvolver algumas amizades com uma pequena elite da cidade que também utilizava o cinema como ponto de encontro e tertúlia. Fui-lhes conquistando a confiança lentamente e pouco tempo depois já os acompanhava nas suas incursões fora de horas até Seia, município vizinho, onde nos podíamos divertir ligeiramente afastados dos olhares da vizinhança e onde estava situado o Alabama Club, um famoso bar de alterne da região serrana. Normalmente fazia-me acompanhar pelo médico Carlos Gonzaga, por Mário Leite que era o proprietário das duas farmácias da cidade e pelo rico lavrador Arnaldo Raposo que possuía o maior rebanho de ovinos da Serra da Estrela. Enquanto os meus amigos esbanjavam dinheiro em garrafas de bebida e em pecaminosas subidas na companhia das raparigas aos quartos do primeiro andar do edifício, eu esbanjava charme e poder de sedução. No alto dos meus cinquenta e muitos anos ainda tinha uma boa aparência, gostava de conversar com as mulheres de forma desinteressada e sempre as tratei com o maior respeito. Não foi preciso muito tempo para que me viesse a envolver e a tornar-me amante de longa data de Júlia, a proprietária do bar que já tinha deambulado durante vários anos pela noite de Lisboa e algumas cidades espanholas. Era sete anos mais nova que eu, tinha uns expressivos olhos cor de avelã, longos cabelos negros e um corpo curvilíneo que deixava a turba masculina a salivar de desejo. A nossa relação foi-se cimentando e dois anos depois, ela ofereceu-me uma espécie de sociedade, tornando-me o responsável por um casino ilegal que funcionava num anexo do estabelecimento. Na época, comprei o meu primeiro e único automóvel da minha vida. Um rústico jipe Portaro, de fabrico nacional, que agora apodrece de forma acelerada na minha garagem. Todos os dias, após o final da sessão da noite, que nos cinemas de província tinha início às nove da noite, eu deslocava-me até aos arrabaldes de Seia para tomar conta da sala de jogo que rapidamente ultrapassou os lucros que as bebidas e as mulheres do bar geravam. Permaneci nesta vida durante alguns anos, o que me permitiu amealhar um considerável pé de meia que mantenho oculto até aos dias de hoje. Tudo terminou num dia em que a Júlia me apanhou em flagrante a beijar uma das raparigas do bar e me expulsou de forma brusca e violenta da sua vida.
Regressei ao meu quotidiano anterior e mantive o meu trabalho de projeccionista no Teatro-Cine até 1995, ano em que o proprietário da sala de cinema a decidiu encerrar devido à falta de público, que optava cada vez mais pelas salas multiplex das grandes superfícies comerciais que iam sendo edificadas nas cidades vizinhas. Outros optavam por ver filmes em casa ou simplesmente tinham-se desinteressado pelos encantos da sétima arte. Foi a partir desse momento que entrei forçosamente na reforma e me refugiei numa série de rotinas diárias sem grande interesse. Nos meus primeiros anos de descanso forçado ainda cheguei a fazer algumas visitas ao Alabama Club cuja gerência, entretanto, já estava nas mãos da Kika, a filha de Júlia e do seu namorado Alfredo, um ex-GNR, expulso da corporação por práticas de corrupção. Numa dessas ocasiões aproveitei para fazer as pazes com a Júlia que tinha sido uma mulher bastante importante na fase madura da minha vida, mas que eu não soube valorizar devidamente. Sabia de antemão que jamais teria uma nova oportunidade por parte daquela mulher. Porém, sentia-me mais aliviado por vê-la sem mágoa nem ressentimentos e a sorrir novamente para mim. Nunca mais lá voltei a partir dessa data, mas agora necessitava de reatar esses meus laços mais obscuros para lidar com as teias da lei que se apertavam ao meu redor. A Júlia e a sua filha possuíam uma invejável rede de contactos a todos os níveis e sabia que me poderiam facilmente indicar o nome de um advogado capaz de argumentar a meu favor. Não era por acaso que aquela casa noturna tinha resistido a inúmeras tentativas de encerramento. Por outro lado, acreditava que provavelmente também iria necessitar dos serviços sujos do Alfredo para dar um valente apertão ao franganote do Ricardo, o jovem repórter que tinha feito a falsa denúncia a meu respeito e à mãe da Sara que tinha sido cúmplice neste esquema que visava aniquilar-me. Também ponderava a hipótese de conseguir um passaporte falso que me permitisse escapar do país caso visse que não existiria qualquer hipótese de comprovar a minha inocência. Tinha dinheiro suficiente para ainda viver de forma desafogada, os poucos anos que me restavam, num qualquer país sem acordo de extradição. Mas isso seria mesmo em último recurso e sinceramente não sabia se ainda teria energia suficiente para embarcar numa aventura dessa envergadura. Por fim, restava ainda o Manuel Gonzaga, que poderia vir a ter um papel importante enquanto intermediário para conseguir chegar ao diálogo com a juíza, cujo nome me tinha colocado em sobressalto. Inês Ramiro.


                                                                                                Pedro Miguel Ferreira

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