22/01/26

Compatíveis Incompatibilidades - Capítulo 2

 


João

Depois de findo aquele verão em que se conheceram, João passou o ano a sonhar com o próximo verão, a contar os dias para receber as cartas apaixonadas de Maria, que vinham rigorosamente a cada dois dias. Era o tempo de receberem uma carta, lê-la com o coração a acelerar-se descompassadamente, e depois sentarem-se à escrivaninha para, depois de ao menos dez tentativas, meter por fim uma carta repleta de sonhos, fortes emoções e muitas promessas de fidelidade eterna dentro de um envelope e ir aos CTT na manhã a seguir, deixar partir mais um bocadinho do amor que o inflamava.

Ficava em pulgas a imaginar o que Maria sentiria ao abrir aquele envelope e ser soterrada pela avalanche de amor e sofreguidão que tinha conseguido espremer em tão pequeno envelope.

Precisava ocupar o tempo com coisas práticas, pois só o que fazia quando não estava cheio de trabalho era pensar naquele corpo esguio que prendeu seus olhos e abalou para todo o sempre o seu coração, no verão anterior.

Precisava mergulhar nos estudos, para conseguir um trabalho que lhe desse estrutura financeira para deixar a casa dos pais e roubar a Maria à casa dos seus, pondo-lhe um anel, o seu nome de família, e que finalmente a pudesse levar para a casa que seria deles.

Passou a estudar com mais determinação, porque já não via a vida a marcar-se por verões. Não era possível ter de esperar por Maria por muito mais tempo. 

Ao chegar a convocação, preparou-se para partir para Angola, mas com uma impressão de que não deveria ir. Parecia que havia algo que não estava bem, mas não atinava o que pudesse ser. Na volta, iria de certeza oficializar o pedido de casamento, pois sabia que a Maria era a pessoa com quem gostava de viver pelo resto de sua vida. Os risos que riam juntos eram certeza mais que suficiente.

Afinal, estava mesmo certo sobre algo não estar bem. Recebeu a visita da Maria e sua tia às vésperas do embarque para Angola. A Maria estava grávida, mesmo com todo o respeito a que se obrigara diante da firme convicção de Maria durante os seus encontros.

Maria queria casar-se virgem, temia ser motivo de vergonha para os pais e a amada avó. Teve tanto cuidado, e acabou por perceber que se havia contido tanto para nada. Se calhar, se tivesse cedido aos seus ímpetos, a Maria não tivesse engravidado, possa!

Enfim, engravidou, sem que tivessem consumado o amor que lhe devorava os pensamentos e sentidos.

Não pôde deixar de pensar na Maria de Nazaré… iria, sim, cuidar da sua Maria, com todo o Amor que pudesse, e do seu pequeno milagre vindouro. Era mesmo a Maria que queria a seu lado por tudo o que o futuro trouxesse. Ia ser pai! Nisso, ainda não tinha pensado…

Precisou mudar a ordem dos eventos, ia casar-se quando voltasse de Angola, mas já agora… casaram-se, e entre lágrimas e beijos, despediram-se, e ele embarcou para Angola.

Sua amada Maria voltou com a tia para a casa dos pais dela. Nunca tinham pensado que o início poderia ser assim!

E veio um lindo menino, a quem chamaram Emanuel. Era um miúdo iluminado pela beleza do semblante doce de Maria. Emanuel nasceu de cesariana. A sua Maria tinha-lhe dado um filho, fruto de um amor cheio de certezas e sonhos, mas ainda não tinha sido inteiramente sua.

João via as fotografias que Maria enviava, e ficava a pensar na volta. Era a sua Maria, que carregava nos braços o fruto do amor que ainda não tinham feito.

Depois de um ano em Luanda, conseguiu voltar.

Já Emanuel contava 6 meses de vida. Apaixonou-se pelo filho, que era mesmo o fruto do amor que os embalara naquele verão já tão distante… passou o dia a dividir-se entre olhar embevecido para a sua Maria e para o filho dos dois. E que dúvida mais feliz era aquela!!

Naquele mesmo dia, disseram-lhe os seus pais que havia à venda uma casa, não muito distante da deles, numa freguesia próxima., e que já tinham parte do dinheiro para ajudá-lo a comprar. Queriam o neto perto de si. Já haviam conversado com os proprietários, e o negócio estava já praticamente acertado, mas precisava falar antes sobre isso à sua Maria, antes de tomar uma decisão, pois era afinal a casa onde ela iria viver pelo resto dos seus anos de vida. Queria saber antes se a Maria gostava. Ia ter muitos anos para fazer-lhe surpresas, mas, nesta noite, não. A surpresa que queria fazer à sua Maria nesta noite era outra!

Passou toda a tarde a derreter-se pela Maria e pelo Emanuel. Mas já tinha planeado convencer a sogra a cuidar do Emanuel por algumas horitas para ter, enfim, uma noite a sós com a sua Maria, no quarto mais giro do pequeno hotel da cidade em que viviam a sua Maria e o seu Emanuel, em casa dos pais da sua amada esposa.

A sogra aceitou, sem questionar!

“Beijinhos, Emanuel, o papá e a mamã vão deixar-te com a tua avó babada esta noite.  Porta-te bem, porque nós…”

 

                                                                                         Tixa Falchetto

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