João
Depois de findo aquele verão em que se
conheceram, João passou o ano a sonhar com o próximo verão, a contar os dias
para receber as cartas apaixonadas de Maria, que vinham rigorosamente a cada
dois dias. Era o tempo de receberem uma carta, lê-la com o coração a
acelerar-se descompassadamente, e depois sentarem-se à escrivaninha para,
depois de ao menos dez tentativas, meter por fim uma carta repleta de sonhos,
fortes emoções e muitas promessas de fidelidade eterna dentro de um envelope e
ir aos CTT na manhã a seguir, deixar partir mais um bocadinho do amor que o
inflamava.
Ficava em pulgas a imaginar o que Maria
sentiria ao abrir aquele envelope e ser soterrada pela avalanche de amor e
sofreguidão que tinha conseguido espremer em tão pequeno envelope.
Precisava ocupar o tempo com coisas
práticas, pois só o que fazia quando não estava cheio de trabalho era pensar
naquele corpo esguio que prendeu seus olhos e abalou para todo o sempre o seu
coração, no verão anterior.
Precisava mergulhar nos estudos, para
conseguir um trabalho que lhe desse estrutura financeira para deixar a casa dos
pais e roubar a Maria à casa dos seus, pondo-lhe um anel, o seu nome de
família, e que finalmente a pudesse levar para a casa que seria deles.
Passou a estudar com mais determinação,
porque já não via a vida a marcar-se por verões. Não era possível ter de
esperar por Maria por muito mais tempo.
Ao chegar a convocação, preparou-se para
partir para Angola, mas com uma impressão de que não deveria ir. Parecia que
havia algo que não estava bem, mas não atinava o que pudesse ser. Na volta,
iria de certeza oficializar o pedido de casamento, pois sabia que a Maria era a
pessoa com quem gostava de viver pelo resto de sua vida. Os risos que riam
juntos eram certeza mais que suficiente.
Afinal, estava mesmo certo sobre algo não
estar bem. Recebeu a visita da Maria e sua tia às vésperas do embarque para
Angola. A Maria estava grávida, mesmo com todo o respeito a que se obrigara
diante da firme convicção de Maria durante os seus encontros.
Maria queria casar-se virgem, temia ser
motivo de vergonha para os pais e a amada avó. Teve tanto cuidado, e acabou por
perceber que se havia contido tanto para nada. Se calhar, se tivesse cedido aos
seus ímpetos, a Maria não tivesse engravidado, possa!
Enfim, engravidou, sem que tivessem
consumado o amor que lhe devorava os pensamentos e sentidos.
Não pôde deixar de pensar na Maria de
Nazaré… iria, sim, cuidar da sua Maria, com todo o Amor que pudesse, e do seu
pequeno milagre vindouro. Era mesmo a Maria que queria a seu lado por tudo o
que o futuro trouxesse. Ia ser pai! Nisso, ainda não tinha pensado…
Precisou mudar a ordem dos eventos, ia
casar-se quando voltasse de Angola, mas já agora… casaram-se, e entre lágrimas
e beijos, despediram-se, e ele embarcou para Angola.
Sua amada Maria voltou com a tia para a
casa dos pais dela. Nunca tinham pensado que o início poderia ser assim!
E veio um lindo menino, a quem chamaram
Emanuel. Era um miúdo iluminado pela beleza do semblante doce de Maria. Emanuel
nasceu de cesariana. A sua Maria tinha-lhe dado um filho, fruto de um amor
cheio de certezas e sonhos, mas ainda não tinha sido inteiramente sua.
João via as fotografias que Maria enviava,
e ficava a pensar na volta. Era a sua Maria, que carregava nos braços o fruto
do amor que ainda não tinham feito.
Depois de um ano em Luanda, conseguiu
voltar.
Já Emanuel contava 6 meses de vida.
Apaixonou-se pelo filho, que era mesmo o fruto do amor que os embalara naquele
verão já tão distante… passou o dia a dividir-se entre olhar embevecido para a
sua Maria e para o filho dos dois. E que dúvida mais feliz era aquela!!
Naquele mesmo dia, disseram-lhe os seus
pais que havia à venda uma casa, não muito distante da deles, numa freguesia
próxima., e que já tinham parte do dinheiro para ajudá-lo a comprar. Queriam o
neto perto de si. Já haviam conversado com os proprietários, e o negócio estava
já praticamente acertado, mas precisava falar antes sobre isso à sua Maria,
antes de tomar uma decisão, pois era afinal a casa onde ela iria viver pelo
resto dos seus anos de vida. Queria saber antes se a Maria gostava. Ia ter
muitos anos para fazer-lhe surpresas, mas, nesta noite, não. A surpresa que
queria fazer à sua Maria nesta noite era outra!
Passou toda a tarde a derreter-se pela
Maria e pelo Emanuel. Mas já tinha planeado convencer a sogra a cuidar do
Emanuel por algumas horitas para ter, enfim, uma noite a sós com a sua Maria,
no quarto mais giro do pequeno hotel da cidade em que viviam a sua Maria e o
seu Emanuel, em casa dos pais da sua amada esposa.
A sogra aceitou, sem questionar!
“Beijinhos, Emanuel, o papá e a mamã vão
deixar-te com a tua avó babada esta noite.
Porta-te bem, porque nós…”
Tixa
Falchetto

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