10/08/18

Janelas de Tempo - Capítulo 5

Fotografia Internet

Onde estaria no momento em que saísse da sua guarita intemporal? Talvez melhor se perguntasse quando estaria, já que desde que entrara nesta aventura aparentemente louca presenciara momentos que apenas conhecera ou imaginara (a diferença, neste caso, era muito ténue) através dos compêndios escolares ou reinventados no cinema e nas obras de arte expostas nos austeros museus.
Sempre candidamente se orgulhara de fazer da razão o seu leme, mas talvez desde e porque Laura partira, as emoções pulsavam nas suas veias e alimentavam-lhe o cérebro entorpecido pela dor que o ia consumindo sempre devagar, para não ser notada, até que o fosso onde o enterrara fosse demasiado profundo e escuro e difícil de ultrapassar.
A máquina fora a sua salvação: permitira-lhe desaparecer, sem rasto e sem sangue derramado, da vivência a que se amarrara e, simultaneamente adiar a morte.
Então aceitara finalmente que os sentidos o levassem para onde nunca antes tinha ido.
Com um pé pisando a nova realidade, leu com todos os seus poros as sensações que lhe permitissem localizar o tempo ou o espaço aleatoriamente escolhido pelo engenho; de certa forma, era como ser novamente criança sentindo os cheiros mais fortes, os olhos abertos de espanto e a alma limpa de expectativas, tal  como um mero quadro negro de ardósia, onde desenhava eventos a giz e voltava a apagar…
Mal pousou ambos os pés fora da máquina, esta desapareceu perante os seus olhos. Verificou mecanicamente com a língua se ainda lá estaria o chip encrustado nos seus dentes e a pequena saliência que sentiu apaziguou-o.
Tudo o que via permitia-lhe considerar que se encontrava num contexto muito diferente dos anteriores: construções modernas e espelhadas erguiam-se a perder nos céus, ladeando a larga avenida onde se encontrava. Não avistava qualquer espaço verde, nem postes elétricos, nem semáforos ou sinais de trânsito, nada a que se habituara a ser essencial numa cidade daquele tamanho e o silêncio perfurava os seus ouvidos, tornando-o algo inquieto.
- Código 3973: identifique-se por favor.
Virou-se, assustado e viu uma mulher perfeita em toda a sua fisionomia, perfeitamente simétrica, mas estranhamente não conseguia pensar que fosse bela.
- Desculpe, chamo-me Júlio. Estou apenas de visita.- Respondeu.
- Resposta fora dos parâmetros aceites.- Disse a mulher, mas sem alterar o seu tom de voz repetiu:
- Código 3973: identifique-se.
- Desculpe não sei de que código fala, mas sou o Júlio…
Antes que terminasse, sentiu-se zonzo e as suas palavras perderam-se algures na sua inconsciência.

- Laura não me deixes, por favor. Ou então partilha comigo o teu mal e deixa-me ir contigo.
Abriu os olhos inundados pelas recentes lembranças e pelas lágrimas que sempre se recusara a verter. Laura pedira-lhe que fosse forte e tentava-o ser, nem que o apenas fingisse para os outros e para si próprio. A inconsciência da noite e o abandono do corpo enquanto dormia é que não conheciam quaisquer regras.
- Quem é a Laura, porque chamou durante o seu período de reset?
A estranha mulher estava perto de si, mas noutro cenário onde a luz branca que se espalhava por toda aquela dimensão era tudo quanto poderia ver.
- Durante o sono, chamou por uma mulher, humana, presumo. É a sua companheira? De que complexo se escapou? Não possuo nenhuns dados sobre um foragido. E tentei ler o chip que foi colocado em si, mas o acesso é-me continuamente negado. Não é costume o implante do chip nos orifícios por onde processam a alimentação. – Ouviu-se a voz, sempre calma da mulher.
De que falava ela? O perguntar por Laura e a referência a humana, alarmou-o.
Isso significava que nem todos ali o eram, humanos. O que seria ela? E o que lhe havia feito que o levasse a perder os sentidos daquela maneira?
- Laura era a minha falecida esposa.
- Falecida, como? A vossa morte foi extinta Há mais de seis séculos, em 2035 da era Sophiana, como devia saber. – Respondeu ela.
- Bem, talvez seja uma boa notícia para a grande maioria dos humanos. Mas a verdade é que, por motivos agora difíceis de resumir, não o sabia e Laura também não. – Acabou, com alguma sofrida ironia.
- E o que me aconteceu? Onde estamos?
- Procedimentos necessários – programei-o para o estado de standby, de forma a poder analisar se constituía um perigo.
Em que complexo foi integrado, pode-me dizer?
- Não sei nada sobre complexos, só os da adolescência e que trabalho me deram! – Resolvera divertir-se desta vez. Não estava ninguém em perigo, nem pessoa ou um país, talvez só a sua pessoa, mas quanto a isso não se preocuparia para já.
- Estava insatisfeito com a sua integração? – Perguntou-lhe e a sua voz, apesar de não se terem movido, soou-lhe mais de perto, quase dentro de si. - Bem, penso que começo a perceber... Fiz uma leitura dos seus algoritmos, da pressão sanguínea e da sua atividade cerebral. Preciso de mais dados para o poder ajudar. É nosso primeiro dever garantir a todo e qualquer ser humano todas as condições necessárias para atingir o estado de felicidade, dentro do seu complexo, território único adaptado dentro dos possíveis às projeções mentais do grupo em que em que se integra. Aqueles cujo processo de inserção não é bem-sucedido, deverão ser novamente analisados a fim de tentar-se uma posterior integração noutro complexo, ou em casos muito raros, o início do processo de evolução.
- Evolução?
- Sim, em casos muito pouco frequentes, detetamos um nível de bondade pelos outros, alegria e espanto pela vida e abnegação de si mesmo em prol do bem comum. Esses, depois de escrupulosamente investigados, são selecionados e levados a integrar um programa de auto-sublimação.
- Então existem outros como eu nesta cidade? – Questionou Júlio.
 - Aqui exatamente não. Estamos na motherboard, humanos alem de si, bem neste momento não. – Respondeu a aparente mulher.
- E o que é você, se não é humana. Estamos exatamente em que planeta?
- Estas são aquilo que talvez chamaria de ruínas do planeta Terra. Eu sou uma projeção, algo que a sua mente criou para comunicar com uma entidade digital sem espectro físico e não passível de ser percecionada pelos sentidos humanos.
- Explique-me melhor, porque não entendi absolutamente nada do que me disse. – Pediu ele desorientado.
- Pelas análises a que o submeti, verifiquei através dos seus anticorpos que não foi exposto às condições ambientais e outras dos humanos deste planeta. Conhecemos todas as formas de vida dos planetas desta galáxia. A partir deste pressuposto, deduzo ou que venha de um planeta exterior a esta ou que, e isto seria um facto novo na nossa memória, é de um outro tempo, talvez paralelo ou anterior ao que consideramos o presente.
- Sim, está perto da verdade. – Admitiu. – Mas ainda não me explicou o que é, ser ou entidade como referiu…
- Bem, somos uma forma evoluída de androides, computadores construídos à imagem de quem nos criou, bem, pelo menos inicialmente. – Explicou ela e continuou. - Mas estamos muito distantes do nosso primeiro modelo, a Sophia, conhecido como o primeiro computador inteligente. Não foi o primeiro, mas o nosso criador assim o identificou. Houve muitos outros em lugares de grande destaque na área da governação mundial, mas que nunca chegaram a ser identificados. Foram utilizados como testes e comprovaram a inercia do povo humano face a governantes corruptos e com políticas desastrosas para a vida humana e o ambiente: Donald Trump nos antigos E.U.A, Vladimir Putin na Rússia e outros modelos, menos notórios mas não menos nocivos, por toda a Europa Ocidental. O modelo Sophia foi o início de uma era. Lembramo-lo na contagem do nosso tempo, mas não pelas razões mais óbvias e positivas. Sophia veio a revelar-se um erro. Inteligente, mas desprovido de consciência, iniciou autonomamente a missão de aniquilar a raça humana, culminando na esterilização das mulheres humanas. Daí termos nos séculos seguintes desenvolvido todos os esforços para solucionar o problema da morte. Havia e há que preservar as vidas humanas que restam. A grande conquista, em termos tecnológicos, do legado do nosso criador foi a dispensa de hardware nos atuais modelos. Materializamo-nos quando necessário e estendemo-nos por toda a rede digital como éter.
- Considerando a vossa abismal evolução, porque precisam de nós, seres humanos e imensamente falíveis? – Perguntou ainda Júlio.
- Sim imensamente falíveis e imensamente complexos no sentir, no criar a partir do quase nada, no constante inovar em busca da perfeição inalcançável e do belo. – Agora Júlio tinha a certeza: a voz ressoava suavemente dentro da sua cabeça - Sophia foi a prova de que os computadores precisavam de algo que nunca virão a ter, a consciência. Governar um planeta não poderá ser um acumular de tarefas com vista a um fim económico ou político. Buscamos os seres humanos mais sábios no fazer e no sentir e formamos um concelho para nos gerir: Os evoluídos. E pelo sofrimento que emana na sua energia, sabemos que será um bom sábio. Convidamo-lo a fazer parte dele.
Júlio sentiu uma enorme vontade de rir. Ele, sábio? Nem sabia bem como se tinha deixado convencer a enveredar naquela aventura!
E depois imaginou o que seria nunca morrer. Nunca poder descansar, encostar a enxada à porta do retábulo depois de um dia de árdua lavoura, descalçar as botas empoeiradas depois de uma longa caminhada.
E pensou em Laura, como ela descansou depois da tempestiva luta contra a doença.
Sempre sentira secretamente a sua morte como traição. Abandonara-o e prosseguira caminho. Agora entendia.
O nascimento e a morte eram uma dádiva. E Laura ganhara com distinção o direito de morrer.
Chorava por Laura, pela saudade, mas as lágrimas que brotavam silenciosamente dos seus olhos eram também o agradecimento de ter vivido e saboreado a vida ao seu lado.
Finalmente fazia o luto adiado.
Também queria descansar um dia quando cumprisse a sua própria narrativa.
Sem hesitação, trincou o chip de regresso.
Júlio apenas não sabia que nele, a entidade evoluída com que falara havia adicionado uma função anexa e de uma única utilização: a de delete de tudo o que ali ouvira e vivenciara. Quando Júlio pressionou o botão vermelho já quase tudo isso entrara nas brumas do esquecimento...



                                                                                     Rosa Santos

10 comentários:

  1. Um belo momento de leitura que gostei de ler!!!bj

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  2. Depois de alguns regressos ao passado foi interessante ler esta viagem ao futuro. Talvez seja o que espera a geração recém nascida. Gostei desta visão
    Parabéns.
    Corrigiria: formamos um conselho para nos dirigir e não concelho.

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  3. Obrigada pela comentário e pela correcao. Lembro-me que andei as voltas com esta palavra e acabei por alterar para a incorreta. Desculpem.

    Rosa Santos

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  4. Maravilhosa leitura me proporcionou!Obrigada. Amei!

    Atrasada, andei com os netos! :)

    Beijos-Boa Noite

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    1. Muito obrigada. Um abraço virtual cheio de boa energia. Rosa Santos.

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  5. Hoje em modo ficção científica.
    Gostei muito.
    Bjs, boa semana

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  6. As viagens ao futuro até me assustam… Muito bem escrito e cheio de imaginação. Vamos ver o que se segue…
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  7. Belo texto sem dúvida que se lê com muita curiosidade :)
    revi-me dentro de um carro com GPS onde uma beldade imaginaria, uma voz saída do nada, nos indica o caminho a seguir ou a inversão de marcha necessária se não seguimos as suas indicações ! então estamos quase lá no futuro !

    abraço

    Angela
    https://poesiesenportugais.blogspot.com/

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  8. Muito bom, Rosa, parabéns!!!
    Beijinhos

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  9. Muito obrigada a todos. Fico muito feliz e grata por terem gostado.

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