02/11/19

Variações em Quadrilha - Capítulo 10

Imagem de PrettySleep por Pixabay

           Pedro 


         Ah, Amélia... que mulher!  Por que é que nunca me tiveste o carinho que recebia da Leonor?
           Isto de viver não é fácil! Desde que começamos o curso, não consegui mais tirar-te do meu pensamento! Mulher forte, decidida, ousada! Não era fácil encontrar mulheres neste trabalho, ainda mais àquela época! Mas tu, não, tu nem sequer te parecias com uma mulher, tão cheias de não-me-toques, tão medrosas.  Tu eras corajosa, aventureira, compincha!!! Mas, e talvez por seres assim, tão parecida a mim, não quiseste sequer dar-me a chance de provar-te que, juntos, seríamos perfeitos!
        Anos mais tarde, foi que descobri o por quê... eras mesmo tão parecida a mim, que tinhas o mesmo gosto... Soube, há pouco tempo, que quando eu estava disposto a dar-te o meu nome, a minha vida, o meu companheirismo, a cumplicidade de um casal que se entende, tu estavas a sonhar com a tal Lili... Ora, que diabos! Aquela mulher era uma máscara! Nunca houve quem a conhecesse verdadeiramente. Engendrava a todos em sua melíflua teia, caíam todos a seus pés... nunca enganou-me!
           À época em que estudávamos, tentei por várias vezes dar-te a perceber o meu amor, a minha paixão, mas tu eras sempre escorregadia, sempre te esquivavas de momentos mais íntimos. E eu, tolo, não atinava. Julgava ser recato teu, logo tu, uma mulher tão destemida! Não, não era recato. Era aversão ao sexo oposto... e eu, tolo, não atinava... Por várias vezes, em minhas caraminholas, pensei em fazer-te ciúmes com a Leonor, a ver se reagias e te chegavas mais pra mim... e nada! Mas quando estávamos juntos a estudar, dávamo-nos tão bem! E quando fazíamos exercícios de voo, parecíamos feitos da mesma massa. Nessas horas, ninguém era tão próximo quanto nós dois. E eu enchia-me de esperanças outra vez, e mais, e mais vezes.
       Mas sempre que tentava levar o assunto para o lado romântico, tu fugias como uma adolescente tímida – isto era o que eu, tolamente, pensava. Na verdade, eras tão “meu amigo”, que não me querias magoar, agora percebo. Não querias perder a amizade que tínhamos, e que foi, durante anos, a melhor das amizades. Mas eu sonhava contigo a sós, só nós dois e um quarto à penumbra, um suave perfume a rosas, das que eu despetalaria para forrar o chão aos teus pés. E dali, seguir a vida num crescendo, casar-me contigo, dar-te filhos que seriam como nós, aventureiros, fortes, decididos.
       Não quiseste. Deixavas-me sempre sem jeito, esfriando-me os ímpetos quando tentava aproximar-me de ti.
          Até àquela vez, aquele maldito dia em que, após quase ter feito cair o avião num looping, por estar a sonhar contigo, decidi encher-me de coragem e pedir-te a mão em casamento, com todas as pompas, todos os rituais de um gajo apaixonadamente romântico, como sempre fui. Comprei-te o anel de brilhante, aquele enorme bouquet de rosas vermelhas, contratei aquele trio de músicos para fazer-te uma surpresa ao fim do dia de trabalho. Assim que pousaste o avião, estávamos todos à tua espera no hangar, eu, os músicos, os colegas de trabalho. O violino começou a tocar, a cantora soltou as primeiras notas diante do teu rosto estupefacto... eu ali, de joelhos, com as flores e o anel nas mãos, o coração a saltar pela boca, criei coragem e comecei...
          - Amélia...
          E tu, olhos arregalados, boca aberta, olhavas para os músicos, para mim, para os colegas. Logo deduziste o que eu tencionava fazer, claro, nunca foste tonta. O olhar que por fim me lançaste destruiu-me as poucas esperanças que tinha. Não precisaste dizer uma palavra. O pedido engasgou-se-me na garganta, baixei os olhos diante da tua muda recusa. Simplesmente deste-me as costas, deixaste-nos todos com cara de parvos à entrada do hangar. Os colegas não sabiam se se riam de mim ou se se condoíam da minha derrota.
          Humilhado, possesso, com raiva de mim mesmo por ter sido tão palerma, por não ter tido a esperteza de fazê-lo a sós contigo, porque me julgava bom partido o suficiente para encher os olhos a qualquer rapariga casadoira, ainda pensei em correr em teu encalço, mas não o fiz. Em vez disso, pedi aos músicos que parassem, dei uma desculpa esfarrapada para os colegas, disse que foste pega de surpresa e não souberas como reagir.  Entrei no carro e fui levar os músicos a casa. Dei as flores à cantora, que as agradeceu, comovida e compreensiva. Afagou-me os cabelos, ofereceu-me um café... aceitei, entrei em sua casa e abandonei-me aos seus cuidados.
          Sofri por vários dias, e ela sempre a cuidar de deixar-me mais alegre, vinha sempre à minha procura... acabei casando-me com ela, a pobre. Nunca lhe tive amor, e ela, sempre a tratar-me com doçura. E a doçura que me dava era tanta, que faltava-lhe ao paladar...
          Compensou nos doces todo o abandono em que viveu por todos estes anos. 
        Não lhe quero mal, coitada, e por isso mesmo, venho a pensar em deixá-la viver sem o peso de ter tomado por marido um homem que só pensa em outra. Ela merecia encontrar alguém que a amasse, pois é uma mulher delicada, de valor. Infelizmente, seu nome não é Amélia.
       Os miúdos são giros, mas já são homens feitos, não precisam mais que lhes esteja a acompanhar os passos. Um deles deu pra aviador, como eu, e por mais que tente, desde que lhe vi o interesse na profissão, mais o peso do teu nome martela-me a mente. Soube que tu, depois daquela malfadada e infeliz tentativa de pedido de casamento, abandonaste a aviação. Não sei se por birra, ou se por te apetecer mais a nova profissão, foste pra parteira, e calhou, ó, ironia do destino, que fizesses um dos partos dos meus filhos, e justamente esse tornou-se aviador. Foi a tua mão! 
        Enfim, querida Amélia, esta vida não é para quem sonha! Isto de amar alguém é uma grande troça. Às vezes ainda me lembro da pobre Leonor, que vivia a esfregar-me na cara o amor que sentia, e que eu não podia retribuir... já eras tu a senhora dos meus pensamentos e desejos.
          O amor é cruel. Destrói vidas! Pelo meu amor por ti, destruí os anseios da Leonor, destruí teus sonhos de aviadora, destruí os sonhos da minha senhora de ser amada como merecia, destruí a minha vida enfiando-me num casamento que só me fez crescer a barriga e a prole. E a vida passou, os anos a escorregar pelos dedos, daqui a pouco morre-se, e de que valeu tanto amor por uma mulher ? 
Não, Senhores, não amem! Escolham o lado fácil da vida.
          (Há pouco encontrei um bilhete da minha esposa, um desabafo escrito num caderno de receitas, na última folha... coitada! Passou todos estes anos a sofrer e a esperar que eu te esquecesse.)
          “...a senhora, dona Amélia, é uma parva! Deitou fora um homem do calibre do meu Pedro, capaz de humilhar-se por amor! Mas, por mais que lhe agradeça por isso, por ter deixado o meu Pedro para mim, não posso deixar de odiá-la com todas as forças do meu coração! Que diabos de feitiço fez com que invadisse assim os pensamentos do meu homem, que até mesmo na hora do amor, consegue mostrar que não é em mim que está a pensar? Dei-lhe meu amor, dei-lhe filhos, dediquei a ele todos os meus dias, e o que tenho é um resto humano de solidão e dor! Tenho pena das crianças que ajudou a trazer ao mundo! A senhora deveria ter morrido! Mas nem para isso serve! Só serve para destruir pessoas! ...”
          Pobre desta mulher! Não a posso mais fazer sofrer... viver é uma carga!


                                                                           Tixa Falchetto

Sem comentários:

Enviar um comentário

Esperamos que tenha apreciado a nossa escrita e que volte a visitar-nos. Deixe-nos a sua opinião. Obrigado!