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segunda-feira, 4 de julho de 2016

Razão de Existir - Capítulo XIV - O Final


Fotografia de Paulo Emanuel 

                Não tinha outro remédio que não deixar aquela população no limite da dúvida. Premir ou não o gatilho? Sabê-lo-iam apenas quando um eco seco os violentasse na noite adormecida. Sebastião de Menezes, o homem de quem nada sabiam e ao qual se limitavam a mostrar indiferença, acordá-los-ia de rompante, e o seu nome soaria no tempo por aqueles vales e montes.
            As primeiras crónicas no Paladino não surtiram o efeito desejado. Tinha mais impacto a necrologia do que aquela coluna que ele passara a assinar, além de que não lhe revolvera as entranhas do modo por que ele tanto suspirava. O pensamento havia voltado às cavernas, as luzes queriam-se agora no espalhafato de cegarem no imediato.
            Estaria sempre um passo à frente deles, não foi à toa que se aventurou por outras terras, conheceu outros mundos. Não que esse facto fizesse de si uma melhor pessoa, pelo contrário. Corroía-lhe o sangue nas veias. Era isso que precisava que soubessem – um homem acontece de não regressar. Quis voltar a fim de recuperar o que deixara para trás, mas nem chegou a encontrar-se. Tudo o que fez a partir de então foi tão só a fuga do que poderia ter sido. As consequências perdurariam o corpo, como as manchas nas paredes prevalecem sobre os inquilinos que as habitam.    
            Preparou tudo. Embarcaria na expedição última sem deixar nada ao acaso. Nenhuma ponta ficaria solta. Havia tratado de todas as diligências legais, inclusive o dinheiro amealhado de forma ilegal. Não aspirava a qualquer justiça pós-morte, a qualquer acerto de contas, muito menos silenciar o passado com um tiro certeiro. Era apenas uma espécie de redenção a sós, consigo mesmo. E para isso escreveu estas páginas, o legado possível da sua existência, e do que a mesma provocou.
            Bateu a última letra na respectiva tecla da máquina de escrever e reuniu as folhas dactilografadas, enfiando-as num envelope. Lacrou-o de imediato, não fosse dar-lhe um arrependimento de última hora. A influência devida ao cargo que ocupara no serviço dos correios tinha-o levado a conseguir que na manhã seguinte fosse distribuído pelas casas de Vale da Serra um exemplar daquele testemunho escrito. Que o condenassem!
Deu o derradeiro gole no copo de uísque de malte – ainda sorriu com a memória da canção do Jorge Palma, mas esta noite seria frágil. O fumo do cigarro extinguia-se numa auréola por sobre si. Agora, a caixa craniana. Ergueu o revólver e apontou. Coube à única bala no interior da câmara fazer justiça. Depois, o silêncio.


Helder Magalhães

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Razão de Existir - Capítulo XIII


Fotografia de Paulo Emanuel 


“A justiça é a vingança do homem em sociedade, como a vingança é a justiça do homem em estado selvagem”.

Epicuro

Inês abriu o enorme portão de acesso à alameda ladeada de velhos cedros que conduzia ao solar. Era sempre um prazer para ela chegar a casa ao final de um dia trabalho e encontrar aquele sólido portão de ferro forjado que ao fechar-se a separava fisicamente do mundo exterior e das suas preocupações profissionais.
Tinha comprado aquele solar quase em ruínas. Um solar sólido, de forma quadrada, do início do séc. XIX que ela tinha restaurado e devolvido à sua antiga glória de Solar beirão. Pintado de branco com o granito a bordejar portas e janelas, com a varanda frontal corrida e a sua escada de dupla entrada. A sua casa. Tinha-a escolhido pelo refúgio que lhe proporcionava e pela proximidade que lhe dava do homem que era o causador da morte de seu pai.
Inês à muito que descobrira quem tinha sido o autor da denúncia que tinha condenado o seu pai a uma morte horrífica às mãos da PIDE. A Policia Internacional e de Defesa do Estado que não eram mais que algozes impiedosos para com aqueles que se atreviam a contestar o regime. Inês viu-se privada do pai muito cedo, o seu pai muito amado que ela lembrava com muito carinho e amor e de quem sua mãe lhe contava histórias. Maria da Conceição nunca tinha conseguido aceitar a morte do marido e o desgosto tinha-lhe provocado a morte prematura.
Inês estudara Direito cheia de ideais de justiça e com um sonho: ser juíza. Tinha terminado o curso à custa de grande sacrifício pessoal, trabalhando de dia e estudando à noite. Conseguira singrar na carreira de magistrada com mérito próprio e à custa de muito trabalho e de quase abdicar de vida pessoal.
O seu hobbie de sempre tinha sido vasculhar todos os arquivos antigos da PIDE e ler tudo o que se relacionasse com a instituição. Chegou inclusivamente a entrevistar alguns denunciadores, e mesmo alguns agentes que à custa de muita teimosia e persuasão da sua parte lhe contaram em primeira mão os métodos que eram utilizados nas “investigações”: Tortura, medo, denúncias e chantagens eram as bases principais. O objectivo de Inês com esta demanda era a de tentar descobrir quem tinha denunciado o seu pai. No dia em que encontrou a ficha da PIDE de Ramiro, após alguns anos de pesquisas, foi quando ficou a conhecer o nome do delator: Sebastião Venceslau de Menezes, funcionário dos correios na sede do concelho da aldeia onde Inês nascera.
Facilmente descobriu o homem que provocara a tortura morte de seu pai e tentou por todas as formas aproximar-se fisicamente com o objectivo de um dia ter oportunidade de vingar o pai.  Primeiro conseguiu a transferência para o tribunal da comarca, posto pouco cobiçado pelos seus colegas de profissão, e em seguida realizou outro sonho, comprar e restaurar o velho solar.
A primeira vez que viu Sebastião, deparou-se com um nonagenário débil e fragilizado pela idade mas ainda com a arrogância de quem tinha, em tempos, detido um pequeno poder sobre os outros. Poder esse que utilizou a seu bel prazer e sem escrúpulos. Assim o viu Inês e, jurou que antes que a morte o levasse ela se encarregaria de o fazer pagar pela morte de Ramiro.
No dia em que lhe caiu aquele processo com a acusação de pedofilia em cima da secretária, Inês nem acreditava nos seus olhos. Poderia o destino ser tão generoso com ela que colocasse aquele homem à sua mercê? Sebastião Venceslau de Menezes era seu! Finalmente conseguiria vingar o seu pai!
Inês, dedicou-se de corpo e alma à leitura daquele processo, colocando de parte todos os outros. Nesse dia leu e releu o processo. Saiu do seu gabinete no tribunal pensativa e embrenhada nos pormenores do que tinha acabado de ler. Levou o processo consigo para o reler mais uma vez e examinar noutro local que talvez lhe desse uma luz diferente.
Entrou em casa, e decidiu “esquecer” o processo por algumas horas. Tomou um longo duche, mudou para uma roupa confortável, calça de ganga, t-shirt branca larga e o seu casaco de malha grosso. Acendeu a lareira, preparou um jantar leve de sopa, queijo e no final foi-se instalar na sala com um copo de vinho tinto e finalmente resolveu-se a pegar novamente no processo. Era um processo com poucas páginas e no final da sua terceira leitura, Inês Ramiro chegou à mesma conclusão a que tinha chegado no final da primeira leitura: Sebastião Venceslau de Menezes estava inocente do crime de pedofilia de que era acusado. Inês, nunca se tinha sentido tão dividida em toda a sua vida. Que fazer? Aplicar Justiça ou executar a sua vingança?


                                                                                                          Fátima Ferreira 

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Razão de Existir - Capítulo XII

 
Fotografia de Paulo Emanuel 
Sebastião, imobilizado na cama de hospital, aguardava impacientemente pela resposta do doutor Brandão. A palidez no rosto enrugado atenuou-se e o batimento cardíaco acelerou.
O médico aproximou-se do leito de Sebastião e, carinhosamente, apoiou a sua mão no ombro frágil do idoso, antes de anunciar a sentença médica.
- Sr. Sebastião, desta vez, o AVC imobilizou-lhe as pernas, vai ter que fazer várias seções de fisioterapia…vai ter que se adaptar a esta nova fase da sua vida e, para se deslocar, precisa de uma cadeira de rodas que o hospital lhe vai disponibilizar…
Sebastião observava o médico calado, pensativo e no coração explodia um terramoto de emoções que abalava a alma e corpo. Na mente, passavam curtas-metragens do seu percurso de vida: relembrou o tempo no Ultramar e a vida de boémia no Alabamar Bar, sempre rodeado de gente e sempre um homem solitário…
 Dos olhos encovados de Sebastião deslizavam umas lágrimas teimosas em fio, tropeçando nas rugas da face marcadas pelo desgaste do tempo.
- Então Sr. Sebastião de Menezes?! Vá… não fique assim… vamos lutar para recuperar os passos… tem que ter paciência… - Falou, calmamente, o doutor Brandão que olhava aquele homem com uma certa piedade.
- Óh Doutor! Na minha idade a paciência serve para esperar que chegue a hora de embarcar para o Além…
Sebastião recebeu alta do hospital e as indicações da enfermeira que teria que seguir à risca para melhorar fisicamente.
-Olá Sebastião! – A voz de Júlia entoou, dando um novo ânimo ao doente.
- Tu por aqui?! – Questionou Sebastião muito admirado.
- Meu velho Sebastião, nesse estado, precisas de alguém que cuide de ti… e eu estou aqui para te ajudar, em memória dos velhos tempos que passámos juntos…
-Pois…alguma alma caridosa que tenha pena de mim, pena de um velho incapacitado e pena de um velho que, com esta idade, é acusado de pedófilo. Tenho todos os ingredientes para que me chamem de “coitadinho” … - Desabafou tão revoltado que atirou com o casaco para o chão, como se fosse uma criança birrenta que não obedece às ordens da mãe.
-Calma Sebastião…mantém-te calmo, esse teu coração já não tem vinte anos… tu vais voltar a andar, teimoso como és, não tardará muito…
A mulher e amante de outrora reaparecia novamente, desta vez no papel de servir e de ajudar um homem doente, imobilizado e com um coração cansado de uma vida intensa, de sentimentos confusos, de frustrações e de arrependimentos por actos cometidos no passado. Enfim…um coração trespassado pela melancolia que a vida lhe ofereceu.
Sebastião manteve o silêncio até casa da Júlia. Após a chegada aos novos aposentos, Júlia preparou-lhe um chá de camomila.
-Estás confortável assim? – Perguntou Júlia preocupada com o bem - estar do novo inquilino.
- Para mim tanto faz… sou um inútil, um estorvo… - Zombou Sebastião com pena de si próprio.
- Vá homem, deixa-te de lamúrias, esta é a tua nova realidade, não podes fugir dela…
- Uma realidade insuportável para ser vivida, um Deus que se esqueceu de mim, que raio de vida é esta? Sou um estorvo para a humanidade …- Sebastião soletrou estas palavras com raiva de tudo e de todos.
Com o decorrer dos dias, Sebastião aprendeu a aceitar a sua nova condição física. Retomou a leitura e a escrita para ajudar a passar as extensas horas do dia. O sentimento de vingança pelo Ricardo estava apagado, porém a nova juíza Inês Ramiro não lhe saía da cabeça. Como seria o dia do julgamento ao encarar aquela mulher, aquela filha que nunca acarinhou? Parece o destino a pregar-lhe uma partida, ou quiçá a lei do retorno, por erros cometidos no passado…
Júlia cuidava de Sebastião como se fosse seu marido. A paixão entre ambos, adormecida durante anos, foi substituída por um amor maduro, um amor que cuida e que protege o outro, sem intenção de receber algo em troca, simplesmente um amor de doação.
- Júlia! Senta aqui…tenho uma história do passado para te contar…
- Que história é essa para estares a ressuscitar o que já passou?!
Sebastião relatou a paixão por Maria da Conceição e a suspeita de Inês Ramiro ser sua filha biológica. Também descreveu toda a situação que conduziu à morte de Zé Ramiro, na qual tinha uma grande parte de culpa.  
- Meu Deus!!! – Júlia ficou estupefacta com tudo o que acabava de ouvir.
- Estou mais preocupado como encarar a juíza do que com a acusação que me fizeram…uma filha a julgar um pai e, desta vez, inocente…
Amanheceu, o sol luminoso e o chilrear dos pássaros serviram de despertador matinal para Sebastião acordar, cheio de limitações, para enfrentar o esperado e temível dia do julgamento.


Sónia Ferreira