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sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Em Busca da Verdade - Capítulo VII

Fotografia © Casimiro Teixeira 

Ficaram largos instantes a olharem um para o outro, como dois pássaros com os peitos palpitantes.
Sofia, por fim, abandonou a sua imobilidade perante a vista do que se pendurava na mão esquerda do marido. Mesmo que o silêncio fosse um pacto entre eles, o silêncio dele era sempre mais fremente, atraiçoado pelo nervoso dos músculos.
- O que é isso que trazes aí? – Perguntou-lhe indómita.
João avançou uns passos distanciando-se dela, na direcção da janela alcantilada para o mar e experimentou meter desajeitadamente a mão esquerda no bolso do casaco, ocultando a carta e evitando-lhe o olhar.
- Até nesta luz se vê que estiveste a chorar, Sofia. Porquê que continuas com esta obsessão? Não percebes o que isto te está a fazer, a fazer-nos? Olha para o nosso casamento, está um...
- João, não me ouviste? – Insiste ela muito bruta. - O que é isso que tens na mão?
Ele parecia fatigado, vacilante, manejando com desespero uma expressão firme que forçava desviar dos olhos dela.
Depois de morto o tempo suficiente para parecer plausível o seu silêncio, virou-se de frente para ela e piscou os olhos várias vezes, como se humedecesse as córneas. Parecia que lhe ia dizer algo, mas nenhum som se formou. Talvez se arrependesse.
- O que se passa? – Questionou-o novamente, cada vez mais impaciente. – Por favor, poupa-me a mais uma dessas tuas irritantes adivinhas psicológicas, de antemão já tenho o coração aos saltos. Diz-me apenas.
João lançou-lhe um olhar de esguelha. A boca fina e ressequida contraiu-se num pequeno sorriso sem alegria.
- Não deverias continuar a remexer no passado Sofia, vais acabar por concluir que tudo não passou de uma horrível sucessão de coincidências e assim sempre te poupas a sofrer sem razão aparente. O que está feito está feito, e nada poderás fazer para o alterar.
Instantaneamente desabou para a reminiscência complexa da ausência de notícias concretas sobre o destino da sua mãe, e assumiu a possibilidade de por fim haver uma explicação mais plausível para a sua morte. Quando regressou à consciência, abriu muito os olhos e trancou-os no bolso do seu casaco.
- Quando dizes coincidências parece que sabes de algo que eu ainda não descobri. É verdade? Tiraste essa carta do baú da minha mãe, não foi?
Ele deixou-se cair no sofá, faltava-lhe força nas pernas, sentia-se extenuado com aquele olhar agreste que ela lhe deitava, como se esta não conseguisse mais disfarçar o interesse imperioso de o assaltar à força e ler aquela carta.
- João! – Bradou. – Diz-me de uma vez. Mostra-me essa carta, eu preciso saber.
Ele começou a estrebuchar como que com falta de ar. Não sabia por onde começar. À medida que passavam os segundos ia-se afastando dele a coragem com que entrara. Até as suas lágrimas fediam a medo. Por fim resolveu-se a dizer-lhe algo:
- É a isto que te referes? – Levou a mão ao bolso e soergueu-a com a carta. Tens de saber primeiro que as coincidências são coisas muito comuns, até houve quem as estudasse.
- Basta. – Interrompeu-o - Vais dar-me essa carta imediatamente. Estou farta dos teus joguinhos.
- Não, não, espera... – Insiste João – A lei de Kammerer, por exemplo, defende que, quando se dá uma coincidência, sempre se dão muitas mais.
- Estás a fazer pouco? Estás a gozar comigo, João? – Diz-lhe Sofia, rispidamente, e, acto contínuo, aproxima-se já intentando tirar-lhe a carta da mão. Ele levanta-se bruscamente e afasta-a a alguma distância com o braço.
- Não estou mesmo querida, deveras que não. Apenas te estou a tentar poupar. Eu não sei o que está aqui escrito, mas imagino. Escuta-me; Kammerer dizia que as coincidências coincidem, por assim dizer, é um princípio cósmico, logo, não há muito mais que sobre elas pensar. São simplesmente coincidências – sussurrou, enjoado e com vontade de vomitar. – Acredita que o melhor que tens a fazer é esquecer este assunto todo. Enterra aquela arca, atira-a ao mar, queima aquelas cartas todas, esta incluída. - Gaguejava quase, assustado com a sua própria debilidade e com a centelha de amor que redescobriu pela mulher. – Acredita que tudo o que quero é evitar-te sofrimentos. Eu amo-te!
- Se me amas vais dar-me essa carta, agora mesmo. Já!
O chão de taco proporcionou-lhe alguma distração aos olhos que queriam evitar a expressão de fúria dela, quase tresloucada. João encostou-se a um canto, encurralado e por momentos sentiu paz na geometria do chão. A sua expressão, a espaços, ia-se tornando cada vez mais branca, no limiar do desmaio. Apoiou-se na parede, arquejado e finalmente levantou-lhe o olhar:
- Deveríamos fazer uma viagem, só os dois, como uma segunda lua-de-mel. Iria fazer-te bem deixar isto tudo para trás e distraíres-te em pouco. Que dizes?
- Dá-me essa carta João, ou por Deus, juro que...
- Tudo isto parece muito comum e inofensivo, mas estas cartas ferem-te. – Continuou ele. - A última delas pode até matar-te, quem sabe. Não te posso perder. Absolutamente não posso. Sei isso agora. – Amassou o envelope com pouca força e olhou-a repentino e exasperado como que projectando-lhe o futuro nos olhos.
- Porra João! – Exclama Sofia sem grandes rodeios, sentindo aquelas palavras na fímbria do impossível. Carregada de mais sentidos que os normais, avançou sobre ele e arrancou-lhe o sobrescrito mal amassado da mão, empurrando-o de encontro à parede. – Esta carta vai diagnosticar-me o passado e curar-me o futuro. Quero mais que tu e o Kammerer e as coincidências todas vão para o diabo que vos carregue. Esta carta vai finalmente explicar-me a minha mãe. E é só isso que me importa agora.


Casimiro Teixeira

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Em Busca da Verdade - Capítulo VI

Fotografia © Gastão Brito e Cunha

            O mar estava tão revolto quanto a sua alma. As ondas rebentavam nas rochas com a mesma intensidade que os flashes da visão de Sofia agarrada à mala lhe chicoteavam o pensamento. Nem tinha percebido o rumo que tomara, até ali chegar. Avançou, em passos ébrios, para a falésia que à sua frente segurava as investidas da natureza em fúria e fechou os olhos, sentindo o cheiro do último trovão. A tempestade repentina daquele final de tarde travaria qualquer um, mas a ele não. João estava tão enlouquecido de raiva que enfrentaria qualquer perigo, como se quisesse medir forças com o próprio destino.
            No último instante, parou à beira do precipício e num gesto reflexo sentou-se na pedra dura que, determinada, suportava a força das águas. Seria aquilo que lhe faltava? Determinação. Determinação para dar a volta ao estado a que chegara o seu casamento? É que nem sempre fora assim. No início, tinham vivido um interlúdio emocional permanente. Sofia era uma mulher intensa, absorvente até, mas ele amava-a e gostava do frenesim que era viver a seu lado. Era como se vivesse constantemente no fio da navalha, uma sensação de vida que só sentia com ela. Mas com o tempo esse frenesim começou a cansá-lo e a força para a acompanhar faltava-lhe, às vezes. Será que com Sofia só era possível viver naquela inquietude? Estava tão atormentado que já não sabia se o que estava a pensar fazia algum sentido.
            Levou a mão ao bolso e sentiu a carta que tinha tirado da mala. Não fazia nenhuma ideia do que pudesse estar escrito naquele pedaço de papel amarelecido pelo tempo, mas constrangeu-se ao tocá-lo e sentado no cume da escarpa, ali ficou com a carta a queimar-lhe nas mãos.
            Em casa, Sofia voltava a atenção, mais uma vez, para a mala. Sentada no chão do escritório, abriu-a à sua frente, tornou a remexer o conteúdo e pegou num maço de cartas amarrado com uma fita de cetim azul bastante desbotada. Curiosamente, tinha as letras viradas para dentro, impedindo qualquer pessoa de à primeira vista ver os nomes ou as direcções. Por minutos, ficou ali, com os dedos a segurar a ponta da fita, mas desviou o olhar para o caderno e com um gesto abrupto, largou o maço das cartas e agarrou-o.
            Abriu-o na primeira página e o que leu causou-lhe um choque.

Diário de Bordo
Travessia atlântica Brasil\Portugal
Raul Coutinho Cortez

Ela conhecia aquele nome! E até sabia de onde. Há coisas que as crianças jamais esquecem. Neste caso, era já uma pré-adolescente. Certa vez, ouvira uma conversa entre a avó e o avô, em que a avó mencionara o nome Raul Coutinho Cortez. Aquilo parecera-lhe envolver um certo secretismo, ainda assim arriscou-se a perguntar quem era a pessoa que falavam. A resposta da avó? Nunca mais a esquecera. Ficou lívida de raiva e proibiu-a terminantemente de pronunciar aquele nome à frente de fosse quem fosse. E é claro, isso incluía qualquer investigação por conta própria.
Esta descoberta só fez aumentar a ansiedade que Sofia sentia e a avidez com que se debruçou sobre a leitura do que agora sabia ser um diário de bordo. Não começou pelo início, abriu uma página ao acaso e leu:

12 de Novembro de 1911
Dentro de algumas horas, o navio atracará no porto de Lisboa. Estou ansioso para finalmente pôr os pés nessa terra que toda a vida deixou a minha mãe de semblante triste e saudoso. Já há quase um ano, que devia ter vindo. Quando o pai soube da mudança de regime político em Portugal – a 5 de Outubro de 1910 -, disse logo que tínhamos de vir a Portugal. Se pretendia ficar ou não, não sei… nunca o ouvi dizer, mas depois houve aquela tragédia e eu, sozinho no mundo, quase que me perdi de mim próprio. Ainda assim, este país corre-me nas veias, o apelo do sangue trouxe-me até aqui. Apesar do amor\ódio que toda a vida nutri pela terra dos meus pais, o destino foi imperioso. Agora, quase a terminar a viagem, ainda não tenho planos. Só há uma coisa que tenho certeza que farei de imediato: procurar os meus avós. Não sei se terei sucesso, mas pelo menos tenho um ponto de partida. Tenho um papel que encontrei entre as coisas de mamãe, com um endereço de Lisboa. Fica no Bairro da Graça…

As revelações jorravam na mente de Sofia a um ritmo estonteante. Não estava certa de estar a entender tudo o que ali se revelava, mas sentia que era importante. Por isso continuou a ler quase sem respirar.
O próximo texto datava de cinco dias mais tarde.
 
Fotografia © Gastào Brito e Cunha
17 de Novembro de 1911
Sempre achei que minha mãe pertencia a uma classe alta da sociedade portuguesa. A forma como me ensinava regras de comportamento e etiqueta e me obrigava a cumpri-las, deixava-me desconfiado. Agora tenho a certeza. Quando cheguei ao número daquela rua mencionado no meu papel, quase levei um susto. Aquilo não é uma simples casa, aquilo é um palacete. Aliás, é assim que vou designa-lo a partir de agora.
Quando toquei à porta, apareceu uma criada de farda bem engomada que foi a correr chamar a patroa, assim que eu disse o meu nome. A avó veio logo a seguir. Puxou-me para dentro e por algum tempo, ficou a observar-me em silêncio. Até que, finalmente me abraçou e disse algo estranho: “és tal e qual como imaginei”. Então ela sabia quem eu era? Antes que eu tivesse tempo de perguntar, levou-me para uma sala forrada de livros que conclui ser a biblioteca da casa. “O meu marido não está, vamos conversar aqui.”
A avó não é exactamente como eu pensava. Eu esperava encontrar uma senhora fina, bem cuidada, talvez fútil, como são as damas da sociedade. Ao contrário disso, a mulher que encontrei tem um aspecto descuidado e no olhar, uma tristeza profunda. Sinais de quem envelheceu antes do tempo.
Mas isso não me impediu de dizer o que fui lá dizer. Foram anos e anos a assistir à infelicidade da minha mãe e às acusações do meu pai. “A culpa é dos teus pais”, “agradece aos teus pais”, “se os teus pais me tivessem aceitado, não precisávamos de ter fugido”, são expressões que ainda hoje me atormentam. Ela precisava saber da infelicidade da filha. Quando era criança não entendia bem o significado daquelas palavras, mas à medida que fui crescendo, fui construindo a história. O meu pai foi para o Brasil contrariado e por isso afundou-se no jogo e no álcool.
Depois… depois houve aquela madrugada que jamais esquecerei. Como habitual, o meu pai chegou a casa embriagado. Ouvi-o entrar e ir para o quarto, onde a minha mãe já estava recolhida. Ao contrário dos outros dias, ela não o repreendeu, nem se lamentou da sua vida sofrida. E eu fiquei à espera naquele silêncio incomum. Até que se ouviu o estrondo. Não dava para confundir, era um tiro. Corri para o quarto onde os dois estavam e quando ia a entrar, outro tiro fez estremecer o meu corpo. Pois é, os meus pais se suicidaram no mesmo dia, praticamente à mesma hora.
Enquanto descrevia o momento a avó chorava. Até que desmoronou num pranto e gritou: “minha querida filha, eu sabia… eu sabia! Meu coração sentiu que algo de mal acontecera, quando as cartas deixaram de chegar”…

Sofia sentiu lágrimas escorrerem-lhe pelo rosto. Estava escuro. Tinha anoitecido, sem que desse conta. Ouviu João meter a chave na fechadura e num instante, estava ali, entre portas. Tinha uma carta na mão.


                                                                                                          Luisa Vaz Tavares 

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Em Busca da Verdade - Capítulo V

Fotografia © Fátima Ferreira 

Miguel, nunca voltara a casar. Todos os dias sentia a ausência de Gabriela, a única mulher que amara na sua vida. A sua suma alegria, companheira, amante, amiga e confidente. Lembrava-se, como se fosse ontem da primeira vez que a vira.
Tinha sido no campus universitário, em frente à faculdade de Letras, tinha visto aquela rapariga linda, de longos cabelos negros e olhos castanhos, que só mais tarde, mais de perto ele descobriu terem tons de verde esmeralda no meio do castanho, pele muito branca a contrastar com o negro dos cabelos. Linda, alta, uma figura elegante parada com um sorriso nos lábios, como se sorrisse para o mundo. Miguel nunca esquecera essa primeira vez, quando o olhar de Gabriela o viu e aquele cruzar de olhares se deu. Tinha sido uma paixão à primeira vista, um cruzar de caminho, de olhares. Miguel, perdera-se naqueles olhos e passou a fazer sempre o mesmo caminho para se cruzar com ela.
Era um homem, para todos os outros, prático e objectivo sem grandes demonstrações de afecto ou carinho, tímido e reservado, não teve coragem de se dirigir a ela, mas começou a fazer sempre o mesmo caminho para a ver e se cruzar com ela. Teve que ser Gabriela a dizer um:  - Olá, chamo-me Gabriela e tu? A partir desse momento tornaram-se inseparáveis.
Ao contrário de Miguel, Gabriela era uma sonhadora, romântica, comunicativa e alegre, sempre com um sorriso e de gargalhada fácil. Tinha um sorriso e uma alegria contagiantes e Miguel deixou-se contagiar. Tornou-se mais alegre, mais comunicativo, mais leve.
Gabriela era uma brisa de felicidade, um ser de luz, trazia alegria onde quer que chegasse.
Terminaram a faculdade no mesmo ano e casaram, ficando a viver em Lisboa, apesar de Gabriela ser originária de Lagos e Miguel de Aveiro, - Assim ficamos a meio caminho, disse Gabriela.
Os primeiros anos de casamento passaram-se em total lua de mel, felizes os dois, decorando o seu apartamento na Graça, com vista para o Tejo e luz a rodos. Eram felizes, amavam-se e viviam um para o outro.
No verão guardavam sempre férias para irem até Lagos, Gabriela adorava a mãe e aquele mar. Aquele mar fascinava Gabriela, ficava horas a olhar para ele, a ouvi-lo, a cheirá-lo, era como se ele a alimentasse e lhe recarregasse as energias. Miguel nunca se cansava de a ouvir falar naquele mar, na sua beleza tranquila ou tempestuosa
Foi, no ano que engravidou de Sofia que Gabriela descobrira, escondidos no sótão, o diário, as cartas e as fotos antigas. Nesse dia, começou a ler o diário e as cartas, colocou-as por ordem cronológica e a partir daí a história revelou-se para ela e tornou-se numa obsessão. No final dessas férias, Gabriela já não era a mesma e sentiu a necessidade de começar a escrever um diário. Diário esse que escondeu de todos, até de Miguel.
Miguel, após a sua morte teve os diários na mão o antigo e o da sua Gabriela, assim como a carta de despedida que deixara. Nunca tivera coragem de os ler e deixou-os ficar na mala que um dia seria entregue a Sofia. Culpava-se por não ter visto os sinais da obsessão de Gabriela. E, pensava no que iria acontecer a Sofia agora que abrira a mala que a mãe lhe deixara.


Fátima Ferreira