30/11/18

Ecos de Mentes - Capítulo 2


©Fátima Ribeiro

- D. Laura?...
- Ai que susto, homem! Não se aproxime tão silenciosamente, que ainda me mata do coração.
- Desculpe, D. Laura, desculpe. Mas é que preciso de indicações.
- Indicações sobre quê?
- Então, sobre… isso. Paramos a obra?
- Não paramos nada a obra. Então agora íamos parar a obra por causa de uns cadernos velhos? Leve-os todos lá para baixo, que eu vou lê-los, e continuem o vosso trabalho.



Gabriel

Trouxe o caderno para o jardim. Não sei se é permitido, mas ninguém disse nada e olha: aproveitei que chegaram as “No Podemos Hablar” para fazer a limpeza do quarto e pirei-me com ele dentro da sweatshirt. O que, provavelmente, foi cuidado desnecessário, já que não encontrei nenhum dos outros pelo caminho. Apesar de ao pequeno-almoço a sala estar cheia, não sei onde se meteram todos, que nunca mais os vi. Não que isso me incomode. Não, não incomoda nada. Sou bicho solitário e pressinto que vou dar-me bem, aqui entre os recantos da natureza. Aliás, já andei por aqui de madrugada, àquela hora que ninguém desconfia. Estava ansioso e não conseguia dormir. Saltei pela janela.
Estava a ver que ía ter que me arranjar lá no quarto. Não ía ser fácil, mas sem malhar é que eu não ficava. Ah, pois não! Já basta não ter os aparelhos que tanta falta me fazem. Nem que tivesse de desmontar a mobília, pendurar-me do tecto, sei lá… agora que atingi o ponto que pretendia não posso regredir. E é que não é só o corpo é também a mente, a minha mente não consegue suportar as endorfinas que estão sempre a acumular-se. Só o ginásio é que as liberta e na falta de um, teria que me desenrascar. Ainda que fosse saltando pela janela. Que sou obcecado pelo culto do corpo, dizem. Tretas, só tretas. Eu sei perfeitamente que não caí no exagero, apenas não me sinto bem se… não quero um corpo flácido, ponto. Se esfumaçasse que nem uma chaminé, como alguns que já aí vi, isso é que era de preocupar. Agora fazer exercício físico, que mal há nisso? Que mal há em querer ser saudável?
Mas pronto, pelo menos por enquanto já arranjei solução. Durante a escapadela madrugadora, andei a vasculhar o jardim e encontrei uns sítios que vão dar para fazer bons esquemas com sequências alternadas. Assim vai ser mais fácil não perder massa muscular. O pior é a alimentação. Pela amostra que me foi dada a conhecer, é só gorduras poli-saturadas, hidratos processados e açucares. Proteínas, nada de nada. Trouxe – e isto ninguém sabe – um grande stock de suplementos. Não resistiria sem eles. Mas mesmo assim, não posso, não devo abdicar do meu plano nutricional. E a isso é que vai ser mais difícil dar a volta. A não ser que – surgiu-me agora uma ideia – engate a gaja da cozinha. Aposto que não daria trabalho nenhum, elas não resistem a este corpo de Adónis. Falo por experiência: são sempre aos montes a ver quem ganha o pedaço. E não são só elas, eles também; mas esses, enfim… não me interessam para nada. Voltando à da cozinha, acho que se chama Ilda, será que já reparou aqui nestes esplendidos bíceps? Hum… se calhar não. Com aquele aspecto badalhoco, nem deve saber o que é um corpo bem cuidado. Pensando melhor, talvez não seja uma boa ideia. Pois, não; quem teria estomago para aguentar o cheiro a fritos ou tocar aquela pele peganhenta de suor e gordura? Não, essa também não é uma hipótese.
“Olá, boa tarde!” Espera… estava eu a dizer que não sabia onde se tinham metido todos, pois aqui está um. – Boa tarde! – Respondo, sem ênfase. – Não vê que agora estou ocupado? – Apetece-me dizer. Mas não digo, fico à espera que o gajo continue a conversa. E continua: “chamo-me Amadeu”. Sim e o que é que eu tenho a ver com isso? Vêm-me à mente a resposta pronta, mas em vez de a verbalizar solto um amistoso - Sou o Gabriel. “Muito prazer, Gabriel. Tens um cigarro?” Ah, é isso que ele quer? Não vou ser nem sequer cordial: - Claro que não, não fumo! “Ah, está bem. Achas que podemos ver a bola, logo à noite? Quer dizer, haverá cá algum plasma ou pelo menos um bom aparelho de televisão?” Olha-me este… deve ser daqueles que se empanturram de petiscos a babar gordura, enquanto chamam nomes ao árbitro. “O que é que escreves aí nesse caderno?” Mas o gajo é parvo ou quê? Então não estamos aqui todos para o mesmo? - É para a posteridade, não foi o que nos disseram? Não te deram um? “Acho que vi um lá no quarto… até logo, talvez a malta se encontre para ver a bola.”
Estão a ver porque é que eu digo que sou bicho solitário? Esta foi a conversa mais longa que tive com alguém, desde que entrei neste lugar, e para dizer a verdade já estava com vontade de enfiar a caneta nos olhos do tipo. Ou naquela barriga inchada, a ver se rebentava como um balão… eheheh, havia de ser giro aquela porcaria toda a saltar cá para fora. Que nojo! Não sei como é que são capaz de andar com aqueles corpos nojentos a exibir-se por aí. Comigo não, comigo não contem para ver a bola a ingerir petiscadas ao ritmo dos gritos de gooooloo! Não gosto dessas socializações. Mas também não vim para aqui para socializar. Vim para aqui para… para que foi mesmo? Bem, talvez um dia saiba.

O jantar de hoje não me correu mal de todo. A comida foi uma mixórdia parecida com a de ontem e de anteontem, mas estive à conversa com a Helena. Aquela é que é uma gaja que me enche as medidas. Assim que a vi percebi logo… longos cabelos negros, olhos verdes, corpo bem torneado. Mas até agora só dava conversa ao David. O gajo até me parece boa pessoa, talvez o único com quem me identifique um pouco, mas desculpem lá: os meus interesses são os meus interesses e os teus interesses são os teus interesses. E os teus não podem nunca sobrepor-se aos meus.
Porém agora que ela sabe que sou PT, adeus David. Amanhã, já vamos ter uma aula. Eu sabia que aquele corpinho não se fazia assim do nada. A propósito, será que devo fazer um esquema para ela? Ah, não… não sei em que forma está. É melhor esperar por amanhã e assim observo-lhe o nível e tiro-lhe as medidas. Não é que não lhas tivesse tirado já, mas isso é outra história.  
Raios! Estão a bater à porta. Quem será agora? Que não me venham cá com mais saraus. Já me bastou o outro, onde tive que aturar aqueles dois malucos a dançar sem música. E a histérica da Cláudia ainda a dar-lhe trela, que nunca mais nos abriam a porta. Não estou para isso…
Novamente, vários toques com força, na porta do quarto. Quem quer que seja está com pressa, bate tão insistentemente. “Boa noite! É o Gabriel, não é?” Este não sei de onde é que apareceu. Nunca o tinha visto, nem ao pequeno-almoço onde achei que estava toda a gente – sou o Gabriel, sim – confirmo. “O meu nome é Dionísio, já nos cruzámos por aí.“ Já? Quem diria… eu não disse que não eram só elas a disputar o pedaço? Já deve ter andado a catrapiscar-me à socapa. “Posso entrar?” Entre, entre, sinta-se à vontade – o meu pensamentos é irónico, pois a criatura vai logo invadindo o meu espaço sem o meu assentimento. “Sabe Gabriel, soou-me que é PT”. Soou-lhe? Será que a Helena lhe contou? “Blábláblá, blábláblá… e então resolvi vir procurar os seus serviços.” Ah, então é isso que o gajo quer: um personal trainar: “faço qualquer coisa para manter esta maravilhosa forma. Estou muito bem, não acha?” Talvez, talvez esteja mas terá de arranjar outro. Eu já estou ocupado. – Dionísio, eu não sei se posso fazer isso aqui. Não sei se as regras o permitem, entende? Acho melhor não arriscar. – Tento esquivar-me, mas… “acha melhor não arriscar, é? Mas com a sua amiguinha Helena não se importa, com ela não faz mal de infringir a regras?” P… da bicha, esteve a ouvir a conversa. Ai que ganas de a esganar! “Pensavas que eu não sabia, era? Não te enganes, sei tudo o que se passa aqui. Amanhã, encontramo-nos os três à hora combinada.” Mas… “Bons sonhos, darling!” 
Nem esperou qualquer resposta. Saiu, batendo a porta na minha cara, sem cerimónia. Parece-me que vou ter problemas com este. Logo eu que sempre achei piada em vê-los a cobiçar o meu corpo. Muitas vezes, tentavam algo mais, claro, mas eu era explícito a mostrar as minhas tendências e tudo ficava por ali. Agora este, este quer armar confusão. De certeza.

                                                                             Luísa Vaz Tavares


26 comentários:

  1. Olá,
    Peguei o bonde andando e além de enxergar deu pra ter uma ideia do que deseja, mas acho que não irá conseguir.
    Aqui estou vendo um conto bem complicado(gosto).
    Inté
    Obrigada
    Lua Singular

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    1. Olá, Lua Singular!
      Tudo o que se refere à mente é complicado e sendo este um conto que tenta reflecti-las, não poderia ser de outra forma :)
      Obrigada pela sua apreciação.
      Boa semana!

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  2. Enxergo pouco e não consigo ler com certa rapidez, já sou mais a minicontos.
    Beijos
    Lua Singular

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  3. Interessante
    Gostei de ler
    Bjs

    Kique

    Hoje em Caminhos Percorridos - Ronaldo arrisca outro processo...

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    1. Obrigada, Kique!
      Esperamos que continue a gostar.
      Bjs e boa semana!

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  4. OLÁ!
    BEM INTERESSANTE ATÉ AQUI.
    ABRÇS
    https://zilanicelia.blogspot.com/

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    1. Obrigada, Célia!
      Esperamos continuar a despertar o seu interesse.
      Abraço e boa semana

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  5. Respostas
    1. Gostamos que esteja a gostar. Obrigada!
      Votos de uma boa semana

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  6. Continuando a acompanhar com todo o gosto.
    Boa semana

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    1. Obrigada, Pedro!
      Gostamos muito de ter o seu acompanhamento.
      Boa semana também

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  7. Bem escrito e muito interessante! Deixou-me curioso para saber o prosseguimento.

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    1. Obrigada, Árabe!
      Continue a acompanhar-nos, que o prosseguimento virá através de muitas mãos.
      Boa semana

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  8. Boa tarde, historia interessante, vou tentar acompanhar a mesma.
    Boa semana,
    AG

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    1. Boa tarde!
      Esperamos continuar a despertar o seu interesse.
      Obrigada e boa semana

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  9. Por um convite de vocês vim até aqui e agradeci . Agora um novo convite, por isso aproveito para novamente agradecer, mas devido a estar com 80 anos já sinto-me cansar com leituras extensas e em capítulos me dificulta mais ainda.
    Agradeço a certeza da compreensão de vocês.
    Abraços.

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    1. Elis, que bonita idade!
      Adoro beber dessas fontes de sabedoria. Com certeza, acompanharei sempre os seus mini-contos.
      Um grande abraço!

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  10. Gostei, voltarei
    Convido-o a ler o novo Capítulo de Um Oceano entre nós - II. Espero que goste.
    Beijinho

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    1. Obrigada, Quase Cinderela! Esperamos merecer sempre a sua volta.
      Vou ler o "Um Oceano Entre Nós", sim.
      Beijinho

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  11. Parabéns, Luísa.
    Um bom capítulo, a abrir mais personagens, mais história, algum frisson.
    Quanto ao Dionísio… que dizer… Nesta história serei três sexos.
    É muito género para um homem só… :-D

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    1. Obrigada, Bessa!
      Com a tua versatilidade na escrita, podes ser os géneros que quiseres :)

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  12. Ora cá temos nós mais uma mão-cheia de personagens interessantes. Que acontecerá quando todos se começarem a entrosar? Parabéns, Luisa

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    1. Vamos ver em que enredos se metem. Palpita-me que será algo interessante de se ver :)
      Obrigada, João!

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