16/11/19

Variações em Quadrilha - Capítulo 11

@Helmut Newton 

Amélia



Introdução

Ah como era belo o mar que sempre a chamava, as ondas profundas, a impoluta areia branca antes de ser tocada! Todas as manhãs a desvirginava com as mãos afundadas nos pequenos grãos, enquanto sorvia em golfadas os eflúvios da maré. Todos os dias deixava na praia um pouco dela, quem sabe para exorcizar todos os sentimentos que sempre a devastavam.
Amélia nascera na capital, mas de certo modo nunca fora verdadeiramente citadina. Fizera o liceu com boas notas e até chegara a metade de um curso de Letras mas sempre se sentira uma solitária.
Precisava de afundar os olhos na natureza para se sentir inteira, viva e capaz de todas as façanhas. Vivia na cidade como uma prisioneira, encerrada entre prédios e forçada a conviver com quem nada lhe dizia.
Um dia decidira conhecer uma pequena vila costeira e apaixonara-se completamente. Adorava o sotaque cerrado das gentes da terra, o bulício da chegada dos barcos de pesca, os sons do mar a quebrar na areia, os passeios matinais mal o dia despontava. A cidade ficava lá atrás cheia de tudo aquilo que mais detestava e lhe pesava nos ombros.

A cidade

Tinha-lhe dado e tirado tanto essa cidade! Fora lá que conhecera Pedro. Ainda hoje não sabia se era uma boa ou má recordação. Ele nunca percebera quão errado era o que nutria por ela. E ela fora tonta, verdade se diga, quando não lhe travara logo de início aqueles sentimentos. Mas Pedro era um companheiro interessante, um conversador que também sabia guardar silêncios, também ele um amante de música e da natureza. Conhecera-o através de uns amigos que fizera quando estudara na faculdade e descobrira com ele algumas paixões comuns. Sentia que tinha um amigo para a vida, alguém que compreendia as suas idiossincrasias. Infelizmente nunca se apercebera, ou não o tinha querido fazer, de que Pedro sentia por ela mais do que uma calorosa amizade. Até ao malfadado dia em que tudo acontecera.
Ainda hoje se lembrava do choque sentido, não tanto por si, mas pelo amigo que defraudara.
Como eram maravilhosos os dias que passavam a tentar pilotar o pequeno Cessna Skyhawk! A adrenalina a correr nas veias, o coração como um louco, a concentração misturada ao riso da vitória por conseguirem uma manobra mais arriscada. Ambos loucos pela aviação, muitas vezes se tinham abraçado envoltos pelo enorme prazer sentido, de cada vez que cruzavam o céu.
Se ela tivesse percebido tudo o que despertava em Pedro, teria tentado afastar-se ou mesmo confessado a sua grande paixão. Mas não! Fora preciso Pedro sofrer uma humilhação para perceber quão distante o seu sonho estava da realidade.
Ele nunca lhe perdoara, nem a rejeição, nem a louca decisão que tomara ao casar com Leonor. Pobre Leonor que sempre o amara e ao mesmo tempo a desprezava por não o ter feito.
Ela também nunca se perdoara. E esse era um estigma que guardara em si.
Nunca mais voltara às aulas de aviação, como se elas tivessem sido as causadoras de todo o mal.

A vila

Seguira outros caminhos. Nem o curso de Letras, nem a aviação a tinham prendido. Um por nada lhe dizer, outro pela força das circunstâncias. De certa maneira, ainda trazia na pele aquela amizade com Pedro e a falta dos risos e das palavras tontas enquanto estudavam, era uma recordação penosa que a perseguia. Agarrara-se a um misto de sentimentos, a uma revolta que fazia dela as delícias de quem a conhecia. Ninguém percebia que debaixo da capa guerreira, existia uma mulher frágil a pedir socorro. É sabido que uma mentira dita muitas vezes se torna verdade. Era assim com ela. Perder o amigo à conta de um tremendo equívoco deixara rudes marcas.
A vila era o seu talismã, o local onde conjurava todos os males, o local onde ao mesmo tempo todas as paixões eram possíveis.
Percebia que Pedro achara que nunca se poderia ter interessado pelo sexo oposto. No entanto, isso nunca fora inteiramente verdade, pelo menos até conhecer Lili.
Lili tinha uma vantagem em relação a todos e a todas as pessoas que conhecera. Era de uma impudência arrasadora, sem com isso se preocupar. De certa forma, o amoralismo dela livrava Amélia de todos os pecados. Podia ser quem era, resguardar-se de qualquer sentimento que quebrasse o escudo que há muito erguera e proteger-se assim das deceções que via nos outros.
Vira o pai e a mãe cruzarem uma vida de infelicidade agarrados a convenções e jurara a si mesma levar a existência sob o lema carpe diem. Na realidade, apenas aquela amizade quase fraternal com Pedro a tinha desviado um pouco desse caminho. O catastrófico resultado da mesma era mais um ponto a favor da sua teoria.
Lili era o que era, muito simplesmente. Devastadora, sensual, mestre nos devaneios sexuais, um vulcão a despertar outro. Com ela não precisava pensar, questionar-se, meditar no certo e no errado. Com ela a chave era viver intensamente cada segundo, sem esperar o dia de amanhã.
Os homens que tivera, porque tinham existido, sempre lhe cobravam algo mais. Amélia queria ser livre nas tardes de sol da vila piscatória, correr pela areia de mão dada com Lili, ou gritar com ela no suor da cama. Na volúpia dos sentidos, a palavra «amor» era apenas uma palavra. Nada de compromissos, de projetos futuros ou amarras. A paixão não requeria género. Era apenas uma explosão, um apocalipse que a purgava de todas as dores. Não necessitava que Lili a amasse, mas somente que a desejasse nas tardes em que se encontravam. O amor levaria ao ciúme, à posse e a tudo o que ela mais detestava por se achar incapaz de o suportar.

A vida pelo meio

Afinal, nem tudo seria assim tão fácil. Abdicar de uma companhia para a vida, apesar de todas as vantagens, também teria consequências e Amélia sabia-o. Mas seguira o seu rumo levando a pose de guerreira mesmo quando ruía por dentro. As lágrimas que fazia na cidade, ia chorá-las na vila, salgando ainda mais o mar que amava.
O lado negro de tudo, atingia-a muitas vezes depois que decidira ser parteira.
Quando mais tarde tinha decidido enveredar por essa profissão, regera-se por algo que muito tinha a ver com ideais incutidos. Mas a verdade era muito diferente de um idílico mundo imaginado.
Muitas vezes tinha trazido a felicidade a quem esperava exausta o milagre da vida.  Esses eram, sem dúvida, os momentos de júbilo de que se orgulhava.
Mas nem sempre era assim. Certos acontecimentos eram uma sombra negra que porfiava em não se separar dela. Agarrada à pele, trazia a memória de um local numa rua de Lisboa, onde tantas mulheres tinham desembocado e com elas mais uma vida perdida. Tantos dramas tinham embatido nela a tentarem devastar-lhe a confiança!
Nunca fizera juízos de valor sobre o assunto e nem sequer era religiosa, mas era impossível não ser afetada por tantas histórias de vida que com ela se tinham cruzado.
Incrivelmente fora num hospital da capital que voltara a rever Pedro. Leonor tinha dado à luz com a sua ajuda, um dos filhos do casal. Quando os vira, ficara estranhamente amedrontada perante o que a vida deles fizera. Ambos gordos, anafados, mas como se debaixo de toda aquela gordura balofa, existisse um poço de raiva e de amargura que só precisasse de um pouco de força para rebentar e explodir-lhe na cara.
Em Pedro, os olhos tinham mirrado à medida que a vida cobrara dividendos e um breve esgar vincava-lhe os lábios. Mal lhe dirigira a palavra e o ressentimento aprofundava-lhe as rugas, como se a presença dela o fizesse amarrotar. Já Leonor, perdera toda a beleza que lhe conhecera na fatídica tarde em que ele a tinha pedido em casamento. Fora com um olhar de ódio que recebera a sua ajuda durante o parto. Achava mesmo, que se não fossem as circunstâncias e o proverbial feitio de se acomodar, e Leonor teria mesmo pedido o seu afastamento.

Final

Após tantos anos, era ali junto ao mar, que encontrava alguma paz. Sem afetos, sem amarras, numa solidão pensada e assumida.
Cada onda era um sussurrar que a levava em cadência, cada grito de gaivota era também seu, na lembrança dos muitos que se permitira naquela terra.
Rompera quase todos os laços, mesmo que não pudesse dizimar as recordações. Nada sabia de quem cruzara a sua vida e era preferível assim.
A última vez que vira Lili, não tinham recolhido ao quarto. Ela apenas lhe sorrira e naquele seu jeito impudente e desprendido dissera que ia ter com Ernesto, um tolinho, como lhe chamava, mas que lhe apetecia por ser tão volátil. E as paixões, dizia ela, queriam-se assim, a consumirem toda a lenha. Depois ela pulava fora, antes que tudo esfriasse demasiado. Amélia aceitara perfeitamente. Não se tratara de amor, só da aparência do mesmo e tal como as marés, havia que aceitar o inevitável.
Curiosamente chegara a conhecer Ernesto e os seus devaneios, mais a sua insuportável tendência para namoriscar a torto e a direito. Também ele um dia viera à procura de Lili, que, entretanto, já tinha uma nova paixão. Naqueles estranhos acasos que a vida proporciona, tinham descoberto que a tinham tido em comum. Após alguns diálogos à beira-mar e a certeza de que não valia a pena usar nela os seus esquemas de encantamento, Ernesto tinha conseguido ser uma espécie de amigo. Ele era prosaico e dogmático, um lutador desse lá por onde desse, o que lhe facilitara sem dúvida o percurso de vida e isso era algo que apreciava nele.
Desse modo, ia aproveitar o convite que ele lhe fizera há uma semana.
Hoje quando o sol se pusesse romaria a Lisboa. Ernesto ia estrear-se no Finalmente Club e ela sentia uma enorme curiosidade em perceber como é que alguém como ele se iria sair.
De um certo modo, a sua coragem era uma espécie de motivação para ela.
Se um namoradeiro incorrigível conseguia ser travesti, quem sabe o que ela ainda poderia ser?
Afinal nem tudo estava perdido.


               Margarida Piloto Garcia


5 comentários:

  1. Um texto muito bem construído, completo, recheado de emoções fortes, acessíveis somente a alguns "escolhidos"!

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  2. Amélia dos olhos doces.
    A minha tia que partiu demasiado cedo.
    Boa semana

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  3. Depois desta pequena ausência na visita aos blogs amigos, venho desejar uma boa semana.

    Kique

    https://caminhos-percorridos2017.blogspot.com/

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  4. Muito obrigada pelo convite que só agora vi, num dos meus blogs.
    Depois escrevo.
    Beijinhos
    :)
    Ana

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  5. Uma excelente narrativa.
    Gostei imenso, parabéns.
    Margarida, um bom fim de semana.
    Beijo.

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